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O visual provocante do filme bollywoodiano Devdas (2002)

A história de um amor nunca realizado, de dois jovens separados por suas famílias e pelas suas próprias vaidades, foi escrita em 1917 pelo escritor bengalense Sarat Chandra Chattopadhyay quando ele tinha apenas 17 anos de idade, mas foi apenas publicado 16 anos depois. Um dos escritores mais amados da Índia, ele permanece no topo como o autor com mais livros traduzidos, plagiados e adaptados. 

Sua novela Devdas, com pouco menos de 128 páginas, já foi adaptado na Índia mais de dezesseis vezes, com a primeira versão sendo produzida em 1928. As primeiras versões da história mostraram muito bem a opulência e, posteriormente, a decadência de Devdas, mas para a adaptação de 2002, o diretor Sanjay Leela Bhansali e o diretor de arte Nitin Chandrakant Desai buscaram representar o cinema indiano, o amado Bollywood, da maneira mais extravagante que poderiam conseguir. E o resultado foi um filme com um apelo visual de tirar o fôlego. 

O ator Shah Rukh Khan e a querida Aishwarya Rai são os protagonistas       Red Chilles/Mega Bollywood/Gif
Com este cenário, Sanjay e Nitin conseguem invocar a rasa:  uma teoria do cinema indiano que, segundo o livro Understanding Indian Movies de Patrick Hogan, se refere ao sentimento que impacta o público do filme. A principal função dessa teoria é criar um estado perfeito de beleza para seus espectadores se deslumbrarem, seja através da dança ou dos cenários. O filme Devdas (2002) conseguiu juntar os dois perfeitamente. 


No longa-metragem, que demorou mais de dois anos para ser concluído, conhecemos Devdas (Shah Rukh Khan), que apesar de estar estudando fora da Índia por mais de dez anos, continua apaixonado por sua namorada de infância, Paro (Aishwarya Rai). O único problema é que ele é rico e ela uma mera filha de um servente. A família dele se opõe a união e cada vez mais ele afoga suas mágoas na bebida, um triste caminho que nem a apaixonada prostituta Chandramukhi (Madhuri Dixit) consegue livrá-lo. 

A começar pela opção de enquadramento panorâmico, com a primeira visão do filme sendo a mansão luxuosa da família de Devdas, os Mukherjee, que ficam eufóricos ao saber do retorno de Devdas, que estava estudando em Londres, na Inglaterra, por mais de dez anos. Outra técnica utlizada é o travelling, já que conhecemos o interior da casa da família quando eles correm por ela, felizes pelo retorno do filho pródigo. Esse posicionamento da câmera ocorre outras vezes no decorrer do filme, para deixar em evidência um set construído nos mínimos detalhes. 


Cada set foi construído com o maior cuidado e luxo         Red Chilles/Mega Bollywood/Divulgação
O filme mais caro já feito por Bollywood, custando 50 crores, ou seja, mais de 23 milhões de dólares, Devdas foi o primeiro grande sucesso depois de um ano ruim para a indústria de filmes indianos. De acordo com o site India Today em seu artigo Devdas: Hollywood Gamble, na construção de apenas seis sets foi gasta a quantia de 20 crores, que são em torno de nove milhões de reais. 

Os sets, aliás, necessitavam de uma quantidade extrema de iluminação e ao invés de usarem dois ou três geradores, como de costume, tiveram que usar 42 deles e pedir a ajuda de 700 iluminadores que trabalharam com mais de 2.500 lâmpadas. Como se isso só não bastasse para que tivéssemos uma clara ideia do luxo da produção, não para por aí. Ainda segundo o artigo do site India Today, foram necessárias 12 quilos e 200 gramas de vidro manchado para tornar o quarto de Paro em um espaço privado. 

Já para o pequeno palácio da segunda amante de Devdas, Chandramukhi, o preço foi uma exorbitante quantia de 12 crores (cinco milhões de reais). Nitin Chandrakant Desai já era conhecido por sua extravagância e depois de trabalhar com filmes desde 1989, ele criou os sets para o filme Quem Quer Ser um Milionário (2009), ganhador de inúmeros Oscar. Em entrevista ao site Real Bollywood, via Hamaraphotos, ele afirmou que quase sempre constrói seus sonhos através de seus sets. E que sonhos lindos ele deve ter! 


A riqueza dos detalhes dos set são sempre vistas de forma panorâmica   Red Chilles/Mega Bollywood/Divulgação
Ao se casar com um homem mais velho, aristocrata, Paro se vê cercada de luxo e de roupas finas, morando em uma mansão duas vezes maior do que a de seu amado. O entulhamento da sua nova morada funciona quase como uma claustrofobia, relembrando-na de sua antiga casa, que era aberta e a deixava livre. Algo que ela nunca mais experimentará: assim como seu amor com Devdas. 

Outra jogada de mestre do diretor para exibir os lindos cenários que Desai construiu foi filmar a jovem Paro em duas situações: quando ela encontra o seu amado e quando o perde. Em ambas as situações ela sai correndo por toda a casa, permitindo que o público consiga observar todos os detalhes da casa, sejam seus os livros, os armários e até a decoração interna dos cômodos. 


Paro perde toda a sua vitalidade ao perder seu amor        Red Chilles/Mega Bollywood/Divulgação
Os cenários, assim como os trajes dos personagens revelam muito sobre os personagens. No caso de Paro, ela vive, literalmente, em uma casa de vidro, que assim como seu amor, pode quebrar em qualquer momento. Já Devdas vivia na abundância, mas em um quarto extremamente simples, pintado de amarelo e com poucos móveis, o que significa que ele não se importava com as riquezas da sua família: ele apenas queria ser amado. 

No caso de Chandramukhi, a apaixonada sempre viveu cercada de ouro, mas pretende desistir de tudo assim que encontra alguém por quem valha a pena amar. 

Alguns dos belíssimos cenários do filme           Red Chilles/Mega Bollywood/Divulgação
Parece que para o diretor de arte Desai, os cenários acompanham a vida dos personagens, quase como se fossem animados e pudessem nos contar, detalhe por detalhe, sobre a história do filme. E talvez em Devdas (2002), eles realmente possam, já que são tão majestosos quanto a própria história. 


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