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A beleza do filme Quando Só o Coração Vê (A Patch of Blue) - 1965

A história improvável de uma garota cega que faz amizade com um homem negro se tornou um dos grandes best sellers de 1961 quando foi lançado sob o nome de Be Ready With Bells and Drums, traduzido como Esteja Pronto com Sinos e Baterias, pela australiana Elizabeth Kata. No livro conhecemos Selina, vítima de uma família negligente e uma infância pobre que acaba sendo cegada, acidentalmente, pela própria mãe, Rose-Ann. Ela passa seus dias sozinha, fazendo tarefas em casa para Rose-Ann e seu avó, o bêbado Ole Pa. Um dia, ao conseguir fazer com que a levassem para o parque, Selina conhece Gordon, o jovem negro que acaba mudando sua vida. 

Com um Oscar de Melhor Ator em seu currículo, a escolha de Sidney Poitier para o papel de Gordon Ralfe foi clara para o diretor do filme Guy Green desde o ínicio. Foi sua esposa, Josephine Smith, de acordo com o livro The cinema of Sidney Poitier: the black man's changing role on the American screen (O Cinema de Sidney Poitier: a mudança de papel do negro na tela americana) por Lester Keyser e André Ruszkowski, que leu o livro de Kata e ficou impressionada pela história. Ela conseguiu convencer seu marido a ler também. A partir daí Guy conseguiu convencer o famoso produtor Pandro S, Berman, da MGM, de investir na história se o Sidney Poitier concordasse em estrelar no filme e se pudessem mudar o nome do longa de Be Ready With Bells and Drums, título original do livro, para outro sugerido por Josephine. Assim nasceu o título A Patch of Blue, traduzido no Brasil como Quando Só o Coração Vê. 
A novata Elizabeth Hartman e Poitier tinha uma ótima química                                      MGM/Gif
O filme começou a ser produzido em novembro de 1964 e Sidney não deixou de dar suas fortes opiniões. Sua imagem em Hollywood era a do negro civilizado, de classe média e que sempre honrava seus princípios e que, como sempre, não ficava com a menina branca no final. Mas de acordo com sua biografia Sidney Poitier: Man, Actor, Icon de Aram Goudsouzian, Poitier não queria que o roteiro focasse tanto na natureza da raça e sim no romance entre os personagens e fez com que Pandro e sua esposa, Kathryn, os roteiristas do longa-metragem, trabalhassem nisso. Infelizmente, no filme, isso não necessariamente acontece: o romance se desenrola, mas é prematuro, com apenas uma cena de roçar de lábios. 
Três anos depois da estreia de Quando Só o Coração Vê, em 1968, em uma entrevista para a Ebony Magazine em abril, ele revelou como esse potencial perdido sempre o irritou: "Eu nunca trabalhei em um filme em uma relação entre homem-mulher que não fosse simbólica. Eu sempre quis trabalhar com uma mulher negra em uma relação homem-mulher no cinema que fosse quente e positiva. Eu não estou interessado em ter um interlúdio nas telas com uma garota branca, eu prefiro tê-las com mulheres negras." Vale lembrar que Sidney já estava farto de se encaixar no molde de "negro bom" que Hollywood queria que ele honrasse. 

Por isso, embora a relação de seu personagem Gordon com Selina funcione de certa forma com o estereótipo de Magical Negro, já que ele ajuda a garota cega a enfrentar seus problemas e resolvê-los, Sidney está de longe de ser um mero instrumento no roteiro. Ele é o protagonista da história ao lado de Hartman e conseguimos ver, claramente, suas emoções, indecisões e o amor que a personagem de Gordon nutre por Selina. 

Agora se Sidney Poitier já estava certo como o protagonista da história, a atriz que ocuparia o papel de Selina não estava definido. Inúmeras atrizes fizeram teste para o papel, mas o diretor Guy Green soube que Elizabeth Hartman era a certa assim que a viu. Extremamente tímida, a jovem de 21 anos de idade tentou a sorte em Nova York duas vezes. Na primeira, de acordo com o artigo no LA Times, ela nem conseguiu sair do seu quarto de hotel e voltou para sua casa em Ohio. Na segunda, com um agente, ela estrelou na peça "Everybody's Out, The Castle is Sinking" e chamou a atenção de olheiros da MGM. 

Sobre ela, o diretor de Quando Só o Coração Vê (A Patch of Blue), Guy Green, foi certeiro: "Ela não era uma garota glamourosa. Mas eu lhe dei um teste de personalidade e ela foi muito bem para alguém que não tinha nenhuma experiência em frente às telas. Eu disse ao Sidney que eu queria uma desconhecida para o papel e ele ficou horrorizado até que eu arranjei para que os dois trabalhassem juntos no set e ele também ficou feliz com ela." 

Os coadjuvantes do filme Quando Só o Coração Vê                               Divulgação/Montagem
Elizabeth também visitou o Instituto de Braille nos Estados Unidos para pesquisar para o seu papel e foi ali, segundo Green, que ela começou a brilhar. Apesar de ter sido Shelley Winters, interpretando a odiosa e racista mãe Rose-Ann, que ganhou o seu segundo Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 1966, foi Hartman, em seu papel de estreia que causou o maior impacto entre os críticos. Todos queriam saber mais sobre ela.  

Infelizmente, não podemos dizer o mesmo sobre um grupo de espectadores nos Estados Unidos. O filme Quando Só o Coração Não Vê (A Patch of Blue) foi inédito por mostrar, pela primeira vez, uma cena de beijo entre um homem negro e uma mulher branca. Mesmo que breve, a cena não caiu bem entre os racistas e, principalmente, entre os membros da Klu Klux Klan. Em Memphis, a seita fez um protesto na frente do teatro pedindo que pessoas não vissem o filme já que ele "não era de Deus." Já na Carolina do Norte, alguns meses depois foi descoberta uma bomba no cinema em que o filme estava passando. A bomba, como o livro de Goudsouzian conta, falhou. 

O diretor Guy Green resolveu gravar o A Patch of Blue em preto e branco                          Divulgação/MGM 
Apesar dos protestos, o filme se tornou um dos mais bem-sucedidos de Poitier, arrecadando seis milhões de dólares no mundo todo e foi indicado a cinco Oscars, incluindo o de Melhor Atriz para Elizabeth, além de direção de arte e trilha sonora. Mas nem esse sucesso impediu que a carreira de Hartman, devido à sua timidez pavorosa, se tornasse cada vez mais obscura com sua recusa constante de papeis. A vida dela teve um triste fim, em 1987, aos 43 anos de idade quando se suicidou. 
Quando Só o Coração Vê é um filme tocante que lida com a cegueira, a raça e a miséria dos personagens da forma mais realista possível. O final do longa se difere do livro e talvez pelo impulso dos produtores de se focarem no romance, nós espectadores, tenhamos perdido uma análise mais profunda entre o amor e o preconceito. Mesmo assim, Quando Só o Coração Vê é afinal o retrato de um amor não-realizado entre um homem e uma mulher e essa é, possivelmente, um dos elos mais poderosos que um ser humano ainda pode ter. 


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Sobre Gabriella Baliego
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