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A parceria de Massimo Girotti com Luchino Visconti

O ator Massimo Girotti foi para a Itália o que Paul Newman foi para os americanos. Ambos inegavelmente belos, sempre fazendo papeis sérios e com muito conteúdo e não é à toa que são celebrados até hoje como os melhores atores de suas gerações. Essa comparação, no entanto, é só para situar, um pouco, a grandeza de Massimo Girotti na Itália. 

Ele começou sua carreira em 1940, com um pequeno papel no filme Dora Nelson do diretor Mario Soldati e não parou mais. Tornou-se o símbolo sexual italiano dos anos 1940 em obras como Obsessão (Ossessione) de 1943 e Em Nome da Lei (In Nome Della Legge), de 1949. Sua carreira, no entanto, não se baseava só no seu visual e ele continuou trabalhando, ininterruptamente, até o ano de sua morte, em 2003. Inclusive, ganhou dois Silver Ribbon Award (Nastro d'Argento), um dos mais prestigiados prêmios que um ator pode ganhar na Itália. 

Divulgação/Gif
Mas foi a parceria com o diretor Luchino Visconti, em sua primeira estreia como cineasta em um filme, que abriu as portas para o galã e o deixou gravado na história do cinema, como uma estrela certificada. Os dois se conheceram no set do filme A Tragédia de Tosca (La Tosca, 1941), para o qual Luchino fez o roteiro e Massimo atuou em um papel como extra - vale lembrar que este foi seu terceiro papel como ator. Em sua estreia como diretor ele logo pensou em Massimo e o que se seguiu foi um marco no cinema italiano: o filme Obsessão (1943). 

Obsessão (Ossessione) - 1943

Divulgação/Pôster
O filme Obsessão (1943) marca o início do cinema neorrealista da Itália, ou pelo menos, é um tema de grande debate, já que ele foi feito antes da Segunda Guerra Mundial, mas contém todos os elementos do neorrealismo: a pobreza e a realidade dos efeitos da Guerra. 

Baseado no livro do jornalista James M. Cain, O Destino Bate à Sua Porta (The Postman Always Rings Twice), Luchino Visconti fez uma adaptação para os cinemas, escrevendo o roteiro e dirigindo o filme - seu primeiro na cadeira de diretor. A obra conta a história de Frank Chambers (no italiano como Gino), um jovem que para em um posto para se alimentar e, desempregado, acaba conseguindo um emprego. Ele também chama a atenção da esposa do dono do posto, Cora (no italiano, Giovanna) e os dois, em um romance atormentado, planejam matar o marido mais velho dela, sem pensar nas consequências. 

O livro foi adaptado pela primeira vez em 1939, na França, pelo diretor Pierre Chenal, mas foi sua versão hollywoodiana, estrelando Lana Turner como a eterna femme fatale, que fez um sucesso estrondoso nos cinemas. Obsessão, no entanto, permanece um clássico italiano com Clara Calamai interpretando a esposa mais nova e apaixonada pelo envolvente forasteiro. Visconti, aliás, recebeu a ideia de adaptar o livro do seu amigo Jean Renoir e até vendeu jóias da família para pagar pelo filme. Mas a filmagem de Obsessão (1943) não foi nada fácil! 

De acordo com o livro Luchino Visconti: The Flames of Passion da estudiosa de cinema Laurence Schifano, Visconti era um perfeccionista - não aceitava a opinião de ninguém a não ser que concordassem com ele - e isso enlouquecia os atores. Clara Calamai teria dito que ele era "cruel, muito cruel" e Massimo Girotti comparou trabalhar com ele como estar em uma Igreja: " Trabalhar com Visconti era bem trabalhoso. Ele estabeleceu uma atmosfera tipo Igreja, de um templo luminoso em absoluto silêncio. " 

Todas as adaptações do filme, incluindo uma da Malásia chamada Swing My Swing High, My Darling (2004)
Visconti queria realismo de todos e não seguiu o que o governo fascista da época exigia ver nas telas. Vale lembrar que em 1942, o ano em que o filme Obsessão estava sendo feito, o governo de Benito Mussolini não queria que a população fosse relembrada dos tempos difíceis e apenas aprovava comédias e filmes leves. Tanto que Obsessão (seu título original seria Palude - Pântano) foi lançado em 1943 e foi tão odiado pelo governo que foi banido dos cinemas e Visconti até pensou que destruíram os negativos, já que nunca foram achados. O filme, no entanto, foi lançado internacionalmente em 1976. Visconti, no entanto, filmou Obsessão sem adquirir os direitos da obra de Cain.  

O filme era tão visceral que Clara Calamai chorou ao se ver tão simples: sem maquiagem e completamente maltrapilha. Ela até ameaçou sair do filme. Já Massimo teve que gravar uma cena em que ficava bêbado e segundo o livro de Laurence, ele até desmaiou no último dia de filmagens: "Eu desmaiei, consumido pela fatiga e meus nervos."  Até Visconti admitiu que em Obsessão (Ossessione, 1943) há mais violência e crueldade do que qualquer outro de seus filmes. 

Em 1979, no entanto, ao ser entrevistado, Massimo admitiu a importância de Visconti em sua carreira: "Minha relação com Visconti foi fundamental, não só em minha carreira, mas em minha vida também em primeiro lugar. Foi uma experiência fundamental, no nível profissional e pessoal." Vale lembrar que Clara Calamai não foi a primeira escolha de Visconti, que queria Ana Magnani no papel. A atriz recusou porque estava grávida de seu primeiro filho, Luca, fruto de seu relacionamento super conturbado com Massimo Serrato. 

A Sedução da Carne (Senso) - 1954 

Divulgação
Em Sedução da Carne (Senso, 1954), Visconti estava mais experiente, já que esse era o seu quarto longa-metragem. Como de costume, ele escreveu e dirigiu a obra, baseado no livro Senso do escritor Camilo Boito. A história é sobre o ponto de vista da protagonista, em forma de diário, da Condessa Livia, interpretada no filme por Alida Valli, que relembra o romance lindo que teve com o tenente Remigio Ruz, vivido por Farley Granger, quando já estava casada com o conde mais velho Serpieri, de Heinz Moog. 

Luchino Visconti, quando começou a trabalhar no filme, esperava que Ingrid Bergman e Marlon Brando aceitassem estrelar em seu filme, mas quando Bergman recusou e o estúdio achava que Farley Granger como o tenente faria mais sucesso, Luchino escalou Alida Valli e Farley como seus protagonistas, dando o papel de primo da condessa, do marquês Roberto Ussoni, para Massimo Girotti. 


Mais uma vez, sua parceria com Luchino, marcaria mais uma vitória na filmografia do diretor: A Sedução da Carne (Senson, 1954) foi considerado um dos melhores filmes da década e para muitos historiadores, como o livro Passion and Defiance: Italian Film from 1942 to the Present de Miriam Lehm conta, o longa é considerado um "grande filme histórico. Um filme revolucionário que trouxe um novo pique ao nosso cinema."  


Foi aí que o diretor passou do neorrealismo italiano para a narrativa realista, concentrando-se em suas personagens e não no ambiente em que vivem. 


O Inocente (L'innocente) - 1976


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O último filme de Luchino Visconti, os Inocentes (L'innocente, 1976), tem uma premissa diferente, já que o diretor, como sempre, queria inovar. No longa conhecemos Tullio Hermil (vivido por Giancarlo Gianini) que tem uma amante linda e rica em pleno século XIX, a Teresa Raffo (interpretada por Jennifer O'Neil) e não cansa de levá-la em todos os lugares, para o desespero de sua esposa, Giuliana (Laura Antonelli). Mas quando Tullio começa a suspeitar que sua esposa está tendo um caso com um escritor, ele acaba se apaixonando novamente por ela. Massimo faz uma ponta como o Conde Stefano Egano que tenta seduzir a amante de Tullio, a bela Teresa. 

Visconti estava morrendo, pouco a pouco  quando dirigiu o filme, tanto que o roteiro, baseado no livro de Gabriele D'Annunzio, O Inocente (The Intruder), não tem sua participação como escritor, o que acontecia anteriormente. O cineasta dirigiu a maioria das cenas em sua cadeira de rodas e morreu um pouco antes do filme ser lançado em 1976. Vale a pena relembrar que, Visconti queria Alain Delon e Romy Schneider nos papeis principais, que inclusive participou da trilogia Sissi que já falamos aqui na Caixa, mas os dois atores recusaram o papeis. 


De acordo com o livro Visconti: Explorations of Beauty and Decay, de Henry Bacon, o último filme de Visconti revela extremamente bem seu estado mental durante a gravação do longa. Mikael Enckell, um psicoanalista famoso, faz o paralelo de que Tullio e sua decadência representam o próprio perecimento da classe social de Luchino (que nasceu em 1906). Já a traição de Giuliana e o bebê revelam a perda da inocência dele e de sua época. Um filme final nostálgico para um dos maiores diretores do cinema italiano. 



Luchino Visconti faleceu em 17 de março de 1976, com uma filmografia impressionante e uma parceria com Massimo Girotti que continuará a sobreviver ao teste do tempo, para ambos! 

Elio Marcuzzo, Massimo Girotti e Luchino Visconti no set de Obsessão        Museo Nazionale del Cinema









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Sobre Gabriella Baliego
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