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A clichê Fábrica dos Sonhos de Janet Leigh

Não é estranho encontrarmos atores e atrizes que tentam expandir seu talento para outras áreas do entretenimento. Debbie Reynolds era, primeiramente, uma atriz, mas depois do sucesso do filme Tammy - A Flor do Pântano (Tammy, 1957), ela lançou o primeiro de vários discos para lucrar com sua bela voz. Lena Horne e Dorothy Dandrige, por exemplo, também expandiram seus talentos para a música, assim como Dean Martin e Frank Sinatra, membros do descolado Rat Pack. 

Janet Leigh, no entanto, foi para uma rota não tão usual - resolveu se tornar escritora, com dois livros publicados, que retratavam personagens fictícios em Hollywood. Seu último livro lançado, antes de sua morte em 2004, foi a obra The Dream Factory (A Fábrica dos Sonhos), lançado aqui no Brasil pela editora Best Seller. 

O livro conta a história da ambiciosa Eve Handel, que ao invés de se casar com o homem que ama, o fiel Arthur, e se tornar uma dona de casa, ela resolve seguir sua ambição e tentar se tornar uma grande estrela de cinema. Ela não o consegue, mas acaba se tornando uma preparadora de grandes artistas. Eve consegue ganhar a confiança de diversos atores e, assim, sabe de seus mais poderosos segredos. Por isso, quando ela tem um enfarte e seu livro de notas perde-se, todos vão prestar seu respeito a Eve, para que ela não dê com a língua nos dentes. 

Janet Leigh fala sobre o seu livro A Fábrica dos Sonhos                                  Divulgação
Em entrevista para o o programa Connie Martinson Talks Books, em 2003, Leigh revelou que o livro foi baseado em sua mentora: Lillian Burns. Lilian foi a mentora dos atores contratados pelo estúdio MGM, entre eles, Lana Turner, Ava Gardner e, é claro, Janet, desde que a atriz tinha 18 anos de idade. Sobre sua influência no livro A Fábrica dos Sonhos, a atriz contou: "Lillian Burns, minha mentora, como você sabe, é a heroína no meu mais novo livro, A Fábrica dos Sonhos. Foi baseado e dedicada, não na sua vida pessoal, mas na sua vida profissional. E o que ela dizia é que você não pode ensinar alguém a atuar, porque isso representa uma imagem falsa." 

Assim como sua alterego, Eve Handel, no livro, Lillian Burns desejava ser atriz, mas acabou encontrando sucesso como preparadora de atores com quase nenhuma experiência nos estúdios de Hollywood. Seu trabalho começou em 1937 e ela ficou mais de três décadas nessa posição. Burns se considerava não uma preparadora de atores e sim "uma desenvolvedora de pessoas." 

Para Janet Leigh, aliás, o título de sua segunda novela, não poderia ser outra além de Fábrica dos Sonhos. Isso porque, no seu tempo no estúdio MGM, ela e os outros contratados eram do chamado star system, ou seja, o sistema da estrela. O estúdio, seja qual fosse, tinha um enorme poder sobre a escolha de papéis, sobre a imagem dentro e fora das telas de seus artistas e como seriam suas personalidades para o público. Mesmo assim, ao ser entrevistada pelo jornal LA Times, Janet considerava 2002 como uma época pior para ser famoso do que a sua: "A fábrica de sonhos de minha época era muito mais simples. Assim como as mídias crescem, tudo se torna mais complicado. É como aquela peça Pequena Loja de Horrores e o monstro-planta. Hoje, não tem produto o suficiente para alimentar esse monstro." 

Lillian Burns foi a base do livro Fábrica dos Sonhos de Leigh                                Divulgação
Infelizmente, Fábrica dos Sonhos, o último livro lançado de Janet não alimenta o monstro também. Apesar da atriz revelar que, "para sonhar você precisa de fatos", seu romance é tão previsível que não poderia ser usado nem como uma história de fofoca na primeira capa de um jornal ou como chamariz em cartaz de filmes. É cruel, mas é a realidade. O leitor já sabe onde Janet vai levar as suas personagens antes mesmo que eles cheguem lá. Não existe destino pior para um livro de ficção. 

Desde de seu primeiro livro, Casa do Destino (House of Destiny) lançado em 1995, Janet sofre com uma escrita apressada e com a falta de uma prosa mais detalhada. Isso é desculpável, afinal, Leigh é primeiramente uma atriz, mas a partir do momento em que ela se dispõe a escrever uma ficção, não é nada prazeroso já saber de antemão o que acontecerá na vida de cada um dos personagens. 

A ideia de Janet para A Fabrica dos Sonhos é brilhante, mas ela não soube como desenvolvê-la, talvez com medo de se aprofundar nos segredos de Hollywood que faziam parte integrante de seu dia a dia. Sua personagem principal Eve, é obstinada, mas, infelizmente, ela não tem muito o que fazer na sua própria história. Ela é o fio condutor do livro e, mesmo assim, não conseguimos nos importar o suficiente com ela para torcermos por sua vida pessoal e profissional. Isso só piora quando Leigh acrescenta outras personagens que ficam sob a tutela de Eve, com eles ganhando maior destaque do que sua própria protagonista. 


Lillian Burns ensinando atrizes a chorar para uma cena                                   Divulgação/Life
O estilo de escrita de Janet Leigh é novato, com poucas descrições, seja dos sentimentos de suas personagens ou do ambiente à sua volta. Ela se apoia exageradamente em diálogos para situar o leitor, o que não é uma boa ideia. A Fábrica dos Sonhos, no entanto, tem suas virtudes: um roteiro interessante - se bem que mal desenvolvido - e a possibilidade de vermos Hollywood pelos olhos e escrita de uma das grandes atrizes do cinema. 

Em entrevista para a CNN, a atriz confirma que seu livro é sobre uma mulher no mundo dos homens, usando vários elementos verdadeiros do cinema. Para ela, o livro é  algo como uma declaração de sua personagem de que "eles sempre dizem que o jeito adequado é seguir o sonho de outros, mas no meu coração, eu sabia que deveria seguir meu próprio doce coração." 

O livro Fábrica dos Sonhos de Janet Leigh é exatamente isso: tem muito coração e boas intenções, mas falta a narrativa e a prosa adequadas para permitir que o leitor se envolva com as personagens, mesmo que elas sejam baseadas em pessoas reais, como o ex-marido de Janet, Tony Curtis, não permite alimentar a fábrica de sonhos de Hollywood ou até mesmo de seu leitor, que deve ter poucas expectativas para realmente apreciar essa obra literária. 


INFORMAÇÕES



Livro: A Fábrica dos Sonhos
Autora: Janet Leigh
Páginas: 400

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