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A série mais divertida da Netflix: GLOW

* spoilers da série GLOW

Os anos 80 foram muito divertidos: além dos cabelos doidos, os permanentes mal feitos, a música alta e cativante e a moda que, hoje em dia, é considerada cafona, mas que todo mundo, no fundo, adora, a época fez um impacto enorme no mundo da música também! 

Por isso, muitas vezes, quando assiste-se uma série ou um filme atual retratando o tão amado anos 80, o exagero é aparente: se o cabelo já era alto e bufante na época, no filme ele parece bem pior. Os trejeitos, as gírias, todas são elevadas ao nível mil. GLOW, a nova série da Netflix, felizmente, não comete esse erro. Ela retrata os anos 80 exatamente como são: no seu pior e no seu melhor também.
Divulgação/Gif
A série GLOW conta a história de Ruth Wilder, vivida por uma ótima Alison Brie, uma atriz fracassada que nunca consegue arranjar um trabalho em Los Angeles. Sua vida, aos quase 30 anos, é um fracasso, diferente de sua amiga Debbie Eagan, a incrível Betty Gilpin, que atuou em uma telenovela famosa, a Paradise Coven, é casada e tem um bebê. Assim, as coisas parecem que vão começar a mudar para Ruth quando ela é chamada para fazer uma audição para um programa com atrizes e modelos não-convencionais. O trabalho? Luta livre feminina na televisão. 

GLOW, show criado por Liz Fahive e Carly Mensch, é baseado no real programa de televisão dos anos 80, chamado GLOW, sigla de Gorgeous Ladies of Wrestling (tradução livre Lindas Mulheres da Luta Livre). Em entrevista para a revista Variety, Flahive, revela que a diversidade de atrizes foi o ponto mais importante: "Nós sabíamos que queríamos inúmeros tipos de corpos diferentes no show. Nós sabíamos que queríamos pessoas que vocês nunca viram antes." 

Tudo começou quando Liz e Carly assistiram ao documentário GLOW The Story of The Gorgeous Ladies of Wrestling (2012) que conta a história de cada uma das lutadoras antes de participarem do programa, que durou de 1985 a 1990, que foi cancelado no alto de sua popularidade. O show original, no entanto, era formado por lutadoras profissionais, que interpretavam personagens e faziam esquetes de comédia e apresentações durante o programa. Cada atleta tinha sua função no programa e representavam um estereótipo, assim como a série GLOW de 2017. Nomes como Little Fiji, para a lutadora coreana, Little Egito, para a atleta com roupas egípcia eram comuns no ringue e elas se dividiam entre as lutadoras malvadas e as boazinhas. 


Dee Booher, a famosa vilã Matilda the Hun, conta no documentário que o programa tinha tudo para ser o sucesso que foi: "Comédia, música, e boas lutas. Boas lutas entre mulheres. É ótimo, as pessoas amam isso." Essa é a definição, aliás, da série GLOW da Netflix. Ela trata de assuntos como aborto, traição e confiança de modo leve, mas nunca leviano. 

Além de Ruth e Debbie, temos outras doze personagens que se intercalam em sua vez nos holofotes. Já no início da série GLOW sabemos que o foco não é, necessariamente, nessas outras atrizes, mas muitas vezes elas roubam a cena. A doce Carmen Wade (Britney Young) que vai contra sua família de lutadores profissionais para realizar seu sonho de estar no ringue, a loba Sheila (Gayle Rankin) que se torna uma amiga improvável, mas adorável de Ruth, além de atrizes como Sunita Mani, Ellen Wong, Sydelle Noel e Kia Stevens que lidam com a questão do preconceito de modo pontuado e muito bem feito, especialmente as personagens de Sydelle e Kia, Cherry e Tammee, respectivamente, ao representarem uma luta das negras contra a Klu Klux Khan.  

Uma das críticas, no entanto, a ser feita sobre GLOW é que são tantas personagens principais que, às vezes, perdemos o fio da meada em suas histórias. Ruth e Debbie e a traição são os focos principais da série e, muitas vezes, devido à essa concentração nelas, perdemos o aprofundamento de personagens como Rhonda (Kate Nash) e Melrose (vivida pela incrível Jackie Tohn). Sabemos por que Ruth e Debbie chegaram ao mundo da luta, mas de muitas outras personagens não sabemos seus motivos. Espera-se que a segunda temporada sane essas dúvidas. O que leva, afinal, mulheres tão diferentes a entrarem no mundo da luta? 


Acima, elenco original da série GLOW; abaixo da série de 2017                 Divulgação/Montagem
De resto, GLOW se sobressai como um hino feminista muito bem construído, mesmo com a personagem de Debbie perdoando o marido traidor. Ela não culpa apenas a amiga; seu marido também leva a culpa, embora ela o perdoe com maior facilidade. Isso, no entanto, condiz com Debbie: uma mulher linda, com uma criação típica americana, de quem se espera que se case, tenha filhos e seja feliz para sempre. O interessante da personagem é que, no fundo, ela não quer esse futuro e mesmo tentando se conformar, sua ânsia por algo a mais permeia toda a temporada, assim como sua amiga Ruth, em relação à sua carreira. 
As duas tem mais em comum do que talvez gostariam. 

Inclusive quando Ruth descobre estar grávida do marido de sua amiga, ela se decide pelo aborto. GLOW não trata dessa decisão como um tabu e sim como uma escolha. Ruth decidiu que "não era o bebê certo nem o cara certo" e foi até a clínica para realizar o procedimento. Ninguém a pressionou a tomar esse caminho, ela o fez porque quis. Nem o mentor das meninas, Sam, vivido por Marc Maron, julga Ruth. Ele a acompanha e fica ao seu lado. 

Os homens da série, como o mimado Bash e Sam, cumprem bem seu papel de coadjuvantes das mulheres de GLOW, embora a química entre Sam e Ruth seja muito boa e merece uma atenção especial nas possíveis futuras temporadas da série. 

Sam e Bash: homens em um ambiente feminino                                         Divulgação
Outro ponto super forte da série, além de suas roupas e cabelos típicos da época, é sua trilha sonora! Se você, mesmo não tendo vivido sua adolescência nos anos 80, é fã do ritmo dessa geração, as músicas da série GLOW foram feitas para você. Isso porque Craig Wedren, responsável pelas canções do programa, foge do óbvio. Em uma cena que você esperaria o grande hit de um artista dos anos 80, ele coloca uma canção do próprio cantor que você não esperaria encontrar. Por exemplo, quando se pensa na cantora Pat Benatar, a canção 'Love Is a Battlefield' vem logo em seguida e casaria muito bem com o tema de traição da série. Ao invés disso, Wedren coloca a canção Invincible para a cena final de luta entre Debbie e Ruth. Uma surpresa atrás da outra! 

GLOW é uma série feminista, diversa e inteligente. Apesar dos percalços no caminho - inclusive um desenvolvimento fraco de algumas personagens - a série se firma como um dos programas mais divertidos e gostosos de assistir da Netflix. Com uma média de 30 minutos em uma série com 10 episódios, as mulheres e os homens de GLOW brilham.

Brilham mais do que a purpurina! 



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