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Yolanda Braga, a primeira protagonista negra da TV

Iolanda Braga, ou melhor, Yolanda Braga, dependendo da grafia, foi a primeira protagonista negra da televisão brasileira. Muitos podem dizer que foi a atriz Isaura Bruno, interpretando a Mamãe Dolores na novela da TV Tupi, O Direito de Nascer em 1964, mas ela não foi por um simples detalhe: seu papel, embora de destaque, não era de protagonista e sim de coadjuvante. 
(I)Yolanda Braga, a primeira protagonista negra da televisão brasileira                   Divulgação/Intervalo
A novela O Direito de Nascer, que foi baseado na novela de rádio com o mesmo nome, conta a história de Albertino, que por ser um filho bastardo é separado de sua mãe e criado por Dolores, papel de Bruno. Os papeis principais da telenovela, como foi divulgado em almanaques da época são dos atores Nathália Thimberg e Amilton Fernandes. Pode-se dizer então que Isaura Bruno (que resolveu virar atriz aos 31 anos de idade) teve o primeiro papel de destaque como negra na televisão e isso abriu as portas para que Yolanda Braga fosse a primeira protagonista negra de uma telenovela, também na TV Tupi com a novela A Cor da Tua Pele. 

Essa alcunha, em nada, tira a importância de Taís Araújo, que foi a primeira protagonista negra da novela como conhecemos hoje. Naquela época, as telenovelas nada mais eram do que uma transcrição quase exata, somente mais diminutiva, das radionovelas (folhetins feitos especialmente para o rádio). Atualmente, as novelas funcionam quase que como uma minissérie, pensadas de forma exata para o formato televisivo. Todas as três, tanto Isaura quanto Yolanda e Taís têm sua importância, merecida, na televisão brasileira. 

Na ordem: Isaura Bruno, Yolanda Braga e Taís Araújo                          Divulgação/Montagem
Yolanda Braga nasceu em 1942, de acordo com o famoso site IMDB. Em minhas pesquisas, no entanto, não encontrei nada que corroborasse essa afirmação, embora faça bastante sentido. A atriz do Rio de Janeiro teria, portanto, 23 anos quando protagonizou A Cor da Tua Pele, em 1965. 

Sua carreira começou antes, no início dos anos 60. De acordo com a revista Intervalo de 1965, Iolanda - como ela ainda era conhecida antes do acréscimo do Y - havia participado de todos os musicais da antiga TV Excelsior no Rio de Janeiro e dos programas de Carlos Machado e Abraão Medina. Antes, Iolanda era cabeleireira e manicure, atuando no bairro de Laranjeiras, no Rio. Por sua beleza estonteante e seus lindos olhos esmeraldas, ela recebeu o convite para ser candidata do Clube Renascença ao concurso de Miss Guanabara. Não pode participar, afinal o concurso é caro, mas esse foi o empurrão necessário para que ela decidisse que queria se tornar uma atriz. Quem foi em seu lugar e venceu foi Vera Lúcia Couto, que se tornou a vice-miss Brasil de 1964. 

Sobre seu começo no mundo do entretenimento, a atriz contou para o jornal Luta Democrática em 1964: "Foi no teatro musical que comecei artisticamente na vida. Estreando na peça Um Milhão de Dólares de Baby de Carlos Machado e continuo trabalhando com o conhecido empresário até hoje. Já fiz papéis destacados nas peças Zelão Boca Rica, Elas Atacam Pelo Telefone e Chica da Silva. Atualmente trabalho em todos os programas humorísticos da TV Excelsior, trabalhando ainda como bailarina em Colê é o Show, a Cidade Se Diverte e Elas Trazem o Melhor." Antes de fazer parte de maiores papeis no cinema e na televisão, a atriz também investiu no teatro atuando em peças como Rio 1.800 e Capital Federal, todos de 1965, uma comédia dirigida por Ítalo Rossi, que ficou impressionado ao ver a foto de Yolanda nos jornais. 

Yolanda no começo da fama                                       Divulgação/Montagem
Yolanda derrotou, em 1965, a vice-miss Brasil 1964, Vera Lúcia Couto e ganhou o papel de Clotilde na telenovela A Cor da Tua Pele, da extinta TV Tupi, contracenando ao lado do mega astro Leonardo Villar, que havia ganhado um Palma de Ouro em Cannes por sua atuação no filme O Pagador de Promessas(idem, 1964). Cassiano Gabus Mendes a escolheu dentre dezenas de outras atrizes e candidatas. 

A telenovela A Cor da Tua Pele, que estreou em 11 de outubro de 1965, contava a história de Dudu, vivido por Leonardo Villar em sua primeira novela, um rapaz de família rica que se apaixona por uma garota negra chamada Clotilde, papel de Yolanda Braga. Os dois tem que enfrentar o preconceito de suas famílias e da sociedade para viverem esse grande amor. A novela também contava com atores como Sebastião Campos, Patrícia Mayo e Carmen Jóia. 

Foi em A Cor da Tua Pele, aliás, que aconteceu o primeiro beijo interracial da televisão brasileira, protagonizado por Yolanda e Leonardo. Em entrevista a revista Intervalo em 1965, quando a novela estreava, Yolanda revelou a importância que sua personagem tinha para ela e outras mulheres negras no Brasil: "É esta a primeira vez que uma atriz negra tem um papel tão importante na televisão. Por isso é grande a minha responsabilidade. A novela Cor da Tua Pele pode abrir inúmeras oportunidades para pessoas negras na televisão. Não há necessidade de atrizes brancas pintarem seu rosto para interpretarem pessoas negras (aqui ela se refere a prática de blackface). Nós mesmos podemos interpretar esses personagens e melhor do que ninguém." 

Leonardo Villar e Yolanda Braga em cenas da novela A Cor da Tua Pele (1965)             Divulgação/Montagem
Não obstante, a mídia ainda usou suas fotos como modelo e a popularidade da atriz, para que ela se tornasse a garota propaganda dos produtos de beleza Belinda. Em sua foto, ela passa um produto no rosto, e logo à sua direita, existe uma lista dos produtos, incluindo um creme clareador que promete:"clarear e realçar a pele e a beleza da pele em sua cor natural." Enquanto temos a fala empoderada de Yolanda acima, a mídia ainda tentava vender produtos de clareamento de pele, algo extremamente racista e muito perigoso. Para se ter uma ideia, na Índia esses tipos de produtos são comercializados até hoje e viraram uma indústria que vale mais do que 500 milhões de dólares. 

Esse paralelo mostra muito bem como o racismo funciona de forma velada no Brasil: ao mesmo tempo que uma mulher negra vira protagonista de televisão pela primeira vez na história do país, campanhas usam sua figura para campanhas de clareamento de pele. 


Propaganda usada na época da novela A Cor da Tua Pele 
Incapaz, também, de escapar das perguntas sobre sua vida amorosa, a atriz revelou em 1965 que não queria saber de romance e sim de sua carreira: "Não quero parecer ambiciosa demais sobre minha carreira, mas sou capaz de sacrificar tudo, até o casamento. Além disso já tive uma decepção amorosa, da qual a única coisa feliz que me restou foi minha filhinha Cláudia." 

Infelizmente, não se sabe mais sobre sua filha Claúdia e nem se adotou o sobrenome da mãe, Braga ou de seu pai biológico. Mas existe uma foto de mãe e filha que foi tirada especialmente para a extinta revista Intervalo, que republico aqui. 

Mãe e filha em foto adorável 
Apesar do que é divulgado na mídia, de que a carreira de Yolanda Braga depois da novela A Cor da Tua Pele acabou de vez, isso não é verdade. A atriz continuou a trabalhar, atuando no filme Arrastão (idem, 1967), que é a versão de Vinícius de Moraes de Tristão e Isolda, ao lado do ator Othelo, com quem de acordo com o livro Grande Othelo: Uma Biografia de Sérgio Cabral, ela teve um caso fulminante. As gravações começaram em 1965, e Yolanda Braga teve que passar por uma cirurgia ao gravar uma cena, na qual se colega de cena Jardel Filho lhe deu uma empurrão forte demais, fazendo com que ela caísse e se machucasse. O filme foi gravado em 1965, nas praias do Rio de Janeiro, quase que simultaneamente à telenovela A Cor da Tua Pele. Ainda nesse ínterim, participou do documentário Integração Racial de César Paulo Seracini. Yolanda também participou do festival de Cannes, em 1966, na qual a película Arrastão foi exibida. 

Yolanda mostrando suas curvas na gravação de Arrastão (1967)
Depois disso, no entanto, as ofertas de atuação continuaram entrando na vida de Yolanda Braga. Uma em especial veio do português Raul Solnado, um comediante, empresário e ator de mão cheia, que procurava uma bela mulher para interpretar o papel principal na peça Minha Querida Mulatinha, a ser apresentado no teatro em Lisboa. As versões sobre como Raul ficou sabendo sobre Yolanda diferem: a revista Intervalo afirma que foi durante a visita do ator Geraldo d'El-Rei em Portugal, ao mostrar uma das revistas Intervalo com Yolanda na capa. Já o jornal Diário de Notícias, conta que foi durante uma das visitas de Raul no Brasil, avistando-na em um programa de televisão e dá a entender que os dois tiveram um caso, mesmo que passageiro. 

Em ambos os casos, no entanto, o certo foi que Raul ficou encantado com a beleza de Yolanda e a ofereceu um contrato para ser estrela na pela Minha Querida Mulatinha, na qual ela poderia fazer televisão e cinema, sem ficar presa apenas com a companhia de Solnado. A peça, aliás, conta a história de um escritor de sucesso que vive em paz com sua esposa, até que recebe a visita de uma mulher, interpretada por Yolanda Braga, que procura um emprego. O escritor, interpretado por Solnado, se apaixona pela bela moça sem fazer ideia de que ela é na verdade rainha de uma Ilha no Pacífico. 

Apesar das problemáticas na narrativa, na qual Yolanda interpreta os estereótipos de mulher negra empregada e sensual tudo de uma vez só, e no título, afinal a palavra mulata é pejorativa e racista, o papel foi importante porque abriu outras oportunidades para a a atriz e porque, naquela época, quando a discussão sobre o racismo estava ganhando mais força, ela era uma atriz negra brasileira trabalhando em uma peça internacional de sucesso absoluto, mostrando seu talento e a capacidade que ela e outras tantas atrizes negras tinham, mas nem sempre com a oportunidade dada. 

Yolanda em cenas da peça Minha Querida Mulatinha em Portugal                                Divulgação
Yolanda ficou em Portugal durante o ano todo de 1966, ingressando também na televisão e gravando um disco que fez muito sucesso no país. Uma grande vitória para a atriz, que antes de embarcar para essa aventura, afirmou em entrevista: "É a primeira vez que saio do Brasil. Estou morrendo de medo, mas vou enfrentar tudo com coragem. Essa era a oportunidade que eu precisava, minha carreira estava caindo na rotina." 

De volta em 1967, com o sotaque bem carregado, Yolanda não ficou parada por muito tempo. Dois anos depois, ela conseguiu o papel na peça musical de Abelardo Figueiredo, que foi feita para comemorar o aniversário de três anos de existência do famoso restaurante O Beco, em São Paulo, que posteriormente seria exportado para Las Vegas. O nome do show era Holiday In Brazil e era composto por inúmeros minishows nos quais Yolanda, que havia investido em aulas de balé e canto e adorava fazer ambas as coisas, se deu muito bem. Em 1969, ela também fez parte do filme 2.000 Anos de Confusão (idem, 1969) ao lado dos Trapalhões. 

Em 1971, ela conquistou o papel principal de Ofélia na adaptação para o cinema da peça Hamlet, chamada Jogo de Vida e Morte (idem, 1972) ao lado de astros como Odete Lara e Juca de Oliveira. Além desse filme, ela também fez parte de uma produção da chamada Boca do Lixo, produções de baixo orçamento na época, que eram extremamente sensuais. O filme era Audácia (idem, 1970), no qual ela atuou com atores como Julia Miranda, Gilberto Salvio e Cleo Ventura. Audácia é sobre a arte de fazer cinema e como é difícil sem o patrocínio adequado. 


Yolanda teve uma carreira inconstante na televisão                                                 Divulgação
Segundo o Jornal do Commercio de 1978, Yolanda continuou na companhia de Abelardo Figueiredo por mais cinco anos, viajando para inúmeros países com o show, mas ao voltar para a TV Tupi para ver seus antigos amigos acabou ficando com saudades da telinha e concordou em interpretar a personagem Conchita na refilmagem da novela O Direito de Nascer, em 1978. Uma feliz coincidência, já que foi na versão original de 1964, Isaura Bruno, a primeira atriz negra do Brasil a ter um papel de destaque em uma telenovela. 

Yolanda esperava que o papel, embora pequeno, reavivasse sua carreira nas novelas, mas nada de muito excitante em sua carreira artística aconteceu depois disso. Em conversa com o jornal, ela admitiu: "Olha, a Conchita tem essas ideias todas de ser famosa, mas é uma pessoa dócil. Está na dela, por enquanto, mas espera para se revelar. E quando isto acontecer, eu Yolanda, vou ter realmente a oportunidade de voltar em grande estilo para a televisão e mostrar a artista que eu sou. Cantando, dançando, representando, realizando o grande sonho de Conchita e por que não confessar: o meu também." 

Em 1980, ela participou do show da cantora Rosemary, performando enquanto ela cantava suas canções. Já em 1982, ela participou do carnaval paulista com o grupo Yolanda Braga e as Mulatas, dançando e cantando no clube Sociedade Thalia em Curitiba, no Paraná. Ela continuou ainda participando dos shows de Abelardo Figueiredo, no final dos anos 80 no espetáculo Sampa Samba ao lado, novamente, de Rosemary e Katia Alves. 

Infelizmente, depois do final dos anos 80, não há mais notícias sobre a carreira de Yolanda Braga. Possivelmente ela teria continuado com sua parceria ao lado de Abelardo Figueiredo, mas essa é apenas uma conjectura. O que se sabe é que Yolanda foi uma pioneira na televisão e abriu um espaço para outras atrizes negras no Brasil e isso deve ser discutido e amplamente divulgado. 

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Olá, Paulo, tudo bom?
      Acredito que sim, embora não tenha muito certeza já que os últimos rastros dela nos jornais são do final dos anos 80. Quem sabe um parente dela ou a filha vejam essa matéria e nos deem a informação, né?
      Fico na torcida!

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