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A homenagem a antiga Hollywood de A Forma da Água (2017)

*spoilers de A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) 

O filme A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) não traz uma história inovadora: o  tema de romance entre um humano e uma criatura com poderes místicos já foi muito bem explorada em filmes como Ele e a Sereia (Mr. Peabody and The Mermaid, 1948), Splash: Uma Sereia em Minha Vida (Splash, 1984); neste no qual as similaridades são incríveis;  e Minha Noiva é Uma Extraterrestre (My Stepmother Is an Alien, 1988). No entanto, A Forma da Água tem seu diferencial: sua protagonista é muda e são os coadjuvantes, uma negra e um homossexual, que têm o maior número de falas e de ação na película. 

O mais novo filme do diretor Guillermo Del Toro conta a história de Eliza Esposito, interpretada com maestria por Sally Hawkins, uma faxineira muda que mora acima de um cinema, ao lado de seu melhor amigo, o pintor homossexual, Giles, vivido por Richard Jenkins. Um dia em seu trabalho, a vida de Eliza e de sua amiga negra Elza, vivida pela incrível Octavia Spencer, muda com a chegada de uma criatura encontrada na América do Sul, interpretad por Doug Jones, que pode dar uma vantagem aos americanos durante a Guerra Fria. Eliza e a criatura se apaixonam e precisam lutar contra as garras do governo e do cruel general Strickland, interpretado por Michael Shannon. 


Sally Hawkins e Doug Jones em cena de A Forma da Água (2017)                            Divulgação
Apesar das acusações de plágio; que envolvem a peça Let me Hear You Whisper (1969) e o curta The Space Between Us (2015);  A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) é o filme mais indicado ao Oscar 2018, com 13 indicações no total e ganhou 4 prêmios, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor. Para os telespectadores brasileiros que gostaram do filme, tem uma outra agradável surpresa. A criatura-peixe de A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) foi baseada na lenda do folclore brasileiro, o Cabloco D'Água, um monstro que vive nas águas do Rio São Francisco, na Amazônia. O Cabloco, é claro, também foi o preceito para o filme O Monstro da Lagoa Negra (Creature From the Black Lagoon, 1954). 

Outro fato curioso em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) é como os roteiristas Guillermo Del Toro e Daniel Kraus homenagearam à antiga Hollywood. A começar pelo fato da protagonista viver de aluguel acima de um cinema, que está exibindo duas películas: A História de Rute (The Story of Ruth, 1960) e Mardi Gras (idem, 1958). A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) é tão visualmente belo quanto os filmes antigos que nos quais se baseia.

Por isso nós da Caixa de Sucessos mostramos os filmes da antiga Hollywood que são homenageados no filme de Guillermo del Toro, a seguir!

A MASCOTE DO REGIMENTO (THE LITTLE COLONEL, 1935)


Bill 'Bojangles' Robinson aperfeiçoou a chamada "dança da escada" no filme A Mascote do Regimento (The Little Colonel, 1935) estrelado pela atriz-mirim Shirley Temple. O dançarino atuou ao lado de Shirley em um total de quatro filmes, com a sequência acima sendo uma de suas mais famosas. 

É nela que seu personagem, Walker, ensina a pequena Lloyd (Shirley Temple) a dançar. Essa foi a primeira dança interracial em um filme nos Estados Unidos (apenas permitido porque Shirley era uma criança) e o começo de uma colaboração entre Bill e Shirley que duraria quatro filmes. 

Em A Mascote do Regimento (The Little Colonel, 1935), Walker e Lloyd representam uma dupla que no papel parecia que nunca funcionaria, (anda mais com o preconceito latente da época), mas que na vida real se mostrou muito eficaz e bonita. Assim como as amizades de Eliza em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017); com uma cena fofa de dança entre Eliza e Giles; e seu amor pela criatura-peixe. São elas combinações diferentes que provam fazer muito sucesso e trazem à tona o melhor de cada um dos personagens, assim como aconteceu nas telas e na vida real com Shirley e Bill. 

TURBILHÃO (CONEY ISLAND, 1943)


Betty Grable estava no auge de sua fama quando estrelou como Kate Farley no filme Turbilhão (Coney Island, 1943). Com apenas 27 anos de idade, Betty estava no pico de sua beleza, bem diferente de Giles do filme A Forma da Água (The Shape of Water, 2017). 

Em o Turbilhão (Coney Island, 1943), Kate faz muito sucesso na cidade, por sua personalidade vibrante, sua beleza e, é claro, sua voz de cantora. Ela experimenta algo que Giles nunca conseguiu viver: o sucesso pleno.

A parte do filme Turbilhão (Coney Island, 1943) que aparece em A Forma da Água (2017) é o número de dança da música Pretty Baby, que pode ser visto acima. Uma das músicas de maior sucesso de Grable, que durante a Segunda Guerra era a pin up mais requisitada dos oficiais, na frente apenas de Rita Hayworth. A beleza, portanto, que Giles, também, nunca experimentou até então.  

UMA NOITE NO RIO (THAT NIGHT IN RIO, 1941)


Carmen Miranda, nascida em Portugal e naturalizada brasileira, era o rosto da chamada 'boa-vizinhança', implementada pelo então presidente do Brasil, Getúlio Vargas nos anos 30/40. Com suas roupas espalhafatosas, a famosa 'salada de frutas' na cabeça como acessório e seu gingado, Carmen fez um sucesso estrondoso nos Estados Unidos e ajudou a difundir a imagem do brasileiro no exterior, seja no bem e no mal.  

Em a Forma da Água (The Shape of Water, 2017), Carmen faz sua aparição com a música Chica Chica Boom Chic, na cena em que Eliza tenta descobrir um jeito para conseguir libertar a criatura-peixe do laboratório. No filme Uma Noite em Rio (That Night in Rio, 1941), Carmen interpreta uma cantora, no qual seu namorado, vivido por Don Ameche, finge ser um barão em uma baile de máscara e tem que viver uma farsa para manter as aparências para Carmen e a esposa real do barão, Cecilia, vivida por Alice Faye. 

Don Ameche vive entre dois mundos, assim como Eliza em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017). 

A HISTÓRIA DE RUTE (THE STORY OF RUTH, 1960)


A História de Rute (The Story of Ruth, 1960) é um dos filmes em destaque no cinema no qual Eliza, personagem principal de A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) vive acima. Um filme biblíco, Elaine Eden interpreta Rute, uma jovem criada para se tornar sacerdotista de um templo pagão, mas que acaba conhecendo Deus e abdica dos sacrifícios para espalhar sua nova fé. 

Ruth escapa da fúria de seu povo com a ajuda de Noemi, uma senhora que lhe ensinou todos os testemunhos de Deus, ambas vão para Jerusalém. No meio do caminho, Rute conhece Boaz, vivido por Stuart Whitman, e os dois se apaixonam. Mas Rute já está prometida à outro homem, Mahlon, filho de Noemi. 

Apesar da licença poética, afinal na bíblia, Rute era casada com Mahlon e apenas ficou com Boaz depois da morte de seu marido, o filme mostra muito bem como Rute escolheu seu lar e as pessoas que amavam, assim como Eliza em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) também o faz. 

O amor entre Eliza e a criatura-peixe é descrita perfeitamente pelo livro de Ruth 1:16: 
Ruth diz: "Não me instes para que te abandone, e deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. 

AQUILO SIM ERA VIDA (HELLO, FRISCO, HELLO, 1943)


No filme Aquilo Sim Era Vida (Hello, Frisco, Hello, 1943) Alice Faye interpreta a canção You'll Never Know que aparece não uma, mas duas vezes em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017). 

Uma das divas de Giles, o amigo homossexual de Eliza, Alice Faye estava no auge de sua beleza e fama durante o filme e é descrita da seguinte maneira por Giles: "Alice Faye acabou de começar. Ela era muito famosa, até que um dia se cansou de tudo aquilo e chutou o balde." Uma opção que o personagem nunca teve em sua vida, afinal continuava a trabalhar em seus quadros mesmo aos 50 anos de idade, sem nenhuma outra perspectiva. 

Pela canção You'll Never Know, que acontece logo nos primeiros cinco minutos do filme Aquilo Sim Era Vida (1943), a película ganhou um Oscar de Melhor Canção Original em 1944, tornando-se a música oficial de Alice Faye. 

MARDI GRAS (1958)


Mardi Gras (idem, 1958) é um musical que em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) está passando no cinema, no qual Eliza e Giles vivem acima. Mardi Gras é um filme musical de romance, bem água com açúcar, no qual o ator Pat Boone interpreta um militar que ganha a chance de sair em um encontro com a estrela de cinema e rainha do carnaval, Christine Careré, vivida por Michelle Marton. 

Ambos se apaixonam no filme, sem saberem do passado um do outro, assim como Eliza e a criatura-peixe em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017). E assim como em Mardi Gras, a fantasia e a realidade se misturam em A Forma da Água, em uma realidade que se apaixonar por uma criatura se torna muito plausível. Em uma cena de intimidade entre eles que, na lógica, não seria possível na vida real. 

Mardi Gras é uma festa carnavalesca que acontece anualmente em Nova Orleans, nos Estados Unidos. As pessoas se fantasiam, usam máscaras e vivem em um outro mundo, assim como Eliza faz ao lado de sua criatura-peixe.  


O MONSTRO DA LAGOA NEGRA (CREATURE FROM THE BLACK LAGOON, 1954)



Uma das referências mais óbvias de A Forma da Água (The Shape Of Water, 2017) é o filme O Monstro da Lagoa Negra (1954) que conta a história de um criatura encontrada na América do Sul,  do qual o Dr. Reed, vivido por Antonio Moreno, descobre em sua estadia em Amazonas. O bicho, no entanto, desenvolve uma obsessão pela namorada do dr., a doce Kay, interpretada por Julie Adams. 

O Monstro da Lagoa Negra (1954) foi filmado graças à conversa entre o diretor mexicano Gabriel Figueroa e o produtor William Alland, no qual Gabriel contou a lenda brasileira do Cabloco d'Água. Essa foi a faísca para o thriller, O Monstro da Lagoa Negra (Creature from The Black Lagoon, 1954) que ganhou diversas continuações. 

A cena acima, aliás, no qual a criatura nada bem próximo de Kay se assemelha e muito as cenas entre Eliza e a criatura-peixe em A Forma da Água (2017), no qual ambos nadam e se abraçam na água, como se fossem um só. 

QUERO CASAR-ME CONTIGO (SUN VALLEY SERENADE, 1941) 


Embora o filme Quero Casar-me Contigo (Sun Valley Serenade, 1941) não seja mencionado em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) de forma direta, a canção I Know Why (and So Do You) interpretada pela atriz Lynn Barin é usada por Del Toro na película, especialmente na parte em que Eliza começa a dançar e se apaixonar pela criatura, quando ele ainda está preso no laboratório. 

A música retrata o começo da paixão entre duas pessoas, em que, no caso de A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) se trata do amor entre Eliza e a criatura. Ele é o único que a entende e não a trata diferente por ser muda. Já ela o protege e o ama por ser exatamente o que é. 

Existe, aliás, uma frase da canção I Know Why (and So Do You) mostra muito bem o momento de intimidade entre Eliza e a criatura, no qual os dois fazem amor, e as escamas da criatura começam a brilhar. A frase diz: 
"E por que eu vejo arco-íris quando você está nos meus braços? Você sabe e eu também." 
Isso também prova que, em seus filmes, Guillermo del Toro nunca dá ponto sem nó. Nem mesmo na trilha-sonora. 

NAS ÁGUAS DA ESQUADRIA (FOLLOW THE FLEET, 1936)



Uma das cenas de A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) que mais homenageam os filmes antigos de Hollywood é aquela na qual Eliza interpreta a canção You'll Never Know de Alice Faye em uma sequência-sonho, no qual ela dança com seu amor, a criatura-peixe. 

A sequência é baseada no filme Nas Águas das Esquadrias (Follow The Fleet, 1936), o quinto filme do casal Fred Astaire e Ginger Rogers nas telonas. No número Let's Face The Music and Dance, Fred canta melancolicamente para Ginger, alertando que o futuro pode trazer problemas, mas que o presente, com os dois juntos, deve ser aproveitado.

O cenário de Nas Águas da Esquadria (Follow The Fleet, 1936) e A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) são idênticos e não por coincidência. Roberto Campanella, o coreógrafo de A Forma da Água (2017) contou em entrevista ao Dance Magazine que
"Guillermo Del Toro queria manter aquela era Fred Astaire com aquela abordagem estilosa. Ele tinha referências visuais que ele me mostrava." 

Ginger Rogers e Fred Astaire eram mestres em contar uma história de amor através da dança, algo que Guillermo del Toro conseguiu também realizar em seu filme, com Eliza e a criatura-peixe. 


A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) reverencia os clássicos hollywoodianos e consegue colocar sua própria personalidade ao utilizá-los ao seu favor. Uma película visualmente bela e com referências maravilhosas, não é difícil entender seu grande número de indicações ao Oscar. Tem o estilo da antiga Hollywood, afinal. 
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