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O amor e a razão no livro Longe Deste Insensato Mundo de Thomas Hardy

*spoilers sobre o livro Longe Deste Insensato Mundo de Thomas Hardy (e subsequentes filmes) 

Bathsheba Everdene é uma personagem considerada à frente de seu tempo: recusa propostas de casamento para reafirmar sua independência, é dona de sua própria fazenda e vai ela mesma vender seu produto em feiras no vilarejo, sem medo de negociar o melhor preço que possa conseguir, falando de igual a igual com seus colegas homens. A personagem do livro Longe Deste Insensato Mundo (Far from the Madding Crowd, 1874), obra do literário Thomas Hardy é uma feminista, ou melhor, o máximo que ela poderia ser naquela naquele trecho restrito da época. 

Isso porque Bathsheba, como é escrita por Thomas Hardy, ainda é levada pelos seus sentimentos, amor e vaidades, algo que em 1874, quando o livro foi escrito e ainda hoje até, é algo que definia o que era ser mulher. Ela confunde o amor e a razão por todo o livro, apaixonando-se perdidamente por um certo soldado enquanto mantém seu feitiço no pastor Gabriel Oak e o senhor de terras, o sr. Boldwood, além de seu melhor julgamento, e assim quase leva à ruína tudo que havia trabalhado tanto para conseguir em sua fazenda e em sua vida. 

Ela acaba se submetendo aos desejos do seu então marido, o sargento Frank Troy, e perde o controle de sua fazenda, de seus funcionários, tudo para manter a atenção e a paixão de seu esposo - ela, apesar de aparentar ser uma mulher independente do século XIX, ainda se submete aos desejos do seu marido, como um casamento convencional entre homem e mulher, no qual é a esposa que sempre faz sacrifícios para manter a felicidade do casal.

Bathseba cuidando de sua fazenda ao lado de Gabriel Oak - ilustrações de Helen Alligham(1874)             Divulgação
Assim, Bathseba Everdene é uma personagem que pode ser considerada relativamente feminista, mas apenas o máximo que era tolerado para uma mulher naquela época. Ela começa forte, mas se perde no meio da história e não consegue voltar à sua gloriosa independência depois. A vida não lhe permite e os homens de sua vida também não. 

Longe Deste Insensato Mundo foi o primeiro sucesso literário do autor inglês, Thomas Hardy. Publicado, primeiramente, de forma anônima, na revista Cornhill Magazine com ilustrações da artista Helen Allighan, como pode se ver acima. Tudo começou em 1872, como conta a biografia The Life and Work of Thomas Hardy, quando Leslie Stephen, editor da revista Cornhill Magazine, escreveu pedindo que Thomas, já com relativa fama por escrever livros como Under The Greenwood Tree, escrevesse uma história para publicação. Thomas não conseguiu escrever imediatamente, pois ele estava terminando seu livro A Pair of Blue Eyes, mas escreveu revelando que a próxima história seria de Stephen. 

O autor já tinha em mente o título: Far From The Madding Crowd (Longe Deste Insensato Mundo) e sabia que escreveria sobre uma jovem mulher, um pastor e um sargento da cavalaria. E assim ele criou Bathsheba Everdene, uma jovem mulher forte que ganha de herança a propriedade de seu falecido tio e se muda para Weatherbury em Wessex, local fictício criado pelo escritor e usado em todos os seus livros, para governar a fazenda. Lá, ela reencontra o pastor bondoso Gabriel Oak, que havia lhe pedido em casamento, mas ela o recusou. 

Por obra do destino, ele se torna gerente da propriedade de Bathsheba, porém ele não é o único que busca o amor dela. O velho William Boldwood, dono da propriedade vizinha, acaba se apaixonando por ela depois de uma brincadeira de mau gosto (ela envia para ele uma carta de dia de namorados para provocá-lo; ele acredita que suas intenções são verdadeiras). Há também o duvidoso sargento Troy, que busca uma vida fácil, mas causa uma paixão arrebatadora em Bathsheba com grandes repercussões. 

Thomas Hardy também era poeta                                                        Divulgação
Vale lembrar, no entanto, que esse assunto de independência da mulher em suas terras, não era relativamente novo, como conta este artigo do site The Conversation de 2015. Antes das chamadas A Lei das Propriedades de Mulheres Casadas (Married Women's Property Act) de 1870, as mulheres do Reino Unido eram apenas vistas, depois de casadas, como uma extensão de seus maridos, sem direito à nada - tudo que tinham eram deles, inclusive terras herdadas antes do casamento. 

A lei Married Women's Property Act de 1870 mudou isso: assim as esposas tinham direito de serem proprietárias legais de seus dinheiros e de suas propriedades, inclusive aquelas herdadas e conquistadas antes do casório. As mulheres solteiras e as viúvas já tinham o direito de possuir a terra em seu próprio nome, antes do Ato, como era o caso da personagem Bathsheba Everdene. 

O problema é que o Married Women's Property Act causou um furor na sociedade machista, que acreditava que as mulheres terem controle de suas propriedades e de si mesmas, não era benéfico para elas. O Married Women's Property Act também ganhou um adendo em 1882, dizendo que mulheres casadas poderiam controlar sua própria propriedade e estabelecer contratos, assim como as solteiras tinham direito, podendo ganhar, vender e ter uma propriedade separada do marido. As mulheres casadas poderiam ter uma identidade separada de seu marido, pelo menos perante à lei. Não era isso que acontecia por trás das portas, no entanto. As mulheres ainda eram controladas por seus maridos. 

A Wessex que Thomas Hardy inventou para seus livros e poemas                                Divulgação/1902
A personagem Bathsheba, então, estava livre para ter sua própria propriedade antes de se casar e depois também. Que fique claro que isto não era algo novo na Inglaterra, mas ter Bathsheba Everdene em um papel que mostrava que a mulher tinha tanta mente para os negócios como os homens, contam pontos para que Longe Deste Insensato Mundo mostre as mulheres em uma luz um tanto mais favorável. Infelizmente esse pioneirismo se perde quando o leitor fica mais interessado com quem Bathsheba vai escolher como seu marido do que com sua própria e merecida independência e quando ela abre mão de tudo por causa de uma paixão. 

No capítulo X do livro Longe Deste Insensato Mundo de Thomas Hardy, há uma passagem na qual Bathsheba se apresenta como nova dona da fazenda e faz questão de reafirmar sua posição como mulher autossuficiente:
Agora prestem atenção: vocês tem uma patroa ao invés de um patrão. Ainda não conheço meu poder e meus talentos para a agricultura, mas devo fazer o meu melhor e se me servirem, servirei a vocês. Se houver alguém desleal entre vocês achando que por eu ser uma mulher não sei a diferença entre bom e mau comportamento (...)Acordarei antes de vocês, estarei nos campos antes de vocês acordarem e tomarei meu desejum antes que estejam nos campos. Resumindo, surpreenderei todos vocês." - Longe Deste Insensato Mundo, capítulo X, página 68. 
Mas nem suas afirmações e ações, no começo do livro, compensam pela narrativa que cada vez mais prende Bathsheba aos três homens de sua vida. Isso porque Gabriel Oak, o bondoso fazendeiro que perde suas terras e se torna pastor da propriedade de Bathsheba, é quem efetivamente administra a fazenda dela. Gabriel salva as terras de sua amada de serem totalmente queimadas e se torna o "gerente"; posteriormente ele salva o rebanho de ovelhas e inclusive protege o feno da fazenda, este último com a ajuda de Bathsheba (que deixa-o terminar sozinho, na tempestade).  

Bathsheba e sargento Troy em uma das cenas mais "eróticas" da novela 
Com Mr. Boldwood, o senhor com quem ela brinca com os sentimentos depois de um cartão do Dia dos Namorados, à ponto de levá-lo, pouco a pouco, à loucura; Bathsheba mostra a sua imaturidade em relação aos sentimentos do outro, sem pensar em consequências. O leitor fica com dó de Mr. Boldwood durante a leitura, mas ele cada vez mais usa de artimanhas e situações que nos fazem duvidar de sua sanidade - como se Everdene devesse à ele alguma coisa, sendo que se trocássemos o papel, a personagem seria considerada apenas louca. 

Já com o sargento Troy (que a conquista com uma exibição de espadas bem explícita), ela experimenta o amor desenfreado, sem limites, sem consequências, algo que quase arruína sua vida e sua fazenda. O autor Thomas Hardy cria uma mulher fascinante e forte nos primeiros capítulos, para destruí-la depois - tudo pelos homens que a rodeiam e fazendo valor a falsa noção que a mulher nunca poderá ser uma chefe ideal por ser levada pelos seus sentimentos e emoções. 

Mas se comparada com a personagem Fanny Robin, que era namorada do sargento Troy, uma antiga empregada da Fazenda, Everdene é realmente uma mulher à frente de seu tempo. Isso porque Fanny representa o ideal de mulher doce, tola, servil e bondosa que Bathsheba nunca seria e assim é o amor da vida do único homem que Bathseba sempre quis. Porém se Everdene é teimosa, idealista e destemida em certos casos, quando se trata do amor ela nunca consegue ver a razão. E é por isso que a personagem, em uma opinião controversa, não pode ser considerada feminista: o escritor, os personagens masculinos e a sociedade da época nunca a permitiriam.  

A personagem fica, nas 328 páginas do livro lançado em 2016 pela editora Pedra Azul Editora, dividida entre a estabilidade; representada por Gabriel Oak, a paixão; representada pelo sargento Troy; e a respeitabilidade; representada pelo Mr. Boldwood e quanto mais páginas lê-se, mas fica evidente o caminho que Everdene escolherá. Em seu primeiro casamento com o sargento Troy, Bathsheba se tornou uma mulher submissa, completamente levada pelo amor, como ela mesma percebe:
-Diga-me a verdade Frank. Não sou tola, embora seja uma mulher e tenha meus momentos de mulher. Eu não quero muito, apenas justiça e basta. Ah, uma vez senti que não poderia me contentar com nada menos do que a mais alta homenagem do marido que eu escolhesse. Agora qualquer coisa aquém da crueldade me satisfaz. Sim, a Bathsheba independente e espirituosa tornou-se assim. - Longe Deste Insensato Mundo, capítulo XLI, página 223. 
O trecho acima viabiliza a teoria de que Thomas Hardy criou uma personagem mulher mais independente do que a maioria das mulheres da época, mas mesmo assim uma mulher. Ela nunca seria tão forte fisicamente ou mentalmente quanto Gabriel Oak, por exemplo. Bathseba Everdene é com certeza uma personagem à frente do seu tempo, que deve ser admirada por sua tenacidade, teimosia e cabeça para "os números" e ser mencionada quando se trata de mulheres fortes da literatura, mas ela não era um exemplo feminista, pelo menos não na concepção de Thomas Hardy. 

Bathsheba Everdene se adequa às normas e imposições da época e ela não consegue burlá-las como se vê ao longo da história. Ela é uma personagem feminina a ser admirada, mas não sei se cabe à ela a denominação de feminista de fato, já que o próprio autor considerava que ser mulher era "um defeito", mesmo que um leve. Afinal, o que exatamente seria "momentos de mulher" a não ser uma referência ao único defeito em Bathsheba na história? Ela nunca seria forte, sensata e inteligente como os homens - ela era uma mulher.  

Longe Deste Insensato Mundo de Thomas Hardy, apesar disso, é uma leitura gostosa de se ter e nos sentimos no campo, sentados sob uma árvore, aproveitando a brisa e conhecendo cada vez mais as personagens. É fato que o autor exagera demasiadamente em descrever as paisagens de Wessex e isso cansa um pouco a leitura, mas a medida que nos acostumamos com o ritmo da narrativa, é impossível não se cativar pelo livro e pela história de Bathsheba e tudo que ela teve que enfrentar para firmar sua posição na sociedade e retomar as rédeas de sua vida. 


Bathsheba Everdene nas telas - apenas Julie Christie com seus cabelos loiros foge à descrição da personagem 
O livro Longe Deste Insensato Mundo de Thomas Hardy ganhou sua primeira adaptação para o cinema em 1915 estrelando Florence Turner e Henry Edwards como Bathsheba e Gabriel Oak, respectivamente. Em 1967, foi a vez de Julie Christie e Alan Bates estrelarem a versão. Em 1998 teve a versão para a televisão e em 2015, Carey Mulligan encarou a responsabilidade de interpretar a personagem nas telonas. 

Em Longe Deste Insensato Mundo há sempre o atrito entre o amor e a razão e em como o amor calmo de Gabriel Oak pode resistir até as maiores tempestades, o desenfreado de Bathsheba pode cegar sua visão sobre outro alguém e como o amor obsessivo de Mr. Boldwood pode destruir uma pessoa. A razão está sempre à espreita, no entanto, para ser vista, basta que as personagens queiram vê-la. 

O que nem sempre é o caso, tanto na literatura quanto na vida real. 




INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO


Livro: Longe Deste Insensato Mundo
Autora: Thomas Hardy
Páginas: 328

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