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O figurino icônico de Jean Louis para Rita Hayworth no filme Gilda (1946)

*aviso: alguns spoilers sobre o filme Gilda (idem, 1946) 

A palavra icônica é usada de modo leviano hoje em dia, como bem se sabe! Em seu significado original, ícone é aquilo que se distingue, simboliza uma época, uma cultura ou uma arte. Gilda (idem, 1946) é o filme mais lembrado da atriz Rita Hayworth, o que a consolidou como um símbolo sexual, sendo amado por milhares no mundo todo tornando-se um marco no cinema norte-americano.

Gilda (idem, 1946) se tornou um filme tão icônico graças aos atores, o diretor, as danças e ao figurino de Jean Louis, feito especialmente para Rita Hayworth. Quem assisti ao filme não consegue esquecer daquele seu vestido preto, com luvas, a definição mais literal de um tomara-que-caia.

Rita e o estilista Jean Louis em Gilda (idem, 1946)                                     Divulgação 
Jean Louis fez um figurino que complementou cada curva de Rita e também não era para menos: ele já havia trabalhado com ela em mais de seis películas. Sobre a estrela, uma das mais queridas com quem conviveu durante seu trabalho no estúdio Columbia, Jean Louis a cobriu de elogios:
Rita Hayworth era a mais divertida e tão linda. Não tinha nada de comum sobre ela. O seu nariz, seu queixo eram extraordinários. E suas pernas, tão tão longas." 
A única "falha" no corpo de Rita (de acordo com os padrões de beleza vigentes, que fique claro) era que ela não tinha uma cintura fina. Assim, Jean enfatizava a parte do meio do corpo de Rita com cintos bem apertados, para que desse a ilusão que ela tivesse uma cintura fina e quadris mais largos.

Para Gilda (idem, 1946) Jean Louis gastou a grande quantia de U$ 60 mil, o que convertido para os dólares de hoje daria em torno de quase U$700 mil. A revista Life Magazine de 4 de fevereiro de 1946 ficou tão impressionada com o alto valor do figurino que fez uma matéria detalhando cada item do guarda-roupa de Rita para a película.

Analisar o guarda-roupa de Rita Hayworth para o filme é entender sua personagem, em cada curva e símbolo. Para se ter uma ideia, em Gilda (idem, 1946) a primeira vez que vemos Rita, ou melhor, sua personagem, entrar em cena é quando Johnny, interpretado por seu melhor amigo na vida real Glenn Ford, vai conhecer a nova esposa de seu patrão do cassino,o  Ballin, vivido por George Macready. É uma cena icônica para qualquer um que assiste: uma vez que você a vê nunca mais esquece!

Rita em sua entrada triunfal a partir do minuto 14 do filme                               Divulgação/Gif
Nessa cena, Gilda está usando um negligê tomara-que-caia rosa, feito com mais de 18 metros de tecido, com sapatinhos rosa, no estilo mullet para combinar. Esta peça custou U$300. O livro Gilda's Gown de Rachel Ann Wise exemplifica muito bem esse momento e como a pergunta que Ballin faz para esposa: 'Gilda, você está decente?', exemplifica Gilda :
Claro que o decente tem significado ambíguo, se referindo à suas roupas e o estado de sua moralidade. A questão, portanto, mescla o significado das roupas e o caráter de Gilda, em uma relação conectada que permanecerá constante pelo filme." 
Ao ver Johnny, com quem Gilda divide um grande passado, a primeira reação da personagem é cobrir um de seus ombros, quase que instantaneamente. Logo, ela afirma: 'Sim, estou decente'. Essa é uma forma, inconsciente, de Gilda tentar camuflar seus próprios sentimentos, embora não se cubra totalmente: ela ainda é um ser sexual, uma femme fatale.

Uma das alças caídas no ombro de Rita também se refere à famosa pintura Madame X, de John Singer Sargent,  feita em 1884 representando a socialite Virgine Gatreau. Em sua concepção original, a pintura tinha uma das alças do vestido preto caídas, mas o choque da sociedade francesa foi tão grande, que John fez uma pequena alteração, colocando a alça em seu devido lugar.

Outro ponto importante de se notar: mais uma vez o uso do cinto em volta da cintura de Rita. Isso porque as gravações de Gilda começaram em 4 de setembro de 1945, nove meses depois da atriz dar à luz Rebecca, sua filha com Orson Welles.  A atriz  ainda não havia perdido todo o peso que ganhou na gravidez e exibia uma pequena barriga.

A primeira roupa de Rita no filme                LIFE 
Na primeira metade do filme, Gilda aparece completamente sensual. Depois do negligé rosa convidativo, com o qual ela tem uma conversa nada amistosa com Johnny em seu quarto, Gilda pede para Ballin que convide seu funcionário para jantar com eles. Na próxima cena, a personagem já aparece completamente vestida, mas com dificuldades em fechar o seu zíper.

Brincando, ela confessa ao marido: "Eu nunca consigo fechar um zíper sozinha. Será que isso significa algo?" Muito provavelmente, essa dificuldade de Gilda mostra a vulnerabilidade da personagem, que depende dos homens à sua volta para realizar o que deseja. Mas também consegue exibir, claramente, seu poder de sedução: ela tem Ballin ajoelhado, aos seus pés, fazendo o que ela tanto deseja. É o poder e a maldição de ser uma femme fatale, de ser Gilda.

O vestido no qual Rita Hayworth usa em Gilda, em sua segunda aparição, é uma túnica branca decorada com contas douradas e saltos da mesma cor. O visual custou U$750. Vale lembrar que o dourado representa poder enquanto o branco é pureza. Uma verdadeira dicotomia em que a personagem vive: Gilda, como vemos ao longo do filme, não é nada pura, mas no primeiro momento, tenta ser o que não é para ter a vida confortável que sempre quis.

Divulgação/Gilda (1946)
Em uma posição de poder sob Johnny, afinal ela tem a vantagem de estar casada com o patrão de seu amado,  Gilda se exibe e dança com outro homem usando todas suas armas de sedução para mostrar o quanto é querida, desejada e que não precisa dele.

No entanto, isso não a impede de ser maltratada por Johnny novamente e é aí que Gilda se mostra vulnerável pela primeira vez após seu marido Ballin a confrontar sobre seus sentimentos. Isso, no entanto, logo passa. Na próxima cena, Gilda aparece novamente em sua posição de poder.

Novamente com um vestido de cor branca, com detalhes dourados, a personagem aparece ganhando uma rodada de apostas: mais um sinal de que sua sorte e sua posição de poder ainda continuam consolidados. O auge de sua rebeldia contra Johnny acontece quando ela sai da boate com um homem, na continuação da história.

Ele vai atrás dela, afirmando que é por causa de seu patrão. Gilda é uma visão com seu casaco dourado, que reluz sob a luz da lua. Ela está em seu momento de poder supremo: Johnny tem ciúmes dela, agora Gilda tem certeza e usa todas essas armas para sua vantagem.

Gilda em seu momento supremo de poder sob Johnny                                                         
Na próxima aparição, Gilda está com um vestido tubinho, basicamente uma túnica bege. Tocando o violão, vemos um lado menos produzido da personagem, na madrugada, que tenta finalmente professar seu amor à Johnny, mas em vão: ele é leal demais ao seu patrão e tenta odiar a mulher que tanto ama.

É aqui que Gilda, pela primeira vez, mostra sua vulnerabilidade: ela aparece mais coberta, menos sensual, tentando se tornar a mulher que Johnny tanto deseja.

Divulgação
Logo o filme Gilda (idem, 1946) passa para a cena do carnaval, na qual há uma grande festança no cassino de Ballin. A personagem principal, vivida por Hayworth, escolhe a fantasia de vaqueira, o que se olharmos objetivamente diz muito sobre a narrativa: é neste momento que ela vai dominar Johnny de vez.

É nesta parte do filme, também, que ele confessa, finalmente, seus verdadeiros sentimentos sobre Gilda. Ela sobe ao quarto primeiro, trocando-se para algo mais confortável, um negligé que não marca tanto suas curvas. Para Johnny, Gilda se mostra como realmente é: uma mulher apaixonada, sem artimanhas de maquiagens e roupas: exatamente como quer ser. 

Gilda dominando Johnny e depois, se deixando conquistar
Ao ter certeza que Johnny a ama, Gilda resolve de vez mudar sua persona de femme fatale para se ajustar ao que era esperado de uma mulher de boa-família dos anos 40. Muito feliz ao se casar com o personagem de Glenn Ford, Gilda usa na cerimônia um terninho com saia, bem modesto e com cores sóbrias. 

Isso mostra como ela quer mudar de vida: quer se casar com o homem que ama e continuar ao seu lado, sem jogos. Bem lá no fundo ela não deseja ser uma femme fatale, ela quer ser uma esposa. Gilda ainda está de luto pelo falecido ex-marido, mas parece mais feliz ao usar preto e ao lado de Johnny do que com roupas glamourosas. Esse é o poder do amor!

Gilda em seu momento mais real
Gilda, no entanto, sofre um baque logo após do casamento com Johnny: ele se casou com ela apenas para conseguir o resto das ações e assim se tornar o sócio-majoritário do cassino. Na próxima vez que vemos a personagem de novo, desiludida pelo amor e tentando desesperadamente chamar a atenção de Jonnhy, ela voltou a ser a antiga femme fatale.

Com roupas caras, sensuais, Gilda começou a sair com cada homem que pudesse, na chance de fazer com que Johnny sentisse ciúmes dela, o que não funcionou.

Gilda em suas melhores roupas para atrair Johnny
Com um vestido tomara que caia azul, a personagem aparece com um casaco de pele, do valor de U$ 10 mil, colocando para fora todos seus sentimentos sobre seu amado, apesar de estar toda arrumada. Sem jogos porque ela entendeu que Johnny não a queria mais (ou pelo menos dizia isso à si mesmo). Isso mostra que Gilda só consegue ser real ao lado de Johnny, seja produzida ou não.

Gilda volta aos seus antigos hábitos
Ao perceber, contudo, que nunca terá a felicidade que tanto procura com Johnny, Gilda foge e encontra um trabalho como dançarina em um club. Em sua próxima aparição, a personagem aparece angelical em um vestido descrito pela Life Magazine como: "um vestido estampado com umas das pinturas de Fra Angelico". 

Para se ter uma ideia, o pintor Fra Angelico era conhecido por pintar imagens celestiais durante a Era da Renascença e colocar Gilda em uma roupa que pode ser descrita como 'angelical' é um tanto quanto contraditória, afinal quando uma femme fatale pode ser caracterizada como "um anjo"? 

Essa mudança brusca, no entanto, tem uma resposta: nesta parte do filme Gilda está tentando seduzir um novo homem, chamado Tom, para se casar com ela. Mais uma vez, então, ela busca mesclar a sensualidade com a fachada de boa-garota para conseguir o que quer. É um disfarce, unindo o que muitos homens procuram em uma mulher: o lado sexy com o lado modesto, tudo em um pacote só. 

Gilda não é um anjo, embora tenha toda essa beleza exterior 
Para Tom, com quem Gilda planeja se casar após conseguir o divórcio de Johnny, ela confessa: "Nunca mais pensei que fosse confiar em um homem de novo, mas lá vamos nós de novo...", e na cena seguinte aparece com um terninho de saia, bem coberto e modesto, mudando sua persona sensual para uma de uma mulher decente, sem quaisquer pecados aparentes. 

O futuro casamento não acontece já que Gilda é encontrada por Johnny e logo vemos a personagem de Rita Hayworth em uma mudança completa: de uma possível dona de casa ela se torna, definitivamente, um ser sexual de novo. 

Gilda está animada com o que o futuro lhe reserva
Já que Johnny não quer lhe dar o divórcio, mas também não quer deixá-la viver livremente, ela age como um gato encurralado. Resolve fazer uma grande performance no cassino de seu esposo, para chocar e forçá-lo a, finalmente, notá-la e tomar uma providência sobre a vida deles, seja boa ou ruim. É nesta cena da performance de 'Put The Blame on Mame' que o telespectador vê o icônico vestido preto de Rita Hayworth que parece desafiar a gravidade.  

Mais uma vez pode ser visto a influência do quadro Madame X de John Singer Sargent. O vestido preto de Rita foi feito em base no quadro, que representa uma verdadeira femme fatale. A mulher retratada na pintura era a aristocrata Virgine Gatreau, conhecida tanto por suas infidelidades quanto por sua beleza. 

Os ombros nu da modelo com a alça do vestido caindo (em sua concepção original) e o perfil totalmente descoberto representam bem a personagem: Virgine causou uma verdadeira comoção em 1884 com sua representação no quadro. Gilda, no filme, causa a mesma impressão: seu striptease das luvas, sua dança sensual, tudo é elevado ao extremo para chocar tanto a audiência quanto Johnny. 

Virgine Gatreau e Gilda: duas personagens polêmicas 
Jean Louis contou que o nó do lado esquerdo do vestido não foi por acaso: "Para emagrecer sua cintura, um pouco mais cheia desde que ela teve um bebê, eu imaginei um cinto drapeado, amarrado do lado." 

A construção do vestido, feito em tomara-que-caia para acompanhar o conceito de sensualidade da época vigente, foi construído de tal modo para parecer que fluía pelo seu corpo. Como Jean Louis revelou para a revista People em 1987, os meios para atingir esse resultado não foram nada fáceis: 
O vestido mais famoso que fiz foi um de cetim preto que desenhei para Rita Hayworth em Gilda. Todo mundo se perguntava como o vestido não caia enquanto ela dançava Put The Blame on Mame. Dentro tinha arreios de como você colocava em um cavalo. Nós colocamos grosgorão (tecido mais grosso) debaixo do busto com dardos e três cintas, um no meio e dois dos lados. Então moldamos o topo do vestido com plástico. Pobre Rita, ela ensaiava tanto, os pés sangravam, mas o vestido não caia. 
Gilda, ou melhor Rita Hayworth, está no seu ápice de sensualidade no número Put The Blame on Mame, cuja canção, aliás, fala de desastres naturais e tragédias que aconteceram por causa de mulheres: um paralelo claro sobre o que Johnny acha de Gilda. Quando ela tira uma das luvas, é um paralelo ao escândalo de Madame X com a alça do vestido.
O vestido parecia maravilhoso desde a primeira vez que pensei nele. Eu acho que Rita o tornou sexy pela casualidade com a qual ela o usou. Tinha algo voluptuoso sobre sua facilidade [ao usá-lo]. - Jean Louis em Hollywood Costume: Glamour, Glitter, Romance
Os dois personagens se confrontam depois dessa cena extremamente sensual e quando fica claro que Gilda nunca o traiu; sempre fiel ao seu amado, o casal termina juntos, exatamente como deveria ser. O interessante disso tudo é que na cena de reconciliação, Gilda aparece com a mesma roupa que usava quando acreditava que se casaria com seu outro namorado, Tom. 

Gilda aparece com a mesma roupa: um sinal?
Usar o mesmo traje significa, neste ponto da trama, que Gilda estava mais uma vez esperançosa com seu futuro, certa de que poderia confiar em Johnny de novo e que juntos, seriam felizes. Ela estava confiando, mais uma vez, em um homem. Mas não qualquer um e sim seu Johnny, seu verdeiro amor.

Sobre os trajes de Gilda (idem, 1946), Jean Louis afirmou:
Eu tentei fazer que tudo para ela [Rita] fosse especial porque também foi minha chance de fazer algo especial.
O estilista conseguiu contar a história de Gilda através de suas roupas brilhantemente: não há nada mais especial do que isso!


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