...E o Vento Levou (Gone With The Wind, 1939) - por trás da escalação dos atores

...E o Vento Levou (Gone With The Wind, 1939) já nasceu um clássico e 80 anos depois de sua estreia nos cinemas em 15 de dezembro de 1939 continua a ser um dos filmes de maior lucro de bilheteria na história do cinema -com inflação inclusa. Para se ter uma ideia, os U$390 milhões arrecadados hoje valem U$3,7 bilhões e nenhum outro conseguiu alcançar esse valor exorbitante. 

Mas o sucesso de ...E o Vento Levou (Gone With The Wind, 1939) não diz respeito apenas ao lucro obtido. Alguns creditam seu poder de longevidade à história de amor/ódio entre os personagens Scarlett e Rhett, enquanto outros afirmam que o fato do filme ser baseado em um livro best seller é o motivo de seu êxito.

Muitos alegam que é o viés histórico do filme e do livro, recontando a Guerra da Secessão e mostrando o lado dos sulistas (brancos) e seus preconceitos e como eles próprios se vem: como bem-feitores que desperta o interesse e a revolta do público. Já outros odeiam as duas obras exatamente por essa representação preconceituosa e a apresentação da Klu Klux Klan (grupo racista formado por supremacistas brancos). O que se sabe de fato é que não existe consenso entre os apreciadores, ou não, da obra. 

Clark Gable e Vivien Leigh: como os inesquecíveis Rhett Butler e Scarlett O'Hara
A Guerra de Secessão, ou a Guerra Civil, aconteceu nos Estados Unidos entre 1861 a 1865 com o Norte do País (conhecidos como ianques) e o Sul, os sulistas da história ...E o Vento Levou. O sul dependia dos escravos para manter seu modelo de agricultura, enquanto norte investia em comércios e, basicamente, queria expandir seu mercado consumidor, libertando os escravos. O fato de que o presidente eleito, Abraham Lincoln também era antiescravagista, também adicionou ao conflito.

Assim o Sul decidiu tentar se separar do Norte, criando um país separado, exatamente porque o Norte e o presidente estavam ameaçando seu modo de vida. A Guerra começou aí, com a vitória dos ianques.

A guerra foi brutal para os dois estados
Para entender ainda mais o frenesi sobre ...E o Vento Levou, é imprescindível entender um pouco da vida de sua criadora. ...E o Vento Levou (Gone With The Wind, 1939) foi concebido anos antes de sua estreia nos cinemas pela mente da jornalista Margaret Munnerlyn Mitchell, uma sulista de pedigree. Nascida em Atlanta, na Geórgia, Estados Unidos, seus pais eram Eugene Mitchell, um famoso advogado e diretor da Sociedade de História de Atlanta, e Maybelle Mitchell, uma sufragista (defensora dos direitos das mulheres) descendente de irlandeses.

A família era uma tradicional extensão dos costumes sulistas e Margaret (Peggy) crescera escutando histórias de seus parentes mais velhos sobre a Guerra Civil (ou da Secessão) e como eles foram fortes e corajosos - mesmo perdendo a luta. Ademais, já na faculdade, ela replicou esse racismo enraizado e se recusou a frequentar outra classe que tinha uma aluna negra, afirmando que deveria ter uma separação entre os brancos e negros.

Após perder seu noivo, Clifford Henry durante a Primeira Guerra Mundial e logo depois sua mãe, ela foi obrigada a voltar da faculdade para casa e cuidar de sua família, algo que não era sua ideia de futuro. Portanto ela começou a se envolver em inúmeras caridades de Atlanta e de acordo com o documentário Margaret Mitchell: American Rebel de 2016, e causava inúmeros escândalos em sua sociedade, igual à sua Scarlett, por ser uma mulher decidida, independente e à frente de seu tempo:
Eu quero ser famosa de alguma maneira. Uma atriz, uma escritora, soldado, bombeira - tudo pela emoção. 
Mitchell era uma das beldades de Atlanta, Georgia.
Mitchell se casou com Berrien Upshaw, aos 22 anos de idade - e ele não passava de um alcoólatra e agressivo. Diferente de outras esposas, ela teve que encontrar um trabalho no jornal Atlanta Journal Sunday Magazine para pagar as contas. Ela contou com a ajuda de seu padrinho de casamento John Marsh, extremamente devotado à ela, com quem ela se casaria em 1925. 

Porém logo no primeiro ano de casada, ela sofreu um sofreu um acidente na perna, por nenhum motivo aparente - que deveria ser consequência de uma artrite. Em casa e sem grandes aspirações, ela se demitiu do jornal e se entretinha com livros que seu marido pegava na biblioteca. John finalmente deu o pontapé inicial e pediu que ela escrevesse uma história autoral e Mitchell o fez.

Em 1935 ela deu os toques finais em ...E o Vento Levou e ganhou de seu amigo na editora Macmillan um contrato de publicação para sua história. Mudou o nome da protagonista de Pansy para Scarlett e sugeriu o icônico título da obra baseado em um poema de Ernest Dowson. ...E o Vento Levou foi publicado em 30 de junho de 1936 e foi um estrondoso sucesso - 5 mil cópias foram vendidas em um único dia e em seis meses, um milhão. 

Vivien Leigh, Clark Gable, Margaret Mitchell, David Selznick e Olivia de Havilland
Percebendo o potencial de sucesso que poderia ter em suas mãos, o produtor David O. Selznick, do estúdio Selznick International Pictures, ofereceu a Mitchell U$ 50 mil, a maior quantia já oferecida a um escritor na época, para obter os direitos da história e transformá-la em um filme. Ela o aceitou prontamente e assim começou a história de produzir um dos clássicos mais rentáveis da história de Hollywood. 

...E o Vento Levou (Gone With The Wind, 1939), como seu livro homônimo, conta a história de Scarlett O'Hara, uma espevitada moça que não liga para regras de decoro ou seu futuro, ela apenas quer ser desejada por todos, mas amada apenas pelo lânguido Ashley Wilkes. Tudo muda com a chegada da Guerra Civil no qual todos os homens sulistas se alistam e o mundo da jovem muda para sempre. Apesar da solidez de sua amada terra Tara, Scarlett tem ao seu lado a doce Melanie, que a jovem de descendência irlandesa odeia por ser casada com Wilkes. Em seu caminho, durante um curso de oito anos, ela se depara com o charmoso e bruto Rhett Butler, com quem ela tem uma relação tempestuosa. 

Mas como por trás de um homem tem uma mulher maior ainda, o livro The Making of Gone With The Wind Por Steve Wilson conta que foi a agente de talentos Kay Brown que em maio de 1936 levou à atenção do produtor Selznick a novela ...E o Vento Levou. Ela lhe escreveu um telegrama excitante, afirmando que o livro era poderoso e que outros agentes já estavam de olho em comprar os direitos de Mitchell. Selznick enrolou por mais de um mês e as ofertas de compra que eram de U$100 mil abaixaram para U$ 50-60 mil. Finalmente Kay Brown conseguiu fechar o acordo pelo valor já mencionado com a agente de Mitchell, Annie Laurie Williams, em 30 de julho de 1936, passando na frente de ofertas da MGM e Darryl Zanuck. 
Eu pensei mais sobre ...E o Vento Levou e quanto mais eu penso, mais sei que tem um ótimo filme nele. - telegrama de Selznick para Kay Brown, 1936.
Kay com Douglas Fairbanks Jr. e Jock Whtiney revelando a compra dos direitos da obra, em Londres 
Selznick tinha total consciência, no entanto, que ele demoraria para produzir ...E o Vento Levou pois condensar um livro de mais de mil páginas em uma adaptação fiel lhe tomaria tempo, foco e muito dinheiro. Assim, permitiu que seu chefe de publicidade, Russell Birdwell, plantasse histórias nos jornais e revistas da época para manter a curiosidade e atenção do público. Mal ele sabia que a "febre Scarlett" não era tão fácil de se esquecer!

No começo, o produtor tinha em mente o ator Ronald Colman para ser o tão ilustre Rhett Butler, por ela já ser um contratado em sua produtora. Outras atrizes como Katharine Hepburn (que desesperadamente queria o papel) e Norma Shearer foram anunciadas como certas de que interpretariam Scarlett O'Hara. A preferência da própria autora, Margaret Mitchell, segundo o livro The Complete Gone With the Wind Trivia Book: The Movie and More por Pauline Bartel, era que Miriam Hopkins fosse sua destemida protagonista no filme. Para Rhett, ela queria Charles Boyer - se ele não tivesse aquele sotaque francês.

Inúmeros nomes surgiram na boca e nos telegramas de Selznick para serem O'Hara como Bette Davis, Margaret Sullavan, Tallulah Bankhead, Jean Arthur, Susan Hayward, Joan Bennett, Constance Bennett, Joan Crawford, Luise Rainer e Claudette Colbert, Lana Turner e até Lucille Ball. Em algum momento foi anunciado até a escalação de Paulette Goddard como certeira - ela não foi escalada porque não podia provar que era legalmente casada com Charlie Chaplin.


Mas Selznick sabia que ele não poderia cortar alguma cena favorita dos fãs ou diminuir em tamanho o épico de Mitchell. Para ganhar tempo no que seria uma longa produção, ele decidiu lançar em dezembro de 1936  um concurso no qual qualquer pessoa poderia se candidatar para o papel de Scarlett e dos outros personagens também. Uma busca nacional para a perfeita protagonista que lhe garantiria publicidade de graça e manteria o assunto fresco na mente de todos, além de criar uma nova estrela em seu mérito (sem descartar, no entanto, atrizes já conhecidas). Um golpe de gênio!

Mas a busca, é claro, não produziu nenhuma Scarlett, Rhett ou Melanie Wilkes. O máximo que Kay Brown encontrou foram três moças sulistas promissoras, mas para papeis extremamente coadjuvantes. Elas eram Alicia Rhett que foi escalada como a rival de Scarlett, India Wilkes, a jovem Marcella Martin como Cathleen Calvert e Mary ’Bebe’ Anderson como Maybelle Merriwether.

Kay Brown entrevistando duas moças que queriam o papel de Scarlett 
Após dois anos (isso mesmo!), dois anos de busca, e mais de U$92 mil gastos, além de 454 mil metros de filme preto e branco e 39 mil em cores, Selznick estava satisfeito com a publicidade, mas preocupado em encontrar sua Scarlett. Isso porque o papel de Rhett Butler, apesar de outros concorrentes como Gary Cooper (que já mencionamos aqui), Frederic March e Errol Flynn (que viria da Warner Bros como um pacote com Bette Davis - algo que ela se recusou por não considerar o ator bom o suficiente), o público clamava por Clark Gable como Rhett e Selznick sabia que não poderia decepcioná-los.

Um contratado do estúdio MGM, Clark Gable apenas pode fazer parte do filme depois de um duro acordo entre Louis B. Mayer, chefe do seu estúdio, e Selznick. Gable seria emprestado com as seguintes condições: a MGM teria o direito exclusivo de distribuição do filme, mas 50% dos lucros. A companhia-irmã da MGM, Loew's Inc, teria direto de 15% dos lucros por cuidar da divisão do longa-metragem. Em troca, Selznick ganharia de Mayer (seu sogro!) U$1.25 milhões do orçamento total de U$ 2.5 milhões da produção - que aumentaria e muito de valor.

O que eles não contavam era que Clark não estava nada interessado no papel, assim como Gary Cooper. Ele não achava que poderia alcançar as expectativas dos fãs e não se sentia confortável em fazer um papel mais "emotivo". O que lhe fez mudar de ideia foi o divórcio com Ria Gable, que depois de muito tempo negando que o romance dele com Carole Lombard era sério, pediu uma quantia exorbitante na separação. Louis B. Mayer lhe ofereceu, então, um generoso bônus para interpretar Rhett e ele não teve escolha a não ser assinar seu contrato com Selznick em agosto de 1938. Por 70 dias de trabalho, Clark ganharia U$120 mil, sem contar o bônus.

Clark, Louis B.Mayer, David Selznick e seu agente na assinatura do contrato de ...E o Vento Levou
Para o papel de Melanie Hamilton Wilkes, nem sempre Olivia de Havilland (a única do elenco que ainda está viva) foi a favorita. Outras atrizes como Elizabeth Allan, Andrea Leeds, Anne Shirley, Dorothy Jordan e Frances Dee tinham feito audição para o papel, mas Havilland estava determinada em conseguir Melanie, de uma maneira ou outra.
O papel era justamente o que eu queria, o que eu precisava. - Olivia em entrevista ao site EW.
Focada em conseguir o papel, para sair do ostracismo de filmes de "espada e capa", Olivia conseguiu uma audição com Selznick através de George Cukor, o primeiro diretor do filme, e seu amigo pessoal - outra versão afirma que Joan Fontaine, sua irmã, testou para o papel de Melanie, mas julgava Olivia mais adequada e a indicou.

George estava presente e interpretou Scarlett enquanto Olivia interpretava o papel que tanto almejava. A atriz conseguiu o papel na hora, mas não antes de passar por um momento constrangedor com David. Ele lhe mostrou as audições de outras seis atrizes para Melanie e perguntou o que ela achava delas. Segundo sua entrevista para o New York Times, ela as elogiou mas não queria ser "muito convincente".

A real batalha de Havilland viria com Jack Warner, chefe do estúdio Warner Brothers, do qual ela era contratada. Ela pediu que ele a liberasse para interpretar Melanie, mas ganhou um "não" bem na cara. Assim ela decidiu ir por outra rota: marcou um encontro com Ann Page Warner, esposa de Jack. Na conversa, Olivia enumerou os motivos pelos quais queria fazer parte de ...E o Vento Levou e horas depois Selznick lhe ligou garantindo o papel. Olivia, agradecida, afirmou: "Foi através dela que Jack concordou. Foi a Ann que conseguiu."

Em troca, Jack ganhou de Selznick o ator James Stewart para atuar em um de seus filmes e Ingrid Bergman para Casablanca (idem, 1942).

Vivien Leigh, Olivia de Havilland e Leslie Howard assinando seus contratos 
Para Leslie Howard, que ganhou o papel do Ashley Wilkes, a oportunidade era um desgosto para ele, que já estava cansado de interpretar papeis fracos no cinema. Selznick, no entanto, tinha total confiança que apesar do ator ter 45 anos de idade, ele era perfeito para o papel. Com a recusa dele, o produtor testou outros como Melvyn Douglas, Ray Milland, Jeffrey Lynn, Vincent Price, Franchot Tone (então marido de Joan Crawford) e até Humphrey Bogart.  Selznick finalmente o convenceu dando a chance de Howard ser produtor associado e estrelar em seu próximo filme, Intermezzo (idem, 1939) ao lado de Ingrid Bergman. O ator prontamente aceitou a solução.

Apesar dos três grandes protagonistas estarem garantidos, Kay Brown e David Selznick ainda buscavam sua perfeita Scarlett. No final de 1938, os dois diminuíram a lista para três atrizes: Paulette Goddard, Joan Bennett e Jean Arthur. O que elas não contavam era com a determinação de uma certa britânica chamada Vivien Leigh que jurou conseguir o papel de Scarlett O'Hara.

Em dezembro de 1938, Selznick tinha que começar a gravar ...E o Vento Levou (Gone With The Wind, 1939) de uma maneira ou outra. Assim, para ganhar tempo enquanto se decidia pelas três atrizes restantes, ele iniciou as gravações em 10 de dezembro de 1938, gravando o poderoso fogo que derrubou Atlanta - cenas que não precisavam de Scarlett. Foi lá que ele conheceu pela primeira vez Vivien Leigh ao lado de Laurence Olivier, seu então namorado, que gravava O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, 1939) com Merle Oberon. Myron Selznick teria a apresentando no set de filmagens para o irmão, afirmando: "Conheça sua Scarlett O'Hara".
As chamas estavam iluminando o seu rosto. Eu dei uma boa olhada e sabia que ela era a opção certa, pelo menos na questão de aparência, como eu achava que Scarlett deveria ser. Eu nunca vou me recuperar daquele primeiro encontro - Selznick, 1939.


De acordo com o livro The Complete Gone With the Wind Trivia Book: The Movie and More por Pauline Bartel, a verdade da escalação de Vivien teria sido outra: Selznick considerou Vivien desde a primeira vez que ela enviou fotos para o produtor buscando o papel de Scarlett em 1937. Temendo as reações negativas de escalar uma inglesa para o papel de uma sulista, ele teria desenvolvido o plano com cuidado, reunindo-se com Leigh nas Bermudas para combinar a história que diriam a imprensa e as condições do contrato. Depois de plantar boas histórias sobre Vivien, eles estavam certos de que podiam controlar a reação do público.

Vivien Leigh, oficialmente, fez seus testes como Scarlett em 20 e 21 de dezembro de 1938, treinando seu sotaque sulista e trabalhando com George Cukor, e assinou seu contrato, ao lado de Olivia de Havilland e Leslie Howard em 13 de janeiro de 1939. Vivien trabalharia 125 dias, ganhando o valor de U$25 mil, mostrando como a disparidade de salários entre homens e mulheres ainda é atual.


Hattie McDaniel, que foi a primeira negra a ganhar um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel como Mammy no filme, teve que lutar para conseguir ser escalada. Para Mammie, outras atrizes estavam sendo cotadas como reconta o livro Olivia de Havilland and the Golden Age of Hollywood Por Ellis Amburn, assim como Louise Beavers (da primeira versão de Imitação da Vida de 1934), Etta McDaniel, Ruby Dandridge, Elizabeth McDuffie (empregada da primeira dama Eleanor Roosevelt) e Hattie Noel, a principal concorrente de McDaniel.

A atriz conseguiu a personagem, de acordo com Hattie: The Life of Hattie McDaniel por Carlton Jackson, ao aparecer na audição para Selznick vestida como uma verdadeira "Mammy do antigo Sul". Ela foi testada em 6 de dezembro de 1938 e teve o apoio de astros como Bing Crosby (que mandou uma carta para Selznick a indicando) e Clark Gable (que já havia trabalhado com ela em outros filmes). Ela assinou seu contrato, oficialmente, em 27 de janeiro de 1939 e começaria a trabalhar no primeiro dia de fevereiro, ganhando por semana, U$ 450.

Sobre sua personagem em ...E o Vento Levou (Gone With the Wind, 1939), Hattie afirmou: 
Eu tentei torná-la (Mammy) uma personagem viva e que respirava...para glorificar a feminilidade negra. Não o novo e moderno tipo de mulher negra que toma chá e vai para shows com minks e casacos de pelo, mas o tipo de negra do período que nos deu Harriet Tubman e Sojourner Truth. 
Butterfly McQueen e Hattie McDaniel nos bastidores de ...E o Vento Levou (Gone With the Wind, 1939)
A escalação de Butterfly McQueen, que interpretou a divertida Prissy, não foi nada diferente de sua colega Hattie. Ela chamou atenção de Selznick graças a Kay Brown que a viu em uma peça intitulada What a Life! (1938) e a chamou para uma audição no filme.

Em telegrama para o produtor, via o livro The Making of Gone With The Wind, ela afirmou:
Ela tem uma voz muito peculiar que é bem fina e hilária. Talvez ela seja muito cômica para o papel. 
Porém quando Selzsnick visualizou o teste de Butterfly (cujo apelido Butterfly veio de quando ela dançou no Butterfly Balletin em 1935), ele estava ganho e nunca mais considerou outra pessoa para o papel. Apesar de ter ficado famosa por interpretar Prissy, Butterfly não sentia a mesma gratidão pelo filme que Hattie sentia.

Em entrevista a revista JET Magazine, ela afirmou sobre Prissy:
Eu odiei. O papel de Prissy era tão antiquado. Mas agora eu estou feliz de ter feito o filme porque eu consigo sobreviver dele. Você não estaria aqui se não fosse por Prissy. 
A família O'Hara: Gerald, Scarlett, Ellen, Suellen e Carren
Já os papeis secundários, como a família de Scarlett, foram mais fáceis de serem escalados. Thomas Mitchell foi o único considerado para o papel de Gerald, o patriarca da família. Barbara O'Neil foi escalada como a mãe Ellen depois das recusas de Lilian Gish e Cornelia Otis Skinner. O personagem de Jonas Wilkerson, por exemplo, foi substituído de Robert Glecker para Victor Jory, após a morte do primeiro.

Para Suellen, Selznick ficou muito interessado em Evelyn Keyes para o papel, mesmo que ela estivesse sob contrato com Cecil B. Demille. Segundo o livro Scarlett, Rhett, and a cast of thousands: the filming of Gone with the wind por Roland Flamini, quando ela foi fazer sua audição na sala de Selznick, ele tentou assediá-la. Felizmente ela conseguiu escapar e certa de que o papel era uma chance única, aceitou fazer parte do filme.

Por fim, a última da família O'Hara era a doce Carren, interpretada por Ann Rutherford. A escolha ideal de Selznick era Judy Garland, mas como ela estava muito ocupada estrelando O Mágico de Oz (Wizard of Oz, 1939), Ann foi a escolhida. Ela quase não conseguiu o papel, mas chorou na frente de Louis B. Mayer, seu chefe, o que fez com que ela fosse emprestada para o produtor.

Os gêmeos Tarlenton, que aparecem logo na cena inicial de ...E o Vento Levou (Gone With The Wind, 1939) tem um super ator entre eles: George Reeves, que estrelou a série As Aventuras de Superman (1952-1958). Ele interpretou Stuart Tarlenton e foi descoberto por Max Arnow, um dos agentes de talento de Selznick.

Vivien Leigh e seus dois pretendentes: os gêmeos Tarlenton
Já o ator que fez Bret Tarlenton foi descoberto por acaso, ao acompanhar sua prima para uma audição do papel de Suellen O'Hara. Herman Frederick Crane chamou atenção por seu sotaque sulista suave e ganhou um contrato inicial com Selznick. Ambos foram creditados com o personagem um do outro na abertura do filme, por engano.

Belle Waitling, a dama de Rhett Butler, teria quase sido oferecida para Tallulah Bankhead, mas como ela havia sido descartada como Scarlett, Selznick resolveu nem lhe perguntar sobre a oferta. Ele ainda testou Joan Blondell, Loretta Young e Gladys George, mas acabou escolhendo Ona Munson.

Curiosamente, o filme O Mágico de Oz (Wizard of Oz, 1939) se cruzou novamente com ...E o Vento Levou (Gone With the Wind, 1939) com a escalação da atriz que interpretaria a tia Pittypat Hamilton. Billie Burke, que posteriormente ganhou o papel de Glinda em O Mágico de Oz, queria interpretar de qualquer jeito a tia intrometida da história. Para sua audição, ela investiu em maquiagem e preenchimentos. Infelizmente ela não convenceu e Laurie Hope Crews recebeu o papel.

Oscar Polk como o servente Pork dos O'Hara 
Os atores negros Oscar Polk e Eddie Anderson conseguiram, respectivamente, os papeis de Pork e Peter e o primeiro chegou a defender sua escolha de interpretar um escravo em ...E o Vento Levou, afirmando na matéria Oscar Polk Defends Gone With the Wind:
A raça negra deveria ficar orgulhosa de ter se erguido tão alto do status da escravidão. 
Apesar de suas tentativas de apaziguar as pessoas, especialmente os negros, que se sentiam ultrajados por sua representação do filme, para ...E o Vento Levou (Gone With the Wind, 1939) as confusões estavam apenas começando.

Selznick aprenderia do modo difícil todos os percalços de gravar um filme épico e seus atores, e diretores, também sofreriam no processo. Com o sucesso de ....E o Vento Levou (Gone With The Wind, 1939) que estreou em 15 de dezembro de 1939, ninguém do público fazia ideia do suor, sangue e lágrimas que custou para cada um de seus participantes.

Se a escalação dos personagens já tinha sido um processo árduo, mal se imaginava que o verdadeiro desafio ainda estava por vir.


Para melhor compreensão e leitura, dividimos nosso especial de ...E o Vento Levou (Gone With the Wind, 1939) em duas partes. Clique aqui e acesse a continuação, uma matéria apenas sobre as filmagens da obra!

Te esperamos por lá :)

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