Mistérios de Hollywood

Mistérios de Hollywood

No Brasil

No Brasil

Entrevistas

Entrevistas

Roger Moore e as gravações de 007 no Brasil


A data era 3 de janeiro de 1979. Roger Moore, o atual 007, estava previsto para desembarcar no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, o Galeão, ao lado da esposa, a italiana Luisa Mattioli, e o diretor Lewis Gilbert. A ocasião? Gravar cenas de um inédito filme do mais amado espião do mundo: 007 Contra o Foguete da Morte (Moonraker, 1979). 

Mas a chegada dele ao Brasil já começou difícil, quase como uma premonição do que viria a seguir: o ator e seus companheiros de viagem foram impedidos de decolar no Aeroporto Charles De Gaulle, em Paris - naquele mesmo dia - por conta de excesso de gelo na pista. De acordo com o Jornal do Brasil, com o atraso da chegada, Moore já estava conhecido como "o espião que não veio do frio". 

A viagem foi adiada e eles só chegaram ao Rio em 7 de janeiro de 1979. O motivo do atraso logo foi revelado pelo Roger assim que desembarcou: cálculo renal. 

Roger Moore no Brasil                            O Globo/ Reprodução   

Assim que chegou, Roger Moore já começou a gravar para o filme diretamente do Aeroporto. A primeira cena: 007 desembarcando do Concorde e caminhando para o seu Rolls Royce, cedido por Alfredo Saad. Segundo o Jornal do Brasil, para essa cena, o ator estava de terno branco, lenço bege, mala e foi imediatamente maquiado para não perder a iluminação natural para a cena. 

Além disso, na pista havia um pequeno estúdio montado com as cadeiras de diretor, as máquinas, a garota do script, os engenheiros de som e figurantes. Por conta de Roger não ter expelido a pedra nos rins, foi colocado um serviço de socorro urgente no Aeroporto, mas que o ator não precisou. A cena foi repetida diversas vezes enquanto Roger conversava com os figurantes e o diretor, de forma leve e simpática. A esposa dele, Luisa, assim que desembarcou foi direto para o Hotel Copacabana Palace. 

Roger começou a gravar assim que pisou no Rio 

Assim que terminou de gravar as cenas, Roger foi direto para o hotel ficar com a esposa. Jerry Jerroue, responsável pela publicidade do filme, explicou um pouco mais sobre as gravações que ocorreram no Brasil: 

Teremos, no total, 12 dias de trabalho no Brasil. Temos várias sequências já prontas como as do Carnaval, quando filmamos os desfiles das escolas de samba. A sequência do Pão de Açúcar, a briga verdadeira, não será rodada aqui. É provável alguns enxertos com filmagens em estúdio na Europa. O total de pessoas foram 250, se bem que alguns brasileiros foram contratados. 

Roger Moore no praia do Leme e no Aeroporto do Rio                   Manchete

A seleção dos figurantes brasileiros foi feito pela agência Marza, com exceção da Adele Fátima que foi escolhida pelo produtor Albert Broccoli - durante um desfile de samba no Rio. De acordo com Marza, não foi fácil escolher os figurantes pois precisavam de "pessoas com a pele branca, tipo europeu" e por isso algumas pessoas escolhidas para a cena do Concorde foram Ana Gasper, esposa do diretor da então Light, e o cantor Almir Saint Clair. 

 Entre as gravações, Roger e sua esposa participaram de cocktails da alta sociedade brasileira, conforme o colunista Sérgio Cavalcanti, da Up Date do jornal O Fluminense, contava em sua coluna. Eles se reuniram com Bruno de Lacerda, da empresa Pelajo e outros atores e personalidades da high society. Nos dias 9, 10 e 11, as escolas de samba Mangueira e Beija-Flor gravaram as cenas de Carnaval em ruas próximas à praça Mauá. 

Roger e Lois no Pão de Açúcar 

No dia 13 de janeiro, Roger gravava ao lado de Lois Chilles, que interpretou sua namorada no longa, no Pão de Açúcar. A cena era simples: ele luta dentro do bondinho com seu inimigo e, depois, bula para deixar que o bondinho exploda com Mandíbulas dentro. Os dublês dos atores, Martin Grace e Dorothy Ford, foi quem fizeram esse trabalho. 

Desde segunda-feira (7), quando Roger chegou ao Brasil, o Pão de Açúcar ficou fechado para acesso ao público até as 14h. De acordo com o Jornal Brasil, no Morro da Urca havia um verdadeiro arsenal de filmagens com uma equipe de 90 pessoas. Apesar de bastante cansado, Roger foi extremamente simpático enquanto Lois foi descrita como um tanto mais arredia. As próximas cenas a serem gravadas seriam a do Carnaval e da Foz do Iguaçu. 

No dia 15 de janeiro, no entanto, Roger decidiu receber toda a equipe do filme para um cocktail no Hotel Copacabana Palace. Ele se reuniu com astros brasileiros, como Glória Menezes e Tarcísio Meira, o então prefeito do Rio de Janeiro, Marcos Tamoyo, e até com Adele Fátima - antes dos rumores de ciúmes da esposa com a brasileira. 

À esquerda, Adele com Roger e Luisa; à direita Roger com Gloria e Tarcísio

As gravações continuaram a todo o vapor na praia do Leme, Largo do Boticário e em outros lugares do Rio de Janeiro. E é aqui que chegamos na polêmica e breve participação de Adele Fátima como Bond Girl - ela teria sido a primeira Bond Girl brasileira, se sua participação não tivesse sido cortada. 

De acordo com rumores da época, os dois teriam uma cena de sexo fulmegante, mas com os boatos de que os dois estariam se envolvendo, Luisa - esposa de Roger - exigiu que a cena fosse cortada. A versão oficial, no entanto, foi que as cenas envolvendo Adele não tinham uma atuação convincente. Ela, no entanto, chegou a aparecer no trailer do filme. 

Adele e Roger Moore teriam uma cena infame de sexo no longa 

Em entrevista para Conversa com Bial, em 2020, Adele contou mais sobre a experiência:

Falam que eu peguei. Ele gostou muito de mim, fizemos a capa, o cartaz e o filme. A imprensa não gostou da história de ser eu, de preconceito, infelizmente. Começaram falando que eu tinha um romance com Roger Moore e pós-filme iríamos assumir. Ele era um grande gentlemen, ele conversou e simpatizou comigo, mas foi só isso. Deixei de viajar o mundo como Bond Girl brasileira. A esposa acreditou. Quando ele estava presidente da UNICEF, ele veio no Copacabana Palace, eles me convidaram e ela me pediu desculpa. Disse que era uma pena que o Brasil não soube me valorizar e que, se eu quisesse, me levaria a Inglaterra, mas eu já estava casada. 

Os boatos contam que Luisa teria pedido que todas as cenas com Adele fossem excluídas e ela foi substituída pela atriz Emily Bolton, que interpreta Manuela. 

Adele e Roger Moore juntos em festa no Rio

Em 22 de janeiro, Roger e a esposa foram convidados para o Hippopotamus, no Rio, para uma festa dada por Luis Carta e Ricardo Amaral e assim passaram entre eventos a gravações do filme. Uma das cenas de amor de Bond, inclusive, foi gravada no quarto dos milionários Yara e Roberto Andrade. 

Após as gravações no Rio de Janeiro, Roger e a equipe foram para Foz do Iguaçu, no Paraná, em 28 de janeiro de 1979. A esposa do ator, por sua vez, resolveu voltar para a Europa deixando Roger sozinha no Paraná. As gravações ocorreram às margens das Cataratas de Iguaçu. 

Roger Moore em Foz do Iguaçu                               Correio de Notícias 

O único brasileiro que atuou, de fato, no filme 007 Contra o Foguete da Morte (Moonraker, 1979) foi Carlos Kurt como um segurança no aeroporto do Galeão. Roger foi embora do Brasil assim que as gravações se encerraram, no final de janeiro daquele ano. 

A sua partida não foi tão comentada pelos jornais, porém de acordo com O Globo, antes do ator partir para Foz do Iguaçu, houve uma recepção no Hotel Intercontinental, em São Conrado, no Rio de Janeiro. Ao que tudo indica, do Paraná, Roger e a equipe foram diretamente para a Europa. 

007 Contra o Foguete da Morte (Moonraker, 1979) estreou em 5 de setembro de 1979 e, apesar das fortes críticas, foi um dos mais rentáveis filmes de James Bond. E essa não foi a única vez que Roger voltaria ao Brasil. Roger Moore voltou ao Brasil em 1991, como Embaixador da Boa Vontade da UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e visitou Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará e Brasília. 

Mas essa visita merece uma matéria solo, que logo será feita!





5 curiosidades sobre o filme 'Ainda Estou Aqui'

*Matéria atualizada com novas informações em 20 de maio de 2026. 

O filme 'Ainda Estou Aqui' se tornou um sucesso de bilheteria - por conta da história e, é claro, pela indicação ao Oscar de Melhor Atriz de Fernanda Torres, que se tornou a segunda brasileira a ter essa honra: a primeira foi sua mãe, Fernanda Montenegro - que também atua na película. 

A obra conta a história do engenheiro e deputado federal Rubens Paiva, no filme vivido por Selton Mello, que é levado pelos militares nos anos 1970, em plena ditadura militar. Após o desaparecimento do marido, Eunice, papel de Fernanda Torres, sai em busca de respostas e se torna uma grande ativista dos Direitos Humanos. 

O poder do filme 'Ainda Estou Aqui'

Para enaltecer o poder de 'Ainda Estou Aqui', nós da Caixa de Sucessos, listamos cinco curiosidades que você, talvez, ainda não sabia sobre a obra. Vamos lá! 

1. Fernanda Torres não foi a primeira opção para viver Eunice

Fernanda Torres está esplêndida no filme 'Ainda Estou Aqui' e é praticamente impossível pensar nesta obra - e todo o peso que ela traz - sem ela, correto? Mas o diretor Walter Salles - que também dirigiu Central do Brasil (1998) - queria a atriz Mariana Lima como a protagonista. 

Em 2021, quando o filme já estava em desenvolvimento, Mariana forneceu uma entrevista ao site Veja Rio falando sobre a importância do papel: "É urgente recuperarmos nossa história, para que a gente tenha uma visão do horror do presente". 

Mariana seria a primeira escolha para o papel de Eunice

Walter Salles, em entrevista para o site Deadline em 2021, foi só elogios para a artista, afirmando que pensou o papel especialmente para ela: "Já falamos sobre colaboração, mas esperei para encontrar o papel que poderia realmente se beneficiar de seu talento extraordinário para dar à luz esse personagem. (...)Pensei nela desde o início pelo seu talento único e pela economia que tem para transmitir o núcleo emocional de uma personagem e de uma história. [Eunice Paiva] Teve que construir uma fortaleza interna para sobreviver, mas dava para sentir o trauma que ela passou". 

É bem plausível que Mariana saiu do filme por conta de impedimento na agenda, uma vez que o filme começou a ser gravado em junho de 2023. Fernanda, em entrevista para o jornal O Globo, também admitiu que não foi a primeira opção de Walter. 

Mariana, após o sucesso da obra, se pronunciou em entrevista para o jornal O Globo, em 2024, contando a verdadeira história: "Cheguei a ver fotos, estudar um pouquinho. Mas aí veio esse meu processo (Mariana teve um colapso nervoso que a deixou "fora da vida" durante dois anos), Walter achou que eu não ia dar conta. E, realmente, eu não ia". A atriz, até então, ainda não tinha assistido ao filme. 

Ela ainda deseja muito colaborar com Walter no futuro. 

2. Maeve Jinkings foi escolha pessoal de Walter Salles para viver Dalva Gasparian

A atriz Maeve Jinkings, que já estrelou filmes como Som ao Redor (2012) e Pédágio (2023), foi escolhida a dedo por Walter Salles para a participação especial no filme Ainda Estou Aqui (2024). Ela interpreta Dalva Gasparian - grande amiga dos Paiva - e fundadora da livraria Argumento.

A livraria Argumento no Rio de Janeiro foi criada apenas em 1978, quando Rubens já havia sido morto pelos militares durante a Ditadura Militar. A decisão de incluir a livraria no filme foi por conta de sua importância histórico-cultural e oposição ao regime da época - além disso, Dalva e o marido, Fernando, eram muito próximos de Eunice e Rubens. 

Livraria Argumento foi fundada e continua (re)xistindo no Rio de Janeiro

Em entrevista ao jornal Estado de Minas, o filho deles, Marcus, explicou a inclusão da livraria na história:

No retorno ao Brasil, meus pais iniciaram uma série de empreendimentos culturais voltados para o retorno da democracia. Editaram o semanário Opinião, compraram a editora Paz e Terra, lançaram a revista Argumento que acabou dando o nome para a livraria. Minha mãe, Dalva, interpretada no filme por Maeve Jinkings, esteve sempre ao lado do meu pai, assim como a Tia Eunice sempre apoiou o Tio Rubens.

A própria Maeve vibrou com a oportunidade de interpretar Dalva, afirmando ao Jornal O Globo: "O Waltinho (Walter Salles, diretor) me chamou para fazer uma participação especial. Durante a ditadura, a livraria foi uma referência não só do ponto de vista cultural, mas também um foco de resistência política. A Dalva e o marido dela, Fernando, tiveram uma importância política muito grande na resistência à ditadura, e a livraria Argumento foi uma das dimensões dessa resistência". 

3. Selton Mello e Walter Salles são amigos dos filhos de Rubens e Eunice Paiva

Selton Mello foi escalado para viver Rubens Paiva no filme 'Ainda Estou Aqui (2024)' e surpreendeu seu amigo, Marcelo Paiva. O Marcelo é autor do livro homônimo que deu origem ao filme, além de ser filho do ex-deputado morto pela ditadura militar. 

Os dois são amigos de anos e, em entrevista para a coletiva de imprensa no Brasil, Selton admitiu: "Nunca imaginei que fosse fazer o pai do Marcelo, sou amigo dele há muitos anos. Eu tinha fotos do Rubens e ouvi coisas sobre ele do Marcelo, das irmãs e dos amigos para me preparar para o trabalho". Apesar disso, ele preferiu não ver vídeos e nem tentar imitar os trejeitos de Rubens, para tentar capturar a essência do engenheiro e não imitá-lo somente. 

Marcelo, Fernanda, Walter e Selton 

Walter Salles também é amigo de anos da família Rubens Paiva e, em bate-papo com a revista Exame, diz que conviveu com eles na casa do Rio de Janeiro - que estava sempre de portas abertas: "Aquela casa é um personagem. Uma das minhas lembranças mais fortes de adolescência é de ver ela com as portas e janelas sempre abertas, onde turmas de diferentes idades se encontravam. Se no começo essa convivência com a família é brilhante, iluminada e calorosa, com filtro amarelado, depois que o Rubens é levado, tudo fica mais escuro e sóbrio". 

4. Marcelo Paiva não vê 'Ainda Estou Aqui' como série

Após o sucesso do filme 'Ainda Estou Aqui' - com cinemas esgotados e quase 1 milhão de pessoas assistindo no Brasil - começou um burburinho de que o livro de Marcelo poderia se tornar também uma série de televisão, com apoio do Globoplay. 

A confusão começou após uma suposta fala de Marcelo, de que existiria uma versão de mais de 3 horas do longa e, por isso, o próximo passo seria adaptar para a televisão. Nas redes sociais, ele deixou bem claro: "Não vai, não. Não foi isso que falei no SESC. Não existe versão de 3h20". 

Selton e Fernanda são grandes amigos 

Essa versão corresponde à visão de Selton Mello, que teve alguns problemas iniciais com Walter, já que tudo no filme foi pensado de forma milimétrica e sem espaço para improvisos. Em sua autobiografia 'Eu Me Lembro', Mello admite: "O processo não foi fácil. (...) Eu tenho dificuldade com ensaio. Eu gosto do... Não sei, eu gosto de uma coisa menos prevista. E esse filme foi muito ensaiado". 

5. A reconstituição da casa dos Paiva foi na Urca

O filme 'Ainda Estou Aqui' se passa, em sua maioria, na casa da família Paiva que, na vida real, era localizada na Avenida Delfim Moreira, nº 80 em Ipanema.  A casa, no entanto, já foi totalmente demolida e, para recriar o ambiente, foi escolhida uma casa no valor de R$14 milhões na Urca - bairro no Rio de Janeiro que ainda mantém algumas características dos anos 1970. 

Em entrevista ao site Deadline, Walter Salles diz que se sente emocionado toda vez que passa pela casa, já demolida e que agora deu lugar à um edifício: 

"Havia a oposição de uma casa aberta ao mundo, a uma casa completamente fechada. E depois houve algo também traumático em que se tornou um restaurante.  E então um dia a casa foi demolida e eu também vi isso. Moro no Rio e cada vez que caminho por aquela parte da cidade não posso deixar de voltar a essa realidade. Agora, há um imenso arranha-céu com apartamentos luxuosos onde antes ficava a casa chamado Juan-les-Pins". 

Casa verdadeira dos Rubens à esquerda

Walter sempre foi grande amigo de Ana Lúcia, filha do meio dos Paiva. A família toda é composta por Marcelo, Vera, Ana, Maria Eliana e Maria Beatriz. 

Esta é uma obra que vale muito a pena ver e se emocionar nos cinemas. Está esperando o quê? Só vai assistir! 

'A Substância' e o preço de ser uma mulher

Atenção: spoilers sobre A Substância (2024)

Nunca tive uma experiência tão intensa no cinema quando a vez que assisti 'A Substância (2024)'. Duas senhoras sentadas ao meu lado exclamaram "que filme horrível" e foram embora na metade da sessão. Mais para o fim do filme, algumas pessoas começaram a rir da insanidade do ato final, quando o Monstro ElisaSue começa a se arrumar para apresentar o especial de Ano Novo. Eu não achei graça e as risadas me incomodaram. 

Demi Moore em 'A Substância (2024)'

Quando cheguei em casa, comecei a pensar sobre a obra de Coraline Fargeat e conclui: o mundo é sempre mais cruel com as mulheres. Recentemente, por exemplo, alguns memes começaram a brincar sobre versões mais novas de cantoras que teriam tomado a substância como Cher, cuja versão seria a Dua Lipa, e Madonna com Sabrina Carpenter. Até aí, uma brincadeira inofensiva. 

A questão só piorou quando fizeram uma montagem com a foto de Madonna, claramente debilitada, ao lado de Sabrina com os dizeres: "Alguém não respeitou o equilíbrio" - dando a entender que Sabrina teria roubado a vitalidade da cantora. Por que nós, mulheres, não temos o direito de envelhecer? Ou melhor, por que só temos esse direito se continuarmos lindas e maravilhosas - o típico "você está ótima para sua idade" como acontece com a própria Demi Moore? 

Em 'A Substância (2024)', conhecemos Elisabeth Sparkles, vivida por Demi, uma grande atriz que ganhou até uma Calçada da Fama em Hollywood, nos Estados Unidos. Com o passar dos anos, ela tem seu próprio programa fitness - inspirada no sucesso de Jane Fonda nos anos 1980 - mas o seu chefe, papel de Dennis Quaid, quer tirá-la do ar por ser "velha demais". Deprimida, ela sofre um acidente de carro e o enfermeiro do Hospital no qual ela é atendida lhe oferece a substância, prometendo uma melhor versão dela mesma. 

Demi Moore no papel definidor de sua carreira 

Ao sair do hospital, ela encontra um antigo colega de classe que a paquera. A atriz, claramente, não sente nenhum tipo de atração por ele, apenas pega seu número para ser simpática e por se sentir sozinha. E não é isso que acontece nas vidas de muitas mulheres? Às vezes damos chances para pessoas pelas quais nem nos sentimos atraídas, apenas por medo de nos sentirmos sozinhas. 

E não se enganem: homens não dão chance para mulheres que não acham atraentes - e friso no "atraentes" e não "bonitas" porque há uma diferença. Nunca vi nenhum de meus amigos ou parentes homens ficarem com mulheres que não sentiam atração apenas porque elas eram fofas ou faziam favores e cuidavam bem deles: nós mulheres sim.

Por quê? Eu não tenho a resposta para esse questionamento, mas sei que é um problema inerente do que é ser mulher. Elisabeth passa por isso após marcar um encontro com esse colega e, por própria insegurança de sua aparência, se isolar novamente. Ela se arrumou toda para ver um homem que ela nem queria, por medo de ficar sozinha. E esse medo era tanto que ficou paralisada e permaneceu como começou: só. 

Margaret Qualley - em uma grande performance - dá vida a Sue

O sentimento de Elisa com sua própria aparência é de nojo, apesar de serem os homens de sua vida, em especial seu chefe, quem nos dão ranço. O enfermeiro que lhe indicou a substância reaparece no decorrer do filme, totalmente envelhecido, e pergunta como Elisabeth está lidando com a situação de sua versão mais nova, Sue, roubando toda a sua essência. Ou seja, ele sabia desde o começo que isso aconteceria. 

Ao invés de alertá-la ou nem indicá-la para a substância, ele fez questão de dissuadi-la. Elisabeth, desesperada do jeito que estava para parecer mais jovem e bela, provavelmente não escutaria nenhum aviso. Porém é curioso que um profissional da saúde - que deveria respeitar a integridade dos pacientes - foi quem lhe introduziu à substância. 

Essa situação não é fora da realidade: no Brasil, o número de busca por procedimentos estéticos aumentou em 390%, de acordo com estudo da Sociedade Brasileira de Dermatologia em 2023. São dentistas fazendo harmonização facial - com resultados desastrosos - são pseudoesteticistas fazendo peelings perigosos - como no caso da influencer Natalia Becker - ou até profissionais renomados indicando a inserção de PMMA - um componente plástico que pode causar infecção generalizada. 

Tudo em nome da beleza, assim como a própria Elisabeth fez. A estrela adquiriu uma substância sem saber a procedência, apenas com a garantia que seria uma melhor versão de si - e não se importou com as consequências e sim com o resultado imediato. Assim, surge Sue, vivida por Margaret Qualley: uma Elisabeth mais bonita, mais disposta, mais sexy, mais tudo do bom e do melhor. 

Sue: uma versão melhor de Elisabeth

Sue tem uma beleza irreal - tanto que é inatingível até para a atriz na vida real. Margaret teve que usar próteses nos seios e talvez até em outros lugares para alcançar esse patamar de sensualidade. A pele dela não tem manchas ou celulite e nem estrias. Além disso, Sue está sempre descansada e chamando a atenção por onde passa: a definição de perfeição. 

Jovem e com tantas possibilidades à sua frente, Sue se cansa de alternar os dias com Elisabeth e acaba a deixando trancada, em um quarto escuro, fingindo que ela não existe e apenas se aproveitando dela. Nenhuma das duas respeita o equilíbrio: Sue quer mais tempo para aproveitar sua juventude enquanto Elisabeth desperdiça seus dias, deprimida, por saber que nunca alcançará aquele nível de plenitude. Ambas esquecem que são uma só. 

Ao longo do filme, a personagem Sue ganha close ups de seu corpo - que ao assistir no cinema, confesso, me senti incomodada por ser um pouco demais - e uma cena de dança sensual, algo que Elisabeth sente que não poderia fazer em sua idade. Para ela, seu auge já passou e Sue é sua única chance. 

Dennis Quaid como o detestável chefe de Elisabeth e Sue 

Outro ponto que me chamou atenção no filme foi o fato de que Elisabeth, ao criar sua versão Sue, resolve voltar e provar para o seu ex-chefe que pode ser a melhor, ganhando o programa que, outrora era dela na emissora. Sue poderia ter começado seu próprio império fitness, abrir uma empresa e competir de frente com o ex-chefe, criando um ambiente mais inclusivo e empoderado. 

Mas como essa seria uma opção para ela se, nós mulheres, fomos ensinadas a agradar desde cedo? A seguir as regras que nos são impostas? É o caminho natural voltar para o que conhece e tentar satisfazer quem lhe fez mal, mesmo que isso coloque sua própria saúde mental e física em jogo. Porque a questão é mostrar para o outro que conseguimos.  

Essa realização nos faz perceber como o papel da mulher na sociedade é totalmente voltada para a satisfação masculina. Em nenhum momento do filme, Elisabeth ou Sue pensam no que querem fazer por elas - as duas buscam validação em todos os lugares, menos nelas mesmas. 

A preocupação com a beleza é tanta que ela se transforma no Monstro ElisaSue 

Outra cena que exemplifica bem a necessidade de agradar os outros, mesmo que nos faça mal, é quanto Sue sorri para seu chefe apenas porque ele a pede. Na ocasião, ela estava perdendo os dentes e enfrentando as consequências por não respeitar o equilíbrio. 

Muitas vezes nos pedem para sorrir ou fazer algo que não queremos e, nós, mulheres, aceitamos para não sermos rudes ou para não constranger a outra pessoa. E quanto à nossos sentimentos? A dificuldade de nos impormos no mundo torna a nossa vida mais solitária e bem menos satisfatória. 

Poderia escrever por horas sobre cada nuance deste filme e a genialidade de Coralie em fazer um body horror abordando o envelhecimento e a ditadura da beleza - dois caminhos que se repelem e se atraem ao longo da vida de uma mulher.

Um body horror de respeito

A mais atual trend das redes sociais é 'Magras, Magras, Magras', enaltecendo o corpo magro que fez tanto sucesso no final dos anos 2000. Se você é magra natural, ótimo, a questão aqui não é com você e sim como passamos da era da positividade corporal para o enaltecimento de apenas um padrão de corpo - e todas as alternativas, não saudáveis, para alcançá-lo.

O maior ensinamento de 'A Substância' é de que Elisabeth e Sue são "uma", ou seja, o que acontece com uma afeta a outra. Se você não se cuidar agora, enfrentará as consequências mais tarde. Se você não se aceitar agora, talvez seja tarde demais no futuro. Se ame, mesmo quando for muito difícil - é o melhor que pode oferecer ao seu "eu" daqui a 30, 40 anos. 

Se não, o preço que você pagará pode ser alto demais. 

Merle Oberon - a atriz que teve que esconder sua origem

Especialmente na antiga Hollywood era comum astros esconderem sua verdadeira origem para fazerem sucesso. Esse foi o caso com Dona Drake, atriz casada com William Travilla que era negra com pele mais clara e, por isso, fingia ser de origem mexicana para ter maiores oportunidades em Hollywood. 

Outros, apesar de não negarem sua origem, foram obrigados a fazer uma transformação total para se encaixar no status de beleza da época como Rita Hayworth e John Gavin. Por fim, ainda houve casos de astros que se recusaram a 'jogar o jogo' como o caso de Fredi Washington, uma mulher negra de pele mais clara, que estrelou o filme Imitação da Vida (1934). 

Merle Oberon, nascida Estelle Merle O'Brien Thompson, em 19 de fevereiro de 1911, faz parte do primeiro caso. A artista, que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por seu papel em O Anjo das Trevas (1936), escondeu durante toda sua vida o fato de ter origem indiana. 
Merle fez questão de esconder sua origem indiana

De acordo com a biografia 'Princess Merle: the romantic life of Merle Oberon', escrita por Charles Higham em 1983, a história de que a atriz teria nascido na Tasmânia, Austrália, em 12 de fevereiro de 1914, foi uma fabricação feita pelo produtor britânico Alexander Korda para esconder que ela havia, na verdade, nascido em Bombaim, na Índia. 

Para entender a vida de Merle, é necessário compreender a conjunção política da época na Índia. Os primeiros navios britânicos chegaram à Índia em 1612, fazendo a troca de produtos manufaturados por matérias-primas como seda, algodão e especiarias. Desde então, o império britânico passou a dominar, pouco a pouco, a região e a Índia passou a ser considerada a "joia mais cara da Coroa".

Focados em desenvolver o país, a colonização começou e britânicos passaram a morar na Índia. Para os europeus, os indianos e asiáticos eram "inferiores" e precisavam de ajuda serem civilizados. Assim, Merle assumir que tinha origem indiana seria acabar com sua carreira nos cinemas antes mesmo de começá-la. Vivien Leigh, por exemplo, nasceu na Índia, mas tinha como provar que ambos seus pais eram britânicos. 

Constance, mãe de Merle, a atriz ao centro, e a avó dela, Charlotte          Princess Merle

No livro de Charles Higham, ele consegue se conectar com Harry Shelby, primeiramente apresentado como primo de Merle. Nesta biografia, informa-se de que Charlotte - de origem Maori, povo nativo da Nova Zelândia, e Sri-Lanka - seria a mãe da artista, que nasceu fruto da união entre ela e o engenheiro mecânico Arthur Terrence O'Brien Thompson. A autobiografia informa que os dois eram um casal e estavam juntos quando Merle nasceu no Hospital St. George na Índia. 

Charles Higham ainda revelou que Arthur fazia avanços em Constance - da antiga união ilegítima de Charlotte com um plantador de chá irlandês, Henry Alfred Selby - e, por isso, Charlotte decidiu deixar a filha mais velha em Pune, uma cidade em Maharashtra, na Índia, no internato Taylor School, ao se mudar para Bombai em outubro de 1910. Merle nasceria meses depois. 

Arthur faleceu em 1914, ao servir pela Inglaterra na I Guerra Mundial, de pneumonia durante a Batalha de Somme. Pelo fato de Charlotte ser enfermeira, ela conseguiu trabalhos na área e continuou a manter sua família - até o retorno de Constance em 1916. Um ano depois, Constance conheceu Antoinette Soares, que a apresentou para o irmão, Alexander Soares. Ela se casou com ele em novembro de 1917 - na mesma época, Charlotte e Merle se mudaram para Calcutá, na Índia. 

Com Alexander, Constance teve os filhos Edna, Douglas, Harry e Stanislaus. 

Fotos de Merle na Índia durante seu tempo de escola                         Princess Merle

Vinte anos depois da publicação do livro, Maree Delofski lançou o documentário 'The Trouble With Merle (2002)', que mostra outra vertente do ocorrido. Desta vez, Harry Shelby exibe uma certidão de nascimento de Merle, no qual consta que ela seria filha de Constance e não de Charlotte. 

Aqui, há duas opções. A primeira: como o livro de Charles afirma que Arthur dava em cima de Constance, então com apenas 13 anos de idade, ele pode ser o pai biológico e, Charlotte, para evitar o escândalo, fingiu que Merle era sua filha - por ser enfermeira e ter conexões no St. George Hospital, essa farsa seria possível. Já a segunda é que Arthur assumiu a paternidade para ajudar Constance e não permitir que Merle fosse registrada sem o nome do pai. 

O documentário, inclusive, apresenta mais uma corrente sobre a origem de Merle. No caso, de que ela seria mesmo da Tasmânia, filha de Lottie Chintock, uma empregada de origem chinesa, que se envolveu com o chefe do hotel Weldborough, em Hobart, na Tasmânia, onde trabalhava, o J.W Thompson. Testemunhas afirmam que a jovem foi para a Índia ou após ser adotada por um militar ou após ser levada por uma família de sobrenome O'Brien sob a permissão de Lottie - essa versão, diferente da origem indiana, não tem comprovação alguma, apesar de uma das entrevistadas dizer ter como provar, porém nunca o faz durante o documentário. 

Merle em visita em Hobart, na Tasmânia, em 1978

Em entrevista para o jornal Okland Tribune, em 1935, Merle diz que ela nasceu em Hobart, na Tâsmania, quando seu pai e mãe visitavam a cunhada dela. O pai dela morreu três meses após seu nascimento e, assim, ela e a mãe continuaram a viver na Tâsmania até Merle completar sete anos de idade. 

Logo depois, a mãe de Oberon aceitou o convite de sua madrinha, Lady Monteith, para morarem com ela em Bombaim, na Índia. As duas ficaram ali por dois anos até morarem com o Capitão Bartley e sua esposa, tios da estrela, em Calcutá. Aos 17 anos, ela foi levada para os EUA pelo tio para uma longa viagem e nunca mais retornou. 

Oberon sempre manteve, em diversas entrevistas, que nasceu na Tasmânia, assim como Errol Flynn e, ao ser indagada, dizia que nunca lembrava com exatidão de sua vida na Austrália. Segundo a historiadora Halley Bond no podcast 'You Must Remember This, Passing for White: Merle Oberon', Merle, afetuosamente apelidada de Queenie, se focou em se 'passar como branca' na adolescência ao treinar seu sotaque britânico. Apesar disso, ela sofria racismo de suas colegas de escola por conta de sua verdadeira origem. 

Merle via o cinema como uma fuga de escape e começou a atuar na Amateur Dramatic Society, na Índia. Um então namorado dela a apresentou para o produtor Rex Ingram e, na França, ela atuou em alguns pequenos filmes até conseguir uma ponta no longa 'Os Amores de Henrique VIII' de Alexander Korda em 1933, como Ana Bolena. Ali, ela chamou atenção de Korda, seu futuro marido, que ajudaria a desenvolver sua carreira. 

Merle Oberon esteve apenas 15 minutos no filme

Para desenvolver sua imagem em Hollywood, Merle precisava mais do que apenas esconder sua origem - sua cor de pele precisava ser mais clara. Assim, ela começou a usar cremes clareadores, que continham a substância tóxica de mercúrio amonizado. Além disso, a maquiagem para sua pele ficar mais clara era usada constantemente. 

Merle Oberon era descrita pelos jornais como exótica, algo que era usado à favor dela. Uma coisa era ser exótica, outra coisa era ser indiana - isso limitaria seus papeis e a colocaria na obscuridade de Hollywood. Para compor ainda mais a farsa, Oberon pediu para pintar um quadro de Charlotte, sua avó, no qual ela era representada, erroneamente, como branca. Quando as duas viajavam juntas, Merle a apresentava como sua empregada e apenas falava hindi com ela. 


Em 1937, no auge de sua carreira após estrelar em 'O Morro dos Ventos Uivantes' e 'O Anjo das Trevas', ela sofreu um terrível acidente de carro. A artista ficou com uma cicatriz acima do olho esquerdo e outro na orelha. Além disso, o impacto de clarear sua pele com cremes tóxicos havia deixado o seu rosto com pontos corroídos e manchados. 

Lucien Ballard, diretor de cinematografia que conheceu a estrela no set de 'Ódio que Mata (1944)', foi responsável por criar uma luz especial, usando um lâmpada pequena, que diminuía a aparência de suas cicatrizes e deixava o tom de sua pele mais uniforme - a luz foi nomeada como 'Obie' em homenagem a atriz. 

Exemplo da 'Obie Light' em 'Ódio que Mata (1944)'

Merle se casou quatro vezes: com Korda até 1945, com Lucien até 1949 e depois com Bruno Pagliai, de 1957 a 1973, com quem adotou os filhos Francesca e Bruno Jr. Nessa época, segundo a historiadora Cassandra Pybus, da Tasmânia, no livro 'Till apples grow on an orange tree', a artista teria feito sua primeira visita no país nos anos 50 após a morte da suposta mãe, Lottie. Outros afirmam que teriam visto um carro preto entrando na casa de Lottie, que era de Oberon. 

Em 1965, durante a promoção de um filme, ela visitaria Hobart, a cidade no qual ela disse ter nascido. John Higham, jornalista do Sidney Morning Herald, demonstrou curiosidade tamanha sobre o nascimento de Merle que ela informou estar doente e voltou para sua mansão no México ao lado do marido, Bruno, e seus herdeiros. A mansão, inclusive, nomeada Ghalál, era completamente branca - talvez uma obsessão do próprio racismo estrutural de Oberon por associar branco com pureza? 
Merle fotografada em Ghálal em 1969, no México

Apenas em 1978, casada com seu último marido, Robert Wolders, que ela finalmente colocou os pés na cidade de Hobart, depois de sua presença no Sammy Awards em Sidney, na Austrália, em outubro daquele mesmo ano. Em entrevista para Charles Higham, o então marido dela diz que se arrependeu amargamente da ideia: 

Eu queria ver o lugar onde ela nasceu. Agora percebo como ela sofreu. Ela ficou cada vez mais nervosa e doente. Ela chorava muito devido a situação. Quando eu falei para irmos ao cemitério procurar a família dela, Merle se recusou. Ela estava tão triste - Robert Wolders. 

Merle e o marido Robert Wolders em 1978

Os dois ficaram no Wrest Point Hotel, em Hobart, e chegaram a viajar de carro para Port Arthur, ponto turístico. Na volta, ela apontou de modo vago para a Residência do Governador: "Foi lá onde dizem que eu nasci". Ainda de acordo com o livro 'In Tasmania: adventures at the end of the world' de Nicholas Shakespeare, ela permaneceu sem dar nenhuma entrevista - apenas abriu uma exceção sem falar sobre suas origens - e pediu privacidade.

Em 13 de outubro de 1978, em uma sexta-feira, ela julgou o Miss Tasmânia no Wrest Room Cabaret e deu o título para a meteorologista Sue Hickey. Três dias depois, ela esteve em uma recepção civil com o prefeito de Hobart e, antes de chegar na Prefeitura, teria confidenciado para Neil Coulson: "Eu acho que é uma má hora para revelar que não nasci na Tasmânia, nasci na Índia". 

Ao chegar na Prefeitura e assinar o livro de recepção dando seu endereço como "Tasmânia e Malibu", Merle desmaiou. Durante seu discurso na cerimônia, ao falar sobre sua infância, ela começou a chorar e saiu do local, conforme confidenciou seu então marido. 

Apesar disso, diversos moradores do local afirmaram lembrar, vividamente, de que ela era de Hobart, revelando dados e fatos supostamente pessoais dela. Em Wrest Point, no começo daquele mesmo ano, havia sido inaugurado o Merle Oberon Theatre - que depois foi renomeado. 

Merle ao lado de Greer Garson e Rosalind Russell em 1964.

Pouco depois de voltar para sua casa, em Malibu, Califórnia, nos EUA, ela teve um infarto do miocárdio. Em 23 de novembro de 1979, logo após a Ação de Graças, Merle faleceu após sofrer um AVC. 

Em seu último filme 'Interval (1973)', no qual ela produziu e estrelou, Merle conta a história de uma mulher que guarda um terrível segredo e foge para tentar se resguardar. Assim como ela fez durante quase toda a sua vida. No longa, ela se apaixonou por Wolders, com quem ficou até sua morte - ele também foi parceiro de Audrey Hepburn e da viúva de Henry Fonda, Shirlee May Adams. 

Durante sua carreira, Merle fez de tudo para esconder quem era e isso a destruiu por dentro. Seu então enteado, Michael Korda, queria divulgar mais sobre sua origem no livro 'Charmed Lives' antes dela falecer e Merle ameaçou processá-lo. Oberson sabia que, em Hollywood, manter sua imagem era tudo e, por isso, não permitiria que alguém acabasse com o que ela construiu. 

Como tudo teria sido se ela não tivesse sido obrigada a esconder quem verdadeiramente era? Essa é uma resposta que nunca teremos. 


© all rights reserved
made with by templateszoo