A data era 3 de janeiro de 1979. Roger Moore, o atual 007, estava previsto para desembarcar no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, o Galeão, ao lado da esposa, a italiana Luisa Mattioli, e o diretor Lewis Gilbert. A ocasião? Gravar cenas de um inédito filme do mais amado espião do mundo: 007 Contra o Foguete da Morte (Moonraker, 1979).
Mas a chegada dele ao Brasil já começou difícil, quase como uma premonição do que viria a seguir: o ator e seus companheiros de viagem foram impedidos de decolar no Aeroporto Charles De Gaulle, em Paris - naquele mesmo dia - por conta de excesso de gelo na pista. De acordo com o Jornal do Brasil, com o atraso da chegada, Moore já estava conhecido como "o espião que não veio do frio".
A viagem foi adiada e eles só chegaram ao Rio em 7 de janeiro de 1979. O motivo do atraso logo foi revelado pelo Roger assim que desembarcou: cálculo renal.
| Roger Moore no Brasil O Globo/ Reprodução |
Além disso, na pista havia um pequeno estúdio montado com as cadeiras de diretor, as máquinas, a garota do script, os engenheiros de som e figurantes. Por conta de Roger não ter expelido a pedra nos rins, foi colocado um serviço de socorro urgente no Aeroporto, mas que o ator não precisou. A cena foi repetida diversas vezes enquanto Roger conversava com os figurantes e o diretor, de forma leve e simpática. A esposa dele, Luisa, assim que desembarcou foi direto para o Hotel Copacabana Palace.
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| Roger começou a gravar assim que pisou no Rio |
Assim que terminou de gravar as cenas, Roger foi direto para o hotel ficar com a esposa. Jerry Jerroue, responsável pela publicidade do filme, explicou um pouco mais sobre as gravações que ocorreram no Brasil:
Teremos, no total, 12 dias de trabalho no Brasil. Temos várias sequências já prontas como as do Carnaval, quando filmamos os desfiles das escolas de samba. A sequência do Pão de Açúcar, a briga verdadeira, não será rodada aqui. É provável alguns enxertos com filmagens em estúdio na Europa. O total de pessoas foram 250, se bem que alguns brasileiros foram contratados.
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| Roger Moore no praia do Leme e no Aeroporto do Rio Manchete |
A seleção dos figurantes brasileiros foi feito pela agência Marza, com exceção da Adele Fátima que foi escolhida pelo produtor Albert Broccoli - durante um desfile de samba no Rio. De acordo com Marza, não foi fácil escolher os figurantes pois precisavam de "pessoas com a pele branca, tipo europeu" e por isso algumas pessoas escolhidas para a cena do Concorde foram Ana Gasper, esposa do diretor da então Light, e o cantor Almir Saint Clair.
Entre as gravações, Roger e sua esposa participaram de cocktails da alta sociedade brasileira, conforme o colunista Sérgio Cavalcanti, da Up Date do jornal O Fluminense, contava em sua coluna. Eles se reuniram com Bruno de Lacerda, da empresa Pelajo e outros atores e personalidades da high society. Nos dias 9, 10 e 11, as escolas de samba Mangueira e Beija-Flor gravaram as cenas de Carnaval em ruas próximas à praça Mauá.
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| Roger e Lois no Pão de Açúcar |
No dia 13 de janeiro, Roger gravava ao lado de Lois Chilles, que interpretou sua namorada no longa, no Pão de Açúcar. A cena era simples: ele luta dentro do bondinho com seu inimigo e, depois, bula para deixar que o bondinho exploda com Mandíbulas dentro. Os dublês dos atores, Martin Grace e Dorothy Ford, foi quem fizeram esse trabalho.
Desde segunda-feira (7), quando Roger chegou ao Brasil, o Pão de Açúcar ficou fechado para acesso ao público até as 14h. De acordo com o Jornal Brasil, no Morro da Urca havia um verdadeiro arsenal de filmagens com uma equipe de 90 pessoas. Apesar de bastante cansado, Roger foi extremamente simpático enquanto Lois foi descrita como um tanto mais arredia. As próximas cenas a serem gravadas seriam a do Carnaval e da Foz do Iguaçu.
No dia 15 de janeiro, no entanto, Roger decidiu receber toda a equipe do filme para um cocktail no Hotel Copacabana Palace. Ele se reuniu com astros brasileiros, como Glória Menezes e Tarcísio Meira, o então prefeito do Rio de Janeiro, Marcos Tamoyo, e até com Adele Fátima - antes dos rumores de ciúmes da esposa com a brasileira.
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| À esquerda, Adele com Roger e Luisa; à direita Roger com Gloria e Tarcísio |
As gravações continuaram a todo o vapor na praia do Leme, Largo do Boticário e em outros lugares do Rio de Janeiro. E é aqui que chegamos na polêmica e breve participação de Adele Fátima como Bond Girl - ela teria sido a primeira Bond Girl brasileira, se sua participação não tivesse sido cortada.
De acordo com rumores da época, os dois teriam uma cena de sexo fulmegante, mas com os boatos de que os dois estariam se envolvendo, Luisa - esposa de Roger - exigiu que a cena fosse cortada. A versão oficial, no entanto, foi que as cenas envolvendo Adele não tinham uma atuação convincente. Ela, no entanto, chegou a aparecer no trailer do filme.
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| Adele e Roger Moore teriam uma cena infame de sexo no longa |
Em entrevista para Conversa com Bial, em 2020, Adele contou mais sobre a experiência:
Falam que eu peguei. Ele gostou muito de mim, fizemos a capa, o cartaz e o filme. A imprensa não gostou da história de ser eu, de preconceito, infelizmente. Começaram falando que eu tinha um romance com Roger Moore e pós-filme iríamos assumir. Ele era um grande gentlemen, ele conversou e simpatizou comigo, mas foi só isso. Deixei de viajar o mundo como Bond Girl brasileira. A esposa acreditou. Quando ele estava presidente da UNICEF, ele veio no Copacabana Palace, eles me convidaram e ela me pediu desculpa. Disse que era uma pena que o Brasil não soube me valorizar e que, se eu quisesse, me levaria a Inglaterra, mas eu já estava casada.
Os boatos contam que Luisa teria pedido que todas as cenas com Adele fossem excluídas e ela foi substituída pela atriz Emily Bolton, que interpreta Manuela.
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| Adele e Roger Moore juntos em festa no Rio |
Em 22 de janeiro, Roger e a esposa foram convidados para o Hippopotamus, no Rio, para uma festa dada por Luis Carta e Ricardo Amaral e assim passaram entre eventos a gravações do filme. Uma das cenas de amor de Bond, inclusive, foi gravada no quarto dos milionários Yara e Roberto Andrade.
Após as gravações no Rio de Janeiro, Roger e a equipe foram para Foz do Iguaçu, no Paraná, em 28 de janeiro de 1979. A esposa do ator, por sua vez, resolveu voltar para a Europa deixando Roger sozinha no Paraná. As gravações ocorreram às margens das Cataratas de Iguaçu.
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| Roger Moore em Foz do Iguaçu Correio de Notícias |
O único brasileiro que atuou, de fato, no filme 007 Contra o Foguete da Morte (Moonraker, 1979) foi Carlos Kurt como um segurança no aeroporto do Galeão. Roger foi embora do Brasil assim que as gravações se encerraram, no final de janeiro daquele ano.
A sua partida não foi tão comentada pelos jornais, porém de acordo com O Globo, antes do ator partir para Foz do Iguaçu, houve uma recepção no Hotel Intercontinental, em São Conrado, no Rio de Janeiro. Ao que tudo indica, do Paraná, Roger e a equipe foram diretamente para a Europa.
007 Contra o Foguete da Morte (Moonraker, 1979) estreou em 5 de setembro de 1979 e, apesar das fortes críticas, foi um dos mais rentáveis filmes de James Bond. E essa não foi a única vez que Roger voltaria ao Brasil. Roger Moore voltou ao Brasil em 1991, como Embaixador da Boa Vontade da UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e visitou Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará e Brasília.
Mas essa visita merece uma matéria solo, que logo será feita!















