Mistérios de Hollywood

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Os Carnavais de Rock Hudson no Brasil

Rock Hudson foi um dos maiores galãs de Hollywood. Em filmes como 'Tudo que o Céu Permite (1955)', 'Volta Meu Amor (1961)' e 'Assim Caminha a Humanidade (1956)', ele solidificou sua persona de másculo e viril, com um coração de ouro. Alto, bonito e forte, ele tinha todas as qualidades que faziam mulheres no mundo todo suspirar! 

Assim, quando ele desembarcou no Rio de Janeiro, em 14 de fevereiro de 1958, no Aeroporto de Galeão, via Varig, o seu fiel fã-clube estava à sua espera. Por convite de Harry Stone, o embaixador oficial de Hollywood no Brasil, o ator veio celebrar a festança com outros astros como Marilyn Maxwell, Van Heflin (em sua terceira visita ao país), Charlie Vidor, Linda Christian - e quase contou com a presença de Linda Darnell que, por uma indisposição, ficou de fora. 

Rock Hudson e Ilka Soares - inseparáveis no Brasil            Revista Manchete

De acordo com o Jornal, Rock desceu do avião acompanhado de Charles Vidor e sua esposa, mas não deu atenção às centenas de fãs que o esperavam no terraço. Em conversa com a imprensa, ele revelou que cortou o cabelo curtinho ao saber sobre o calor no Rio e pontuou sobre o Carnaval: "Sempre ouvi falar muito bem do Carnaval do Rio de Janeiro e à convite de Harry resolvi conhecê-lo. Não me avisaram para trazer uma fantasia, mas vou ver se amanhã já tenho tempo de comprar uma. Ainda não tenho [fantasia], mas disposição para brincar já tenho". 

Logo depois de passar pela Alfândega, Rock - que estava encharcado de suor - e os outros astros ficaram hospedados no Hotel Glória e também no Copacabana Palace, onde o artista se alojou. À noite, naquele mesmo dia, todos se reuniram em um coquetel na casa de Harry Stone - e a artista Vanja Orico conseguiu ficar do ladinho de Rock - que na época estava se divorciando de Phyllis Gates e se recusava a falar de seu status de relacionamento. 

Rock no desembarque ao lado de Vidor e à esquerda com Vanja Orico

Segundo o Correio da Manhã, Hudson curtiu a tarde com um copo de uísque na mão e deu alguns autógrafos, apesar de ser à contragosto, mantendo contato com a imprensa. Naquela mesma noite, sexta-feira do dia 14 de fevereiro, ele e os amigos compareceram à um cocktail no golden room do Copacabana Palace. Ilka Soares, nesta ocasião, não saia de perto dele, desde que os dois se conheceram na casa de Stone - o começo de um romance publicitário. 

Rock e Ilka em seu primeiro encontro - na sequência Rock no aeroporto

A primeira noite de folia carnavalesca logo chegou: Hudson e todos os astros compareceram ao Baile de Máscaras oferecido pelo Hotel Glória. O 'Ball Masque' foi um sucesso e o artista primeiro retribuiu o carinho com autógrafos, sendo sempre pajeado por Ilka - 'fantasiada' como uma baiana legítima. Apesar de ter tentado se afastar um pouco, a revista Manchete revela que ele logo voltou para a mesa, divertindo-se e ganhando a faixa de 'Princesa do Carnaval'.

Rock de costas e com a faixa de 'Princesa do Carnaval'

Na época, havia rumores sobre a orientação sexual de Rock, mas nada jamais foi confirmado. Por que ele ganhou essa faixa? Muito provavelmente pelas próprias insinuações que corriam nos bastidores, tanto que a matéria de Cinelândia, refere-se à ele como "vedeta" do Carnaval. Sem saber de nada, Hudson levou a situação com muito bom humor. Outra teoria é de que, como pode-se ver abaixo, ele tirou foto com uma das princesas do Carnaval, Cely Rosa, e ela pode ter colocado nele como forma de descontrair o ambiente.

Contudo, ao ver a cobertura da imprensa sobre a vinda de Rock ao Brasil, não pode se negar que eles teriam colocado a faixa nele de forma zombeteira. 

Os fãs não o deixavam em paz nem por um minuto     Cinelândia

No domingo, dia 16 de fevereiro, a agenda de Hudson e seus amigos continuou cheia: de manhã, ele, Van Heflin, Marilyn e Vidor curtiram as águas de Guanabara. À tarde, eles visitaram o Social Ramos Clube, em uma promoção feita pelo jornal Última Hora, levando os astros a conhecerem, pela primeira vez um clube na Zona Norte da cidade. Além disso, a Escola de Samba Aprendizes de Lucas se apresentou no local. 

Charles Vidor, esposa, Marilyn e Rock no Social Clube Ramos              Cinelândia

Depois de lá, eles também viram os desfiles das escolas de Samba do Salgueiro e Braz de Pina, em um camarote em frente ao Teatro Municipal, na Avenida Rio Branco- acompanhados de Wilza Carla, a Rainha do Carnaval. 

Rock Hudson e Marilyn vendo o grande desfile das escolas            O Cruzeiro

Na segunda-feira, dia 16, a grande festa no Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro -a Revista da Semana, de forma cruel, aponta que Rock foi "especialmente convidado" para o Baile dos Travestis, que ocorria naquele mesmo dia, mas teve que recusar por conta de seus outros compromissos. 

No Baile Municipal, Rock contou com a presença de Ilka a cada segundo - que não o deixava em paz - e eles continuaram nesse clima de "vai não vai". Conhecidos como "Rock and Ilka", eles apenas falavam um com o outro em italiano, já que a artista brasileira não sabia falar bem inglês. Juntos no baile, ele afirmou que Soares era "a coisa mais bonita que já viu no Rio, inclusive do que o Carnaval que é uma maravilha". 

Ele tentou comprar uma fantasia ao lado de Ilka no começo daquele mesmo dia, mas não pode andar muito na rua devido ao assédio dos fãs. 

Rock se divertindo com Ilka e Marilyn

Também para o Mundo Ilustrado, Ilka foi indagada se gostava mais de Rock ou da festa, pontuando: "Os dois são igualmente belos e inesquecíveis e não me atrevo a fazer uma escolha". O romance publicitário foi arranjado por Harry Stone e Ilka teve um bom motivo para aceitar: Charles Vidor, que dirigiu Rock em 'Adeus às Armas', lhe prometeu um papel à la Gilda nos EUA - que nunca saiu do papel. 

Rock e Ilza em seu primeiro encontro                                     Cinelândia

Seja como for, Rock seguiu a se divertir no Rio de Janeiro. Depois de três dias seguidos na folia com Ilka, ele foi visto pela revista O Cruzeiro curtindo a praia com outra mulher misteriosa, afirmando-se assim que o "romance" com Ilka havia acabado. Ele curtiu a praia da Barra da Tijuca e a reportagem apontava que esse encontro seria uma espécie de 'consolo' - na verdade, Rock estava com a secretária e, segundo Ilka, foi a própria que disse que combinaria o encontro deles no local, mas a deixou sem saber de nada. 

Nas revistas, foi plantada a notícia de que Ilka teria dado o 'migué' em Rock - possivelmente uma estratégia para a imprensa não alimentar, ainda mais, os rumores de um romance entre ambos. 

Rock aproveitando a praia no Rio                                      O Cruzeiro

Na terça-feira de Carnaval, o dia 17, mais uma celebração: desta vez no Jockey Club, no qual ele se divertiu acompanhado de Marilyn, uma fiel amiga. Rock, infelizmente, foi taxado de antipático pela imprensa - e bastante criticado pelos repórteres. 

Rock novamente com Marilyn no Jockey Club

Depois da folia do Carnaval, Rock chamou a imprensa para seu quarto de Hotel no Copacabana Palace, na quarta-feira de cinzas, dia 19, para falar sobre seu novo filme 'Adeus às Armas'. Bem relaxado e com uma camiseta listrada, ele falou sobre sua diversão no Carnaval:
Pelo que se vê nas fotos eu devo ter me sentido muito bem. Foi sim, uma coisa extraordinária. Se puder voltar no futuro, voltarei sempre que der - em entrevista para o Correio da Manhã. 

Na sequência, ergueu os braços ao ser indagado sobre a mulher brasileira, frisando: "Simplesmente estupenda". Já falando com o jornal Última Hora, ele admitiu que se divertiu muito durante o baile do Hotel Glória. Na quinta-feira, 20, ele esteve presente no espetáculo 'Mister Samba' com amigos e, é claro, o bon-vivant Jorge Guinle. 

Rock em entrevista com a imprensa           Jornal O Globo

No dia 21, ele conheceu o então presidente Juscelino Kubitscheck, acompanhado de Marilyn e Van no Palácio do Catete. Em 22 de fevereiro de 1958, Rock foi embora de vez do Brasil e recebeu um beijo de despedida de Ilka. Para o Jornal do Brasil, ao ser indagada, por que a amizade com Rock não virou romance, ela deu a entender: "Porque ele...bem, por várias razões". 

Em entrevistas posteriores, Ilka diz que nunca desconfiou dele ser homossexual por ser bastante contido, pontuando para a Coleção Aplauso Oficial: "Eu não estava fazendo nada então não vi problema algum. Depois que ele foi embora, me mandou um telegrama agradecendo a companhia adorável"

O fim de Ilka e Rock                                       Jornal do Brasil

Para o Correio da Manhã, ao embarcar no Aeroporto de Galeão para voltar aos Estados Unidos às 18h30, ele prometeu que voltaria ao Brasil, até para filmar algo inclusive: "Com toda certeza, se houver oportunidade. (...) Levarei, no mínimo, três semanas para relembrar essa semana no Rio, com todas as emoções. Depois disso poderei destacar algo. No momento tudo se aglomera como se fosse um sonho maravilhoso". 

Acima, Rock com Vanja e na plateia do Mister Samba. Abaixo com Ilka e o Presidente

1973

Prometendo e cumprindo, Rock voltou ao Brasil em 1973. Na época, ele já não era mais o grande galã de Hollywood, mas seguia com a fama e o talento intactos. Ele estava em Buenos Aires e decidiu aterrissar, novamente, no Rio de Janeiro em 3 de março daquele ano, após pedido de Harry Stone - ele estava acompanhado de seu assessor, Tom Clark, e, no mesmo dia, chegaram Roman Polanski e o ator Jack Nicholson. 

Rock Hudson celebrando novamente o Carnaval no Rio                 Manchete

Divulgando seu mais recente filme 'Inimigos à Força', ele desembarcou no Aeroporto do Galeão às 19h50 e, falando com a imprensa, disse que não tinha uma agenda fixa, mas que estava feliz de estar de volta, via Jornal do Brasil: "Vim pela primeira vez ao Rio em 1957 [na verdade 58], ou seja, há 16 anos, e gostei muito dos desfiles das escolas de samba"

No dia 5 de março, ele foi um dos jurados no baile do Hotel Glória, mesmo local onde ele se divertiu imensamente em 1958, para eleger as melhores fantasias no Rio Carnaval Show. Lá, o artista protagonizou um grande momento com Beki Klabin, que foi até o local exibir sua fantasia ao desfilar pela Portela.

Rock se levantou, a beijou, e também arriscou alguns passos no samba. 

Rock Hudson e Beki - uma grande dupla 

Na segunda-feira (5), ele participou, ali no solo mesmo, com as pessoas comuns, do desfile das Escolas de Samba na Presidente Vargas. Em certo momento, Rock se juntou à uma roda e começou a dançar com as outras pessoas, livremente e feliz - vestindo apenas uma regata preta e uma calça. 

Por conta disso, sua vida pública foi chamada de "devassa" pelo O Cruzeiro

Rock anunciou que faria uma coletiva de imprensa para o filme no Copa Leme Hotel, no Rio de Janeiro, mas não há registros dessa entrevista. Ele também aproveitou o baile do Copacabana Hotel, mas sem fantasias ou com fotos tão alegres e descontraídas quanto o que vemos no desfile das escolas de samba. 

Rock estava eufórico e bastante feliz 

O artista, inclusive, também participou do Carnaval do Copacabana, mas estava muito mais comportado aquela noite. Ele ficou hospedado no Leme Palace Hotel e em sua autobiografia, o 'His Story', escrito com Sara Davidson, ele se lembrou do Rio em suas duas estadias com muito carinho - tanto que planejava voltar em 1974 e até pediu ajuda para criar uma linda fantasia, algo que não se concretizou. 
Nós ficamos no meio de rodas de samba e as pessoas nos passavam garrafas de bebida e nós tomávamos.  - revelou Tom Clark, seu amigo de longa data e que o acompanhou na folia. 

Rock no Copacabana Palace 

Logo após o Carnaval, Rock e Tom deixaram o Brasil, em uma cobertura bem menos extensa por conta da fama do artista, que já estava em declínio. Infelizmente, o grande astro faleceu em 2 de outubro de 1985, vítima das complicações da AIDS. 

Apesar disso, Rock Hudson sempre se divertiu em suas vindas ao Brasil, esbanjando graça em meio as reportagens preconceituosas - e isso, assim como sua existência, sempre será um grande símbolo de resistência. 

Mamonas Assassinas e os filmes que não saíram do papel

Mamonas Assassinas, uma das maiores bandas do Brasil, ganhou finalmente a cinebiografia que merecia, que estreou em 28 de dezembro de 2023 nos cinemas brasileiros. O grupo formado por Dinho, Bento, Júlio, Sérgio e Samuel, era originalmente do rock, mas encontrou no humor escrachado o verdadeiro caminho do sucesso nacional. 

Engana-se, no entanto, quem pensa que este filme, dirigido por Edson Spinello, foi o primeiro esforço para colocar a história desses rapazes de Guarulhos, em São Paulo, nas telonas. Em novembro de 1996, após a morte trágica dos integrantes da banda, em um terrível acidente de avião em 2 de março, o cineasta Lui Farias anunciou a produção de um filme sobre os Mamonas com orçamento de R$5 milhões. 

Lui, filho do também cineasta Roberto Farias, conheceu o jovem técnico da banda, o Ralado, nome artístico de André Oliveira de Brito, em um hotel no Rio de Janeiro em 1995. Ali, ele ficou interessado em criar um filme sobre os Mamonas e os procurou por telefone - o grupo apoiou o projeto e tinha combinado de encontrá-lo antes da turnê em Portugal, mas o acidente de avião ocorreu antes. 

Mamonas são ainda um grande fenômeno da web

Além de conseguir os direitos para o longa, Lui também conquistou a permissão de produzir uma série de desenhos animados sobre os Mamonas para a TV, que nunca saiu do papel. O filme seria lançado em 1998, com roteiro de Farias, Melanie Dantas e o escritor Eduardo Peninha Bueno, responsável pela biografia oficial dos Mamonas, o 'Mamonas Assassinas: Blá, Blá, Blá - A Biografia Autorizada'. O longa se chamaria 'Mamonas - O Muve'.

Em entrevista ao Jornal do Commercio, Lui diz que chegou a falar com os Mamonas sobre o filme antes da morte deles e Dinho tinha uma visão clara de como queria ser representado: "O Dinho sugeriu fazer alguma coisa seguindo aquelas séries japonesas. Ele se imaginava encarnando uma espécie de Jaspion".  Pelo contrato, 50% do faturamento do filme seria rachado pela empresa Palco 1 e o próprio Farias, enquanto os outros seriam divididos entre os empresários e familiares dos músicos. 

Não se sabe por que o filme não foi pra frente. Na ocasião, pediam que o ator Marcelo Farias interpretasse o Dinho no longa. Procurado pela Caixa de Sucessos, Lui Farias ainda não explicou porque o filme não saiu do papel e assim que tivermos uma resposta, atualizaremos a postagem. Pelo que se especula, no entanto, a falta de patrocínio foi a grande vilã. 


Anos se passaram sem qualquer atualização sobre um filme. Em 2001, lançou-se o documentário 'Mamonas Assassinas - Indomáveis e Inesquecíveis', um especial em conjunto com a Record e que foi narrado por Adriane Galisteu. Além disso, um álbum ao vivo com músicas inéditas do tempo de Utopia, antes deles virarem Mamonas Assassinas. 

Em 2005, no entanto, o projeto de lançar um longa sobre os Mamonas surgiu de novo! No caso, o produtor Cláudio Khans, da Tatu Filmes, começou a desenvolver um documentário sobre a banda, entrevistando familiares e amigos, que saiu sob a alcunha de 'Mamonas Pra Sempre' em 2009. Nesse ínterim, a produtora também desenvolvia um filme sobre os Mamonas, que seria dirigido por Maurício Eça. O título? 'Mamonas Assassinas - o Filme'

O vocalista William Santana, da band cover dos Mamonas e do grupo Elos Perdidos, foi cotado para interpretar Dinho no longa, conforme admitiu o baixista Rodrigo Reis para o 'Jornal do Brasil' em 2006: "A gente não sabe se o William será selecionado. Porém, aproveitando a boa sorte, estamos preparando um repertório de inéditas para o ano que vem, ou seja, músicas próprias seguindo o estilo dos Mamonas". 

William quase foi cotado para viver Dinho no filme dos Mamonas

O longa, orçado em R$6 milhões, foi adiado por falta de patrocínio, conforme o próprio Claudio afirmou em entrevista: "Nós estamos na fase de captação de recursos e elaboração do roteiro. Quanto ao elenco, ainda vamos definir os atores que integrarão o elenco do longa. Queremos começar a filmar no final do ano para estrear no meio do ano que vem. A história começa antes da banda Utopia, que depois originou os Mamonas, para assim contar um pouco da vida de cada um, antes do sucesso todo que eles fizeram". 

Em 2008, a Record resolveu encarar o desafio de fazer um filme sobre os Mamonas. Cinco anos depois, foi anunciado um filme da banda estrelado por Rodrigo Faro, grande estrela da emissora, porém logo se falou em uma minissérie dirigida por Leonardo Miranda, em 2016, com apoio de dois canais pagos, sendo um deles a Fox. 

Para a revista Rolling Stone, quando ainda era cotado para o longa, Rodrigo Faro admitiu que era uma honra ser considerado para esse papel: "Quando eu era mais novo, brincavam e diziam que eu parecia um pouco com o Dinho. A história do grupo depois que eles fizeram sucesso eu sei, gostava muito deles". A ideia era lançar o filme, que depois se tornou minissérie, na data de 20 anos do falecimento dos integrantes, mas sem patrocínio adequado, a ideia não deu certo.  

Rodrigo Faro imitou Dinho em manifestação

Em 2016, no entanto, estreou nos palcos o musical 'Mamonas para Sempre', com Ruy Brissac como Dinho - e que reprisou o papel no filme de 2023. Nesse ínterim, novos fôlegos surgiram no projeto com nomes como MC Gui, Gretchen e até Yudi Tamashiro para participarem da minissérie sobre os Mamonas, então com roteiro de Carlos Lombardi.

Em entrevista para a revista Caras, em 2016, Jorge Santana, primo de Dinho, diz que a minissérie não rolou por não corresponder à realidade do grupo: "A gente não concordou porque a proposta é fazer algo bem light e estava surreal, com coisas que não aconteceram. Ele é muito bom em ficção, mas viajou muito na história. Podemos dizer que estava 15% de verdade e 85% ficção". Os familiares, de acordo com Flávio Ricco, não gostaram de adições na história sobre Dinho ter sido stripper e um suposto roubo da banda em um posto de gasolina para gravar um CD. Os diretores Marcelo Silva e Hiran Silveira saíram da linha de frente e a obra permaneceu em inércia. 

Por conta de mudanças internas na Ancine (Agência Nacional de Cinema), a produtora Total Filmes, que tinha a autorização para fazer a minissérie e o filme, ficou em um impasse. Assim, em 2019, iniciou-se o novo projeto dos Mamonas, com a escalação de Ruy, Andrey Lopes, como o tecladista Júlio Rasec, Júlio Oliveira, como Sérgio Reoli e Alberto Hinoto - sobrinho de Bento como o jovem. Jorge Santana, primo de Dinho, foi atrás de boa parte dos recursos - inclusive pela lei Rouanet que autorizou R$6 milhões de recurso em 2019 - e conseguiu o apoio da prefeitura de Guarulhos em 2017. 

O então prefeito Guti escreveu uma carta autorizando que boa parte das gravações fosse feita em Guarulhos - em longa produzido pela Globo Filmes e pela Europa Filmes. A famosa Brasília Amarela foi restaurada, inclusive, por Jorge, que admitiu em entrevista ao Extra em 2021: "A gente pegou e remontou. Ao todo, 75% do carro foi preservado. Quando recuperamos a Brasília e trouxemos, remontamos com peças de uma outra Brasília que já existia aqui em São Paulo. Tomamos o cuidado de deixá-la o mais original possível.". A Minds Idioma também se tornou uma das patrocinadoras da nova empreitada. 

Prefeito Guti, Hidelbrando Alves, pai de Dinho, e Paula Rasec     Foto: Sidnei Barros

Corta para 2022, desta vez com o orçamento adequado e distribuído para a Ancine: o filme, com o roteiro adaptado de Carlos Lombardi que, originalmente seria uma minissérie, está em pré-produção pela Total Filmes. Ruy Brissac interpreta Dinho, Beto é Bento Hinoto e Rhener Freitas estreia como Sérgio, Adriane Tunes como Samuel e Robson Lima como Júlio. 

Além deles, temos a Tik Toker Fernanda Schneider como a namorada de Dinho, a Valeria, além de Nadine Gerloff, prima de Luísa Sonza. Após o sucesso de 'Mamonas Assassinas - o Filme', este lançado em 2023, a Record transformará o longa em minissérie, adicionando mais cenas que foram descartadas, em uma parceria da Sonny com a Total Filmes - e que deve ser lançada ainda em 2024. 

'Mamonas Assassinas - o Filme' atraiu, desde sua estreia em 28 de dezembro de 2023, mais de 500 mil telespectadores por enquanto. Com críticas mistas, o importante é que a memória da banda foi preservada e que teremos muito mais Mamonas pela frente - é como dizem: 'money que é good nois num have', mas Mamonas Assassinas teremos para sempre! 

 



Um papo com Agles Steib

 O home office me tornou uma noveleira de carteirinha! A última novela que havia assistido foi em 2007, quando odiei o final de  'Pé na Jaca', da TV Globo, e prometi que nunca mais veria outro folhetim. Chega 2020 e, com ela, a pandemia da Covid-19. Trabalhando de casa, me rendi ao canal Viva e todas as suas séries e novelas. 

Em 2023, ainda no esquema home office, peguei a reprise de 'Senhora do Destino' e comecei a seguir Agles Steib no Instagram. Assim, surgiu a oportunidade de conversar com ele, que interpretou Maikel Jackson das Neves, filho de Rita de Cássia - grande papel de Adriane Lessa - na novela. Aos 40 anos de idade, nascido em 9 de agosto de 1983, o ator está cada vez mais focado em voltar com tudo para as telinhas, buscando papeis desafiadores. 

Conversamos por vídeo e pude perceber como ele estava feliz de falar sobre seus projetos. Morando atualmente no Rio de Janeiro, onde nasceu, Agles vive uma renascença em sua carreira. Participando da série 'Use Sua Voz', da HBO Max como advogado, ele compartilha alguns vídeos de bastidores em seu Instagram, extremamente orgulhoso e aproveitando para divulgar todo o seu talento. 

Agles Steib                                                 Reprodução/Arquivo Pessoal

Agles Steib é seu nome artístico - o sobrenome é em homenagem à um de seus padrastos, que o ajudou financeiramente: "Ele ajudou a minha mãe quando eu era pequeno. Morei na Suíça aos 12 anos de idade, então ele foi um camarada que ajudou muito a minha família e sou muito grato. Por isso coloquei em homenagem a ele". O nome verdadeiro de Agles, uma junção do nome do pai dele e da mãe, é Agles Barbosa Barros. 

A carreira do artista começou, inclusive, através da mãe, Leonete Carol, que trabalhava como maquiadora na extinta TV Manchete. O pai dele era da área militar. Depois, Leonete migrou como freelancer para a TV Globo: "Ela me incentivou desde pequeno, eu a acompanhava nas festas artísticas e isso foi me inspirando. Eu resolvi estudar, meter a cara nos estudos e hoje em dia, graças a Deus, sou essa pessoa guerreira e trabalhadora. Que valoriza a carreira e desde pequeno eu me inspiro em artistas como Charlie Chaplin, Grande Otelo, Oscarito". Agles é tão fã de Chaplin que, em 2004, escreveu um curta metragem chamado 'Chaplin Brasileiro', que contou com a presença de Stepan Nercessian e o filho, Pedro. 

A carreira de Agles iniciou-se como comediante, disputando alguns festivais e investindo em um tipo de humor "mais escrachado e corporal". O ator, atualmente, visa a direção, para produzir as próprias ideias e seus trabalhos: "Ganhei o prêmio de Melhor Direção, fui premiado com Raticidas, eu satirizei com mensagem de paz, mas era uma comédia. Tive o Ireneu de 'Sai da Porta Deolinda'. Eu vim do mundo clown, dos espetáculos". 

Agles em 'Sai da Porta Deolinda' 

Além de atuar nas quatro esferas da atuação: cinema, teatro, televisão e publicidade, Agles também se aventurou na dublagem e pensa em voltar para essa área no futuro. "Tenho vontade de fazer dublagem, adoro um desenho animado, acho que futuramente...a dublagem é difícil porque exige que o ator leia muito, tem que ler, com o tempo, seguir tudo certinho. Tem a coisa da expressão labial, mas eu almejo sim, tudo que leva a arte, a interpretação eu quero fazer". 

Em 2017, Agles criou a 'Steib Produções', na qual produziu diversos tipos de filmes, curtas e esquetes, porém ele enfrentou problemas com a chegada da pandemia da Covid-19: "Eu tive uma queda na pandemia com a produtora. Fiquei ruim financeiramente, fiquei sem trabalho, sem dinheiro, mas graças a Deus hoje tem dois meses que eu atualizei, estamos voltando. Vamos voltar a fazer curta metragens. Deus me devolveu a produtora e estamos planejando novos caminhos". O artista aproveitou para me contar sobre o seu futuro filme 'Magarça', que fala sobre os centros de recuperação no Rio de Janeiro. 

"É um documentário, estou roteirizando ainda. Ganhamos prêmio de Melhor Roteiro e Melhor Ator com um média metragem chamado 'Cidade Refúgio', um filme que eu tenho diversas parcerias. Magarça é uma continuação, mostrando a obra dos missionários que combatem a marginalidade espiritualmente, sem violência", afirmou Agles - que se preocupa com o viés social em todos os seus projetos: "Eu vou legendar, vai para festivais". 


Cristão, Agles também faz esquetes voltadas para esse público, porém acredita que a arte deve ser universal: "Arte é arte, não misturo a religião com a minha obra. (...) Eu acho que sou um camarada que o ser humano não tem o poder de querer consertar as pessoas, só Deus conserta as feridas da alma. Acho que a violência deve ser combatida com amor, não violência com violência". 

Confortável em nosso bate-papo, aproveitei para perguntar sobre a passagem dele pela Bolívia. Em 2021, ele foi para lá e ficou quase um ano, em busca de novas oportunidades: "Acabei indo pra lá, tentei algumas coisas, fiz testes de produção e trabalhei com restaurante, a grande verdade é que fui tentar algo fora. Eu tinha alguns familiares perto do Acre e fui pra lá, queria conhecer Peru, fiquei por um ano, mas não deu nada certo. Nada como eu esperava. Para viajar você precisa ir calçado, não é chegar só". 

Pergunto se ele conseguiu algum teste e ele confirma que sim, mas nada que vingou. Em entrevista para a revista Quem, no ano passado, Agles dividiu momentos tensos que passou no país: "Fui comprar um refrigerante para o Ano Novo e já tinha passado da hora que o comércio fecha por lá. O taxista viu que eu não falava muito bem espanhol e me indicou um mercadinho, falou: 'ali vende tudo'. Chegando lá, tinham mais de 20 pessoas que começaram a passar a mão em mim, e era um assalto. Levaram meu celular, minha carteira, tudo. Lá é um país perigoso, sem falar que ainda tem desaparecimento de pessoas para o tráfico de órgãos". O dinheiro que ele conseguia lá mal dava para sustentar as filhas dele Mariana, de 17 anos, e Maria Luiza de 6. 

Em 2022, ele tentou voltar para a Bolívia novamente e ficou cinco dias incomunicável - o que gerou diversas manchetes no Brasil. O ator voltou são e salvo para casa e tirou, dessa experiência, ainda mais fôlego para continuar com sua arte no nosso país. 
  
Mas estamos nos adiantando, afinal o começo da carreira de Agles é essencial. Ele participou de 'Linha Direta' e essas esquetes foram os primeiros papeis dele na TV Globo. O artista é bastante grato a produtora Malu Fontenelle, que ainda o chama para diversos trabalhos: "Era a escola de atores da TV Globo. A emissora tinha a Oficina da Globo, de atores que iria lançar. Mas só tinha os camaradas de olhos azuis e nunca fiz parte disso. Então eu fazia coisas mais no estilo Linha Direta, eu fiz 20, e foi ali que comecei a exercer e me deu segurança. O Fred Mayrink foi um cara que me ajudou muito, aprendi e futuramente fiquei mais bonitinho e a Globo me colocou para fazer um galã negro em Tecendo o Saber e como Maikel na 'Senhora do Destino'". 

Agles foi bastante solícito em nosso bate-papo            Reprodução/Arquivo Pessoal

Agles participou três vezes de 'Malhação' - em 1995, 2007 e 2011 - e a primeira vez esteve presente como elenco de apoio, depois como personagem e em 2011, como um traficante de drogas. Atenta, volto à conversa sobre galãs e pergunto sobre o preconceito inerente na TV, no qual protagonistas negros são escassos, algo que Steib confirma: "Depois que fiz Maikel Jackson e me deram uma namorada, que era a Bianca Comparato, a Globo me colocou como galã no 'Tecendo o Saber', no canal Futura, fiz par com a Aline Aguiar. Mas depois que cresci na academia, eles me deram perfis mais casca grossa, rústica e comecei a fazer personagens mais macabros". 

"O negro, em si, na teledramaturgia, não foge dos biótipos dos personagens. Um parâmetro que segue a sociedade porque a sociedade é tão preconceituosa quanto isso. A teledramaturgia ainda não alcançou o universo igual dos Estados Unidos, que tem seriados negros. Ainda está fraco, tem poucos personagens para negros", continua Agles, deixando sempre claro o quanto é grato pelo seu tempo na TV Globo: "Fui muito bem aproveitado lá".


Para Agles, a separação racial é real e existe, mas isso não deveria ocorrer em um mundo ideal, em especial por ele ser cristão. Indago se ele sempre foi religioso ou se teve um 'estalo' em sua vida, ao que ele abre o coração: teve uma depressão ao se ver envolvido no sucesso artístico. 

"Eu relato até no meu documentário sobre a minha vida, eu acho que o ator, essa profissão é glamourosa e delicada também, porque envolve o psique, a alma e não é uma profissão normal. Não é só isso, a arte de atuar vai muito além, você vive outra pessoa. Eu falo para aqueles que vivem mesmo o personagem e não aqueles que usufruem como uma diversão", admite Agles, que é à favor de apoio psicológico para atores: "Os atores novos se não tiverem essa preparação, não vão entender essa metamorfose, esses altos e baixos. É uma profissão disputada e confesso que hoje sou um campeão, então quando ele perde não aceita aquilo. Fiquei muito doente e me encontrei na religião, Jesus Cristo me deu uma vontade de crescer". 

Após 'Senhora do Destino', ele entrou em uma depressão e encontrou vontade de viver graças à encontrar Jesus em sua vida. "É uma profissão delicada e que exige terapia, o que exige o sucesso e como ficar ali. Nem todo mundo fica no sucesso por muito tempo, vai e volta e o artista precisa de alguém para direcionar isso. E isso não existe na nossa carreira", volta a frisar Agles, pedindo que a obrigatoriedade de psicólogos para atores fosse destaque em nossa matéria: "Deveria ter no contrato, no de cantor e o jogador de futebol também". 

Agles em 'Senhora do Destino'

A conversa com Agles, é óbvio, logo volta para 'Senhora do Destino' e seu personagem Mikael Jackson, filho de Rita, papel de Adriana Lessa, e irmão de Lady Daiane, vivida por Jéssica Sodré. Fico curiosa e indago se, na época do sucesso da novela, um psicólogo teria o ajudado. Ele me responde sem dúvidas: "Mas na época eu fui impulsionado, fui no fervor e no calor do sucesso e não me tencionei. Mas hoje eu tencionei e tenho diversos amigos, o Wilson do Cine Chance que está me levando para o meio artístico de novo. Eu sinto, hoje, essa necessidade. Posso entrar e sair tranquilo, mas antigamente por viver diversos personagens, na minha fraqueza, aquilo vem naturalmente e não entendia. O ator às vezes começa a pirar". 

Entusiasmado com o personagem Maikel Jackson, por ser fã do músico, Agles estava focado, de todo o jeito, para que o papel fosse seu: "Eu sempre fui apaixonado e quando a produtora de elenco Elaine Macedo me chamou pro teste de elenco, eu queria muito fazer. O Mikael Jackson teve um grande sucesso e a Susana Vieira me ajudou muito. Tanto que o próprio Michael acabou me conhecendo. Foi uma homenagem". Ele disputou o papel com mais de 2 mil atores negros e, na primeira vez, errou por conta do nervosismo. No segundo teste, com a ajuda de uma coach, ele foi muito bem e ficou na final, fazendo o teste de família. 
"Todos estavam com cabelo raspado e eu estava com cabelão, estilo americano. No Projac, queria falar com o Wolf Maya, eu queria até dormir lá. Quando cheguei, eles me diziam que ele não iria falar comigo, mas o encontrei sozinho no corredor e ele falou que eu estava muito 'branco' para o personagem e eu tomei um sol e voltei no Projac, sem conseguir encontrá-lo. Lá, eu vi um rapaz negro e ele me disse que fez o teste do Mikael Jackson e encontrei uma fila imensa. Fiz meu quarto teste, estava no final da fila e foi o último a fazer. Falei com a Elaine e fiz a audição, pedi uma força para Deus e não errei nada. Chegando no final, ela me disse: 'Quem sabe os últimos não serão os primeiros?'. Foi um grande presente de Deus, mudou a minha vida".  - afirma Agles sobre Senhora do Destino. 
Agles ao lado de Adriane Lessa e Jéssica Sodré                            Reprodução

Aos 20 anos de idade quando 'Senhora do Destino' estrelou, Agles jurava que estava fazendo o maior sucesso e, para testar sua popularidade, foi na balada: "Botei a bandana, que foi algo que eu coloquei pro personagem e quando eu cheguei, ninguém me reconheceu. Passava uma semana e nada. Uma vez eu tinha uma assessora que me falou de um desfile em Caxias e pediram pra mim e Jéssica ir lá. Fui desanimado, mas quando desci do carro, o pessoal da escola começou a gritar 'Agles'. O segurança teve que nos colocar em uma salinha porque era muita gente. Eu vi ali o poder da teledramaturgia e isso me deu uma base, isso foi algo fabuloso, em especial por ser parte da segunda família negra da novela no Brasil". Todos os atores mantém uma boa relação e percebi, em nossa conversa, o quanto Agles se sentia orgulhoso desse personagem tão querido. 

A maior paixão do artista é a atuação e, é exatamente por isso, que ele valoriza todos os tipos de trabalhos. Ele, inclusive, participou do longa-metragem polêmico, 'Turistas' de 2006, dirigido por John Stockwell. O filme trata sobre um esquema que ocorre no Brasil, no qual gringos são sequestrados e seus órgãos roubados. Na ocasião da estreia, diversos atores brasileiros se arrependeram de participar. Marcos Rangel, um dos atores, chegou a descrever a experiência como "desespero".

Esse não foi o caso de Steib, que interpretou Kiko ao lado de atores como Josh Duhamel e Olivia Wilde, que explica: "Foi uma oportunidade fabulosa. Um trabalho foi chamando o outro e acredito na lei da atração. Alguns americanos vieram aqui fazer um teste e existia um brasileiro, Raul Guterres, foi uma ligação do cinema internacional e nacional. Foi através dele que vieram os Mercenários, Velozes e Furiosos e alguns disseram que o filme seria algo ruim para o Brasil. E não foi isso, o diretor até ficou chateado que eu não me manifestei à favor, mas a produtora Europa Filmes não deixou por causa desses atores porque criaria um movimento e o filme não passaria aqui". 

Agles e Melissa George no filme 'Os Turistas'                         Reprodução

"Com os Turistas, eles vieram e fizeram o teste. Milhares de atores, eu fiquei na final com Jonathan Haagensen, de Cidade de Deus. Foi um filme muito disputado e me dei bem porque estudei em uma escola americana aqui no Rio e gostaram do meu sotaque. O diretor se amarrou na minha e me chamou, o que foi um grande presente. Essa coisa da lei da atração acredito, isso é bíblico, eu atrai e consegui fazer um filme americano", contou ele, falando também de sua experiência ao atuar em outro filme americano, o Lilyhammer 3: "Foi uma maravilha, mas eu já tinha sido convidado. Foi agora, depois de mais velho". 

Pergunto sobre a experiência de participar dos 'Turistas' e Agles se anima ainda mais ao falar sobre esse momento em sua vida: "Eu viajei para Bahia, São Paulo, e o plano da minha carreira era sair do Brasil. O Raul Guterres, que lançou Rodrigo Santoro, também iria me levar pra esse lado, mas acabei não indo. Por causa da questão do Brasil, eu não pensei alto e se eu pensasse como hoje, teria feito. Talvez não era pra mim", admitiu ele, que diz já ter conhecido Rodrigo Santoro - e até atuou com ele: "O Rodrigo é muto legal, muito humilde e aprendi muito com ele. Ele tem uma carreira centrada e teve esse acompanhamento. A carreira internacional, ainda não chegamos nesse patamar. Os atores de fora ganham mais e têm um acompanhamento esplêndido, certinha". 

Apesar de tantas experiências incríveis, Agles diz que, de todos os papeis que interpretou, Mikael Jackson está em seu coração: "A lei da atração...eu escutava música do Michael Jackson desde pequeno, essas coisas clássicas. Foi algo muito bacana e tinha fãs que me chamavam de Mikael". Pai, ele admite que as filhas não querem atuar e a mais velha pensa em ser médica - porém ele frisa que não as impediria de serem artistas se, um dia, quisessem. 

Agles com a mãe e a filha mais velha             Reprodução

Papo vai, papo vem, falamos sobre oportunidades na carreira e eu faço a pergunta do momento: ele prefere o novo tipo de contrato por obra da TV Globo? Agles, que saiu da emissora em 2009, garante: "Prefiro por obra porque, o meio de comunicação está tão grande, existem outros canais. Com a vinda da Netflix, de outros canais, acho legal a oportunidade para outros atores. A Globo é uma grande emissora, mas tem novas oportunidades"

Agles não está parado e já está com outros papeis engatilhados - mas pede que não sejam divulgados por enquanto. O que ele me permitiu revelar, eu descrevo a seguir: em janeiro de 2024, em data a definir, ele lançará seu primeiro livro, intitulado 'Provérbios Contemporâneos dos Sábios' com mais de 700 frases de autoria própria: "Estamos preparando a capa, falta pouco, corrigindo algumas coisas. Eu fiz uma frase que o 'sucesso é como fogos de artifício, você acende e ele estoura'". Formado em cinema pela Estácio, Agles conseguiu diversos contatos na faculdade e mantém as conexões antigas e novas, em especial na Globo que ele considera "família". 

Durante a pandemia da Covid-19, Steib trabalhou em diversas áreas e sem qualquer vergonha de admitir: em restaurantes, como vendedor de shopping - onde era reconhecido por clientes - e entregando folhetos: "No shopping era direto, no Natal, pedi para trabalhar na loja de um amigo e eles ficavam se perguntando. As pessoas julgam, mas essa profissão não dá muito dinheiro. O pessoal pensa que somos como jogadores de futebol, dá algo bacana, mas hoje eu vivo dos patrocínios. Tenho o patrocínio da academia(chamada Ellite Fitness), de uma loja de roupas, a Tiuidi, faço eventos". Ele está disponível para parcerias no Instagram @agles_steib

Agles segue em busca de novas oportunidades       Reprodução/Arquivo Pessoal

O artista também pensa em seus colegas artistas, fazendo parte do projeto 'Movie Help'"É um filme ajuda, onde eu faço um trabalho voltado à um curta metragem de cinco minutos, mais um monólogo e 12 fotos editadas. Para o ator ter um material para mostrar para os preparadores de elenco". E não para por aí: "Estou com uma associação chamada 'Foco em Artes', que é voltada para as pessoas que estão na geladeira, para que eles tenham a oportunidade de mostrarem o seu talento. O interessado vai passar pela associação e achar alguém para atuar nesse filme". 

Leviano por muitos anos com sua carreira, , como ele admite em nossa entrevista, Agles está muito mais focado e disposto a trabalhar duro para realizar suas conquistas: "Já recusei muitos papeis, mas não me arrependi". Em suas páginas oficiais, ele revive seus grandes papeis no cinema, na televisão e no teatro, divulgando todo o seu talento e potencial. 

O papo com Agles Steib me fez perceber quantos grandes atores, como ele, estão só à espreita de uma grande oportunidade. E se essa oportunidade não chega, eles fazem acontecer e vão à procura de novos meios e ideias. Agles vê, aproveita e desenvolve - e desejamos, sempre, muito sucesso! 


Agradecimentos à Agles Steib, que conversou comigo em 28 de novembro de 2023. 


Eliana Cobbett, a primeira produtora executiva do Brasil

"Eu sou a realização do sonho", dizia Eliana Cobbett, segundo depoimento do filho Alexandre. Ciente de seu próprio poder, a artista era complementar à seu marido, William Cobbett: enquanto ela colocava a 'mão na massa' e fazia acontecer, o diretor vivia no mundo lúdico e, com seus ideais, impulsionava a produtora - que rodava o Brasil afora para ver os filmes que produziu sob as luzes do ecrã. 

Eliana Estael Cosme Cobbett foi a primeira produtora executiva de cinema do Brasil. Nascida em 7 de junho de 1941, em Belo Horizonte, Minas Gerais, ela é a irmã mais velha de Adélia Sampaio, que é outra pioneira - esta foi a primeira negra a dirigir um longa-metragem no país com 'Amor Maldito' em 1984. 

Antes de Eliana, temos Ana Teresa Mariani, que foi produtora executiva do longa 'A Dança das Bruxas' de 1970, dirigido por Francisco Dreux - mas diferente de Cobbett, ela não seguiu a carreira nos cinemas. Depois das duas, vieram outras que se inspiraram nesse trabalho como a própria Betty Faria no filme 'Jubiabá (1986)', Gláucia Camargos no documentário 'Getúlio Vargas (1974)', Elisa Sá de Moraes, Maria de Salete e Madalena Loureiro. 

Eliana Cobbett                                 Arquivo Pessoal/Tatiana Cobbett

A mãe de Eliana e Adélia, Guiomar, é uma peça central nesta história. Humilde, ela trabalhou desde muito nova para se sustentar.  Guiomar Joana Ferreira nasceu em Diamantina, interior de Penha da Franca, Minas Gerais, em 1917. Em situação de vulnerabilidade social, nunca aprendeu a ler ou escrever.  Logo começou a trabalhar, nos anos 1930, em casas de família. 

Segundo Aldrin, um dos filhos de Eliana e William, o sonho de Guiomar, sempre foi estudar, mas não teve essa oportunidade -após ser demitida da última casa onde esteve, não tinha para onde ir. Tatiana, a primogênita de Eliana e William, relembra: "Elas estavam morando embaixo de uma ponte e teve essa senhora, por intermédio da comadre, que é madrinha da minha tia, que indicou". No caso, foi indicado um serviço no Rio de Janeiro, porém Guiomar não poderia ficar com as duas filhas no local. 

Eliana (à esquerda), Guiomar ao centro e Adélia ao fundo   Reprodução/Arquivo Pessoal

Ao chegarem no Rio de Janeiro, Eliana e a irmã, Adélia, cujo pai delas seria um português desconhecido, foram colocadas em um internato chamado Colégio União das Operárias de Jesus, hoje Colégio Maria José Imperial, em Botafogo, no Rio de Janeiro. A separação foi difícil para Guiomar e para as meninas, uma vez que ela apenas podia pegar as duas "no final do mês. Ela visitava, mas era uma vez por mês ou de três em três meses, mas como o colégio era próximo, ela falava mais com a minha mãe pelo portão, por ela ser mais velha", conta Tatiana. 

Eliana se adaptou muito bem ao internato, inclusive tinha aulas de piano e balé, mas Adélia não se deu bem e foi retirada do local, passando para um colégio particular no Rio de Janeiro e depois transferida para Belo Horizonte, Minas Gerais. Para saber mais, leia nossa matéria sobre Adélia aqui!

Eliana e Adélia na infância          Reprodução/Arquivo Pessoal

Com mais idade, Eliana passou a estudar no Largo do Machado Amaro Cavalcante. Alta, com 1,70cm e um "corpo muito bonito", como reconta a primogênita Tatiana, ela dividia seu tempo entre os estudos, cinema e bailes - Eliana amava dançar, era uma verdadeira pé de valsa. 

Dali, não demoraria para que a vida de Eliana se entrelaçar com a de William Cobbett de Siqueira Cosme, fundador da Tabajara Filmes com seu grande amigo Túlio. Nascido em 8 de janeiro de 1930 na cidade de Ipanguaçu, no Rio Grande do Norte, o potiguar vinha de uma família de elite. Filho de Manoel Cosme e Luíza de Siqueira Cosme, ele era abastado e, desde novo, se envolveu com os ideais comunistas, precisando fugir de sua terra natal. 

Guiomar em pintura - a grande guerreira       Reprodução/Instagram

No Rio de Janeiro, William segue como intelectual, participando de discursos e se tornando uma espécie de professor do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Dentro do partido, ele foi incentivado a criar um núcleo de cultura e assim nasceu a Tabajara Filmes, fundada em 1955. A empresa, localizada na Rua Senador Dantas, nº 20, no centro do Rio de Janeiro, começou distribuindo filmes italianos e suecos e ele logo conseguiu trazer o primeiro filme russo ao Brasil pós-guerra: 'Sadko, o Intrépido (1953)'. 

Eliana entrou na Tabajara Filmes por volta dos 17, 18 anos de idade, trabalhando como revisora de filmes. De acordo com a irmã dela, Adélia, a jovem conseguiu o emprego através de uma amiga, chamada Deyse que a "indicou para trabalhar como revisora de filmes e ela aprendeu logo o ofício". Eliana checava os filmes de rolo, na época feitos em acetato, em busca de manchas ou riscos. Naquele ambiente, ela se tornou próxima de William e eles se apaixonaram. 

William Cobbett - sempre perto de livros e criando roteiros 

O tempo de cortejo foi breve já que, segundo Aldrin -hoje dono do Juca Maria Bistrô em Belo Horizonte - Guiomar ditou que o noivado deveria durar no máximo seis meses. Eles se casaram em 19 de dezembro de 1959, um dia antes do aniversário de 15 anos de Adélia, na Igreja de Gloria do Largo do Machado na Cidade Maravilhosa - Guiomar mandou acender as 1300 luzes do local santo para a ocasião. A mãe de Eliana, uma cozinheira exímia, fez toda a comida do casamento, com vários quilos de camarão, que foi reaproveitada para a festa de Adélia. 


Eliana e William no dia do casamento  Arquivo Pessoal/ Tatianna Cobbett

Tabajara Filmes, DiFilm e a Ditadura Militar

Um mês depois, a produtora ficou grávida de seu primeiro filho, Tatiana, nascida em 13 de outubro de 1960 - com William, teve ainda Alexandre, nascido em 1962, Alan em 1966, Aldrin em 1969 e André, por fim, em 1976. Grávida, Eliana havia feito a promessa de que se o filme russo 'Quando Voam as Cegonhas (1957)' fizesse sucesso no Brasil, ela daria o nome do protagonista para o bebê. Ao descobrir que era uma menina, deu o nome da personagem Tatiana e, depois, ao engravidar de um menino, o batizou de Alexandre. Como pode-se perceber, o tema do A seguiu-se pela família. 

Com a família crescendo, Eliana e William moravam na Urca com os filhos enquanto Adélia e Guiomar se alocavam em Flamengo e Botafogo, bairros adjacentes do Rio de Janeiro. Como eram locais muito próximos, a produtora executiva ia trabalhar com a certeza de que Guiomar também a ajudaria com os herdeiros e todos viviam juntos e felizes - a avó também olhava os filhos de Adélia, Gogoia e Vladmir quando fosse necessário. 

Nesta época, William havia estreitado a amizade com o produtor Katchoff, dono da exportadora Sovexport Films - a especialidade da Tabajara Filmes era exibir filmes russos, mas com o advento da Ditadura Militar, a empresa foi dissolvida em 1964. A sede havia sido invadida naquele ano e teve diversos documentos queimados - os dois, com os filhos pequenos, se esconderam em um apartamento no Rio de Janeiro, que pertencia à Adélia e o marido, Pedro Porfírio - este que foi preso por ser à favor da luta armada contra o regime em 1968. 

Alexandre, Tatiana, André (bebê no colo de Guiomar), Gogoia, Vladmir, Alan e Aldrin

Quando Alexandre tinha por volta de 4 anos, em 1966, Eliana teve a ideia de desenvolver uma produtora própria, a Desenfilmes, que exportava desenhos infantis russos para o Brasil. Para a Folha de São Paulo, em 2006, a própria relembrou: "Fizemos várias exibições através da minha empresa, Desenfilmes, e várias exibições em parceria com os cineclubes. Comercialmente ou em grandes circuitos, nunca foram exibidos. Houve, sim, exibições de um ou outro filme, antecedendo um longa-metragem. Mesmo assim nos cinemas de arte". 

Hoje o MAM (Museu de Arte Moderna) do Rio de Janeiro mantém o acervo dos 15 desenhos infantis recuperados por Eliana em 2006. Ganhando experiência ao dublar os filmes, a Tabajara Filmes, comandada por ela e o marido, se tornou o centro do Cinema Novo. O endereço na Cidade Maravilhosa era frequentado por Miguel Borges, Glauber Rocha, Luiz Carlos Barreto e Cacá Diegues, onde, mais tarde, foi criada a distribuidora Difilm, após o fim da Tabajara por seus laços com filmes considerados comunistas. Eliana foi chamada por Luiz Carlos Barreto, um dos criadores da distribuidora, para comandar tudo na Difilm. 

Eliana, a filha com 4 anos de idade, e uma amiga        Arquivo Pessoal/Tatiana Cobbett

Em entrevista para a revista Aplauso, Miguel confirmou o que os filhos de Eliana sempre afirmaram: que o casal era acolhedor e ajudava os outros a realizarem seus sonhos. Eles auxiliaram o diretor a lançar o filme 'Canalha em Crise' em 1963, pouco antes do 'apertamento' de Ditadura Militar no Brasil: "Eu sempre usei a Tabajara como ponto, sede, escritório, os telefones, sua estrutura, eles sempre me apoiaram". A Dilfilm Ltda - que foi fundada em 1965 e entrou em falência em 1975 - englobava todo o Cinema Novo, produzindo filmes como 'Bebel - Garota Propaganda (1967)', de Maurice Capovilla, 'A Grande Cidade (1967)' de Cacá Diegues e o lançamento do primeiro longa colorido do Cinema Novo - o 'Garota de Ipanema (1967)', de Leon Hirszman. 

Eliana ganhava, portanto, cada dia, mais experiência com a Difilm, trabalhando em produções ao lado de Luiz Carlos Barreto e a esposa dele, Lucy, que a definiu como "uma mulher e profissional dinâmica, decidida, uma administradora nata". Em 1968, Adélia começou a trabalhar como telefonista na distribuidora e, naquele mesmo ano, a perseguição política se apertava com instauração do decreto AI-5, que considerava qualquer manifestação contra o governo um crime. O marido dela, Pedro Porfírio foi preso e Adélia agredida. 
"Tivemos que nos esconder na casa do Pedro Porfírio, marido de Adélia. O Pedro foi preso, o papai quase foi preso, teve que se desfazer de todos os livros que tinha das teses comunistas, minha avó queimou todos os livros, o risco era muito grande. Ficamos [eu, papai, mamãe, Alan e Tatiana] dentro de um apartamento pequeno, durante uns três meses até que tivesse certeza que não estavam perseguindo o meu pai e mãe e estávamos em segurança", relembra Alexandre.  

William e Eliana se unem na produção 

Para sobreviver, Eliana saía com os rolos de filme embaixo do braço para vender para os cinemas no interior do Brasil em sua kombi. Ela vendia filmes como 'O Encouraçado Potemkin (1925)' e 'Ivan, o Terrível (1944)' para que a família tivesse a subsistência. A situação apenas melhorou em 1970 quando, de forma irônica, o cinema era apoiado pelo mesmo Estado que praticava a censura - na maioria das vezes como forma de propaganda. 

Fernanda Montenegro nas gravações no Espírito Santo                 Jornal do Brasil

Apesar da pouca idade, sempre chamavam a produtora de Dona Eliana, famosa por conseguir realizar filmes com baixo orçamento e respeitada por seus colegas. Formada em Economia e Economia do Cinema pela Faculdade Getúlio Vargas, esta grande mulher fazia tudo acontecer, era o "pé de boi", com uma visão produtiva aguçadíssima. 

Em 1970, o marido de Eliana formou a William Cobbett Produções Cinematográficas e se preparava para dirigir seu primeiro longa, o 'A Vida de Jesus Cristo'. O caminho dele se cruzou com o do abastado José Regatierri, praticamente dono de São Roque, no interior do Espírito Santo. O magnata procurava alguém para transformar a sua encenação da Vida, Morte e Ressureição de Jesus Cristo em um longa-metragem. 

William contava com a maestria de Eliana, que sabia como ninguém como transformar um filme em realidade. Segundo Tatiana, quando a mãe passeava pelo Rio de Janeiro, tinha o costume de anotar placas e outdoors pois, no futuro, poderia precisar daquele tipo de serviço. Apreciada por todos - e sempre firme - ela tinha uma equipe fiel que a acompanhava. Eliana era uma grande formadora de mão de obra e com rotatividade de funcionários, já que todos queriam aprender com essa mestra.
 
Encenação de Jesus Cristo no Espírito Santo                               Reprodução

Ao lado do Juca - apelido de William - Eliana partiu para o Espírito Santo para gravar o filme - e conseguiu convencer a grande Fernanda Montenegro a participar como Samaritana. Adélia revela como a irmã conseguiu essa proeza: "Chorou e disse que perderia o trabalho caso Fernanda não aceitasse. Ouvi de minha filha [Gogoia Sampaio, então figurinista da TV Globo] e Fernanda disse: 'Fiquei emocionada com as lágrimas de Eliana e aceitei fazer a participação'". 

As gravações duraram 31 dias e contaram com diversos atores sem experiência ou que haviam apenas participado da encenação promovida por Regatierri entre 1961 a 1981 no teatro da região. Este foi o primeiro longa sobre a vida e Paixão de Jesus Cristo encenado no Brasil.  Em 5 de abril de 1971, na Semana Santa, a 'Vida e Morte de Jesus Cristo' foi lançado nos cinemas de todo Brasil e se tornou um verdadeiro sucesso. Regatierri levou o filme para o Papa em Roma - e os três seguiram lucrando. Em 1972, Cobbett e o sócio Túlio venderam o filme para a distribuição de Katchoff por U$50 mil. 

Com o sucesso de 'A Vida e Morte de Jesus Cristo', William seguiu dirigindo filmes, sempre com a esposa, a grande Eliana, como sua fiel produtora executiva. Potiguar orgulhoso, ele decidiu se aproveitar desse sucesso e gravou 'Jesuíno Brilhante (1972)' - que conta a história desse cangaceiro da vida real no Rio Grande do Norte, conhecido como o Robin Hood brasileiro. No longa, ele foi interpretado por Nery Victor. 

William durante as gravações de 'Jesuíno Brilhante'

Com roteiro de William e Adinor Pitanga, Eliana ficou responsável por todas as minúcias da produção - inclusive, a chegada da equipe de 30 pessoas em dois ônibus, alimentação do local, a hospedagem e toda a logística de gravações. As filmagens começaram em 25 de janeiro de 1972, em Açu, no Rio Grande do Norte e depois passaram-se por Ipangaçu, Tira Fogo, Mossoró, Macau, Tibau, Patu e Natal. Ela foi rodada em seis semanas com um orçamento de 30 mil cruzeiros. Vanja Orico foi a grande estrela da película e ali conheceu Adélia Sampaio, com quem fez diversas parcerias. 

Com os filhos, a família tinha o seguinte lema "quem não trabalha, não come". Assim, Tatiana, Alexandre, Alan e o pequeno Aldrin - ainda sem André na ocasião - estavam sempre presente nas gravações. Todos, inclusive, participavam como boys de produção, claquetistas e até faziam pontas nos longas administrados por seus pais.
Eu lembro do impacto da cena de uma vaquejada, que abaixaram a caminhonete e colocaram a câmera em cima do capô da caminhonete, esvaziaram os pneus e a câmera saia correndo atrás do boi e a caminhonete atrás do homem tentando laçar. Isso era inusitado no cinema. - relembrou Tatiana, que já era uma pré-adolescente nas filmagens de Jesuíno Brilhante. 

Os três filhos são resolutos: o filme favorito produzido por Eliana era Jesuíno Brilhante, por ela considerar o retorno de William à sua cidade natal importante e "pelo personagem ser literalmente, do Rio Grande do Norte, que é uma espécie do Robin Hood do sertão", como explica a filha mais velha do casal. Eles participaram do Festival de Cinema em Moscou na Rússia, em 1973, por conta do longa. 

Aldrin relembra que os dois, pai e mãe, se complementavam muito bem. Tatiana, a irmã mais velha, concorda: "Ele incentivava a minha mãe, meu pai era bem mais intelectual, minha mãe era prática, pé de boi, lia o roteiro e saia a procura de onde seria filmado, ela tinha uma visão produtiva bem maior do que o meu pai. Meu pai pensava nos personagens e ela queria ver aquilo realizado". 

Eliana com a mãe, Guiomar, e os filhos - ainda sem o caçula André   Arquivo Pessoal/Adélia Sampaio

Em 1974, Eliana trabalhou mais uma vez com o marido ao produzir o filme 'Uma Tarde, Outra Tarde', baseado no livro de Josué Montello - a segunda vez que um livro dele era adaptado nos cinemas e a primeira vez gravado em Areal, no Rio de Janeiro. Conforme revelou o próprio autor, em entrevista para a revista Manchete, foi Vanja Orico quem lhe revelou que William estava interessado em seu romance. Alguns anos, antes, eles haviam firmado um contrato para que William gravasse 'Uma Tarde, Outra Tarde' e 'Cais da Sagração' - este que acabou não saindo do papel. 

Josué relembrou que, ao ver o roteiro pela primeira vez, William foi até a sua casa acompanhado de Eliana que "lhe toma conta da vida e das despesas enquanto o marido filma sem ter a noção exata do dinheiro". O escritor ficou tão impressionado pelo casal que fez o roteiro do filme 'O Monstro de Santa Teresa', lançado em 1975, com William - e Eliana, mais uma vez, cuidava dos custos e de todos os pormenores da produção. 

De Kombi afora

No começo dos anos 70, além de se concentrar em produzir os filmes do marido e com uma parceria forte com Luiz Carlos Barreto, Eliana viajava Brasil afora, com sua kombi, para vender os filmes 'Jesuíno Brilhante' e 'A Vida de Jesus Cristo' para os cinemas no interior. 

Eliana no dia de seu casamento em 1959

Alexandre, que na ocasião tinha por volta de 14 anos, era convocado a ir com a matriarca para acompanhá-la: "Nós chegávamos de manha, nós íamos nos hospedar e dependendo do percurso, ela ia direto no dono do cinema e fazia a distribuição e a proposta, que geralmente era a 'Vida de Cristo', 'Jesuíno' e os desenhos e propunha fazer a distribuição". 

Eliana seguia vendendo os longas do marido já que, nos anos 70, uma cidade, mesmo que pequena no interior, tinha mais de 4 casas de cinema. Neste caso, o contratante tinha duas opções: alugar o filme ou comprá-lo para obter uma renda fixa. 'A Vida de Jesus Cristo' era o grande ganhador, já que era um longa religioso e apropriado para todas as idades. O dinheiro obtido era escondido na kombi e Eliana seguiu fazendo esse esquema até o começo dos anos 80 - foi tão bem sucedida que voltou para a casa com um Mercedes Benz. 

Eliana com o neto curtindo a praia                                    Arquivo Pessoal 

Nos anos 70, Adélia seguiu na produção de longas como 'Crueldade Mortal' de 1976, 'Gente Fina é Outra Coisa', de 1977, 'Guerra da Lagosta' de 1978, 'Chocolate ou Morango' de 1977, 'O Prêmio', de 1977, 'O Coronel e o Lobisomem' de 1978 e o primeiro curta da irmã, Adélia, o 'Denúncia Vazia' de 1979. Em 1976, ela deu à luz seu caçula, André, e não diminuiu o ritmo de suas produções, sempre confiando no olhar atento de sua mãe, Guiomar, que ajudava a tomar conta dos pequenos. 

Apesar da correria, os herdeiros entrevistados garantem que Eliana se fazia presente na vida de todos. Quando uma gravação começava, eles já sabiam de antemão porque a casa ficava repleta de comida como leite ninho e frutas abundantes, que serviam para alimentar a equipe de filmagens. Apesar de Guiomar ser a cozinheira da família, a produtora executiva fazia questão de preparar pratos especiais no aniversário dos filhos: "Então o meu aniversário era nhoque com rosbife, da Tatiana era peixada e cada um tinha o direito de escolher uma comida no aniversário, que é quando ela cozinhava", relembra o dono de bistrô, Aldrin. 

Os grandes espetáculos de Eliana


William no set de filmagens de O Grande Palhaço                Arquivo Pessoal

Eliana e William, no final dos anos 70, decidiram se mudar para um sítio no Rio de Janeiro. Segundo Aldrin, a mãe era conhecida em sua escola como a "Mãe do Século XX' e fez algo inédito para a época: pintou a casa de lilás, que seria a cor de sua aura.  Em 1980, William dirigiu seu último filme, 'O Grande Palhaço' - novamente com a produção executiva de Eliana e que conta a história de um palhaço que deixa de sorrir após a morte de sua esposa, uma trapezista. 

A Dona Eliana, mais uma vez, exibiu toda sua astúcia: para fazer a propaganda do filme criou o concurso 'Pinte o Grande Palhaço', distribuído em 790 escolas no Rio de Janeiro - recebendo mais de 594 mil desenhos, vários que foram aproveitados pela UNICEF em projeto com a Embrafilme. Além disso, em 28 de setembro de 1980, Eliana fez a festa do 'O Grande Palhaço' no aterro do Flamengo, que contou com a presença de um elefante que chegou de São Paulo por caminhão e até palhaços por  helicóptero. 

No local, inclusive, ocorreu uma partida de futebol entre os performers e apresentação da trilha sonora, ao vivo, feita pelo agora falecido Airton Barbosa. Um dia antes, no sábado, estava chovendo e os filhos não acreditavam que o evento poderia ocorrer. "Ela disse que o evento iria acontecer e não iria chover. No domingo amanheceu com um sol extraordinário", indica Alexandre - tanto ele quanto os irmãos sempre admiraram a tenacidade da matriarca.  

À esquerda, o cartaz vencedor do concurso promovido por Eliana

'O Grande Palhaço' foi gravado em 45 dias, com orçamento de 10 milhões de cruzeiros e ficou pronto em outubro de 1979. O grande vencedor do 'Pinte o Grande Palhaço' foi o aluno Mauro Murlamaqui Sampaio, da escola Presidente Arthur Costa e Silva - que ganhou uma viagem de fim de semana a Viagem das Crianças, com visitas ao PlayCenter, Instituto Butantã e Simba Satan. Os outros 13 ganharam bicicletas, patins, bolas de futebol e de vôlei. A comissão julgadora foi composta por Tatiana, filha mais velha do casal, entre outros artistas e professores. 

"Jamais pensei que pudéssemos fazer tanto, mas pelo menos indiretamente atingimos um universo de 2 milhões de pessoas", admitiu Eliana em entrevista ao Jornal do Brasil em 1980. Nessa época, Eliana começou a trabalhar na Embrafilmes como gestora de recursos. 

Eliana - e o apreço pela educação

"Ela era apaixonada pelo cinema e entendia a arte como sendo um instrumento de transformação e de educação. O quanto ela pode brigar de inclusão...ela fazia projetos inclusivos, para crianças necessitadas, para quem não tinha, baixa renda, esse era o perfil dela", conta Tatiana durante a nossa entrevista, algo que o irmão Aldrin concorda: "A gente deu importância para o mais essencial que era a educação, cultura". 

Gerente de produção na Embrafilme, ela impulsionava os projetos em que acreditava e, nesse ínterim, seguia apoiando a família. Ela foi a produtora executiva de 'Amor Maldito', primeiro filme dirigido por uma mulher negra no Brasil e feito pela sua irmã, Adélia. A cineasta, inclusive, que começou acompanhando a irmã no set de filmagens, relembra a importância dela: "Dividíamos ela nos escritórios e eu nos set de filmagens. Ficamos bem famosas. Na época se um filme tinha pouca grana, diziam 'chama as irmãs que elas dão conta'"

Eliana e Adélia: as grandes irmãs                  Arquivo Pessoal/Adélia Sampaio

"Quando eu consegui realizar o meu primeiro longa, ao final ela me abraçou e disse: 'Conseguimos eu amo este filme'", relembra Adélia emocionada. Neste projeto, Eliana exibiu toda sua maestria ao lidar com números e conseguir recursos: parte do longa foi gravado em sua casa em Jacarepaguá e para a cena do casamento, Eliana transformou a igreja ali perto de católica em evangélica.

A família toda, apesar da ida de Guiomar para morar novamente em Jatobá, no interior de Belo Horizonte, continuava mais unida do que nunca. Para Eliana, não havia tempo ruim, ela fazia de tudo, em seu alcance, para ajudar seus filhos e as pessoas que mais amava. Uma alma generosa, tanto no set de filmagens quanto entre os seus. 

Quando a filha Tatiana se mudou para trabalhar no renomado Ballet Stagium, Eliana decidiu criar o curta 'Agora um Deus Dança em Mim (1982)' para ajudá-la com algumas despesas: "Era tudo presente para mim, com restos de filmes de cineastas, um câmera amigo, ela juntou um grupo de pessoas. Minha tia fez o roteiro e produzimos o filme e ela colocou na lata e saiu distribuindo. Na época era obrigatória a exibição de curtas brasileiros antes de filmes estrangeiros. Ele foi exibido por seis meses e foi com esse recurso que montei meu apartamento em São Paulo. Aluguel eu pagava com meu salário, mas mobiliar foi com esse dinheiro, com esse ímpeto produtivo da minha mãe". Em 1991, Eliana levou o Ballet Stagium, da filha para se apresentar no Buraco Quente da Mangueira, algo inédito até então. 

Tatiana com a mãe, Eliana e a avó, Guiomar                                 Arquivo Pessoal

Em 1986, Eliana - que continuava a trabalhar na Embrafilme - desenvolveu um novo projeto, o 'A Escola Vai ao Cinema', que consistia em levar estudantes de escolas públicas do Rio de Janeiro ao cinema. Para o Jornal do Brasil, a criadora do projeto revelou: "Os jovens perderam o hábito de valorizar a nossa história, influenciados como estão pelos enlatados da televisão. O projeto é isso. Pretende introduzir nos jovens o hábito de conviver com a nossa cultura". O programa era em conjunto com a Cooperativa Brasileira de Cinema, também gerenciado por Eliana. 

Nas exibições especiais para 'A Escola Vai ao Cinema' eram exibidos filmes como 'Quilombo' de Cacá Diegues, 'Inocência' de Walter Lima Júnior e também 'O Menino do Engenho'. O filho dela, Aldrin, trabalhava com a mãe na Embrafilme e, nessas sessões especiais, chegava a trabalhar na bomboniere vendendo alguns produtos. Na época, mais de 100 mil adolescentes viram os filmes e o lançamento do projeto contou com a presença de Jorge Coutinho e Glória Pires para um bate-papo - mostrando que a classe artística, em peso, estava de acordo com os ideais de Eliana. 

Um ano depois, inspirada nesse projeto, Eliana desenvolveu o 'Conhecendo o Verde da Sua Cidade', levando crianças da periferia do Rio de Janeiro para conhecerem o Parque da Cidade. O projeto levou cerca de 3 mil e 300 estudantes - com direito à um almoço no CIEP (Centros Integrados de Educação Pública) e atividades artísticas, visitando pontos pitorescos da cidade e museus. Nesse ínterim, ela desenvolveu também o projeto 'Piano pela Estrada', no qual o pianista consagrado Arthur Moreira Lima viajava pelo Rio de Janeiro tocando em cima de um caminhão - muito antes de Vanessa Carlton em 'A Thousand Miles'. Como se esses feitos não bastassem, ela também levou o piano de Tom Jobim para o Morro da Urca. 

Centenas de estudantes em sessão do 'Escola vai ao Cinema'                Jornal do Brasil

O projeto 'Escola vai ao Cinema' seguiu pelos anos 90, porém Eliana saiu de vez de cena e foi embora da Embrafilmes - no caso, pela morte de Juca, o seu marido tão amado. Ele ficou um longo período doente após ser diagnosticado com carcinoma de próstata. 

"Ele era uma pessoa ativa, imagino que seja difícil, mas ele era intelectual, então se ele tivesse um livro e alguém para conversar não se lamentava muito, ele lamentava de não estar atuante no cinema, nos filmes. Por isso ela dizia que ela morreu de 'tódio', porque ficou entediado, conformado com a doença, e ódio porque tinha amargura de ficar doente tão jovem e se entregou. Para ela então foi mais difícil esse fim de vida do meu pai do que a morte em si", lamenta Tatiana. 

William morreu em 7 de junho de 1991, às 4h, em sua casa em Jacarepaguá ao lado da esposa e dos filhos. O produtor, diretor e roteirista tinha apenas 61 anos de idade e, curiosamente, faleceu no dia do aniversário de 50 anos de Eliana. Ela seguiu com a festa para celebrar seu aniversário - sempre respeitando a memória de seu amado marido. 

Com a morte de William, Eliana decidiu, após se envolver com as produções culturais do 'Rio 92' - morar um tempo em São Paulo com a filha, Tatiana. Ela leva o filho, André, na época um adolescente, e Aldrin também - que participou com ela e a irmã do musical 'Mulheres de Hollanda', ajudando-as na produção. Depois, Eliana decide morar com a filha em Florianópolis, onde compra um apartamento próximo à escola dos netos. Aldrin, mais próximo da avó, Guiomar, vai morar com ela em Belo Horizonte enquanto Alexandre e Alan continuam no Rio de Janeiro.    

A família toda reunida no casamento civil de Eliana                  Arquivo Pessoal

Morando em Santa Catarina, Eliana se especializou na Lei Roaunet e ajudou a desenvolver diversos projetos, inclusive o lançamento do livro sobre Anita Garibaldi pelo genro, Paulo Markun, um jornalista renomado. "Tinha lançamento de uma hora, uma hora e meia, porque tinha dança, era uma coisa para trazer à tona a personagem que é a Anita Garibaldi. Então ela trouxe a dança da região, o tipo de comida, e viajou o Brasil todo, com lançamento em quase todas as capitais e cidades pequenas, especialmente em Santa Catarina", conta Tatiana. Eliana também foi a responsável por captar recursos para a edição 'O Melhor da Roda Viva', programa da TV Cultura, editada por Markun. 

Além de ajudar a família sempre, quase como uma mamãe urso, Eliana se envolveu em diversos projetos em Florianópolis: "Ela fez Descobrindo a Arte, o Brincando de Aprender, tem a OCA que trabalha com patrimônio histórico. Até hoje encontro pessoas que tem gratidão imensa por ela, que dizem: 'sem sua mãe não teria realizado, feito tal coisa, ela era essa pessoa mesmo'", emociona-se Tatiana, que viveu em sintonia com a mãe nesses anos em Floripa. Eliana ajudava, inclusive, a lotar teatros: "Produzia espetáculos prontos e vendia os lugares do teatro para associações de empresa, que distribuíam os ingressos para os funcionários, então a pessoa estreava com a casa lotada. Ela tinha uma forma de ver o mundo e um vigor que nunca vi ninguém igual. Sinto muito falta". 

O Brincando de Aprender levaria oficinas de arte para cinco orfanatos em Florianópolis. Luiz Carlos Barreto, em entrevista para o jornalista da Tribuna do Norte, era só elogios para Eliana e o marido, que nunca se esqueciam dos amigos: "Eram duas pessoas singulares, generosas. O Willian, nos anos 50/60, era o único cara que tinha escritório. Eles tinham a distribuidora Tabajara, que distribuía filmes soviéticos aqui no Brasil. A Tabajara faz 50 anos agora, e se o cinema brasileiro tem uma dívida com o Willian e a dona Eliana, tem que ser paga na comemoração da distribuidora. Acho até que dona Eliana deveria ressuscitar essa empresa". 

Família toda reunida e, como sempre, Eliana muito bem vestida            Arquivo Pessoal

A partida 

Eliana faleceu em 1º de abril de 2007, aos 65 anos de idade, por conta de uma embolia pulmonar. Tatiana recorda que a mãe havia passado, algum tempo antes, por uma cirurgia bariátrica. 

"Ninguém esperava, eu estive com ela para fazer um check up e fui buscá-la no dia dos resultados e ela entrou contente, falando que o útero estava rosinha, o coração perfeito e 48 horas depois ela faleceu. Inclusive ela estava trabalhando, com dois amigos meu, do ‘Descobrindo a Arte’, ela estava escrevendo para colocar na rua o projeto. Esses dois estavam com ela em casa, ela foi comer, sentou porque estava cansada e queria ver o jornal, ligou a TV e faleceu. Foi algo inexplicável porque não tinha nenhum sinal de saúde que pudesse dizer", lamenta Tatiana durante nossa conversa. 

Eliana com um de seus netos 

Guiomar, a eterna guerreira e apoiadora incondicional das filhas, ainda estava viva na época e morando em Jatobá ao lado do neto, Aldrin, que relembra: "Foi muito difícil, minha avó tinha dificuldade na mobilidade. Minha mãe morreu e eu estava em Belo Horizonte com ela, fui para Floripa sem ela saber que a mãe estava morta. Voltei e a família inteira marcou uma reunião na casa da minha tia para revelar que a mamãe tinha morrido para ela. (...) Ai a gente levou minha avó no túmulo, mas senti um desgosto, tristeza nela e logo depois ela veio a falecer". 

Guiomar faleceu em 2009, porém deixou um presente para o neto de quem era tão próxima: ele se casou com Janaina, a enfermeira que cuidou de Guiomar até o fim - Aldrin considera este, o grande presente de sua querida avó.  Os projetos de Eliana Cobbett, a primeira grande produtora executiva do Brasil, seguem vivos na arte e em seus cinco queridos filhos. Em meu bate-papo com três deles, pude perceber o quanto eles se sentem honrados de serem herdeiros de duas pessoas tão especiais e que colaboraram tanto para a evolução do cinema brasileiro. 

Com ideias mirabolantes e que sempre fazia, de algum modo mágico, funcionar, Eliana Cobbett cimentou seu lugar na história do cinema brasileiro e mostrou, de diversas maneiras, que sempre foi uma mulher à frente de seu tempo - agora e sempre uma verdadeira "Mulher do Século XXI". 
Agradecimentos à Tatiana, Alexandre e Aldrin Cobbett, por baterem um looongo papo comigo, esclarecerem e tirarem algumas de minhas dúvidas. Além disso, por mandarem fotos e por serem tão solícitos (Muito obrigada!). 
Agradeço também à Adélia Sampaio por tirar minhas dúvidas e me enviar fotos, além das falas de Lucy Barreto sobre Eliana. 

Fontes adicionais: 

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