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O assassinato de Luís Antônio Martinez Corrêa e os direitos LGBTQIA+

Nos anos 1980, uma terrível onda de assassinatos contra homens homossexuais assolava o Brasil, munida pelo preconceito contra a epidemia de AIDS. O dançarino Carlos Machado, o ator Chico Marques e outro nove artistas foram vítimas desse crime hediondo, especialmente em São Paulo - isso sem contar com os cidadãos fora do escopo da mídia. Em 1987, a mais nova vítima foi o diretor e teatrólogo Luís Antônio Martinez Corrêa. 

Luís, irmão de José Celso -conhecido como o cabeça de uma das companhias de teatro mais revolucionárias do país, o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) - tinha um futuro também brilhante pela frente. Nascido em 24 de junho de 1950, em Araraquara, no interior de São Paulo, ele se mudou para a Capital em 1970 para cursar Arquitetura e ficar mais próximo do teatro que tanto amava. Foi aí que, ao trabalhar no Teatro Oficina, ele desenvolveu o grupo Pão e Circo. 

Luís Antonio Martinez Côrrea                                              Itaú Cultural

Em 1978, ele retornou aos palcos como diretor no aclamado 'Ópera do Malandro' de Chico Buarque e, a partir dos anos 80, ele floresceu no teatro com adaptações de 'O percevejo', de Vladímir Maiakóvski, 'Hino da fonte da vida' de Mário de Andrade e musicais como 'Theatro Musical Brazileiro'. Em 1987, ano de sua morte, ele planejava montar a peça 'Bode Lúlu' com Fernanda Torres como a protagonista, a 'Canção Brasileira' com Grande Otelo e foi convidado para participar da minissérie 'Primo Basílio' na TV Globo. 

Conhecido por prezar pelo teatro coletivo, ou seja, permitir que o elenco tivesse tanta liberdade criativa quanto a plateia, Luís também era professor na Cal (Casa de Artes de Laranjeira), na Unirio. De acordo com a pesquisadora Cássia Abadia da Silva, Luís queria "quebrar com o lugar comum do teatro" e, pouco a pouco, chegava à esse destino. 

Luís Antônio Martinez Côrrea teve sua vida precocemente interrompida ao ser vítima de homofobia e morto, com 100 facadas, na tarde do dia 23 de dezembro de 1987. Ele tinha 37 anos de idade. O principal suspeito? O surfista Gláucio Garcia de Arruda que, um mês antes, foi detido pela Polícia do Rio de Janeiro por atacar o turista francês Marcel Pencern, também homossexual, ao lado de um jovem de 17 anos identificado apenas por suas inicias: A.G. 

Luís com grande elenco no 'Theatro Musical Brazileiro' em 1985

O acusado tinha um modus operandi certeiro: frequentador assíduo da Praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, ele se aproveitava de homens mais velhos que queriam companhia e, ao chegar na casa deles, os roubava e os agredia. Em 2021, um homem foi preso em Curitiba, no Paraná, por utilizar desse mesmo artifício: ele encontrava as vítimas, homens gays pelo Tinder, os roubava e depois os matava. De acordo com o serial killer, ele escolhia os homossexuais pela "facilidade de atrai-los".  

Luís Antônio Martinez Côrrea foi encontrado sem vida, em seu apartamento na Rua Maria Quitéria, 121/405, em Ipanema, às 21h30 do dia 24 de dezembro de 1987. De acordo com o jornal Tribuna da Imprensa, a 13ª Delegacia de Polícia foi chamado para o local pelo porteiro Messias dos Santos, que estranhou a ausência do morador que, diariamente, ao meio dia, descia para apanhar o jornal. 

O diretor foi encontrado em sua cama, inteiramente despido, com as mãos e os pés amarrados com cordas de náilon, uma toalha enrolada no pescoço e o total de 107 facadas por todo o corpo: que atingiram o pulmão (59 facadas), coração, fígado e a cabeça.

Luís no auge de sua carreira em 1987

Em seu depoimento, o outro porteiro do edifício San Diego, Oliveira Teotônio conta que viu Luís pela última vez no dia 23 de dezembro, quando ele chegou da praia com Gláucio, um jovem de cabelo louro e encaracolado que costumava frequentar a casa do teatrólogo, e subiu com ele para seu apartamento por volta das 14h. Meia hora depois chegou outro louro, forte, identificado como Jorge, que pegou o interfone para ligar ao apartamento: "Sou eu. Abra essa porra. Ande logo". 

"O rapaz parecia nervoso, apressado, mas três minutos depois Luís o interfonou e o mandou subir", relembra Oliveira - sem poder afirmar com precisão se era o diretor, afinal não foi ele quem atendeu o interfone. O porteiro conta que, enquanto Jorge subia, Gláucio descia e ao se encontrarem não deram "indícios de que se conheciam". Gláucio subiu com uma sacola amarela e desceu com duas, inclusive uma marrom que pertencia ao teatrólogo. 

O tal Jorge foi procurado por agentes da 13ª DP e teve sua casa revistada quatro vezes, mas nunca foi encontrado. Parentes e amigos notaram o sumiço de um videocassete, uma secretária eletrônica e uma quantia em dinheiro de CR$17 mil. Para eles, estava claro: Luís foi vítima de homofobia, um crime de ódio. 

Diversos amigos e familiares se reuniram nessa grande tragédia

O corpo do ator foi velado no dia 25 de dezembro de 1987 na Casa de Cultura Lauro Alvim, em Ipanema, no Rio de Janeiro. De lá, ele foi transferido para Araraquara para ser enterrado no Cemitério Municipal. O irmão dele, José Celso, estava inconsolável assim como outros amigos como o Grande Otelo, Jorge Fernando, Norma Bengel, Lucinha Lins e Fernanda Montenegro. 
Nós, não apenas homossexuais, mas artistas, pessoas sensíveis estamos servindo de bode expiatório. Nós também somos responsáveis por esse crime pois permitimos a ditadura cultural, econômica e sexual. Nós permitimos esse facismo sexual que, depois de roubar videocassete e secretária eletrônica, perfura o cérebro, o coração, o fígado. Precisa haver uma tomada de posição nossa, dos artistas que estão aqui neste ritual silencioso, porque se não utilizarmos nossa força para virarmos esta situação social seremos apenas empregadinhos bem pagos - José Celso em discurso no velório do irmão mais novo, aos prantos, via Tribunal da Imprensa. 

A comunidade dos artistas se uniu para levar o algoz de Luís à Justiça. Uma comissão formada por José Celso, Fernanda Montenegro, Marília Pêra, Marieta Severo e diversos outros foi até a 13ª Delegacia de Polícia de Copacabana, no Rio, para exigir uma rápida elucidação do crime no dia 28 de dezembro daquele ano. Naquele mesmo dia, o porteiro Oliveira reconheceu Gláucio Garcia de Arruda, de 22 anos, como um dos dois jovens louros que esteve no apartamento de Luís - seis horas depois ele foi preso. 

Marília Pêra, Marieta Severo, Fernanda Montenegro e outros artistas na 13ª DP

Gláucio, preso na Rua Barão da Torre, onde morava, ao voltar da praia (o point que ele supostamente usava para conhecer as vítimas), tinha arranhões e ferimentos, mas os atribuiu à uma queda de bicicleta. O delegado Romeu Diamant é quem estava à frente da investigação e, desde começo, suspeitava que o assassinato havia sido cometido por duas pessoas: o próprio Glaúcio e 'Jorge' - os mesmos que teriam tentado matar o turista Marcel Pencern em novembro. Os dois eram, de acordo com testemunhos, frequentadores assíduos do bar da Saideira, na Rua Gomes Carneiro, local conhecido pelo público LGBTQIA+. 

Artistas fizeram protesto na delegacia após a morte de Luís

Segundo o Jornal do Brasil, o delegado Diamant ficou deslumbrado por ver tantos artistas famosos, inclusive, Fernanda Montenegro, Marília Pera e Marieta Severo no posto policial. A maioria do público, inclusive, estava no protesto apenas para ver as celebridades. Montenegro leu uma carta assinada por 201 colegas, além de oito entidades, exigindo uma apuração rigorosa do crime. 
Agredidos com o assassinato brutal de nosso companheiro, nós artistas, técnicos e intelectuais ligados à atividade teatral, viemos à público manifestar a nossa indignação. Se nos revolta a maneira, particularmente hedionda em que foi cometido esse crime, não nos revolta menos a indiferença e mesmo o eventual deboche com que são examinados, em geral, os delitos cometidos contra os homossexuais, discriminados como cidadãos de segunda classe por parte dos policiais. Não descansaremos até que o crime seja esclarecido e o responsável preso e cobraremos diariamente as autoridades no cumprimento de seus deveres. 

Glaucio foi preso um dia depois da manifestação dos artistas 

José Celso acreditava que a morte do irmão estava conectada à um grupo de extremistas que vinha agindo em São Paulo, mas o delegado descartou essa possibilidade. Fernanda Montenegro apontou que "não é só por Luís, mas contra todo esse descaso que estamos lutando". Marília Pêra, no entanto, teve uma outra visão: "Isso tudo não vai adiantar em nada. Este país não tem lei. Sabe o que vai acontecer? Eles vão prender o assassino e, um mês depois, ele estará solto". 

Marli Rodrigues de Queiroz, por exemplo, cujo irmão Valter foi assassinado em circunstâncias similares, até esteve presente e tentou verificar se os dois rapazes tinham algo a ver com a morte dele, mas foi em vão. No dia 29 de dezembro de 1987, Gláucio foi preso e o delegado, surpreendentemente, negou a participação de mais uma pessoa no crime, apesar do relato de Oliveira. Seria o caso de encerrar logo a investigação por conta da pressão dos artistas? Ele, inclusive, chegou a dizer que estava irritado e sem dormir, "a 48 horas", para encontrar o culpado.  

Na casa de Glaúcio foi achada uma bolsa da vítima com aparentes manchas de sangue (que não foi devidamente periciada), mas sem qualquer sinal da faca utilizada no crime, a secretária eletrônica e o videocassete, além do dinheiro. O rapaz, que foi acusado de utilizar a mesma camisa de quando cometeu o assassinato, negou o crime: "Não tenho a mínima ideia de quem seja o criminoso. Um sujeito que dá 80 facadas em uma pessoa não tem boa índole. Um cara que começa a esfaquear o outro e repete 80 vezes é um paranoico, um maluco. Eu queria ser polícia para te ajudar". 

Luís era um homem cheio de alegria e planos 

Gláucio, sustentado pelo pai João Garcia Pinto de Arruda Filho, funcionário público, também já foi denunciado por bater na mãe, dona Marly. A progenitora negava qualquer envolvimento do filho, apesar de seu lado violento: "Ele podia fazer isso comigo [me bater], mas com os outros não acredito". 

O surfista, que vivia no bem-bom, também negou que fosse garoto de programa e que tirava vantagens dos homossexuais. Apesar disso, ele admitiu que já se envolveu com homens no passado: "É sim, tem muito bonitão de subúrbio que vem atrás de gays na Zona Sul e eu mesmo já experimentei. Mas agora só quero saber de gatinha". Com 1,80 de altura, musculoso, bronzeado e tatuado, ele chamava atenção por onde passava. 

Glaúcio, quando foi detido, tinha escoriações nos punhos, no antebraço esquerdo, no ombro direito e na mão direita. O corpo de delito, no entanto, afirmava que esses machucados não eram derivados de um acidente de bicicleta, mas o surfista mantinha sua história: "Posso provar que não matei ninguém. Só peço, pelo amor de Deus, que aquela morena do Monza Prateado UZ, e alguma coisa que tentou me socorrer quando eu caí de bicicleta, domingo de manhã, aparecesse aqui na delegacia para provar que eu não sou marginal". Ele ainda nomeou um porteiro, uma empregada e o pessoal da Light que viram o suposto acidente, em frente a uma banca de jornal na Rua Barão da Torre, entre as ruas Teixeira de Mello e Farme de Amoedo. Nada disso foi investigado pelo delegado. 

Glaucio quando foi preso em 29 de dezembro

Em 29 de dezembro, no mesmo dia em que Glaucio foi preso preventivamente, a comissão dos artistas agiu novamente. Eles estiveram com o Secretário de Estado da Justiça para protestar contra a discriminação e pedir rigor na investigação. Técio Lins de Silva se mostrou aberto aos protestos e Rodrigo Lima voltou a frisar a existência de um grupo de extermínio de homossexuais em São Paulo e que estava ameaçando a classe artística. A polícia negou que os casos estivessem interligados e apontaram que "achavam injusto que denunciassem esse preconceito no tratamento das investigações". 

Missa de Sétimo Dia pelo corpo de Luís Martinez

No dia 30 de dezembro, mais de 500 pessoas se reuniram na Missa de Sétimo Dia de Luís Martinez na Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, Rio de Janeiro. O padre José Roberto foi quem conduziu a cerimônia e Chico Buarque cantou a música 'Amigo'. Naquele mesmo dia, no entanto, outro homem homossexual, o artista plástico, Vicente Silva de Souza, foi assassinado por dois rapazes: um louro e outro moreno. 

O julgamento de Gláucio começou no dia 11 de janeiro de 1988 pelo juiz Mário Ernesto Ferreira, da 18ª Vara Criminal. O acusado manteve sua versão de inocência e deu um roteiro do que teria feito naquele dia: foi à uma lanchonete, saiu com uma amiga chamada Monica e depois encontrou outra colega, chamada Janete e seu marido Oto em Jacarepaguá, de onde saiu às 21h. Seu advogado, José Carlos Tortima, garantiu que o retrato falado não era nada parecido com seu cliente e que a polícia apenas o prendeu para "dar uma satisfação à opinião pública". 

No dia 18 de janeiro de 1988, as primeiras testemunhas depuseram: o porteiro Manoel Messias dos Santos, que encontrou o corpo de Luís, e Marshall Rey Netherland, amigo do falecido. O delegado Romeu Diamant deixou claro que, para ele, Glaúcio era o culpado - não havia dúvidas. 

Glaucio causou confusão na cadeia

O acusado, por sua vez, mantinha a calma e, de acordo com o Jornal do Brasil, chegou a "prender o riso" inúmeras vezes, o que deixou José Celso perplexo. Marshall depôs, mas ficou bastante nervoso e não sabia dizer, com precisão quando foi a data do crime: 22 ou 23. No dia 1 de fevereiro, Oliveira Teotônio voltou de Paraíba e confirmou seu testemunho: dois homens estiveram no apartamento de Luis naquele dia. Então fica a pergunta: por que a polícia não foi atrás dessas evidências? Outro culpado estava e continua, após tantos anos, à solta. 

Antes do julgamento, Gláucio voltou a demonstrar o profundo ódio que sentia pela comunidade LGBTQIA+ ao quase asfixiar Antonio Carlos da Silva, que se identificava como Márcia. Segundo o Tribuna da Imprensa, ela teria se recusado a fazer sexo com Gláucio e ele, por sua vez, a bateu repetidamente. Ele, inclusive, teria prometido matar o inspetor Luiz Fernando Martins, que estava à frente do caso. 

Gláucio teria sido condenado a 30 anos de prisão, a pena máxima na época, se não fosse por uma falha da autópsia. Os peritos Elias Freitas e Mary Monteiro Cordeiro do IML (Instituto Médico Legal) fizeram dois laudos: no primeiro, do dia 21 de março, os profissionais concluem que a morte ocorreu no dia 23 de dezembro após às 15h. No segundo, assinado em 29 de abril, eles negam a putrefação do corpo, ou seja, Luís teria sido assassinado apenas no dia 24. 

A questão era clara: se Luís foi assassinado em 23 de dezembro, o culpado era Glaucio. Se fosse no dia 24, ele se livraria da pena. O corpo do teatrólogo foi analisado em 25 de dezembro. 

Glaucio foi inocentado por falha na autópsia

Em uma reviravolta digna de cinema, Gláucio foi considerado inocente após uma nova análise do legista Elias Freitas em junho de 1988. De acordo com a análise, Luís teria sido morto apenas no dia 24 de dezembro, inocentando o acusado. Maria Helena, irmã do teatrólogo, ao lado de José Celso e amigos protestaram no Fórum da Vara Criminal e queriam provar que o crime ocorreu no dia 23 de dezembro. Elias foi claro: Luís teria sido morto às 8h do dia 24. Outros peritos corroboraram essa visão. 

José Celso, no entanto, afirma que ficou sabendo da morte do irmão às 8h da manhã do dia 24 de dezembro, ou seja, ele foi morto no dia 23. Todos, inclusive, teriam afirmado que o corpo estava em avançado estado de putrefação quando foi encontrado. 

Em 19 de julho de 1988, Gláucio foi solto pelo juiz Edson Aguiar de Vasconcelos por falta de provas. Quase um mês depois, em 8 de agosto de 1988, um novo laudo feito pelo professor Odon Ramos Maranhão atestou que "a morte ocorreu 36 horas antes" da remoção do corpo para o IML em 25 de dezembro de 1987. Apesar disso, no julgamento, Teotônio teria sido ajudado a se lembrar de uma segunda bolsa que Glaúcio carregava pelo próprio juiz. Ou seja, o caso não foi devidamente investigado, mais uma vez, por pura incompetência policial. Não há dúvidas de que Gláucio era culpado, porém existia uma segunda pessoa envolvida que também deveria ter sido levada à Justiça. 

Nilo Batista, advogado da família, lutava por Justiça

José Carlos Tortima, advogado de Glaúcio, relembrou a contradição do porteiro e a informação de que outra pessoa entrou no apartamento, logo depois de seu cliente - afinal o que ocorreu com essa outra pessoa? Quando ele saiu do apartamento? Apesar disso, em dezembro de 1988, foi julgado um novo recurso sobre a morte de Luís Martinez. 

A família do teatrólogo continuou a pressionar por respostas e, em janeiro de 1989, fez-se um protesto bastante criativo: marcou-se um "Quem Matou Luís Antonio Martinez Correa?" em diversas notas de cruzeiros - algo que teria sido feito pelos alunos da UniRio, onde o falecido lecionava. 

Os protestos de alunos por Justiça

Em 15 de maio de 1989, Glaucio foi condenado a 26 anos e oito meses de prisão pelo assassinato de Luís Martinez, mas teve a sentença diminuída para 20 anos. Além disso, ele ainda era acusado de agressão pelo caso de Michel Pencern. O advogado dele entrou com um recurso em outubro daquele mesmo ano e diversos artistas fizeram um abaixo-assinado, com mais de mil assinaturas, contra a sua soltura. 

Em 11 de dezembro de 1990, o recurso começou a ser, definitivamente, julgado, e em 6 de dezembro Gláucio foi encontrado, após ficar foragido, por mais de um ano em Minas Gerais. Ele trabalhava na região ordenando vacas. Todos os amigos, parentes e artistas fizeram mais um protesto nas ruas com os cartazes "Luís na Cidade", em referência à "Luz na Cidade". 

Gláucio voltou a frisar, em entrevista ao Jornal do Brasil, que era inocente e só havia fugido, com medo de passar quase 30 anos na prisão. Os advogados de Luís Martinez, no entanto, contam que Oliveira Teotônio o reconheceu na delegacia mesmo e chegou a "ficar trêmulo". Maria Helena, irmã do falecido, ainda entregou um ensaio intitulado "Explode Coração" contra a impunidade nesses tipos de crimes para pressionar os juízes por Justiça. 

Maria Helena em protesto/ Gláucio sendo preso novamente

O Superior Tribunal de Justiça manteve a condenação de 20 anos de Glaúcio em decisão no dia 18 de dezembro de 1990, mas de acordo com o livro Luís, um Malandro Burguês, ele foi solto apenas quatro anos depois. Em 2012, a Justiça de Leopoldina concedeu a reabilitação dele perante à sociedade.  

Nilo Batista, advogado da família ao lado de Antonio Carlos de Almeida Castro, inclusive, fez uma conclusão final que, até hoje, serve como um manifesto dos direitos civis da população LGBTQIA+: 

Estranho país este que – na virada do século – retorna às práticas jurídicas medievais para aceitar a criminalização das condutas homossexuais e sua penalização física, mantendo na impunidade o assassinato. Com certeza este não é o país em que o homossexualismo não constitui crime, em que as penas físicas são lembranças amargas do passado, em que a tendência à incriminação da vítima foi revertida pela rejeição predominante da anacrônica tese da legítima defesa de honra. Este não é o país em que ‘todos são iguais perante a lei, sem distinção de sexo, raça, trabalho, credo religioso e convicção política’, mas sim o país onde os apetites individuais manifestam-se sem o freio das instituições jurídicas modernas e democráticas. - via o Jornal Correio. 
Luís com seu grupo de teatro nos anos 80                              Manchete

José Celso manteve a memória do irmão viva e criou o dia Ethernidade de Luís, em 23 de dezembro, na Associação Cambiante Teatro Oficina Uzyna Uzona. Segundo entrevista dele ao Itaú Cultural, todos os integrantes tiram folga nesse dia. Além disso, em Araraquara, foi criada a semana Luis Antonio Martinez Correa, que reúne projetos de ações performáticas e cenas curtas. 

Luís Antônio Martinez Côrrea foi apenas um, entre os mais de 350 homossexuais mortos nos anos 80 só no Rio de Janeiro. O Supremo Tribunal Federal, no entanto, apenas permitiu a criminalização da homofobia e transfobia em 2019. O caso dele não deve ser esquecido e servir como exemplo que o preconceito mata - e tira de nós aquilo que é o mais caro: a vida. 

A visita fascinante de Harry Belafonte ao Brasil

O fascínio de Harry Belafonte com o Brasil, em especial com a Bahia, é anterior a visita dele em 1970 ao lado da esposa, Julie, e os filhos David e Gina, além do filho de amigos, Ted, de 16 anos. Zélia Gattai, esposa de Jorge Amado, foi uma das pessoas que recepcionou o astro e, no livro A Casa do Rio Vermelho, conta como a estrela de 'Carmen Jones (idem, 1954)' ficou tão interessada pelo nosso país. 

Harry Belafonte em Salvador, Bahia

Os pais de Julie, russos erradicados nos EUA, foram os primeiros a introduzir o Brasil em suas vidas: eles conheceram Carybé e a esposa dele, Nancy Bernabó, quando o artista foi pintar um mural no Aeroporto John F. Kennedy em Nova York, nos EUA, após ganhar um concurso internacional. A partir daí, se formou uma amizade e Harry ficou encantado com um dos quadros que o brasileiro presentou a seus sogros. 

O interesse de Harry pela Bahia se aprofundou ainda mais quando ele pôs as mãos no romance 'Jubiabá' de Jorge Amado e, depois disso, seu amor pelo Brasil só crescia. "Na realidade, estou viajando para lá especialmente para investigar a música, a pintura, a literatura, a poesia", afirmou o astro quando embarcou para o Brasil, em seu jatinho particular, direto de Nova York, EUA. Ele chegou a Salvador, Bahia, em 31 de julho de 1970. 

Harry Belafonte desembarcando no Brasil 

A visita de Harry Belafonte já era anunciada desde o dia 25 de julho, mas o astro deu alguns alarmes falsos. Diferente de seus colegas, ele evitou o Rio de Janeiro e São Paulo, em um primeiro momento, e fez uma reserva no Hotel Plaza, na Bahia, para duas suítes no dia 25. Depois, de acordo com O Jornal do Brasil, ele adiou as reservas para o dia 31 e os jornalistas e a mídia fizeram uma vigília de 13 horas no Aeroporto 2 de Julho, atualmente Aeroporto Internacional de Salvador. O astro e a família chegaram no dia 31 de julho às 23h. 

Indagado pela mídia no desembarque - vestindo uma camisa colorida, blusão de veludo cor de mel, calça creme e sapato branco - por que escolheu passar as férias em Salvador, Harry explicou: "Vim à Bahia porque Salvador é a cidade mais africana da América Latina e, aqui, entre os negros eu me sinto bem". De última hora, ele cancelou a reserva no Plaza e escolheu o Hotel Bahia, prezando pela discrição e negando, inclusive, atender uma ligação do futuro governador Antonio Carlos Magalhães. Belafonte garantiu que atenderia à todos assim que dormisse o suficiente. 

Harry disse, ainda, que conheceu o samba e o Brasil "há muito tempo" e que não tinha um roteiro para a viagem, procurando curtir sem amarras. 

Harry em Salvador ao lado dos filhos, da esposa e de Jorge Amado

Após um descanso merecido, o astro e sua família tiveram um dia cheio em 1º de agosto de 1970. De acordo com a revista Manchete, o primeiro programa dele foi um almoço no Sôlar do Unhão, com Carybé, Jorge Amado, Jener Augusto, o cônsul Alexander Watson e outros convidados. Depois do almoço, ele foi conhecer o Museu de Arte Popular da Bahia e ficou bastante sério e pensativo ao ver uma peça, que antigamente, servia para prender os escravos pelos pés e pulsos. 

Depois do tour, ele se dirigiu ao Mercado Popular, onde foi ovacionado e reconhecido por diversos fãs. Os barraqueiros, inclusive, montaram um show em sua homenagem com capoeira e o berimbau. Acompanhado dos jornalistas, Belafonte e o filho David fotografavam tudo o que viam, com muito prazer. 

Harry acompanhado por Carybé, Jorge e a esposa Zélia no Mercado

No interior do mercado, ele parava para ver o samba de roda e, inclusive, chegou a perguntar por Camafeu de Oxóssi, um pai-de-santo cuja fama já conhecia. Harry não pode conhecê-lo pois ele não estava naquele sábado. O grupo seguiu para o Pelourinho e, mais tarde, para a casa de Carybé, onde aproveitaram um jantar com vatapá, abará, acarajé, manissoba, efó e xinxim de galinha. Por fim, eles foram à um terreiro de candomblé. 

Para a revista O Cruzeiro, em seu primeiro dia em Salvador, Bahia, o astro de 43 anos admitiu durante aquele almoço com Jorge: "Aprendi a gostar desta terra lendo seus livros. Tenho todos eles em minha casa". Harry se encantou pela batidinha de limão após aproveitar uma bela feijoada e disse, ainda, que levaria algumas garrafas de cachaça. Como Jorge não era tão bom no inglês, ele tentava se virar no francês, recebendo ajuda de Julie - que sabia um pouco de português por já ter visitado o Brasil com a companhia de dança de Katherine Dunham. Os filhos deles aproveitaram o filé com fritas. 

Belafonte e família no Farol da Bahia e no Mercado Popular 

Harry declinou a falar sobre política, mas deixou claro que era contra a segregação racial, já que fez diversos projetos para capacitar jovens negros no cinema, inclusive no filme 'Angel Levine (1970)'. No Mercado, David, de 12 anos, ficou encantado com os berimbaus enquanto Gina, de 9, preferia as bonecas baianinhas. No dia seguinte, 2 de agosto, num domingo, Harry voltou ao Pelourinho para ver as lutas e até visitou o candomblé da dona Olga do Alaqueto e almoçou com o pintor Jenner Augusto, em um ragu especial. 

Lá no terreiro, de acordo com o Jornal do Brasil, Harry e sua família comeram o amalá, feijão fradinho, cabra (carne de santa), galinha e acarajé, tomando a bebida aruá, feita com milho fermentado, gengibre e rapadura. Julie Belafonte, inclusive, aproveitou a entrevista para explicar seu fascínio com o Brasil:
Há 20 anos eu trabalhei no Brasil na companhia de ballet de Katherine Dunham, onde nos apresentamos em Recife e no Rio de Janeiro. Desde então tenho paixão pela Bahia, que só conhecia de ouvir falar. Sempre falei ao Harry que aqui era um lugar encantador e rico em manifestações populares. 
Harry com seus amigos em Salvador

Naquele mesmo dia, eles foram apresentados à diversos artistas baianos como Márcio Cravo e Valdeoir Rego, na própria casa de Amado. Julie, inclusive, aprendeu a dançar o igexá com Rego enquanto o marido aproveitava o uísque e uma mesa de queijos e vinhos. Jorge Amado afirmou que a visita de Harry comprovava que "a Bahia é realmente a tal. Isto me deixa muito satisfeito, pois sempre disse que terra como a Bahia não há". 

O casal aproveitou as andanças nas feiras de artesanato e comprou estribos, um oratório dourado para santos, e  para o filho David, uma antiga garrucha de dois canos. Na segunda-feira, dia 3 de agosto, a família Belafonte foi assistir no Centro Folclórico da Bahia, do qual Rêgo é diretor, uma apresentação de maculelê e capoeira. Dorival Caymmi era esperado na terça-feira, 4 de agosto de 1970, para conhecer Harry e sua família, mas houve um contratempo. 

Harry com o berimbau que tanto o fascinou 

Nos dias seguintes, Belafonte visitou a cidade de Cachoeira, almoçou na casa do futuro governador Antonio Carlos, onde estava o atual Luís Viana Filho. Durante o lanche, ele aproveitou algumas batidas de limão, aracajés, abarás e beijus. Foi lá que ele conheceu o Camaféu de Oxóssi, de quem ganhou um berimbau de presente - os dois logo emprovisavam um samba, após o ator receber alguns ensinamentos. O cantor disse, ainda, que amou a música brasileira e estava aproveitando muito a viagem e "se não tivesse gostado já teria voltado aos EUA". 

No dia 7 de agosto, o 'Rei do Calipso' foi presenteado com um coquetel em sua homenagem por Nair e Genaro de Carvalho no Hotel Bahia, onde estava hospedado. Foi lá que ele teria conhecido Caymmi, mas não há uma confirmação exata desse encontro. Para a revista Veja, no entanto, Belafonte expressou sua vontade de conhecer o artista: "para ouvi-lo ao vivo, pois já o conheço muito". Posteriormente, revistas confirmaram o encontro. 

Harry no ateliê de Genaro em Salvador, Bahia

De acordo com Zelia Gattai, Harry tinha um senso de humor travesso e era bastante querido por todos, em especial Amado e Carybé. O músico ainda recebeu jantares especiais de Carlos Bastos, Almir, além de almoços de Jenner Augusto e Luísa. No terreiro de Gantois, inclusive, ele participou de uma festa e "emocionado, dançou com as filhas-de-santo em transe". 

Para a despedida da Bahia, Zélia e seu amado Jorge ofereceram uma grande festa na sua residência, hoje conhecida como A Casa do Rio Vermelho - e ponto turístico obrigatório em Salvador, Bahia. 

Rio de Janeiro - agosto 1970

Harry no dia 9 de agosto em desembarque no Rio de Janeiro

Na tarde do dia 9 de agosto, Harry desembarcou com a família, Jorge Amado, Zélia Gattai e Doris Monteiro no Aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro. Carregado de presentes e coisas típicas da Bahia, ele parou e deu diversos autógrafos, chegando a dar um beijo na bochecha de Amado para os os fotógrafos. Para ele, sua estadia na Bahia foi incrível e de onde levava "muitas recordações". 

Em breve bate-papo, antes de se hospedar nas suas duas suítes do Leme Palace Hotel, ele explicou ao Tribuna da Imprensa por que veio ao Brasil: "Vim ao Brasil para descansar, mas vou aproveitar para pesquisar um pouco sobre a música popular brasileira". Para ele, a voz mais bonita que escutou no nosso país era do autor de 'Gabriela' por ser "suave e gostosa".
Quando me convidarem virei atuar no Brasil. Até agora não recebi nenhum convite - garantiu Harry em entrevista. 
Harry Belafonte e Jorge Amado

Harry e sua família ficaram descansando no hotel até a tarde do dia 10 de agosto, quando, de acordo com Jornal do Brasil, ele saiu e gastou CR$ 11.800,00 em roupas Dijon enquanto a esposa dele, Julie, adquiriu diversas joias. O intérprete do hit 'Banana Boat' não planejava visitar o Rio, mas o fez porque Jorge era esperado para um jantar em sua honra. Durante a tarde com Humberto Saad, diretor da Dijon, ele comprou oito túnicas de veludo, oito calças de brim, 12 camisas de estamparia, seis lençois de seda, um chápeu de cowboy, 24 gravatas e camisetas de jersey (para dar de presente), dois coletes de couro, além de 36 camisas sociais e 24 vidros da colônia Dijon. 

Durante a tarde, quando Belafonte surpreendeu os funcionários da loja por suas medidas corporais, em especial os músculos, ele fazia questão de exaltar a Bahia: "E do Brasil fico com a Bahia". O ator nunca voltou ao Brasil, mas garantiu que, um dia, queria visitar o Amazonas. Naquela mesma noite, ele se encontrou com a imprensa no segundo andar do Leme Palace Hotel e foi só elogios ao nosso país, exaltando também a "revolução negra". 

Estou profundamente envolvido com a revolução negra nos EUA, mas minhas atividades estão ligadas imediatamente aos estudantes e ao movimento pacifista. Sou contra a Guerra do Vietnã, contra a exploração dos negros, índigenas e dos latinoamericanos. - entrevista para Jornal do Brasil.
Harry Belafonte em conversa com a imprensa

O astro de 43 anos, mais feliz do que nunca, ainda disse que já admirava o Brasil antes de sua visita e creditou Jorge Amado e Caymmi por lhe transmitir "a alma e o coração do povo brasileiro", afinal ele levaria apenas impressões superficiais se não fosse por eles. Harry explicou, ainda, que, ao seu ver, nos países que houve escravidão há "espiritualmente um problema racial em todos" e que não havia qualquer negro em papel de destaque na televisão brasileira, acrescentando que a "TV e o rádio do país são influenciados por conceitos norteamericanos". 

Pelé é simplesmente o maior jogador de futebol do mundo. Por que na televisão não se veem negros em papeis principais? Vi televisão, todos os dias, no Brasil. Apareceu uma negra, mas no papel de empregada doméstica. - Harry em bate-papo em jantar com Humberto Saad via Manchete. 

Sobre a música brasileira, ele disse que pediu algumas canções para Dorival Caymmi já que "para alguém como o artista desta qualidade a gente não pede coisas determinadas". O cantor diz que considera a música norteamericana "muito complicada", não sabendo explicar sua aceitação no Brasil, por representar uma cultura diferente apesar "do que existe de bom por aqui". Ele ainda citou Carmen Miranda e Jorge Ben como os brasileiros mais conhecidos no exterior. 

Harry Belafonte e o filho em coletiva de imprensa

Harry garantiu, naquela época, se focaria na produção de filmes, citando Sidney Poitier, Yves Montand (indo para Paris para conversar com ele) e Marlon Brando. O astro faria adaptação de um livro, escrito especialmente para ele por Jorge Amado, mas o projeto não decolou.  Ele ainda ficou de voltar à Bahia para um show especial no Teatro Castro Alves - que não ocorreu. 

Indagado sobre a beleza da mulher brasileira, Belafonte não se acanhou com a presença da esposa e garantiu: "Nas ruas do Rio a minha cabeça gira como uma porta giratória de hotel, tantas são as mulheres. Eu tenho também, pela minha atividade, contato com mulheres bonitas, mas sei que minha mulher é inteligente e compreende isso". 

Belafonte afirmou que as danças de candomblé que verificou em Salvador já tinha visto no Haiti e na África. No dia seguinte, 11 de abril, que seria o dia de sua partida, o artista decidiu aproveitar tudo que tinha direito: foi a Galeria Bonino para comprar um Carybé e levou, também, uma pintura de barca de Newton Resende. Na sequência, ele visitou pessoas da embaixada americana, encontrou Jorge Amado e a esposa à bordo do Pasteur e, à noite, jantou na casa de Humberto Saad. 

Harry e July Belafonte e Jorge Amado
Harry, Julie e Jorge na casa do escritor em Salvador, Bahia

Segundo O Tribuna da Imprensa, lá Harry encontrou Wilson Simonal e Jorge Ben, que o levaram para conhecer o sambódromo Osvaldo Sargentelli. Antes, o astro teve uma pequena discussão sobre segregação racial no Brasil, no qual Simonal, conhecido como o 'Harry Belafonte brasileiro', tentava convencê-lo de que isso não existia no Brasil. Prontamente, ele teria aberto um revista e indagou: "Cadê os pretos?".  

Em entrevista para A Manchete, no dia 11 de agosto, ele ainda abriu o jogo sobre seu parecer do problema de drogas e poluição, afirmando que a solução apenas seria encontrada quando "afetasse os mais ricos". Harry, demonstrando todo seu respeito por Jorge Amado, adiou sua partida do Brasil para o dia 12 de agosto para comparecer à uma homenagem no apartamento deles em Rodolfo Dantas.  

Zélia Gattai revela que, ao sair no andar deles, Belafonte ficou chocado com uma estatueta de porcelana do vizinho de porta: a figura de uma mulher deitada ao lado de um cão galgo. De seu jeito bem arteiro, ele retirou a jaqueta que vestia e embrulhou o objeto, afirmando: "Não repare no presente, lhe ofereço de coração". 

Todos explodiram em uma gargalhada sem tamanho ao ver o rosto de Jorge Amado. 

Harry Belafonte em sua partida do Brasil

Harry Belafonte partiu com a família, o amigo Ted, e com todas as suas coisas pelo Aeroporto de Galeão no dia 12 de agosto de 1970. Ele chamou atenção por sua roupa chamativa e os quatro berimbaus que levava, exaltando todos que conheceu em sua estadia: "Gostei muito de Jorge Ben, mas fiquei realmente impressionado com Wilson Simonal. Ele faz mais o meu gênero, tipo calipso, e se dominou uma plateia de 30 mil pessoas no Rio, em Nova York conseguiria o mesmo com um milhão. Estou levando a coleção completa dos dois cantores e talvez grave algumas faixas". 

Durante a revista do aeroporto, antes de embarcar para Caracas, ele ficou assobiando a música 'País Tropical' de Jorge Ben. Outro músico que encantou Harry foi o violoncelista Darcy Villa Verde, já que o músico o levou para os Estados Unidos. Darcy conseguiu apresentações no Teatro Georgetown, InterAmerican Center e no Carnegie Hall e fez, também, diversos elogios ao astro.

Quanto à Jorge Amado e Zélia Gattai, eles se encontraram, diversas vezes com Belafonte em Nova York, em Cuba e até em festa de Gabriel Garcia Marquez - no qual a esposa de Jorge apareceu de chinelos, arrancando risadas de Harry. Ou seja, o astro permaneceu conectado ao Brasil - e nós o amamos por isso!

Harry Belafonte e seus filhos e amigo Ted no Rio de Janeiro



Por que 'O Poderoso Chefão III' foi tão mal recebido pela crítica?

A maldição do terceiro filme já é território conhecido para qualquer fã de franquia: seja de Star Wars a Pânico ou X-Men até Rocky. Nem 'O Poderoso Chefão' fugiu dessa sina, com o terceiro filme tornando-se a 'maçã podre' da obra-prima escrita por Mario Puzzo e dirigida por Francis Ford Coppola. Os primeiros longas não mostravam qualquer sinal de falha: 'O Poderoso Chefão I e II' ganharam 9 Oscars e cimentaram as carreiras de Al Pacino, Talia Shire, James Caan, John Cazale (que faleceu em 1978), Diane Keaton e Robert de Niro. 

'O Poderoso Chefão III', apesar de uma arrecadação de bilheteria acima da média, foi condenado pela maioria dos críticos. Essa repulsa pela obra fez com que Coppola, 30 anos depois, lançasse uma versão de diretor para tentar reparar a injustiça, alterando cenas e até o título como 'O Poderoso Chefão 3 - Desfecho: A Morte de Michael Corleone'. 

Al Pacino eternizou o personagem Michael Corleone 

Não obstante, essa tentativa não foi suficiente para amenizar o desastre de 'O Poderoso Chefão III' da memória de diversos espectadores. Lá nos anos 80, Coppola não estava animado em dirigir o filme e apenas concordou para pagar as dívidas de sua produtora, a Zoetrope Studios, com o fracasso do longa 'O Fundo do Coração (One From The Heart, 1982)'. 

De 1974 a 1989, outros nomes foram mencionados para seguir com o legado do 'Padrinho' como Sylvester Stallone, como diretor e astro, Eddie Murphy com um papel menor, e até John Travolta, e os diretores: Martin Scorsese, Richard Brooks e Dan Curtis. O chefe-executivo do estúdio Paramount, Frank Mancuso, foi quem fez de tudo para 'puxar' Coppola de volta - e conseguiu! 

Mario Puzzo foi anunciado para escrever o roteiro em junho de 1986. Três anos depois, ele e Coppola tinham um rascunho do novo 'Poderoso Chefão III' - que foi registrado em 10 de maio de 1989. Na história original, Tom Hagen, o consigliere irlândes de Michael, vivido por Robert Duvall, tinha um papel substancioso, mas não entraria em uma guerra de máfias com o chefe - permanecendo um fiel escudeiro.

Robert Duvall era uma das peças chaves do filme

Robert desistiu de participar do filme ao descobrir que ganharia menos do que Al Pacino e Diane Keaton, que vivia a ex-esposa de Michael, Kay. Em pronunciamento à Parade Magazine, o ator afirmou: "Tem dois ou três atores ganhando mais do que eu. Isso não está certo". Seu personagem foi 'substituído' pelo advogado B.J Harrison, vivido por George Hamilton. 

'O Poderoso Chefão III' sofreu algumas alterações no roteiro, mas diferente do que muitos fãs acreditam, o cerne da história sempre foi a mesma: Michael, farto de viver na ilegalidade, faz um pacto com a Igreja Católica para controlar a empresa Imobiliare. Nesse ínterim, ele encontra o filho ilegítimo de seu irmão, Sonny, o Vincent, quem ele molda para ser o novo 'Padrinho'. 

Andy Garcia e Al Pacino no eterno clássico

O papel de Mary, filha de Kay e Michael, nos primeiros rascunhos, não era tão substancioso e apenas ganhou ênfase após Robert Duvall se negar a participar do filme. Winona Ryder foi escalada para viver a filha dos Corleones e chegou a pousar em Roma em novembro de 1989 para as gravações. Após Ryder ser internada por exaustão, Coppola estava livre para fazer o que já queria: colocar a filha, Sofia Coppola, em seu lugar. 

Quando meu pai estava escrevendo o filme, ele baseou muito da personagem em mim. Eu até fiz alguns testes com a personagem antes de Winona ser escalada - admitiu Sofia em entrevista ao EW em 1990. Anabella SciorraLaura San Giacomo foram consideradas, mas Coppola foi direto: "Eu vou tentar a Sofia". 

Sofia Coppola não era experiente como atriz

Francis Ford Coppola, portanto, tem apenas à si mesmo para culpar pelo fracasso de 'O Poderoso Chefão III'. Apesar das críticas e acusações de nepotismo de diversos atores do longa - que não foram identificados - e do fato de Sofia não ter experiência concreta como atriz - não conseguindo pronunciar nem Corleone direito sem ajuda de uma fonoaudióloga- ele insistiu em colocá-la no papel. 

A mãe dela, Eleanor, em relato para a Vogue Magazine, relembrou que a filha "diversas vezes começava a chorar", devido à tanta pressão. Com o lançamento do filme houve até boatos de que Sofia precisou dublar algumas cenas antes da grande estreia por conta de sua péssima dicção - algo que foi negado pelo cineasta. 

Com apenas 18 anos de idade, era mais fácil o cineasta ter contratado outra pessoa, poupando a filha do escrutínio da mídia. Sofia, anos depois, se mostrou uma diretora competente. Coppola, no entanto, sempre teve a mania de colocar parentes em seus filmes: sua irmã, Talia Shire, interpreta Connie Corleone na franquia enquanto Sofia esteve nos dois outros filmes anteriores, em papeis menores. Nicolas Cage, seu sobrinho, foi barrado de interpretar Vincent, personagem que foi para Andy Garcia.

Sofia e Andy Garcia em 'O Poderoso Chefão III'

As gravações de 'O Poderoso Chefão III', depois do atraso por conta de Winona Ryder, seguiram de forma bastante tranquila. Al Pacino e Andy Garcia fizeram questão de ajudar Sofia, mantendo-a bem confortável. Pacino e Diane Keaton, contudo, tinham uma relação ressentida após namorarem por quase 18 anos - ela queria se casar e ele se recusava. 

Os dois terminaram o relacionamento durante o filme, após Keaton descobrir que o namorado teve uma filha com Jan Tarrant. Ambos entraram em uma trégua quando a mãe dele, Rose, faleceu, continuando o namoro ioiô. Em entrevista à revista Vanity Fair, Diane admite que não gostou de 'O Poderoso Chefão III': "Quando eu vi, pensei: 'O filme não funciona'. Eu não estava nem aí, pensei: 'Não, não é bom'". 

Em sua autobiografia 'Then Again', Diane relembra as diversas versões do final de 'O Poderoso Chefão III' e como todos estavam confusos e sem direção - na maioria das vezes, Francis dirigia diretamente de seu trailer. Ela também recorda que Frank Mancuso não queria Sofia no papel de maneira alguma, mas não conseguiu deter Coppola. 

Diane Keaton e Al Pacino: terminaram durante as gravações

Robert Duvall sintetizou que 'O Poderoso Chefão III' apenas saiu do papel por conta de "lucro e dinheiro" e ele não estava tão errado assim. Coppola não queria revistar o filme e, por isso, a história parece sem inspiração. Se os dois primeiros longas falavam sobre a máfia, este último era sobre a tentativa de redenção de Corleone, focando mais em seus dramas pessoais do que pela busca de poder, deturbando a essência da obra. 

'O Poderoso Chefão III' estreou em 25 de dezembro de 1990 nos Estados Unidos e as críticas foram medianas, apontando Sofia como o elo fraco do filme - em especial por ter um arco tão importante e não apresentar a performance adequada. A maioria dos jornalistas concordou: o longa falhava em trazer ação, dinamismo e profundidade das personagens. 

'O Poderoso Chefão III' é considerado um dos piores filmes da trilogia

A obra foi indicada para sete Oscars, incluindo Melhor Filme, Ator para Andy Garcia, e Diretor, afinal: era um filme de Coppola e até um longa "ruim" dele está acima do melhor trabalho de diversos diretores. 'O Poderoso Chefão III' não ganhou em nenhuma categoria, mas Sofia, com apenas 19 anos de idade, recebeu os prêmios de Pior Atriz Coadjuvante e Pior Nova Estrela do Razzie Awards em 1991 - ficando conhecida como a estrela da pior cena de morte dos cinemas.

Para a revista New York Times, Coppola admite que se sentiu culpado pelo fracasso de 'O Poderoso Chefão III': "A filha foi atingida pela bala por Michael Corleone e a minha filha fez o mesmo por mim". O diretor diz que, de sua parte, não dirigirá mais nenhum filme sobre a família Corleone. 

Sofia, por sua vez, garantiu que ser responsabilizada pelo desempenho medíocre de 'O Poderoso Chefão III' foi difícil: "Foi bem embaraçoso ser jogada no olho do público daquela maneira. Mas não era meu sonho ser atriz, então não fiquei triste. Eu tinha outros interesses, não me destruiu". A diretora ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original por 'Encontros e Desencontros (2003)'. 

Al Pacino e Francis nos bastidores do terceiro filme

Francis Ford Coppola revelou, em pronunciamento ao The Hollywood Reporter, que considerava a nova versão de 'O Poderoso Chefão III', lançada em 2020, uma espécie de vingança à performance da filha. Não temos esse milagre! O longa, contudo, ganhou uma maior conexão entre as histórias, mesmo que siga bem inferior aos dois primeiros filmes. 

A Paramount, estúdio responsável pelo 'O Poderoso Chefão', não descarta o lançamento de mais um filme baseado nos personagens de Mario Puzzo. Mas o que a parte III deixa de lição? Prezar sempre pelo roteiro, pela escalação e não fazer uma sequência apenas visando o lucro - isso nunca funciona! 


O problema com a série 'Pam & Tommy'

Quem era adolescente ou adulto em meados dos anos 90 se lembrará da relação conturbada de Pamela Anderson e Tommy Lee, baterista do 'Motley Crüe'. Os mais novos sabem tudo sobre a história do ex-casal através do finado programa 'E! True Hollywood Story', do canal E! ou até pela internet. Na época, a estrela de 'Baywatch' era a epítome da barbie vixen enquanto Tommy era o roqueiro mais louco de Hollywood. 

Reza a lenda que os dois se casaram 96 horas após se conhecerem - o que não é exatamente verdade! - e esperavam pelo seu felizes para sempre, repleto de sexo, (drogas) e rock n' roll. A lua de mel, no entanto, acabou abruptamente quando a sex tape deles vazou nos primórdios da web em 1996. As repercussões da fita são o cerne da série 'Pam & Tommy', desenvolvida por Robert Siegel. 

Pamela e Tommy em tempos mais felizes 

A atração conta o romance de Pamela, interpretada por Lily James e armada com protéses impressionantes, com o badboy Tommy Lee, vivido por Sebastian Stan. Os enamorados residiam em uma 'bolha' amorosa até que o artista deixa de pagar o empreiteiro Rand Gauthier, papel de Seth Rogen, por seus serviços em sua mansão em Los Angeles, Califórnia, nos EUA. O funcionário fica furioso e, ao ser ameaçado com uma arma ao tentar recuperar suas ferramentas, decide roubar o cofre precioso de Tommy com a ajuda de outro funcionário. 

O que ele não esperava é que dentro do baú, além de armas, relógios carissímos e dinheiro, também encontaria a fita de sexo do casal. Rand tentou comercializar o vídeo em todas as empresas pornográficas da cidade, mas sem autorização, nada feito.  Com a popularidade da internet, Rand uniu o útil ao agradável e, para se vingar, vendeu o registro de Pam e Tommy com a ajuda da máfia e do amigo, o diretor de pornô Milton Ingley na web. Mas se o faz-tudo queria prejudicar Tommy, não deu certo: Pamela foi e continua a ser a verdadeira vítima. 

Lily James como Pamela Anderson na série 

Tommy Lee, é verdade, surfava na fama astronômica da banda Motley Crüe, mas quem tinha a carreira em ascensão era Pamela. Depois de posar inúmeras vezes para a Playboy, ela era uma das maiores estrelas de Baywatch e seria a protagonista de seu primeiro filme Barbie Wire - A Justiceira (1996), que foi um fracasso de bilheteria e crítica. 

Os três primeiros episódios de 'Pam & Tommy', dirigidos por Craig Gillespie, pecam em um ponto bem importante: dão mais ênfase ao visual (replicando, inclusive, a conversa bizarra de Lee com seu pênis na autobiografia 'TommyLand') do que ao contexto do romance dos protagonistas, em especial o passado do músico. Tommy, antes de se casar com Pamela, já foi marido da atriz Heather Locklear e a relação deles acabou com acusações de agressão, infidelidade e abuso de drogas. 

Pamela e Tommy/ Tommy e Bobbie Brown

Depois, o baterista começou a namorar a modelo Bobbie Brown (estrela do vídeo Cherry Pie, de Warrant) e eles terminaram o noivado quando Tommy tentou enforcá-la em 22 de dezembro de 1994. De acordo com a autobiografia de Bobbie, o 'Dirty Rocker Boys', o ex sempre a confundia com Pamela porque as duas eram muito parecidas - elas até participaram da série Married With Children juntas. O artista, inclusive, conheceu a estrela de Baywatch no Ano Novo, alguns dias após Bobbie colocar o ponto final na relação deles. 

Essa informação quebra a ilusão de que Pamela e Tommy viveram um romance conto de fadas desde o início: o músico de então 32 anos não teve a responsabilidade afetiva nem com a ex e nem com a atual, casando-se com Anderson em 19 de fevereiro de 1995 -menos de três meses depois de fazer juras eternas para Brown. Apesar disso, é importante frisar que os dois se amavam muito: ambos definiram um ao outro como "o amor de sua vida". 

'Pam & Tommy' se apresenta como uma série feminista para 'vingar' o machismo e o julgamento enfrentados por Pamela nos anos 90, contudo não exibe o passado violento de Tommy e como isso, além da fita de sexo vazada, afetou profundamente o casamento dos dois. 

Pam, Tommy e o primeiro filho do casal, Brandon, nascido em 1996

Os outros episódios de 'Pam & Tommy', desta vez dirigido por mulheres, com a produção-executiva de Gillespie, mostram a vulnerabilidade de Pamela e como o vídeo, na prática, apenas afetou o futuro da artista. Enquanto Tommy era visto como um 'garanhão', Pamela foi julgada como a 'vadia', ainda mais por ter posado nua, ter peitões e usar roupas sensuais. 

Nesses subsequentes capítulos, existe menos nudez e mais sororidade, adentrando no pânico e desespero da violação dos direitos da atriz. Anderson foi aconselhada por advogados em sua maioria homens, foi julgada e teve sua carreira arruinada pela misoginia. Para a Playboy, ela posou com consentimento e estava ciente das repercussões. Já com a fita de sexo, ela não forneceu o mais importante: o seu aval. 

'Pam & Tommy' é uma série muito bem-produzida, roteirizada e com atuações excelentes (não estou aqui para julgar isso!), mas o grande problema dela é o seguinte: Pamela Anderson deixou claro que não queria uma série sobre o caso e, mais uma vez, teve seu deferimento violado. Ninguém envolvido na série respeitou sua decisão, assim como não fizeram no auge do escândalo da sex tape.  


Pamela foi ridicularizada em talk shows, processou para tentar impedir que a fita se espalhasse e, para piorar, enfrentou tudo isso grávida - fato que não é detalhadamente explorado na série. Ela deu à luz Brandon, em junho de 1996, e Dylan em dezembro de 1997. Tommy, embora também tenha sofrido, passou pelo período turbulento praticamente intacto, afinal não era ele quem estava sendo realmente julgado. 

Com o lançamento da reportagem 'Pam and Tommy: The Untold Story of the World’s Most Infamous Sex Tape' de Amanda Chicago Lewis para a Rolling Stone, em 2014, a história ganhou um novo fôlego e Bob Siegel decidiu comprar os direitos da matéria. Tommy foi abordado e deu sua benção à série, via Entertainment Tonight: "Eu sinto como se tivesse ocorrido há muito tempo. Mas é uma história legal e as pessoas precisam saber. É legal, estou animado". 

Lily e Sebastian como o casal à direita - controvérsias à parte, a caracterização é incrível

Lily James, em entrevista para a Porter Magazine, diz que tentou conversar com Pamela antes de gravar a atração, mas não foi bem-recebida: "Eu realmente queria que ela tivesse se envolvido. Queria que tivesse sido diferente. Minha intenção era tomar conta da história e interpretar a Pamela de forma autêntica". Courtney Love, uma das amigas de Pamela, criticou publicamente a série, taxando-a de "perversa", enquanto o produtor-executivo da série, D.V DeVicentis, revelou que o objetivo era mostrar o "heroismo de Pamela". 

Mas como Anderson poderia se envolver em uma série que foi feita sem seu consentimento, fazendo-a reviver uma das épocas mais sombrias de sua vida? Essa não é a recriação de um crime famoso ou de um caso extraconjugal: e sim de um vídeo de sexo ilegalmente vazado. Os criadores de 'Pam & Tommy' são hipócritas: afirmam que o objetivo é conceder justiça à Pamela, mas como isso é possível se, novamente, eles desrespeitam a vontade da própria? 

Pam e Tommy em sua última reconciliação em 2008

Fontes próximas à atriz, para o ET, afirmaram que a estrela de 'Baywatch' "nunca assistirá a série" e mais: "Ela se sente violada até hoje. [A série] a faz lembrar de um momento terrível para ela. Tommy está bem com o lançamento da série e está animado para ver. Ele ainda não entende como esse incidente impactou Pamela de maneira diferente". 

Com o lançamento de 'Pam and Tommy', em fevereiro deste ano, a procura pela fita de sexo aumentou em mais de 120%, segundo o Google Trends. E não é difícil encontrar a fita em sites clandestinos, ou até mesmo em sites de busca confiáveis, o que viola, novamente, o direito de Pamela sobre o próprio corpo e imagem. Amigos próximos de Pamela revelam que outro erro da série não é só recriar o crime, mas sim as cenas reais da sex tape original. 

Atualmente, a modelo não sofreria tamanho escrutínio: na Califórnia, EUA, a lei contra o 'pornô de vingança' - que impede a divulgação de fotos e imagens de cunho sexual sem permissão - foi sancionada em 2013. No Brasil, vigoram as leis Carolina Dieckmann e também da importunação sexual. No final do século XX, no entanto, a internet era uma terra sem lei. 

O vazamento da fita afetou o casal de forma diferente

A série, produzida pela plataforma de streaming Hulu, está intrissecamente conectada à indústria do sexo dos anos 90, exibindo a transição de como as pessoas consomem pornô: de fitas cassetes para a dominação da internet, onde o consumidor encontra o que quiser e quando quiser. 'Pam & Tommy' peca ao não exibir a realidade da produção de filmes adultos, tanto para a web quando para consumo físico, exibindo moças praticando sexo de forma descontraída e quase cirúrgica. 

Segundo a pesquisa da ONG Pink Cross Fundation, fundada pela ex-atriz pornô Shelley Rueben, a expectativa de vida de uma mulher nessa área de profissão é de apenas 36 anos de idade. A taxa de infecção por doenças sexualmente transmissíveis é 10% maior e 70% dos trabalhadores do sexo são viciados em drogas lícitas ou ilícitas. 

Primeira capa (de 13) de Pamela para a Playboy em 1989

Hugh Hefner, criador da Playboy, foi um dos grandes responsáveis por tornar esse tipo de sexo rentável com o lançamento da Playboy em 1953. A primeira capa da revista? Marilyn Monroe, cuja fotos nuas também foram publicadas sem seu assentimento. Hugh está enterrado no túmulo ao lado da sex symbol, a mulher cuja carreira ele nem se importou se arruinaria ou não ao publicar as imagens eróticas. 

Ao longo dos anos, posar para a Playboy se tornou um rito de passagem para as aspirantes ao estrelato: ser convidada a posar nua por Hugh era uma honra. A carreira de diversas mulheres cresceu com essa exposição como Dorothy Stratten (antes de ser assassinada pelo ex-marido), Anna-Nicole Smith e Jenny McCarthy. 

Em 'Pamela in Wonderland', o sexto episódio de 'Pam & Tommy', que explora o passado da atriz, Hugh Hefner aparece como um mentor sábio, quase como uma figura paterna. A atração retrata a mansão Playboy como um lugar mágico, sem ao menos dosar algum tipo de realidade. Ex-coelhinhas da Playboy, inclusive ex-namoradas de Hugh, já o denunciaram por drogar mulheres, tirar fotos delas em atos sexuais sem permissão e abusos. 

Pamela e Hugh Hefner continuaram amigos até a morte dele em 2017

Em entrevista ao jornalista Piers Morgan, Anderson revelou que já foi convidada à uma das orgias de Hefner e ficou completamente desgostosa com a situação. A atriz, inclusive, admitiu que foi abusada sexualmente e molestada quando era criança. 

Bob Guccione, criador da revista pornográfica Penthouse é retratado como um inimigo por querer expor fotos da fita de sexo, assim como Rand, seu cúmplice Milton, a sociedade e a mídia. E eles devem ser responsabilizados! Mas retratar Hugh Hefner como um aliado - mesmo que ele seja aos olhos da atriz - não é fiel à realidade e nem às denúncias de milhares de outras mulheres. 

Em novembro de 1997, quando Pamela estava prestes à dar luz seu segundo filho, Dylan, o empresário do ramo pornográfico Seth Warshavsky conseguiu permissão para transmitir, ao vivo, o vídeo de Pam e Tommy em seu site Club Love. 

Pamela Anderson em seu maior sucesso: Baywatch

O ex-casal chegou a processar diversas pessoas diferentes, mas sem sucesso, em especial por Pamela ter posado nua anteriormente. No final de 1997, ambos abriram mão de seus direitos e permitiram que a empresa exibisse a fita pela internet. Em 1998, contudo, eles começaram a vender a fita nas finadas videolocadoras e foram processados pelos Lee, que nunca receberam o dinheiro e foram acusados de vazar a fita de propósito para ganhar fama e rendimento. 

A atriz e o baterista se divorciaram em 1998, após um caso de violência doméstica e, entre idas e vindas, se reconciliaram em 2008 e terminaram de vez em 2010. Nesse ínterim, outras sex tapes foram vazadas como as de Kim Kardashian e Paris Hilton, que construíram um império multimilionário com um porém: o assunto se tornou um gatilho eterno para ambas. 

Pamela também tentou 'lucrar' com a fita, sem poder impedir sua exibição, e continuou a posar nua e a explorar sua imagem em séries - porque sexo vende. A artista nunca teve a carreira cinematográfica que sempre sonhou, tornando-se uma paródia de si mesma para o público. Em março deste ano, ela felizmente anunciou a renascença de sua vida profissional: interpretará Roxie Hart na peça 'Chicago' na Broadway. 

Pamela resignada ao seu lado sexual na série 'VIP'

'Pam & Tommy' colocou os holofotes em Pamela de novo, porém à que custo? A série não tinha o direito de invadir, de novo, a privacidade da atriz, tornando uma história, outrora adormecida, em viral porque produtores, homens e mulheres, não aceitaram um 'não' - já que a modelo se recusou a ver seu sofrimento transformado em uma minissérie para lucro. Os personagens da atração, à todo instante, frisam a importância do consentimento de Pamela, mas, ironicamente, 'Pam & Tommy' não pratica aquilo que prega.  

A verdadeira benfeitoria seria apenas Anderson ter o direito de ditar como e quando quer contar sobre o escândalo. Se for nunca, ótimo: a decisão é dela. 

Pamela Anderson contará a sua história 

Em 2 de março de 2022, Pamela retomou as rédeas de sua história e anunciou o lançamento de um documentário pela Netflix, desenvolvido há alguns anos e dirigido por Ryan White. Em seu Instagram, Pamela garantiu que está pronta para contar tudo: "Minha vida. Mil imperfeições, mil interpretações erradas, maldosas, selvagens e perdidas. Nenhuma expectativa a atender. Posso apenas te surpreender. Não [sou] uma vítima e sim uma sobrevivente - e viva para contar minha história real". 

Afinal, a fita não foi vendida sob a alcunha 'Pamela Anderson's hardcore sex tape' à toa. Para a mulher, o sexo sempre tem um peso diferente - o homem é um mero coadjuvante glorificado. 'Pam & Tommy' tenta se vender como uma série reparadora, mas comete a mesma transgressão do passado. Basta! 

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