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A conscientização social dos filmes dirigidos por Ida Lupino

Ida Lupino pode até ter ficado conhecida, em certo ponto de sua carreira, como a 'versão feminina de Hitchcock', mas ela provou ir além desse rótulo. Seu trabalho a partir dos anos 50, especialmente o noir O Mundo Odeia-me (The Hitch-Hiker, 1953) e em séries de televisão, tinha uma aura sombria e ironia equivalentes à do grande diretor. Essa semelhança, contudo, termina aí: Ida, mesmo em filmes considerados mais leves, tinha como foco explorar e esmiuçar grandes tabus - emocionando e empatizando seus espectadores.  

Ida começou como atriz, mas sempre deu sinais de expandir sua influência. Em entrevistas promocionais para o filme É Difícil ser Feliz (The Hard Way, 1943), ela, por exemplo, revelou que sonhava em ser diretora:  

Eu sempre pensei que, um dia, eu deixaria de atuar e tentaria dirigir. Eu fui muito afortunada de trabalhar com ótimos diretores e aprendi muito com eles. Eu também tenho as minhas próprias teorias que eu gostaria de testar e desenvolver. 

 

Ida Lupino no set de filmagens de O Bígamo (The Bigamist, 1953)

Em 1947, após estrelar em longas como Dentro da Noite (They Drive By Night, 1940), Seu Último Refúgio (High Sierra, 1941) e O Lobo do Mar (The Sea Wolf, 1941), Ida deu adeus à Warner Bros e se tornou uma freelancer. Um ano depois, ela se casou com o produtor cinematográfico Collier Young e os dois investiram no sonho de produzirem e dirigirem seus próprios longas. 

De acordo com a biografia 'Ida Lupino, a Biography' de William Donati, uma conversa da atriz com Roberto Rossellini, em uma festa em 1948, lhe deu o empurrão necessário para filmar 'Mãe Solteira (Not Wanted, 1949). "Em filmes de Hollywood, a estrela está enlouquecendo, ou bebe muito ou quer matar a sua esposa. Quando vocês farão filmes sobre pessoas ordinárias, em situações ordinárias?", indagou ele. 

Mãe Solteira (Not Wanted, 1949)

Sally Forrest em Mãe Solteira (Not Wanted, 1949)

Ida Lupino encontrou o projeto certo para se aventurar nos bastidores, após ler um rascunho escrito pelo roteirista Malvin Wald sobre uma mãe solteira que doa seu bebê. Paul Jerrico, na ocasião, foi contatado para transformar a história em um roteiro sólido. Com tudo pronto, o marido dela, Collier, tentou produzir o longa pela Columbia, mas o diretor do estúdio, Harry Cohn se ôpos veementemente. 

Young, sem pestanejar, se demitiu - algo que enfureceu a esposa. A chance de Ida, contudo, veio com o estúdio Emerald Productions, que era especializado em filmes de baixo orçamento. O fato do casal já ter investido dinheiro no filme The Judge (idem, 1949) ajudou que eles obtivessem o apoio da produtora. Ida, no começo dessa jornada, seria apenas creditada como produtora e roteirista, mas o diretor Elmer Clifton sofreu um ataque cardíaco antes do começo das gravações. Em 28 de fevereiro de 1949, o primeiro dia das filmagens de Mãe Solteira (Not Wanted, 1949), Ida Lupino finalmente se tornou uma diretora. 

Sally Forrest e Leo Penn, pai de Sean Penn, em cena do filme

Em Mãe Solteira (Not Wanted, 1949), Sally Forrest vive Sally, uma jovem que se apaixona perdidamente pelo pianista Steve Ryan (papel de Leo Penn - pai de Sean Penn). Após um breve romance, o músico vai embora da cidade e ela vai atrás dele. Logo depois, ela descobre que está grávida e, apesar da ajuda do gentil Drew (Keefe Brasselle), ela não sabe o que fazer. 

Sally, que se tornou a estrela de três dos filmes dirigidos por Lupino, foi escolhida após uma audição com mais de 250 garotas. Keefe, por sua vez, recebeu uma chance após Ida ficar sabendo que ele estava sofrendo para se firmar como ator - na audição ele estava tão nervoso que mal conseguia falar. Leo foi contratado após Collie vê-lo em uma foto de banco de talentos. Nos caso dos três atores, o filme Mãe Solteira (Not Wanted, 1949) foi a grande brecha que eles almejavam nos cinemas. 

Como o cerne do filme - uma mãe grávida que resolve doar seu bebê - era um grande tabu na época, e ainda o é hoje, o Escritório de Administração do Código de Produção de Hollywood interviu e exigiu que muitas cenas fossem apenas 'insinuadas' e não 'explícitas'. Ida palpitava onde e como podia para melhorar o roteiro. 

Ida Lupino dirigindo enquanto Elmer estava atrás dela

Elmer,que ainda se recuperava do ataque cardíaco, participava das gravações, mas era Ida quem tomava as rédeas do filme. Uma matéria do Daily News, em março daquele ano, notou que era a atriz quem estava comandando tudo, mas bastante graciosa, ela negou: "Eu não estou dirigindo, nem pensaria nisso".

Em Mãe Solteira (Not Wanted, 1949), Ida também encontrou problemas com os investidores, em especial na cena da casa das mães solteiras. A atriz queria exibir garotas brancas, negras e japonesas convivendo em harmonia no local, mas foi proibida. Irritada, ela os desafiou ao colocar uma garota de descendência japonesa no longa e apenas pôde mantê-la porque já era tarde demais para tirá-la do corte final. 

Mãe Solteira (Not Wanted, 1949) ficou pronto em 14 dias, com uma orçamento baixíssimo de apenas US$153 mil. A obra foi recebida com críticas mistas, mas o público compareceu em peso na estreia em 24 de junho de 1949 - arrecadando mais de US$1 milhão. O êxito de Ida, que não quis levar crédito como diretora mesmo tendo gravado tudo, foi tão grande que ela possuiu liberdade total em seu próximo filme Quem Ama não Teme (Never Fear, 1950). 
Todos nós deveríamos trabalhar para aliviar a pobreza e a doença que causa essa condição [mães solteiras que doam seus bebês]. O amor é algo precioso. Todos os humanos precisam amar e ser amados. A vida não nos dá os meios de achar amor sem os limites de nossas convenções e muitos de nós os encontram fora. E é por isso que estamos fazendo esse filme. Essas garotas têm direito de serem compreendidas. - Ida em entrevista sobre o filme em 18 de fevereiro de 1949 para a filha de Eleanor Roosevelt, Anna. 

Quem Ama não Teme (Never Fear, 1950)

Sally e Keefe: os queridinhos de Ida Lupino

Com o sucesso de Mãe Solteira (Not Wanted, 1949), Ida Lupino estava nas nuvens! Decicida a ter ainda mais controle, ela formou com o marido a produtora The Filmakers, cujo objetivo era abordar problemas sociais. Para completar, Malvin Wald foi convidado e se tornou tesoureiro. O primeiro longa da produtora foi anunciado: Quem Ama não Teme (Never Fear, 1950), que seria dirigido, originalmente, por Frank Cavett. Os investidores, no entanto, queriam Ida, já que nos bastidores todos sabiam que foi ela quem dirigiu o sucesso de Mãe Solteira. 

Animada, ela e Collier começaram a desenvolver a história de Quem Ama Não Teme (Never Fear, 1950), que reuniu Sally Forrest e Keefe Brasselle novamente. No longa, Sally interpreta a dançarina Carol Williams, que acaba contraindo poliomelite e fica internada em uma clínica de reabilitação, onde ela conhece o cativante Len, interpretado por Hugh O'Brian. Seu noivo, Guy, vivido por Keefe, faz o que pode para ajudá-la nessa transição, mas Carol quase desiste de tudo. Esse projeto era próximo de Ida já que, em 1934, ela também contraiu a doença e a venceu. 

Ida Lupino checando a maquiagem de Sally nos bastidores do filme

Malvin Wald foi consultado para contribuir com o longa e, em conversa com donos de cinemas, descobriu que o assunto da poliomelite não seria bem-recebido. Em 1949, nos EUA, uma verdadeira epidemia da doença se alastrou, deixando uma 1 a cada 1000 crianças paralíticas. Wald alertou o casal, mas Collier convenceu Ida de que valeria a pena investir em Quem Ama não Teme (Never Fear, 1950) - e ela acreditou, confiando na expertise do marido. 

Nos primeiros dias de filmagens, Lupino torceu o pé em um cabo solto e foi obrigada a dirigir o longa todo sentada. Muita das cenas, inclusive, foram gravadas em um centro real de recuperação para polio, a Kabat-Kaiser Rehabilition Institute em Santa Monica, Califórnia, nos EUA. No local podemos ver, em detalhes, toda a recuperação da personagem e até uma cena de dança de cadeiras de roda - inédito para a época! 

Cena do filme Quem Ama Não Teme - algo inédito na época

O filme foi completado em 15 dias por um orçamento de US$150 mil, cujo US$65 mil foi retirado de um empréstimo com o agente de Ida, Charles Feldman, após os investidores 'darem para trás'. Com pouco dinheiro, Collier não conseguiu exibir o filme em grandes teatros e muitos deles, inclusive, não queriam exibir um assunto tão pesado e próximo como a poliomelite - na ocasião ainda não havia vacina para a doença. 

O fracasso do filme contribuiu para a deterioração do casamento de Ida e Collier, porém a gota d'água veio quando o produtor firmou um contrato terrível com a RKO, estúdio de Howard Hughes. Em 28 de dezembro de 1949, segundo o livro The Women of Warner Brothers, de Daniel Bubbeo, Ida entrou com um pedido de divórcio e começou um romance com o ator Howard Duff. Quem Ama não Teme (Never Fear, 1950) fracassou nas bilheterias, mas deixou uma marca em todas as vítimas da polio pela sua sinceridade e representação fiel de pessoas doentes. 

Eu recebi diversas cartas de pessoas que achavam que isso tinha acontecido, de verdade, com os atores. Eu recebi tantas cartas de pessoas com poliomelite que diziam: 'O que você fez me inspirou'. Foi muito emocionante - relembra Sally Forrest no livro The Women of Warner Bros. 

O Mundo é Culpado (Outrage, 1950)

Mala Powers foi a atriz principal deste filme importantíssimo 

Ida Lupino estava presa, assim como Collier e Malvin, ao contrato com a RKO, que detinha os direitos de todas as suas obras e aprovação de atores e projetos. Disposta a fazer o melhor, a diretora se afundou no trabalho e decidiu desenvolver seu mais novo longa-metragem: a história de uma menina que é estuprada e as consequências desse trauma em sua vida. 

Mala Powers, uma novata de dezoito anos de idade, foi a escolhida para dar a vida à personagem Ann Walton em O Mundo é o Culpado (Outrage, 1950) - que se chamaria inicialmente de Nobody's Safe, ou seja, 'Ninguém está Seguro'. A parte mais impressionante do longa é, justamente, a tentativa de fuga de Ann ao ser perseguida pelo seu agressor. A tensão, o movimento de câmeras e a música criam uma atmosfera de puro terror - algo que qualquer um, especialmente uma mulher que já foi perseguida na rua ou teve essa sensação, pode perfeitamente entender.  

Ida Lupino dirigindo Mala Powers e Robert Clarke 

O Mundo é o Culpado (Outrage, 1950) começa bastante forte, exibindo os julgamentos que a personagem recebe após o ataque, a relação destruída com o então noivo, Jim, vivido por Robert Clarke, e o estresse pós-traumático de Ann. Na metade do filme, começa-se a explorar um possível romance entre Ann e o reverendo Bruce, papel de Tod Andrews, que a ajuda quando ela mais precisa. Apesar desse lado 'água com açúcar', o filme transmite com maestria sua mensagem - até o fim. 

O filme foi lançado em março de 1950, com algumas críticas mistas, mas foi um dos maiores sucessos da RKO daquele ano. Com um comando certeiro no set de filmagens, Ida, que pedia para ser chamada de 'mamãe' pelos atores, conseguia suas cenas de forma objetiva e contando com a colaboração de todos. 

Em entrevista em 1974, segundo o livro Ida Lupino, Director: Her Art And Resilience In Times Of Transition de Therese Grisham and Julie Grossman, ela definiu O Mundo é o Culpado (Outrage, 1950): 
Eu acho que foi algo bom de se fazer na época, sem ser muito moralista. Afinal, não foi  culpa da garota. Eu apenas pensei que o efeito que o estupro pode ter em uma garota não é muito discutido. A garota não fala sobre isso ou vai até à polícia. Ela tem medo de que não acreditem nela. 

Laços de Sangue (Hard, Fast and Beautiful!, 1951)

Sally Forrest interpreta uma filha sob o jugo da mãe, vivida por Claire Trevor

Ida Lupino, desde o começo de sua carreira por trás das câmeras, se focava em trazer filmes de valioso teor social para o público. Então por que ela decidiu gravar Laços de Sangue (Hard, Fast and Beautiful!, 1951), a história sobre uma tenista que é dominada pela ambição de sua própria mãe? Baseado no conto 'Mother of a Champion' de John Tunis, escrito para a Harper’s Monthly Magazine em 1929 - e baseado na vida da tenista Helen Wills Moody - o longa analisa as ambições das mulheres versus o que a sociedade espera deles e, portanto, é perfeito para quebrar os tabus do que se espera de uma mulher. 

Em Laços de Sangue (Hard, Fast and Beautiful!, 1951), Sally Forrest interpreta Florence, uma jovem que tem um futuro brilhante no tênis. A mãe dela, Millie, vivida pela incrivelmente talentosa Claire Trevor, é bastante ambiciosa e quer prover tudo do bom e do melhor para a filha. O problema é que ela acaba afastando a jovem de uma carreira brilhante ao colocar o dinheiro em primeiro lugar, favorecendo o namorado rígído da filha, Gordon, vivido por Robert Clarke. 

Ida Lupino rodeada de homens durante a exibição de Laços de Sangue (Hard, Fast and Beautiful!, 1951)

Desta vez, para o desgosto de Ida, Howard Hughes estava bastante focado no filme, já que ele amava tênis. O empresário foi quem deu a ideia para o título 'Hard, Fast and Beautiful' e também fez questão de que o som das bolas de tênis fossem críveis. "O senhor Hughes era um homem estranho que ficava intrigado com o som das bolas de tênis", relembra Forrest, "Ele insistia para que o som fosse certo. Ele passava muito tempo na sala de edição para isso". 

O estúdio RKO investiu cerca de US$25 mil para uma premiere com toda a pompa para o filme, que ocorreu em São Francisco, nos EUA - uma decisão bastante inusitada, já que a maioria dos longas eram exibidos em Los Angeles. Laços de Sangue (Hard, Fast and Beautiful!, 1951) custou apenas USS$300 mil, sendo o filme com o orçamento mais caro de Ida até então. 

Em 23 de maio de 1951, Laços de Sangue (Hard, Fast and Beautiful!, 1951) estreou nos cinemas e, apesar de uma arrecadação razoável e críticas boas, o filme não fez tanto sucesso quanto se esperava, com Hughes ficando com a maioria da bilheteria. 

O Mundo odeia-me (The Hitch-Hiker, 1953)

O Mundo odeia-me (The Hitch-Hiker, 1953) - um dos filmes mais emblemáticos de Ida

Ida Lupino estava na melhor fase de sua vida pessoal: após pagar a dívida ao seu agente, estrelando no filme Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground, 1951), ela finalmente havia se tornado mãe: com Duff, teve uma filha chamada Bridget, nascida em 23 de abril de 1952. Além disso, ela seguiu lançando filmes e atuando através da produtora The Filmakers com: Escravo de Si Mesmo (Beware My Love, 1952) e Abismos do Desejo (On the Loose, 1951). 

Recuperando-se do pós-parto e do nascimento prematuro da filha, cujos padrinhos eram seu ex-marido, Collier e a então esposa Joan Fontaine, Ida resolveu mergulhar no trabalho - desta vez se inspirando no caso real dos assassinatos ocorridos em 1951 por Billy Cook. Assim nasceu O Mundo odeia-me (The Hitch-Hiker, 1953), longa que ela estava incerta de fazer por ser muito diferente do que estava acostumada. Collier, no entanto, a incentivou e, desta vez, deu certo!

Ida dirigindo os atores Frank Lovejoy e Edmond O'Brien

Em O Mundo Odeia-me (The Hitch-Hiker, 1953), que tornou Ida a primeira cineasta a dirigir um filme noir, conta-se a história de dois amigos, Roy, vivido por Edmond O'Brien, e Gilbert, papel de Frank Lovejoy, que estão indo, de carro, para um final de semana de pesca. Quando Emmett Myers, interpretado por William Talman, pede uma carona, eles aceitam sem imaginar de que se tornariam reféns e passariam dias de desespero. 

Ida Lupino se encontrou, brevemente, com o próprio Billy Cook antes de começar a co-escrever o roteiro com Collier Young, que teve títulos como 'The Difference' e 'The Persuader'. O filme começou a ser desenvolvido em março de 1952, mas o julgamento contra o assassino ainda estava em seu curso. Para piorar, o  Escritório de Administração do Código de Produção de Hollywood, se opunha à representação de um homicída nas telonas e, por isso, de Billy Cook, o antagonista passou a se chamar Emmett. 

Com um toque Ida de ser, ela adicionou mexicanos na história de forma não-estereotipada, e permitindo que eles falassem em espanhol, sem legendas, muito antes dessa manobra ser utilizada, novamente, por Steven Spielberg no remake de Amor, Sublime Amor (West Side Story, 2021). 

Ida estava incerta de fazer o filme, mas foi um grande sucesso 

Logo depois do nascimento da filha, Bridget, Ida começou a gravar O Mundo Odeia-me (The Hitch-Hiker, 1953), entre junho a julho de 1952. O filme estreou em 20 de março de 1953 e foi um dos maiores sucessos daquele ano para a RKO Pictures e cimentou a grandeza da atriz como diretora. Para se ter uma ideia, ela era, naquela época, a única mulher a fazer parte do Director's Guild - associação dos diretores dos EUA. 

Para aumentar o suspense do filme, eu gravei as cenas em lugares claustrofóbicos do carro para intensificar o calor do lado de fora, as barreiras do deserto. Eu tentava manter o espectador à beira do assento com uma linha de violência prestes à explodir a qualquer momento. - relembra Ida em entrevista no livro The Making of The Hitch-Hiker Illustrated Por Mary Ann Anderson

O Bígamo (The Bigamist, 1953) 

Ida Lupino e Edmond O'Brien em O Bígamo (The Bigamist, 1953)

Provando não ter medo de desafios, Ida Lupino se tornou uma das estrelas de seu próximo filme O Bígamo (The Bigamist, 1953), além de dirigi-lo -tornando-se a primeira mulher a dirigir a si mesma em um filme - e, de quebra, convidou a atual esposa de seu ex-marido, Joan Fontaine, para ser uma das protagonistas. 

Baseado na história de Lawrence B. Marcus e Lou Schor, O Bígamo (The Bigamist, 1953), segue a tradição de Lupino trabalhar com os mesmos atores, pelo menos duas vezes. Nele, Edmond O'Brien interpreta Harry, que pretende adotar uma criança com a esposa, Eve, papel de Joan. O dono da agência, Mr. Jordan, vivido pelo Edmund Gwenn - o eterno Papai Noel do Milagre na Rua 34 - suspeita das frequentes viagem de Harry e descobre que ele tem uma outra esposa, Phyllis, interpretada por Lupino .

Joan, Collier e Ida Lupino durante as filmagens de O Bígamo (The Bigamist, 1953) 

O filme começou a ser gravado em junho de 1953 após a decisão do The Filmakers de deixar a RKO e distribuir seus projetos de forma independente. Os investidores gostaram de O Bígamo (The Bigamist, 1953) especialmente porque, apesar de tratar de um assunto polêmico, o filme não se desviava para um lado sórdido e sim para os sentimentos e a indecisão de um homem. 

O Bígamo (The Bigamist, 1953) foi lançado em 24 de novembro de 1953 e com críticas mistas, em especial pelo fim 'em aberto'. Um dos grandes problemas foi a distribuição limitada do filme, que não conseguiu chegar em tantas pessoas e, assim, arrecadou menos do que o esperado. 

Com essas dificuldades de distribuição da produtora, Ida recebeu a proposta de trabalhar na televisão pelo operador de câmera de O Bígamo, George Discant com o grupo 'Four Star', formado por David Niven, Charles Boyer e Dick Powell. Ela estava insegura em aceitar, mas acabou cedendo e dirigiu diversos episódios televisivos ao longo de dez anos. A produtora dela, 'The Filmakers', havia se dissolvido em 1955 após completar o filme A Vólupia do Crime (Mad at The World, 1955).  

Aqueles eram dias incríveis. Nós descobrimos novos talentos e nós fizemos o tipo de filme que é considerado 'new wave' hoje. Nós abordamos assuntos que eram polêmicos na época - mães solteiras, suborno no tênis, crimes de um mochileiro, a bigamia e o polio. - entrevista de Ida para a revista Action em 1967, da matéria 'Me, Mother Directress'. 

Anjos Rebeldes (The Trouble with Angels, 1966)

Hayley Mills e June Harding na volta de Ida aos cinemas

Após perder o preconceito com a televisão, algo comum entre os atores de Hollywood, Ida Lupino dirigiu episódios de 'Alfred Hitchcock Apresenta', 'Paladino do Oeste', 'Os Intocáveis' e 'Dr. Kildare', até aparecer a oportunidade de dirigir o filme Anjos Rebeldes (The Trouble With Angels, 1966). A diretora recebeu o convite do produtor William Frye, para compor uma gravação composta quase toda de mulheres, e não perdeu a oportunidade. 

Em Anjos Rebeldes (The Trouble With Angels, 1966), a grandiosa Rosalind Russell interpreta a Madre Superiora de uma escola católica apenas para garotas. O que ela não esperava eram as confusões que as jovens Mary Clancy, vivida por Hayley Mills, e Rachel Devery, papel de June Harding, aprontariam em sua amada escola. Misturando comédia com um pouco de ousadia - convidando a artista burlesca Gypsy Rose Lee para fazer uma ponta - o filme era baseado no livro 'A Vida com a Madre Superiora' de Jane Trahey. 

Ida, focada, ao dirigir o filme Anjos Rebeldes

Rosalind Russell e Ida se deram muito bem durante as filmagens, com Lupino mais uma vez impressionando com a sua dedicação e profissionalismo. A diretora, inclusive, fez amizade com as verdadeiras freiras da St. Mary's Home for Children, onde a obra foi gravada em Pensilvânia, nos EUA. Infelizmente, a 20th Century Fox deletou diversas cenas gravadas por Ida - que não tinha o controle criativo do longa. 

Anjos Rebeldes (The Trouble With Angels, 1966) foi lançado em 6 de abril de 1966 e recebido de forma bem morna pelo público e pela crítica. Na época, vale lembrar, havia uma overdose de longas sobre freiras, desde o sucesso de A Noviça Rebelde (Sound of Music, 1965), mas Ida conseguiu mesclar a comédia com a religiosidade de forma perfeita e traçou uma obra divertidíssima! 

Aos 48 anos de idade, mãe de uma garota de 14 anos e com um casamento atribulado com Howard Duff, Ida não tinha mais aquela audacidade dos primeiros filmes, preferindo mostrar sua maestria por trás das câmeras - o que também não deixava de ser corajoso. Ela preferia ficar mais perto de casa e após Anjos Rebeldes (The Trouble With Angels, 1966) voltou a se focar na televisão e na atuação. 

Menção honrosa: Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground, 1951)

Ida e Robert Ryan em Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground, 1951)

A menção honrosa de Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground, 1951) é por conta da suposta direção, mais uma vez, não creditada a Ida Lupino. Ela foi convidada pelo diretor Nicholas Ray para estrelar nesse filme noir, que com certeza serviu de base para O Mundo Odeia-me (The Hitch-Hiker, 1953). 

Em Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground, 1951), Robert Ryan interpreta o policial Jim Wilson que é designado para investigar a morte de uma garota no interior. Ao chegar no local, ele acaba encantado por Mary, papel de Ida, uma jovem cega que o fascina. 

De acordo com o livro Ida Lupino as Film Director, 1949-1953: An Auteur Approach de Lucy Ann Liggett Stewart, o autor David Thomson reportou que Ida gravou algumas cenas do filme quando Nicholas Ray ficou doente, mas não existe outra matéria, biografia ou entrevista de Ida que confirme esse fato. Apesar disso, Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground, 1951) é um grande filme e a performance da atriz é fantástica. 

Ida Lupino dirigindo o filme O Mundo é o Culpado (Outrage, 1950)

Ida Lupino era pioneira no sentido mais literal da palavra: a única diretora ativa em Hollywood após a II Guerra Mundial, ela não teve medo de expor problemas sociais, de fazer o que queria da forma como queria e cimentando, assim, seu nome na história.  



O assassinato de Luís Antônio Martinez Corrêa e os direitos LGBTQIA+

Nos anos 1980, uma terrível onda de assassinatos contra homens homossexuais assolava o Brasil, munida pelo preconceito contra a epidemia de AIDS. O dançarino Carlos Machado, o ator Chico Marques e outro nove artistas foram vítimas desse crime hediondo, especialmente em São Paulo - isso sem contar com os cidadãos fora do escopo da mídia. Em 1987, a mais nova vítima foi o diretor e teatrólogo Luís Antônio Martinez Corrêa. 

Luís, irmão de José Celso -conhecido como o cabeça de uma das companhias de teatro mais revolucionárias do país, o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) - tinha um futuro também brilhante pela frente. Nascido em 24 de junho de 1950, em Araraquara, no interior de São Paulo, ele se mudou para a Capital em 1970 para cursar Arquitetura e ficar mais próximo do teatro que tanto amava. Foi aí que, ao trabalhar no Teatro Oficina, ele desenvolveu o grupo Pão e Circo. 

Luís Antonio Martinez Côrrea                                              Itaú Cultural

Em 1978, ele retornou aos palcos como diretor no aclamado 'Ópera do Malandro' de Chico Buarque e, a partir dos anos 80, ele floresceu no teatro com adaptações de 'O percevejo', de Vladímir Maiakóvski, 'Hino da fonte da vida' de Mário de Andrade e musicais como 'Theatro Musical Brazileiro'. Em 1987, ano de sua morte, ele planejava montar a peça 'Bode Lúlu' com Fernanda Torres como a protagonista, a 'Canção Brasileira' com Grande Otelo e foi convidado para participar da minissérie 'Primo Basílio' na TV Globo. 

Conhecido por prezar pelo teatro coletivo, ou seja, permitir que o elenco tivesse tanta liberdade criativa quanto a plateia, Luís também era professor na Cal (Casa de Artes de Laranjeira), na Unirio. De acordo com a pesquisadora Cássia Abadia da Silva, Luís queria "quebrar com o lugar comum do teatro" e, pouco a pouco, chegava à esse destino. 

Luís Antônio Martinez Côrrea teve sua vida precocemente interrompida ao ser vítima de homofobia e morto, com 100 facadas, na tarde do dia 23 de dezembro de 1987. Ele tinha 37 anos de idade. O principal suspeito? O surfista Gláucio Garcia de Arruda que, um mês antes, foi detido pela Polícia do Rio de Janeiro por atacar o turista francês Marcel Pencern, também homossexual, ao lado de um jovem de 17 anos identificado apenas por suas inicias: A.G. 

Luís com grande elenco no 'Theatro Musical Brazileiro' em 1985

O acusado tinha um modus operandi certeiro: frequentador assíduo da Praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, ele se aproveitava de homens mais velhos que queriam companhia e, ao chegar na casa deles, os roubava e os agredia. Em 2021, um homem foi preso em Curitiba, no Paraná, por utilizar desse mesmo artifício: ele encontrava as vítimas, homens gays pelo Tinder, os roubava e depois os matava. De acordo com o serial killer, ele escolhia os homossexuais pela "facilidade de atrai-los".  

Luís Antônio Martinez Côrrea foi encontrado sem vida, em seu apartamento na Rua Maria Quitéria, 121/405, em Ipanema, às 21h30 do dia 24 de dezembro de 1987. De acordo com o jornal Tribuna da Imprensa, a 13ª Delegacia de Polícia foi chamado para o local pelo porteiro Messias dos Santos, que estranhou a ausência do morador que, diariamente, ao meio dia, descia para apanhar o jornal. 

O diretor foi encontrado em sua cama, inteiramente despido, com as mãos e os pés amarrados com cordas de náilon, uma toalha enrolada no pescoço e o total de 107 facadas por todo o corpo: que atingiram o pulmão (59 facadas), coração, fígado e a cabeça.

Luís no auge de sua carreira em 1987

Em seu depoimento, o outro porteiro do edifício San Diego, Oliveira Teotônio conta que viu Luís pela última vez no dia 23 de dezembro, quando ele chegou da praia com Gláucio, um jovem de cabelo louro e encaracolado que costumava frequentar a casa do teatrólogo, e subiu com ele para seu apartamento por volta das 14h. Meia hora depois chegou outro louro, forte, identificado como Jorge, que pegou o interfone para ligar ao apartamento: "Sou eu. Abra essa porra. Ande logo". 

"O rapaz parecia nervoso, apressado, mas três minutos depois Luís o interfonou e o mandou subir", relembra Oliveira - sem poder afirmar com precisão se era o diretor, afinal não foi ele quem atendeu o interfone. O porteiro conta que, enquanto Jorge subia, Gláucio descia e ao se encontrarem não deram "indícios de que se conheciam". Gláucio subiu com uma sacola amarela e desceu com duas, inclusive uma marrom que pertencia ao teatrólogo. 

O tal Jorge foi procurado por agentes da 13ª DP e teve sua casa revistada quatro vezes, mas nunca foi encontrado. Parentes e amigos notaram o sumiço de um videocassete, uma secretária eletrônica e uma quantia em dinheiro de CR$17 mil. Para eles, estava claro: Luís foi vítima de homofobia, um crime de ódio. 

Diversos amigos e familiares se reuniram nessa grande tragédia

O corpo do ator foi velado no dia 25 de dezembro de 1987 na Casa de Cultura Lauro Alvim, em Ipanema, no Rio de Janeiro. De lá, ele foi transferido para Araraquara para ser enterrado no Cemitério Municipal. O irmão dele, José Celso, estava inconsolável assim como outros amigos como o Grande Otelo, Jorge Fernando, Norma Bengel, Lucinha Lins e Fernanda Montenegro. 
Nós, não apenas homossexuais, mas artistas, pessoas sensíveis estamos servindo de bode expiatório. Nós também somos responsáveis por esse crime pois permitimos a ditadura cultural, econômica e sexual. Nós permitimos esse facismo sexual que, depois de roubar videocassete e secretária eletrônica, perfura o cérebro, o coração, o fígado. Precisa haver uma tomada de posição nossa, dos artistas que estão aqui neste ritual silencioso, porque se não utilizarmos nossa força para virarmos esta situação social seremos apenas empregadinhos bem pagos - José Celso em discurso no velório do irmão mais novo, aos prantos, via Tribunal da Imprensa. 

A comunidade dos artistas se uniu para levar o algoz de Luís à Justiça. Uma comissão formada por José Celso, Fernanda Montenegro, Marília Pêra, Marieta Severo e diversos outros foi até a 13ª Delegacia de Polícia de Copacabana, no Rio, para exigir uma rápida elucidação do crime no dia 28 de dezembro daquele ano. Naquele mesmo dia, o porteiro Oliveira reconheceu Gláucio Garcia de Arruda, de 22 anos, como um dos dois jovens louros que esteve no apartamento de Luís - seis horas depois ele foi preso. 

Marília Pêra, Marieta Severo, Fernanda Montenegro e outros artistas na 13ª DP

Gláucio, preso na Rua Barão da Torre, onde morava, ao voltar da praia (o point que ele supostamente usava para conhecer as vítimas), tinha arranhões e ferimentos, mas os atribuiu à uma queda de bicicleta. O delegado Romeu Diamant é quem estava à frente da investigação e, desde começo, suspeitava que o assassinato havia sido cometido por duas pessoas: o próprio Glaúcio e 'Jorge' - os mesmos que teriam tentado matar o turista Marcel Pencern em novembro. Os dois eram, de acordo com testemunhos, frequentadores assíduos do bar da Saideira, na Rua Gomes Carneiro, local conhecido pelo público LGBTQIA+. 

Artistas fizeram protesto na delegacia após a morte de Luís

Segundo o Jornal do Brasil, o delegado Diamant ficou deslumbrado por ver tantos artistas famosos, inclusive, Fernanda Montenegro, Marília Pera e Marieta Severo no posto policial. A maioria do público, inclusive, estava no protesto apenas para ver as celebridades. Montenegro leu uma carta assinada por 201 colegas, além de oito entidades, exigindo uma apuração rigorosa do crime. 
Agredidos com o assassinato brutal de nosso companheiro, nós artistas, técnicos e intelectuais ligados à atividade teatral, viemos à público manifestar a nossa indignação. Se nos revolta a maneira, particularmente hedionda em que foi cometido esse crime, não nos revolta menos a indiferença e mesmo o eventual deboche com que são examinados, em geral, os delitos cometidos contra os homossexuais, discriminados como cidadãos de segunda classe por parte dos policiais. Não descansaremos até que o crime seja esclarecido e o responsável preso e cobraremos diariamente as autoridades no cumprimento de seus deveres. 

Glaucio foi preso um dia depois da manifestação dos artistas 

José Celso acreditava que a morte do irmão estava conectada à um grupo de extremistas que vinha agindo em São Paulo, mas o delegado descartou essa possibilidade. Fernanda Montenegro apontou que "não é só por Luís, mas contra todo esse descaso que estamos lutando". Marília Pêra, no entanto, teve uma outra visão: "Isso tudo não vai adiantar em nada. Este país não tem lei. Sabe o que vai acontecer? Eles vão prender o assassino e, um mês depois, ele estará solto". 

Marli Rodrigues de Queiroz, por exemplo, cujo irmão Valter foi assassinado em circunstâncias similares, até esteve presente e tentou verificar se os dois rapazes tinham algo a ver com a morte dele, mas foi em vão. No dia 29 de dezembro de 1987, Gláucio foi preso e o delegado, surpreendentemente, negou a participação de mais uma pessoa no crime, apesar do relato de Oliveira. Seria o caso de encerrar logo a investigação por conta da pressão dos artistas? Ele, inclusive, chegou a dizer que estava irritado e sem dormir, "a 48 horas", para encontrar o culpado.  

Na casa de Glaúcio foi achada uma bolsa da vítima com aparentes manchas de sangue (que não foi devidamente periciada), mas sem qualquer sinal da faca utilizada no crime, a secretária eletrônica e o videocassete, além do dinheiro. O rapaz, que foi acusado de utilizar a mesma camisa de quando cometeu o assassinato, negou o crime: "Não tenho a mínima ideia de quem seja o criminoso. Um sujeito que dá 80 facadas em uma pessoa não tem boa índole. Um cara que começa a esfaquear o outro e repete 80 vezes é um paranoico, um maluco. Eu queria ser polícia para te ajudar". 

Luís era um homem cheio de alegria e planos 

Gláucio, sustentado pelo pai João Garcia Pinto de Arruda Filho, funcionário público, também já foi denunciado por bater na mãe, dona Marly. A progenitora negava qualquer envolvimento do filho, apesar de seu lado violento: "Ele podia fazer isso comigo [me bater], mas com os outros não acredito". 

O surfista, que vivia no bem-bom, também negou que fosse garoto de programa e que tirava vantagens dos homossexuais. Apesar disso, ele admitiu que já se envolveu com homens no passado: "É sim, tem muito bonitão de subúrbio que vem atrás de gays na Zona Sul e eu mesmo já experimentei. Mas agora só quero saber de gatinha". Com 1,80 de altura, musculoso, bronzeado e tatuado, ele chamava atenção por onde passava. 

Glaúcio, quando foi detido, tinha escoriações nos punhos, no antebraço esquerdo, no ombro direito e na mão direita. O corpo de delito, no entanto, afirmava que esses machucados não eram derivados de um acidente de bicicleta, mas o surfista mantinha sua história: "Posso provar que não matei ninguém. Só peço, pelo amor de Deus, que aquela morena do Monza Prateado UZ, e alguma coisa que tentou me socorrer quando eu caí de bicicleta, domingo de manhã, aparecesse aqui na delegacia para provar que eu não sou marginal". Ele ainda nomeou um porteiro, uma empregada e o pessoal da Light que viram o suposto acidente, em frente a uma banca de jornal na Rua Barão da Torre, entre as ruas Teixeira de Mello e Farme de Amoedo. Nada disso foi investigado pelo delegado. 

Glaucio quando foi preso em 29 de dezembro

Em 29 de dezembro, no mesmo dia em que Glaucio foi preso preventivamente, a comissão dos artistas agiu novamente. Eles estiveram com o Secretário de Estado da Justiça para protestar contra a discriminação e pedir rigor na investigação. Técio Lins de Silva se mostrou aberto aos protestos e Rodrigo Lima voltou a frisar a existência de um grupo de extermínio de homossexuais em São Paulo e que estava ameaçando a classe artística. A polícia negou que os casos estivessem interligados e apontaram que "achavam injusto que denunciassem esse preconceito no tratamento das investigações". 

Missa de Sétimo Dia pelo corpo de Luís Martinez

No dia 30 de dezembro, mais de 500 pessoas se reuniram na Missa de Sétimo Dia de Luís Martinez na Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, Rio de Janeiro. O padre José Roberto foi quem conduziu a cerimônia e Chico Buarque cantou a música 'Amigo'. Naquele mesmo dia, no entanto, outro homem homossexual, o artista plástico, Vicente Silva de Souza, foi assassinado por dois rapazes: um louro e outro moreno. 

O julgamento de Gláucio começou no dia 11 de janeiro de 1988 pelo juiz Mário Ernesto Ferreira, da 18ª Vara Criminal. O acusado manteve sua versão de inocência e deu um roteiro do que teria feito naquele dia: foi à uma lanchonete, saiu com uma amiga chamada Monica e depois encontrou outra colega, chamada Janete e seu marido Oto em Jacarepaguá, de onde saiu às 21h. Seu advogado, José Carlos Tortima, garantiu que o retrato falado não era nada parecido com seu cliente e que a polícia apenas o prendeu para "dar uma satisfação à opinião pública". 

No dia 18 de janeiro de 1988, as primeiras testemunhas depuseram: o porteiro Manoel Messias dos Santos, que encontrou o corpo de Luís, e Marshall Rey Netherland, amigo do falecido. O delegado Romeu Diamant deixou claro que, para ele, Glaúcio era o culpado - não havia dúvidas. 

Glaucio causou confusão na cadeia

O acusado, por sua vez, mantinha a calma e, de acordo com o Jornal do Brasil, chegou a "prender o riso" inúmeras vezes, o que deixou José Celso perplexo. Marshall depôs, mas ficou bastante nervoso e não sabia dizer, com precisão quando foi a data do crime: 22 ou 23. No dia 1 de fevereiro, Oliveira Teotônio voltou de Paraíba e confirmou seu testemunho: dois homens estiveram no apartamento de Luis naquele dia. Então fica a pergunta: por que a polícia não foi atrás dessas evidências? Outro culpado estava e continua, após tantos anos, à solta. 

Antes do julgamento, Gláucio voltou a demonstrar o profundo ódio que sentia pela comunidade LGBTQIA+ ao quase asfixiar Antonio Carlos da Silva, que se identificava como Márcia. Segundo o Tribuna da Imprensa, ela teria se recusado a fazer sexo com Gláucio e ele, por sua vez, a bateu repetidamente. Ele, inclusive, teria prometido matar o inspetor Luiz Fernando Martins, que estava à frente do caso. 

Gláucio teria sido condenado a 30 anos de prisão, a pena máxima na época, se não fosse por uma falha da autópsia. Os peritos Elias Freitas e Mary Monteiro Cordeiro do IML (Instituto Médico Legal) fizeram dois laudos: no primeiro, do dia 21 de março, os profissionais concluem que a morte ocorreu no dia 23 de dezembro após às 15h. No segundo, assinado em 29 de abril, eles negam a putrefação do corpo, ou seja, Luís teria sido assassinado apenas no dia 24. 

A questão era clara: se Luís foi assassinado em 23 de dezembro, o culpado era Glaucio. Se fosse no dia 24, ele se livraria da pena. O corpo do teatrólogo foi analisado em 25 de dezembro. 

Glaucio foi inocentado por falha na autópsia

Em uma reviravolta digna de cinema, Gláucio foi considerado inocente após uma nova análise do legista Elias Freitas em junho de 1988. De acordo com a análise, Luís teria sido morto apenas no dia 24 de dezembro, inocentando o acusado. Maria Helena, irmã do teatrólogo, ao lado de José Celso e amigos protestaram no Fórum da Vara Criminal e queriam provar que o crime ocorreu no dia 23 de dezembro. Elias foi claro: Luís teria sido morto às 8h do dia 24. Outros peritos corroboraram essa visão. 

José Celso, no entanto, afirma que ficou sabendo da morte do irmão às 8h da manhã do dia 24 de dezembro, ou seja, ele foi morto no dia 23. Todos, inclusive, teriam afirmado que o corpo estava em avançado estado de putrefação quando foi encontrado. 

Em 19 de julho de 1988, Gláucio foi solto pelo juiz Edson Aguiar de Vasconcelos por falta de provas. Quase um mês depois, em 8 de agosto de 1988, um novo laudo feito pelo professor Odon Ramos Maranhão atestou que "a morte ocorreu 36 horas antes" da remoção do corpo para o IML em 25 de dezembro de 1987. Apesar disso, no julgamento, Teotônio teria sido ajudado a se lembrar de uma segunda bolsa que Glaúcio carregava pelo próprio juiz. Ou seja, o caso não foi devidamente investigado, mais uma vez, por pura incompetência policial. Gláucio, ao que tudo indica, também era culpado, porém existia uma segunda pessoa envolvida que também deveria ter sido levada à Justiça. 

Nilo Batista, advogado da família, lutava por Justiça

José Carlos Tortima, advogado de Glaúcio, relembrou a contradição do porteiro e a informação de que outra pessoa entrou no apartamento, logo depois de seu cliente - afinal o que ocorreu com essa outra pessoa? Quando ele saiu do apartamento? Apesar disso, em dezembro de 1988, foi julgado um novo recurso sobre a morte de Luís Martinez. 

A família do teatrólogo continuou a pressionar por respostas e, em janeiro de 1989, fez-se um protesto bastante criativo: marcou-se um "Quem Matou Luís Antonio Martinez Correa?" em diversas notas de cruzeiros - algo que teria sido feito pelos alunos da UniRio, onde o falecido lecionava. 

Os protestos de alunos por Justiça

Em 15 de maio de 1989, Glaucio foi condenado a 26 anos e oito meses de prisão pelo assassinato de Luís Martinez, mas teve a sentença diminuída para 20 anos. Além disso, ele ainda era acusado de agressão pelo caso de Michel Pencern. O advogado dele entrou com um recurso em outubro daquele mesmo ano e diversos artistas fizeram um abaixo-assinado, com mais de mil assinaturas, contra a sua soltura. 

Em 11 de dezembro de 1990, o recurso começou a ser, definitivamente, julgado, e em 6 de dezembro Gláucio foi encontrado, após ficar foragido, por mais de um ano em Minas Gerais. Ele trabalhava na região ordenando vacas. Todos os amigos, parentes e artistas fizeram mais um protesto nas ruas com os cartazes "Luís na Cidade", em referência à "Luz na Cidade". 

Gláucio voltou a frisar, em entrevista ao Jornal do Brasil, que era inocente e só havia fugido, com medo de passar quase 30 anos na prisão. Os advogados de Luís Martinez, no entanto, contam que Oliveira Teotônio o reconheceu na delegacia mesmo e chegou a "ficar trêmulo". Maria Helena, irmã do falecido, ainda entregou um ensaio intitulado "Explode Coração" contra a impunidade nesses tipos de crimes para pressionar os juízes por Justiça. 

Maria Helena em protesto/ Gláucio sendo preso novamente

O Superior Tribunal de Justiça manteve a condenação de 20 anos de Glaúcio em decisão no dia 18 de dezembro de 1990, mas de acordo com o livro Luís, um Malandro Burguês, ele foi solto apenas quatro anos depois. Em 2012, a Justiça de Leopoldina concedeu a reabilitação dele perante à sociedade.  

Nilo Batista, advogado da família ao lado de Antonio Carlos de Almeida Castro, inclusive, fez uma conclusão final que, até hoje, serve como um manifesto dos direitos civis da população LGBTQIA+: 

Estranho país este que – na virada do século – retorna às práticas jurídicas medievais para aceitar a criminalização das condutas homossexuais e sua penalização física, mantendo na impunidade o assassinato. Com certeza este não é o país em que o homossexualismo não constitui crime, em que as penas físicas são lembranças amargas do passado, em que a tendência à incriminação da vítima foi revertida pela rejeição predominante da anacrônica tese da legítima defesa de honra. Este não é o país em que ‘todos são iguais perante a lei, sem distinção de sexo, raça, trabalho, credo religioso e convicção política’, mas sim o país onde os apetites individuais manifestam-se sem o freio das instituições jurídicas modernas e democráticas. - via o Jornal Correio. 
Luís com seu grupo de teatro nos anos 80                              Manchete

José Celso manteve a memória do irmão viva e criou o dia Ethernidade de Luís, em 23 de dezembro, na Associação Cambiante Teatro Oficina Uzyna Uzona. Segundo entrevista dele ao Itaú Cultural, todos os integrantes tiram folga nesse dia. Além disso, em Araraquara, foi criada a semana Luis Antonio Martinez Correa, que reúne projetos de ações performáticas e cenas curtas. 

Luís Antônio Martinez Côrrea foi apenas um, entre os mais de 350 homossexuais mortos nos anos 80 só no Rio de Janeiro. O Supremo Tribunal Federal, no entanto, apenas permitiu a criminalização da homofobia e transfobia em 2019. O caso dele não deve ser esquecido e servir como exemplo que o preconceito mata - e tira de nós aquilo que é o mais caro: a vida. 

A visita fascinante de Harry Belafonte ao Brasil

O fascínio de Harry Belafonte com o Brasil, em especial com a Bahia, é anterior a visita dele em 1970 ao lado da esposa, Julie, e os filhos David e Gina, além do filho de amigos, Ted, de 16 anos. Zélia Gattai, esposa de Jorge Amado, foi uma das pessoas que recepcionou o astro e, no livro A Casa do Rio Vermelho, conta como a estrela de 'Carmen Jones (idem, 1954)' ficou tão interessada pelo nosso país. 

Harry Belafonte em Salvador, Bahia

Os pais de Julie, russos erradicados nos EUA, foram os primeiros a introduzir o Brasil em suas vidas: eles conheceram Carybé e a esposa dele, Nancy Bernabó, quando o artista foi pintar um mural no Aeroporto John F. Kennedy em Nova York, nos EUA, após ganhar um concurso internacional. A partir daí, se formou uma amizade e Harry ficou encantado com um dos quadros que o brasileiro presentou a seus sogros. 

O interesse de Harry pela Bahia se aprofundou ainda mais quando ele pôs as mãos no romance 'Jubiabá' de Jorge Amado e, depois disso, seu amor pelo Brasil só crescia. "Na realidade, estou viajando para lá especialmente para investigar a música, a pintura, a literatura, a poesia", afirmou o astro quando embarcou para o Brasil, em seu jatinho particular, direto de Nova York, EUA. Ele chegou a Salvador, Bahia, em 31 de julho de 1970. 

Harry Belafonte desembarcando no Brasil 

A visita de Harry Belafonte já era anunciada desde o dia 25 de julho, mas o astro deu alguns alarmes falsos. Diferente de seus colegas, ele evitou o Rio de Janeiro e São Paulo, em um primeiro momento, e fez uma reserva no Hotel Plaza, na Bahia, para duas suítes no dia 25. Depois, de acordo com O Jornal do Brasil, ele adiou as reservas para o dia 31 e os jornalistas e a mídia fizeram uma vigília de 13 horas no Aeroporto 2 de Julho, atualmente Aeroporto Internacional de Salvador. O astro e a família chegaram no dia 31 de julho às 23h. 

Indagado pela mídia no desembarque - vestindo uma camisa colorida, blusão de veludo cor de mel, calça creme e sapato branco - por que escolheu passar as férias em Salvador, Harry explicou: "Vim à Bahia porque Salvador é a cidade mais africana da América Latina e, aqui, entre os negros eu me sinto bem". De última hora, ele cancelou a reserva no Plaza e escolheu o Hotel Bahia, prezando pela discrição e negando, inclusive, atender uma ligação do futuro governador Antonio Carlos Magalhães. Belafonte garantiu que atenderia à todos assim que dormisse o suficiente. 

Harry disse, ainda, que conheceu o samba e o Brasil "há muito tempo" e que não tinha um roteiro para a viagem, procurando curtir sem amarras. 

Harry em Salvador ao lado dos filhos, da esposa e de Jorge Amado

Após um descanso merecido, o astro e sua família tiveram um dia cheio em 1º de agosto de 1970. De acordo com a revista Manchete, o primeiro programa dele foi um almoço no Sôlar do Unhão, com Carybé, Jorge Amado, Jener Augusto, o cônsul Alexander Watson e outros convidados. Depois do almoço, ele foi conhecer o Museu de Arte Popular da Bahia e ficou bastante sério e pensativo ao ver uma peça, que antigamente, servia para prender os escravos pelos pés e pulsos. 

Depois do tour, ele se dirigiu ao Mercado Popular, onde foi ovacionado e reconhecido por diversos fãs. Os barraqueiros, inclusive, montaram um show em sua homenagem com capoeira e o berimbau. Acompanhado dos jornalistas, Belafonte e o filho David fotografavam tudo o que viam, com muito prazer. 

Harry acompanhado por Carybé, Jorge e a esposa Zélia no Mercado

No interior do mercado, ele parava para ver o samba de roda e, inclusive, chegou a perguntar por Camafeu de Oxóssi, um pai-de-santo cuja fama já conhecia. Harry não pode conhecê-lo pois ele não estava naquele sábado. O grupo seguiu para o Pelourinho e, mais tarde, para a casa de Carybé, onde aproveitaram um jantar com vatapá, abará, acarajé, manissoba, efó e xinxim de galinha. Por fim, eles foram à um terreiro de candomblé. 

Para a revista O Cruzeiro, em seu primeiro dia em Salvador, Bahia, o astro de 43 anos admitiu durante aquele almoço com Jorge: "Aprendi a gostar desta terra lendo seus livros. Tenho todos eles em minha casa". Harry se encantou pela batidinha de limão após aproveitar uma bela feijoada e disse, ainda, que levaria algumas garrafas de cachaça. Como Jorge não era tão bom no inglês, ele tentava se virar no francês, recebendo ajuda de Julie - que sabia um pouco de português por já ter visitado o Brasil com a companhia de dança de Katherine Dunham. Os filhos deles aproveitaram o filé com fritas. 

Belafonte e família no Farol da Bahia e no Mercado Popular 

Harry declinou a falar sobre política, mas deixou claro que era contra a segregação racial, já que fez diversos projetos para capacitar jovens negros no cinema, inclusive no filme 'Angel Levine (1970)'. No Mercado, David, de 12 anos, ficou encantado com os berimbaus enquanto Gina, de 9, preferia as bonecas baianinhas. No dia seguinte, 2 de agosto, num domingo, Harry voltou ao Pelourinho para ver as lutas e até visitou o candomblé da dona Olga do Alaqueto e almoçou com o pintor Jenner Augusto, em um ragu especial. 

Lá no terreiro, de acordo com o Jornal do Brasil, Harry e sua família comeram o amalá, feijão fradinho, cabra (carne de santa), galinha e acarajé, tomando a bebida aruá, feita com milho fermentado, gengibre e rapadura. Julie Belafonte, inclusive, aproveitou a entrevista para explicar seu fascínio com o Brasil:
Há 20 anos eu trabalhei no Brasil na companhia de ballet de Katherine Dunham, onde nos apresentamos em Recife e no Rio de Janeiro. Desde então tenho paixão pela Bahia, que só conhecia de ouvir falar. Sempre falei ao Harry que aqui era um lugar encantador e rico em manifestações populares. 
Harry com seus amigos em Salvador

Naquele mesmo dia, eles foram apresentados à diversos artistas baianos como Márcio Cravo e Valdeoir Rego, na própria casa de Amado. Julie, inclusive, aprendeu a dançar o igexá com Rego enquanto o marido aproveitava o uísque e uma mesa de queijos e vinhos. Jorge Amado afirmou que a visita de Harry comprovava que "a Bahia é realmente a tal. Isto me deixa muito satisfeito, pois sempre disse que terra como a Bahia não há". 

O casal aproveitou as andanças nas feiras de artesanato e comprou estribos, um oratório dourado para santos, e  para o filho David, uma antiga garrucha de dois canos. Na segunda-feira, dia 3 de agosto, a família Belafonte foi assistir no Centro Folclórico da Bahia, do qual Rêgo é diretor, uma apresentação de maculelê e capoeira. Dorival Caymmi era esperado na terça-feira, 4 de agosto de 1970, para conhecer Harry e sua família, mas houve um contratempo. 

Harry com o berimbau que tanto o fascinou 

Nos dias seguintes, Belafonte visitou a cidade de Cachoeira, almoçou na casa do futuro governador Antonio Carlos, onde estava o atual Luís Viana Filho. Durante o lanche, ele aproveitou algumas batidas de limão, aracajés, abarás e beijus. Foi lá que ele conheceu o Camaféu de Oxóssi, de quem ganhou um berimbau de presente - os dois logo emprovisavam um samba, após o ator receber alguns ensinamentos. O cantor disse, ainda, que amou a música brasileira e estava aproveitando muito a viagem e "se não tivesse gostado já teria voltado aos EUA". 

No dia 7 de agosto, o 'Rei do Calipso' foi presenteado com um coquetel em sua homenagem por Nair e Genaro de Carvalho no Hotel Bahia, onde estava hospedado. Foi lá que ele teria conhecido Caymmi, mas não há uma confirmação exata desse encontro. Para a revista Veja, no entanto, Belafonte expressou sua vontade de conhecer o artista: "para ouvi-lo ao vivo, pois já o conheço muito". Posteriormente, revistas confirmaram o encontro. 

Harry no ateliê de Genaro em Salvador, Bahia

De acordo com Zelia Gattai, Harry tinha um senso de humor travesso e era bastante querido por todos, em especial Amado e Carybé. O músico ainda recebeu jantares especiais de Carlos Bastos, Almir, além de almoços de Jenner Augusto e Luísa. No terreiro de Gantois, inclusive, ele participou de uma festa e "emocionado, dançou com as filhas-de-santo em transe". 

Para a despedida da Bahia, Zélia e seu amado Jorge ofereceram uma grande festa na sua residência, hoje conhecida como A Casa do Rio Vermelho - e ponto turístico obrigatório em Salvador, Bahia. 

Rio de Janeiro - agosto 1970

Harry no dia 9 de agosto em desembarque no Rio de Janeiro

Na tarde do dia 9 de agosto, Harry desembarcou com a família, Jorge Amado, Zélia Gattai e Doris Monteiro no Aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro. Carregado de presentes e coisas típicas da Bahia, ele parou e deu diversos autógrafos, chegando a dar um beijo na bochecha de Amado para os os fotógrafos. Para ele, sua estadia na Bahia foi incrível e de onde levava "muitas recordações". 

Em breve bate-papo, antes de se hospedar nas suas duas suítes do Leme Palace Hotel, ele explicou ao Tribuna da Imprensa por que veio ao Brasil: "Vim ao Brasil para descansar, mas vou aproveitar para pesquisar um pouco sobre a música popular brasileira". Para ele, a voz mais bonita que escutou no nosso país era do autor de 'Gabriela' por ser "suave e gostosa".
Quando me convidarem virei atuar no Brasil. Até agora não recebi nenhum convite - garantiu Harry em entrevista. 
Harry Belafonte e Jorge Amado

Harry e sua família ficaram descansando no hotel até a tarde do dia 10 de agosto, quando, de acordo com Jornal do Brasil, ele saiu e gastou CR$ 11.800,00 em roupas Dijon enquanto a esposa dele, Julie, adquiriu diversas joias. O intérprete do hit 'Banana Boat' não planejava visitar o Rio, mas o fez porque Jorge era esperado para um jantar em sua honra. Durante a tarde com Humberto Saad, diretor da Dijon, ele comprou oito túnicas de veludo, oito calças de brim, 12 camisas de estamparia, seis lençois de seda, um chápeu de cowboy, 24 gravatas e camisetas de jersey (para dar de presente), dois coletes de couro, além de 36 camisas sociais e 24 vidros da colônia Dijon. 

Durante a tarde, quando Belafonte surpreendeu os funcionários da loja por suas medidas corporais, em especial os músculos, ele fazia questão de exaltar a Bahia: "E do Brasil fico com a Bahia". O ator nunca voltou ao Brasil, mas garantiu que, um dia, queria visitar o Amazonas. Naquela mesma noite, ele se encontrou com a imprensa no segundo andar do Leme Palace Hotel e foi só elogios ao nosso país, exaltando também a "revolução negra". 

Estou profundamente envolvido com a revolução negra nos EUA, mas minhas atividades estão ligadas imediatamente aos estudantes e ao movimento pacifista. Sou contra a Guerra do Vietnã, contra a exploração dos negros, índigenas e dos latinoamericanos. - entrevista para Jornal do Brasil.
Harry Belafonte em conversa com a imprensa

O astro de 43 anos, mais feliz do que nunca, ainda disse que já admirava o Brasil antes de sua visita e creditou Jorge Amado e Caymmi por lhe transmitir "a alma e o coração do povo brasileiro", afinal ele levaria apenas impressões superficiais se não fosse por eles. Harry explicou, ainda, que, ao seu ver, nos países que houve escravidão há "espiritualmente um problema racial em todos" e que não havia qualquer negro em papel de destaque na televisão brasileira, acrescentando que a "TV e o rádio do país são influenciados por conceitos norteamericanos". 

Pelé é simplesmente o maior jogador de futebol do mundo. Por que na televisão não se veem negros em papeis principais? Vi televisão, todos os dias, no Brasil. Apareceu uma negra, mas no papel de empregada doméstica. - Harry em bate-papo em jantar com Humberto Saad via Manchete. 

Sobre a música brasileira, ele disse que pediu algumas canções para Dorival Caymmi já que "para alguém como o artista desta qualidade a gente não pede coisas determinadas". O cantor diz que considera a música norteamericana "muito complicada", não sabendo explicar sua aceitação no Brasil, por representar uma cultura diferente apesar "do que existe de bom por aqui". Ele ainda citou Carmen Miranda e Jorge Ben como os brasileiros mais conhecidos no exterior. 

Harry Belafonte e o filho em coletiva de imprensa

Harry garantiu, naquela época, se focaria na produção de filmes, citando Sidney Poitier, Yves Montand (indo para Paris para conversar com ele) e Marlon Brando. O astro faria adaptação de um livro, escrito especialmente para ele por Jorge Amado, mas o projeto não decolou.  Ele ainda ficou de voltar à Bahia para um show especial no Teatro Castro Alves - que não ocorreu. 

Indagado sobre a beleza da mulher brasileira, Belafonte não se acanhou com a presença da esposa e garantiu: "Nas ruas do Rio a minha cabeça gira como uma porta giratória de hotel, tantas são as mulheres. Eu tenho também, pela minha atividade, contato com mulheres bonitas, mas sei que minha mulher é inteligente e compreende isso". 

Belafonte afirmou que as danças de candomblé que verificou em Salvador já tinha visto no Haiti e na África. No dia seguinte, 11 de abril, que seria o dia de sua partida, o artista decidiu aproveitar tudo que tinha direito: foi a Galeria Bonino para comprar um Carybé e levou, também, uma pintura de barca de Newton Resende. Na sequência, ele visitou pessoas da embaixada americana, encontrou Jorge Amado e a esposa à bordo do Pasteur e, à noite, jantou na casa de Humberto Saad. 

Harry e July Belafonte e Jorge Amado
Harry, Julie e Jorge na casa do escritor em Salvador, Bahia

Segundo O Tribuna da Imprensa, lá Harry encontrou Wilson Simonal e Jorge Ben, que o levaram para conhecer o sambódromo Osvaldo Sargentelli. Antes, o astro teve uma pequena discussão sobre segregação racial no Brasil, no qual Simonal, conhecido como o 'Harry Belafonte brasileiro', tentava convencê-lo de que isso não existia no Brasil. Prontamente, ele teria aberto um revista e indagou: "Cadê os pretos?".  

Em entrevista para A Manchete, no dia 11 de agosto, ele ainda abriu o jogo sobre seu parecer do problema de drogas e poluição, afirmando que a solução apenas seria encontrada quando "afetasse os mais ricos". Harry, demonstrando todo seu respeito por Jorge Amado, adiou sua partida do Brasil para o dia 12 de agosto para comparecer à uma homenagem no apartamento deles em Rodolfo Dantas.  

Zélia Gattai revela que, ao sair no andar deles, Belafonte ficou chocado com uma estatueta de porcelana do vizinho de porta: a figura de uma mulher deitada ao lado de um cão galgo. De seu jeito bem arteiro, ele retirou a jaqueta que vestia e embrulhou o objeto, afirmando: "Não repare no presente, lhe ofereço de coração". 

Todos explodiram em uma gargalhada sem tamanho ao ver o rosto de Jorge Amado. 

Harry Belafonte em sua partida do Brasil

Harry Belafonte partiu com a família, o amigo Ted, e com todas as suas coisas pelo Aeroporto de Galeão no dia 12 de agosto de 1970. Ele chamou atenção por sua roupa chamativa e os quatro berimbaus que levava, exaltando todos que conheceu em sua estadia: "Gostei muito de Jorge Ben, mas fiquei realmente impressionado com Wilson Simonal. Ele faz mais o meu gênero, tipo calipso, e se dominou uma plateia de 30 mil pessoas no Rio, em Nova York conseguiria o mesmo com um milhão. Estou levando a coleção completa dos dois cantores e talvez grave algumas faixas". 

Durante a revista do aeroporto, antes de embarcar para Caracas, ele ficou assobiando a música 'País Tropical' de Jorge Ben. Outro músico que encantou Harry foi o violoncelista Darcy Villa Verde, já que o músico o levou para os Estados Unidos. Darcy conseguiu apresentações no Teatro Georgetown, InterAmerican Center e no Carnegie Hall e fez, também, diversos elogios ao astro.

Quanto à Jorge Amado e Zélia Gattai, eles se encontraram, diversas vezes com Belafonte em Nova York, em Cuba e até em festa de Gabriel Garcia Marquez - no qual a esposa de Jorge apareceu de chinelos, arrancando risadas de Harry. Ou seja, o astro permaneceu conectado ao Brasil - e nós o amamos por isso!

Harry Belafonte e seus filhos e amigo Ted no Rio de Janeiro



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