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O Mágico de Oz (1939) e sua conexão com Pink Floyd

O Mágico de Oz (Wizard of Oz, 1939) não nasceu um clássico: quando o filme de Judy Garland estreou nos cinemas norte-americanos, a recepção foi morna e apesar de ser indicado para seis Oscars, não conseguiu arrecadar o suficiente para nivelar o orçamento de produção. O filme apenas passou a atingir status de clássico quando a emissora de TV, CBS, o exibiu em 1956. A partir daí, atingiu mais de 45 milhões de telespectadores e em 1959 se tornou um evento anual - e o mais esperado pelos telespectadores. 

Diferente do caso do álbum The Dark Side of The Moon da banda Pink Floyd. Quando o disco foi lançado em 1 de março de 1973, tornou-se um dos maiores sucessos do ano e um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos. Para se ter uma ideia, ainda nenhum lançamento desbancou o recorde do álbum de maior número de semanas na Billboard: 917. Mas o que um filme de 1939 produzido pela MGM e baseado em um livro infantil de L. Frank Baum tem a ver com um álbum de rock psicodélico? 

A teoria da suposta sincronização do álbum The Dark Side of The Moon com o filme O Mágico de Oz (Wizard of Oz, 1939) começou em abril de 1995, segundo o livro The Wizard of Oz FAQ: All That's Left to Know About Life According to Oz Por David J. Hogan, quando alguns usuários do fórum Usenet criaram um tópico sobre a possível conexão do álbum de Pink Floyd e o filme de Judy Garland. O jornalista Charlie Savage, que na época trabalhava como estagiário no jornal Fort Wayne Journal Gazette, viu a discussão e escreveu a primeira matéria sobre essa teoria. O resto virou história e mito!

Pinterest/Montagem
O autor do artigo intitulado The Dark Side of The Rainbow (O Lado Obscuro do Arco-Íris) que se tornou o nome oficial da teoria de sincronização, Charlie Savage, afirma que nem ele mesmo compreende quem teve a ideia de juntar o álbum com o filme, mas admite que as coincidências são incríveis:
Espere para ver inúmeras coincidências firmes que irão fazer com que você se pergunte se tudo foi planejado. E espere para ver ainda mais coincidências que pareceriam forçação de barra se outras partes do filme não se juntassem tão bem com o álbum. - matéria The Dark Side of the Rainbow, 1995. 
Na teoria original que também ganhou o nome de The Dark Side of Oz, aconselha-se ao espectador que sincronize o álbum com o filme a partir do primeiro rugido do leão da MGM (embora outros afirmem que seja possível depois do segundo e até terceiro rugido). Já outros reconhecem que a sincronização de Mágico de Oz (Wizard of Oz, 1939) com o álbum de Pink Floyd fica ainda melhor quando começa a tocar assim que o filme começa. De qualquer forma que você faça, o fato é que as coincidências de sincronização são inegáveis.

Ainda na matéria original de Charlie Savage ele enumera os pontos principais dessa sincronização (no caso dele a partir do primeiro rugido do leão da MGM, mas hoje em dia o mais popular é depois do terceiro rugido):
  1. Durante a canção Breathe, a segunda música do álbum, Dorothy caminha como se estivesse em uma corda bamba durante a letra "and balanced on the biggest wave" (e se equilibrou na maior onda). 
  2. A letra "no one told you when to run" (ninguém te disse quando correr) acontece durante a quarta canção Time, assim que Dorothy corre para resgatar Toto. 
  3. A letra "Home again, home again" de Breathe é reprisada quando a vidente aconselha Dorothy a voltar para casa. 
  4. A letra "Don't give me that goody good bullshit" (Não me dê essa merda de que fazer o bem é bom) de Money é sincronizada com a cena de Glinda voando em uma bolha. 
  5. A letra "Black...and blue" de Us and Them aparece quando a Bruxa Má do Oeste está em cena e logo em seguida é seguido por "and who knos which is which"(e quem sabe quem é quem), com Glenda e a Bruxa se enfrentando. 
  6. A canção Brain Damage que começa bem na parte do número If I Only Had a Brain contém as letras "The lunatic is on the grass" (o lunático está na grama) e "Got keep the loonies on the path" (tem que manter os doidos no caminho certo) logo quando o Espantalho anda como um lunático e no caminho dos tijolos amarelos. 
  7. O instrumental de The Great Gig in the Sky se complementa perfeitamente à cena do tornado.
  8. As últimas notas do álbum são batidas de coração que se sincronizam perfeitamente com a cena de Dorothy ouvindo o coração vazio do Homem de Lata. 
Outras coincidências são a sincronização da música On The Run assim que Dorothy cai da cerca do celeiro, o som de despertador da música Time  que "acordam" Dorothy de seus devaneios e quando a personagem vê o reino de Oz pela primeira vez, a música Money se inicia - ela faz parte do lado B do vinil e essa cena é a primeira colorida do filme.

    O filme foi disponibilizado na íntegra no Youtube e sincronizado com o álbum de Pink Floyd
    Pode ser apenas uma eventualidade, correto? Mas em 1997 o famoso jornal The New York Daily News fez uma matéria sobre a possível sincronização do filme e do álbum, usando como fonte um DJ de rádio nos Estados Unidos que espalhou a teoria através de seu programa. Assim, outros veículos de comunicação como Entertainment Weekly e USA Today replicavam o The Dark Side of The Rainbow e o mito logo se tornou uma febre! 
    A banda Pink Floyd, formada por David Gilmour, Roger Waters, Nick Mason e Richard Wright, negou inúmeras vezes qualquer verdade nessa teoria de sincronização. Em entrevista ao site MTV em 1997, assim que a The Dark Side of The Rainbow ficou famosa, o baterista Nick Mason afirmou de forma sarcástica: 
    Não faz sentido nenhum, não tem nada a ver com O Mágico de Oz. Foi tudo baseado no filme Noviça Rebelde. 
    Alan Parsons, engenheiro de som que trabalhou com Pink Floyd para o álbum The Dark Side of The Moon, também refutou essa ideia completamente na mesma entrevista: 
    Não tinha nenhum jeito viável dessa sincronização acontecer.  Nós não podíamos usar fitas cassetes no estúdio de gravação. Acho que em 1972 ainda não existiam VHS, certo? 
    Em outras entrevistas, Alan até zombou da teoria, afirmando que eles assistiram Mary Poppins durante as sessões de The Dark Side of The Moon que ocorreram entre junho de 1972 a janeiro de 1973. 

    Rick Wright, David Gilmour, Nick Mason e Roger Waters em 1973.
    Roger Waters compôs a maioria das músicas do álbum The Dark Side of The Moon e criou o conceito geral das canções. Assim quando o vocalista David Gilmour foi indagado pela revista Q Magazine em 1999 sobre a suposta sincronização com O Mágico de Oz, ele afirmou: "Se tem alguma conexão, o Roger nunca me disse.  Para mim não tinha relação nenhuma quando eu tentei." Em entrevistas posteriores, no entanto, Gilmour negou intensamente qualquer relação:
    Claro que não. Isso é uma das coisas mais doidas que surgiram e que continua a ser espalhado na internet. 
    O próprio Roger Waters em entrevista a revista belga Humo Magazine em 2005 tentou botar um ponto final nas especulações, alegando:
    Isso é muito ridículo. Essa teoria é para pessoas que tem muito tempo livre nas mãos. Em todo o filme tem algumas cenas que poderia usar The Dark Side of The Moon como trilha sonora. É um álbum cósmico, perfeito para filmes. 
    Apesar dos melhores esforços da banda, a teoria The Dark Side of The Rainbow continua mais forte do que nunca entre os fãs. Tanto que em meados de 1990, um fã chamado Mike Johnston tinha um site dedicado apenas à essa teoria intitulado Synchronicity Arkive. De acordo com o jornal Daily Press, ele até afirmou que Rick Wright, tecladista da banda, havia deixado escapar que a sincronização do álbum com O Mágico de Oz (Wizard of Oz, 1939) era verdadeira:
    A razão pela qual essa conexão nunca foi anunciada foi por causa dos direitos autorais. Pink Floyd usaria cenas do filme durante seus shows e quando isso vazou para a companhia do filme, eles ameaçaram tomar medidas legais. 
    Muito provavelmente esse é apenas um boato, afinal se esse fosse o caso a banda poderia mencionar aos fãs a verdade - sem nenhum risco de serem processados por direitos autorais. Entretanto os admiradores de Pink Floyd não pararam com essa teoria e encontraram outros tipos de sincronização com obras da banda. Por exemplo: a conexão entre o álbum Meddle de 1971 e o filme Fantasia (idem, 1940) da Disney, a sincronização de Echoes com o final psicodélico de 2001: Uma Odisseia No Espaço ( 2001, A Space Odyssey, 1968) e por fim o álbum The Wall de 1979 com Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 1951). 

    Recentemente, fãs da saga Star Wars começaram a jurar que o álbum The Dark Side of The Moon também se sincroniza com o filme Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens, 2015) de um modo incrível e enumeraram todas as coincidências

    Outros filmes que podem ser sincronizados com álbuns de Pink Floyd 
    Mas como uma banda e seus álbuns podem sincronizar com tantos filmes diferentes? A professora de psicologia Pamela Heaton, em entrevista ao site Little White Lies, afirma que a resposta está na natureza experimental das músicas do Pink Floyd:
    Se você escuta uma peça de Beethoven é muito bem estruturada, então é muito óbvio que vai ser mais difícil de se sincronizar com um filme. Em comparação, The Dark Side of The Moon é psicodélico e experimental e tem amostras de pessoas falando ao acaso. Nem O Mágico de Oz e nem o álbum do Pink Floyd tem uma estrutura coesa e os dois tem uma qualidade etérea, então é fácil para o cérebro encontrar similaridades nisso. 
    Outro profissional entrevistado pelo site, Daniel Levitin, no entanto, acredita que a resposta está no cérebro humano e na sua insistência de transformar e agrupar qualquer tipo de dado por mais aleatório que seja em algo coeso - esse fenômeno tem o nome de apofenia. 

    Para acrescentar à crença de que The Dark Side of The Moon foi baseado em O Mágico de Oz (Wizard of Oz, 1939), a gravadora Sony lançou o disco ao vivo do Pink Floyd em junho de 1995 intitulado Pulse que fez questão de provocar os fãs ferrenhos dessa teoria. Na canção The Great Gig in The Sky eles mudam a letra para "I never said I was afraid of Dorothy" em referência à película. Ademais, a capa do álbum como exibe o site Cadê meu Whiskey, tem inúmeras mensagens subliminares: a imagem de uma menina de sapatos vermelhos, como Dorothy, no globo ocular além da silhueta de um homem de lata e uma bicicleta idêntica a da Bruxa Má do Oeste. 

    Capa do álbum Pulse de Pink Floyd em 1995
    Fica claro que se a banda não concordava com a teoria, ela ao menos deu o combustível necessário para que os crentes continuassem a falar sobre The Dark Side of The Rainbow aproveitando o buzz de O Mágico de Oz e assim aumentando as vendas do álbum Pulse. 

    Passaram-se quase 25 anos desde que a teoria The Dark Side of The Rainbow ganhou força e as similaridades entre O Mágico de Oz (Wizard of Oz, 1939) e o álbum The Dark Side of The Moon continuam a fascinar os fãs de rock e até os cinéfilos.

    Afinal, fica o questionamento: você acredita em The Dark Side of The Rainbow? 


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