Os bastidores de um clássico: Psicose (Psycho, 1960)

*spoilers de Psicose (Psycho, 1960)

Psicose (Psycho, 1960) é um clássico do gênero terror/suspense e, consequentemente, um clássico da filmografia de Alfred Hitchcock. O filme, baseado no livro homônimo de Robert Bloch, se torna ainda mais assustador por ser fundamentado em um caso real: o do psicopata Ed Gein. A história do serial killer ainda deu origem à outros dois filmes: O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chain Saw Massacre, 1974) e O Silêncio dos Inocentes (Silence of The Lambs, 1991). 

Os bastidores de Psicose (Psycho,1960) com Alfred e Janet Leigh

Ed Gein nasceu Edward Theodore Gein em 27 de agosto de 1906 e tinha uma vida familiar complicada: o pai George era um bêbado e a mãe Augusta, uma católica devotada, sofria abusos dele. Desde pequeno, Ed tinha uma fascinação macabra pela mãe, que o ensinava que sexo era errado e perverso e até o proibia de conversar com outras pessoas. 

O irmão mais velho dele, Henry, achava a relação entre eles muito estranha e, logo depois da morte do pai em 1940, foi encontrado sem vida na fazenda da família em Wisconsin, nos Estados Unidos durante um incêndio. O rapaz tinha hematomas no crânio, mas a morte foi considerada acidental. Em 1945, a querida mãe de Ed faleceu. 

Um recluso por natureza, Ed era taciturno e tímido, assim como seu alterego no filme e livro Psicose. Ele apenas chamou atenção da polícia nos anos 50, após o desaparecimento de Bernice Worden, que tinha uma loja na região. Em uma busca na casa dele (onde mantinha um santuário para Augusta no quarto original), os oficiais encontraram mais de 10 restos mortais de mulheres: inclusive de Mary Hogan, que teria sido sua primeira vítima em 1954. 

O verdadeiro psicopata: Ed Gein quando foi preso em 1957

Ele ainda era culpado de violar túmulos, roubar cadáveres para fabricar troféus das mortas e, consequentemente, fazer uma espécie de traje com pele humana para 'reviver' a mãe. Apesar do que foi amplamente divulgado, ele nunca foi um canibal. O serial killer, que confessou apenas as mortes de Mary e Bernice - réplicas exatas de sua mãe, Augusta-  foi julgado duas vezes e considerado insano. Ele ficou preso em uma instituição psiquiátrica até sua morte em 1984. 

O escritor Robert Bloch ficou interessado no caso e decidiu escrever Psicose. A obra foi lançada em 1959, após ser recusada por algumas editoras, e não demorou para que o agente de Robert começasse a mandar cópias do manuscrito para estúdios de Hollywood. Todos recusavam o livro por ser "grotesco" demais. 

Na obra, Norman Bates (baseado em Gein) era um filho da mamãe obeso e inteligente que cometia os crimes vestido como a falecida matriarca, sofrendo de amnésia e acessos de raiva. Sua primeira vítima, assim como a do psicopata, também se chamava Mary. 

Alfred Hitchock com o livro que deu origem à seu maior clássico

De acordo com o livro Psycho de Stephen Rebello, foi a produtora assistente de Hitchcock, Peggy Robertson, quem ficou sabendo do livro. Ciente do gosto do patrão por mistério e mortes impactantes, ela decidiu lhe enviar o manuscrito. Em um único final de semana, o renomado diretor gostou do que leu e lutou com o estúdio Paramount, a quem devia mais um longa-metragem, para mudar a direção de seus últimos filmes: de suspenses classudos, ele queria algo que chocasse a audiência e provasse que ainda tinha muito à contribuir ao mundo do cinema, à la As Diabólicas (1955) -único filme que escapou por seus dedos.

Sem o orçamento polpudo de outrora, Hitchock decidiu gravar o filme com dinheiro do próprio bolso, e gravá-lo no set de filmagens da Universal. A Paramount apenas ficaria responsável por distribuir Psicose (Psycho, 1960). Além disso, Hitch decidiu gravar o filme em preto e branco para ser mais barato e abriu mão de seu cachê de U$250 mil por 60% de direito à bilheteria do filme. E que decisão acertada! 

Alfred Hitchcock contou com o roteirista James P. Canavagh, com quem já havia trabalhado antes, para adaptar Psicose, mas a parceria não deu certo. O jovem Joseph Stefano entrou na jogada, concluindo o roteiro em dezembro de 1959, com uma visão mais vulgar e explícita. Ali, o cineasta já pensava em Anthony Perkins como Norman Bates, para que o público criasse simpatia pelo personagem. A visão de Joseph da obra excitou Hitchcock, que procurava uma maneira de chocar a audiência, mas com classe. 

George Milo foi o responsável por toda a cenografia

Segundo o livro Pyscho: Behind The Scenes de Janet Leigh, Alfred Hitchock sabia que precisava economizar e por isso contratou os funcionários que já trabalhavam com ele na série de televisão 'Hitchcock Presents'. Por um preço abaixo da média e pelo renome de trabalhar com o grande diretor, ele tinha uma equipe capaz e determinada. 

George Milo com uma equipe diminuta, por exemplo, criou todos os cenários de Psicose (Psycho, 1960) e se inspirou na pintura 'A Casa ao Lado da Ferrovia' por Edward Hopper para fazer a casa dos Bates. As cenas foram gravadas, além de nos estúdios da Universal, em Phoenix, Arizona, inclusive no hotel Jefferson, e também em Califórnia, nos EUA.  

Anthony Perkins, por sorte do cineasta, devia um filme para a Paramount. Assim, Alfred conseguiu contratá-lo por apenas US$40 mil - o exato valor que Mary rouba em Psicose. Janet Leigh no papel de agora Marion Crane foi persuadida pelo cineasta, que queria um nome famoso que pudesse chocar as audiências com seu triste fim. Outras atrizes, como Eva Marie-Saint, Shirley Jones, Piper Laurie, Martha Hyer, Hope Lange e até, por um breve momento, Lana Turner, foram consideradas. 

Janet Leigh recebendo instruções de Hitchcock

Janet Leigh, no entanto, foi quem recebeu uma carta do mestre do suspense tentando convencê-la a fazer o filme, depois de sua performance arrebatadora em A Marca da Maldade (Touch of Evil, 1958). 

Eu não tinha nenhuma dúvida de que queria interpretar Marion Crane [que no primeiro roteiro era Mary Crane]. Dúvida nenhuma. [Depois de ler o roteiro] eu me inclinei, liguei para a minha agência e disse sim para o papel. Nem perguntei quanto o salário era. -Janet Leigh para o livro Psycho

Janet Leigh em sua expressiva fuga de carro em Psicose (Psycho, 1960)

Vera Miles, que tinha um contrato exclusivo com Hitchcock, apesar de por a carreira de lado para criar uma família, foi escalada como Lila, a irmã mais nova de Mary. Por estar com a cabeça raspada para o filme Cinco Mulheres Marcadas (5 Branded Women, 1960), ela teve que usar uma peruca. 

John Gavin era Sam, o namorado da personagem de Janet Leigh. Recém-saído do sucesso Imitação da Vida (Imitation of Life, 1959), Hitchock o queria por ser um galã e, com atuação modesta, não sobressairia na química necessária entre Janet e Tony. Com todos os quatro principais artistas escalados, Hitchock contratou Martin Balsam como o detetive Arbogast, Simon Okland como o doutor Richman e até a filha Patricia em um pequeno papel. 

Vera Miles se preparando para cena de Psicose (Psycho, 1960)

O filme começou a ser gravado no dia 11 de novembro sob o título 'Produção #9401' e Hitchcock tentou manter tudo o mais sigiloso possível, inclusive tirando a maioria de cópias do livro de Robert Bloch de circulação.  

O mestre também fez com que todos prometessem não divulgar nada de Psicose para familiares, amigos ou imprensa. E assim foi feito! O segredo era tanto que ninguém, a não ser a equipe e atores, ficavam presentes no set de filmagens. 

Em Psicose (Psycho, 1960) a audiência conhece agora Marion Crane, vivida por Leigh. Com quase 30 anos, ela se vê em uma encruzilhada: o namorado Sam, interpretado por Gavin, não pode se casar com ela por não ter dinheiro suficiente. Assim, ela decide roubar o dinheiro do trabalho e se encontrar com o amado. No meio do caminho, ela se perde e vai parar no motel dirigido por Norman Bates, papel de Tony Perkins. Ela é morta no local e a irmã, Lila, interpretada por Vera Miles, vai atrás do verdadeiro culpado. 

Vera Miles, John Gavin e Tony Perkins em Psicose (Psycho, 1960)

A Paramount, que tentou adiar a produção do longa o máximo que pode, não estava feliz com o filme e nem os censores da época. Considerado arriscado demais, Psicose (Psycho, 1960) tinha a linguagem profana, sugestões de travestismo e até insinuações de que Norman e mãe, Norma, teriam uma relação incestuosa. 

A cena do chuveiro também levantou a sobrancelhas e Hitch foi aconselhado a lidar da "melhor maneira possível". Diferente do livro Marion foi apenas esfaqueada e não teve a cabeça decepada, já que isso nunca passaria pelo Código Hays [código de conduta e moralidade de Hollywood]. 

Durante as gravações, o diretor sabia exatamente como cada cena funcionaria e as gravava de forma milimétrica, para que não fossem cortadas na sala de produção Ele usava lentes de 50 mm em câmeras de 35mm para imitar a visão humana e, assim, familiarizar o público. Os atores eram avisados de que deveriam seguir a câmera e não o contrário. 

Cena de John Gavin e Janet Leigh

A fotografia principal de Psicose (Psycho, 1960) iniciou, oficialmente, no dia 30 de novembro e não sem algumas frustrações para Hitchcock. O principal problema? A falta de paixão de John Gavin na cena inicial do filme, no qual a audiência espiava Marion e Sam no pós-coito. Nos bastidores, o cineasta se referia à Gavin como 'O Travado'. Em sua defesa, Gavin afirmou que se sentia mal com o cheiro dos cigarros do diretor e, por isso, não conseguia se concentrar. 

Janet Leigh, por outro lado, era sua favorita, com quem ele dividia piadinhas e instruções - até colocando o corpo da 'mãe' em seu camarim para testar o quão assustadora ela era - com Tony Perkins em segundo lugar. Para Hitch, as grandes estrelas eram Leigh e Perkins. Gavin e Miles eram apenas a segunda parte e não mereciam tanta ênfase, tanto que Vera já negou qualquer assédio de Hitch. 

Janet, Tony e Hitchcock - o clima nas gravações era calmo

De acordo com o documentário The Making Of Psycho, as tão esperadas cenas do banheiro foram gravadas entre 17 a 23 de dezembro, depois das cenas externas, com78 tentativas. Rita Riggs, a estilista responsável, teve que quebrar a cabeça para achar um modo de Marion parecer nua na cena do chuveiro, sem necessariamente estar nua. Foi aí que ela pensou em um curativo usado por strippers, que seria colocado em cima dos seios da atriz. Na época, ainda não existia o tapa-sexo. 

Joseph Stefano, o roteirista, revela que na concepção original, a cena não tinha tantos cortes. Era apenas: "ela entrou no chuveiro e foi morta à facadas". Para burlar os censores, Hitchcock teve que ser mais esperto e assim contratou Saul Bass (que também ficou responsável pelos títulos do filme) para criar um storyboard de cada passo da cena, com cortes e sobreposições. Posteriormente, Saul afirmou que foi ele quem dirigiu a famosa cena, mas isso foi negado pela equipe de Psicose (Psycho, 1960)

Para gravar a cena com visão aérea, Hitchcock mandou fazer uma grande cabeça de chuveiro para acoplar a câmera. Marli Renfro foi contratada como a dublê de corpo de Janet, durante as cenas mais pesadas e gráficas de Psicose (Psycho, 1960). Em entrevista para a revista People, ela conta que conseguiu o papel por ter o corpo similar ao da famosa estrela de Hollywood: 

Eu fui até o trailer de Janet e exibi meu corpo. Eu fui contratada por ter o corpo bastante similar ao de Janet. Hitchcock sabe exatamente o que quer e os ângulos da câmera. Tivemos apenas que repetir a gravação na parte em que Tony Perkins me tira do chuveiro, quando estou embrulhada com a cortina do chuveiro e a do carro, no qual sou jogada contra aquele metal duro do carro, sem qualquer pano. Fez 'bang'. 
O famoso e controverso storyboard de Psicose (Psycho, 1960)

A cena seguinte, após a morte de Marion, gravada nos estúdios da Universal, foi outro momento de tensão: diferente do livro, Hitchcock fez com que o carro ficasse preso no pântano por algum tempo, brincando com a audiência e com Norman. Assim que o personagem fica desesperado, o carro começa a afundar de vez. Tony, de improviso, mascava um doce - o que se tornou uma marca registrada de Norman Bates no filme. 

A mãe, figura onipresente de Psicose (Psycho, 1960), também ganhou não uma, mas sim algumas dublês para que o filme funcionasse corretamente. Margo Epper a interpretou na cena do chuveiro com a faca em punho; Ann Dore deu continuidade ao assassinato; Mitzi foi quem esfaqueou o detetive Arbogast na cena aérea e Paul Jasmin, Virginia Gregg e Jeanette Nolan foram responsáveis pelas vozes da mãe, mixadas e misturadas na pós-produção. Helen Hayes e outras atrizes foram indicadas para o papel como forma apenas de despistar a imprensa. 

O filme Hitchcock (idem, 2012), estrelado por Helen Mirren e Anthony Hopkins, afirma que Alma Reville, a esposa do diretor, tomou conta das gravações após um mal estar de Hitchcock. O diretor-assistente de Piscose (Psycho, 1960) Hilton A Green garante que o mestre esteve presente em todas as cenas do longa, menos a da morte de Arbogast, que ele mesmo dirigiu. Essa, inclusive, foi usada de inspiração para um outro filme de Hitch, Frenesi (Frenzy, 1972).

Alma Reville era a alma de muitos filmes de Hitch

Alma, que era casada com Hitchcock desde 1926, tinha sua própria paixão por cinema e desenvolvia diversos roteiros. Dedicada, ela queria que o marido fosse importante e deu dicas valiosas durante as gravações de Psicose (Psycho, 1960). Foi ela quem notou que Janet ainda respirava em uma das cenas pós-assassinato e foi ela quem insistiu que o marido usasse a trilha de Bernard Herrmann, que se tornou a marca registrada do filme. Hitch gostou tanto que dobrou o salário dele e o creditou por 33% do sucesso do longa-metragem. 

As gravações corriam muito bem e o clima nos bastidores era ótimo, com direito à improvisações e camaradagem. Até que em abril de 1960, Hitch estava incerto do sucesso do filme e até cogitou editá-lo para um episódio de televisão: em sua opinião, o filme não tinha o ritmo certo. Com a chegada da trilha sonora de Hermann, a fé do cineasta em Psicose (Psycho, 1960) e seu sucesso foram renovadas!

Em maio de 1960, Hitchcock renovou sua briga com os censores, que viraram o nariz com uma cena de Janet tentando tirar o sutiã no motel e até uma cena de descarga (inédita em um longa-metragem), mas quase nem notaram a nudez da dublê de Janet cena do chuveiro. A estratégia de Alfred era: confundir os analistas com cenas menos importantes e mais arriscadas para que eles deixassem o que ele queria. 

As diferentes cenas após os censores nos EUA 

O cineasta travou uma pequena batalha e ganhou: o filme estreou no dia 16 de junho de 1960 com um marketing brilhante. Um pôster de Hitchcock estava na entrada de cada cinema, avisando que Psicose (Psycho, 1960) deveria ser visto do começo ao fim. Sem exceções.
O gerente deste teatro foi avisado, sob risco de morte, de não permitir a entrada de nenhuma pessoa quando o filme começa. Qualquer tentativa de entrar pelas portas laterais, saídas de incêndio, ou pela ventilação serão impedidas com uso de força. Informaram-me que essa é a primeira vez que medidas assim são tomadas...mas também essa é a primeira vez que você viu um filme como Psicose. - aviso de Hitch para a audiência

Alfred foi além e até ensinou aos gerentes de cinema como exibir o filme: após o fim de Psicose (Psycho, 1960), a sala deveria ficar no escuro por mais 30 segundos e depois acender-se-iam as luzes, em um tom verde, focadas no rosto das pessoas. Nunca, em hipótese alguma, o teatro deveria exibir qualquer outra coisa após o longa-metragem. O objetivo: deixar gravado na mente dos telespectadores a cena final, no qual o rosto de Norman mesclava-se com uma caveira. 

Alfred Hitchock e Paramount souberam vender o filme como ninguém

A reação ao filme foi imediata: telespectadores ficaram chocados com as cenas gráficas de Psicose (Psycho, 1960) e Hitch até recebeu a carta de um pai, furioso, já que por causa do filme, a filha não queria mais tomar banho de chuveiro. Nem mesmo Janet Leigh, que se chocou com sua morte falsa no longa, tomava mais banho desse jeito: pelo resto da vida, ela apenas usaria a banheira. 

O legado de Psicose (Psycho, 1960) perdurou muito além da estreia do filme: o motel original e a casa foram preservados e fazem parte da turnê do estúdio Universal. Produzido por US$800 mil, o filme arrecadou mais de US$14 milhões e ganhou seis indicações ao Oscar: o de Melhor Atriz Coadjuvante para Leigh, Direção de Arte, Cenografia, Cinematografia e Melhor Diretor. 

Norman ganhou, inclusive, mais três filmes, todos estrelados por Tony Perkins e com a volta de Vera Miles, em 1983, 1986 e 1990. Além de uma refilmagem em 1998 por Gus Van Sant. Psicose (Psycho, 1960) deu origem, anos depois, à série de televisão Bates Motel (2013-2017) que conta a história de origem de Norman e sua mãe, Norma Bates. No Brasil, por exemplo, a exposição de 2018 sobre Hitchcock no MIS (Museu de Imagem e Som) em São Paulo, contou com uma réplica exata da casa de Psicose.

Turnê de Alfred Hitchcock pela casa de Norman Bates

Psicose (Psycho, 1960), apesar da temática pesada, contou com um apoio de equipe e mágica para transformar o mundo do cinema para sempre. Afinal, "o melhor amigo de um homem é sua mãe", assim como Hitch é o melhor amigo de todo o cinéfilo. Ou, pelo menos, deveria ser. 



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