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O assassinato de Luís Antônio Martinez Corrêa e os direitos LGBTQIA+

Nos anos 1980, uma terrível onda de assassinatos contra homens homossexuais assolava o Brasil, munida pelo preconceito contra a epidemia de AIDS. O dançarino Carlos Machado, o ator Chico Marques e outro nove artistas foram vítimas desse crime hediondo, especialmente em São Paulo - isso sem contar com os cidadãos fora do escopo da mídia. Em 1987, a mais nova vítima foi o diretor e teatrólogo Luís Antônio Martinez Corrêa. 

Luís, irmão de José Celso -conhecido como o cabeça de uma das companhias de teatro mais revolucionárias do país, o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) - tinha um futuro também brilhante pela frente. Nascido em 24 de junho de 1950, em Araraquara, no interior de São Paulo, ele se mudou para a Capital em 1970 para cursar Arquitetura e ficar mais próximo do teatro que tanto amava. Foi aí que, ao trabalhar no Teatro Oficina, ele desenvolveu o grupo Pão e Circo. 

Luís Antonio Martinez Côrrea                                              Itaú Cultural

Em 1978, ele retornou aos palcos como diretor no aclamado 'Ópera do Malandro' de Chico Buarque e, a partir dos anos 80, ele floresceu no teatro com adaptações de 'O percevejo', de Vladímir Maiakóvski, 'Hino da fonte da vida' de Mário de Andrade e musicais como 'Theatro Musical Brazileiro'. Em 1987, ano de sua morte, ele planejava montar a peça 'Bode Lúlu' com Fernanda Torres como a protagonista, a 'Canção Brasileira' com Grande Otelo e foi convidado para participar da minissérie 'Primo Basílio' na TV Globo. 

Conhecido por prezar pelo teatro coletivo, ou seja, permitir que o elenco tivesse tanta liberdade criativa quanto a plateia, Luís também era professor na Cal (Casa de Artes de Laranjeira), na Unirio. De acordo com a pesquisadora Cássia Abadia da Silva, Luís queria "quebrar com o lugar comum do teatro" e, pouco a pouco, chegava à esse destino. 

Luís Antônio Martinez Côrrea teve sua vida precocemente interrompida ao ser vítima de homofobia e morto, com 100 facadas, na tarde do dia 23 de dezembro de 1987. Ele tinha 37 anos de idade. O principal suspeito? O surfista Gláucio Garcia de Arruda que, um mês antes, foi detido pela Polícia do Rio de Janeiro por atacar o turista francês Marcel Pencern, também homossexual, ao lado de um jovem de 17 anos identificado apenas por suas inicias: A.G. 

Luís com grande elenco no 'Theatro Musical Brazileiro' em 1985

O acusado tinha um modus operandi certeiro: frequentador assíduo da Praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, ele se aproveitava de homens mais velhos que queriam companhia e, ao chegar na casa deles, os roubava e os agredia. Em 2021, um homem foi preso em Curitiba, no Paraná, por utilizar desse mesmo artifício: ele encontrava as vítimas, homens gays pelo Tinder, os roubava e depois os matava. De acordo com o serial killer, ele escolhia os homossexuais pela "facilidade de atrai-los".  

Luís Antônio Martinez Côrrea foi encontrado sem vida, em seu apartamento na Rua Maria Quitéria, 121/405, em Ipanema, às 21h30 do dia 24 de dezembro de 1987. De acordo com o jornal Tribuna da Imprensa, a 13ª Delegacia de Polícia foi chamado para o local pelo porteiro Messias dos Santos, que estranhou a ausência do morador que, diariamente, ao meio dia, descia para apanhar o jornal. 

O diretor foi encontrado em sua cama, inteiramente despido, com as mãos e os pés amarrados com cordas de náilon, uma toalha enrolada no pescoço e o total de 107 facadas por todo o corpo: que atingiram o pulmão (59 facadas), coração, fígado e a cabeça.

Luís no auge de sua carreira em 1987

Em seu depoimento, o outro porteiro do edifício San Diego, Oliveira Teotônio conta que viu Luís pela última vez no dia 23 de dezembro, quando ele chegou da praia com Gláucio, um jovem de cabelo louro e encaracolado que costumava frequentar a casa do teatrólogo, e subiu com ele para seu apartamento por volta das 14h. Meia hora depois chegou outro louro, forte, identificado como Jorge, que pegou o interfone para ligar ao apartamento: "Sou eu. Abra essa porra. Ande logo". 

"O rapaz parecia nervoso, apressado, mas três minutos depois Luís o interfonou e o mandou subir", relembra Oliveira - sem poder afirmar com precisão se era o diretor, afinal não foi ele quem atendeu o interfone. O porteiro conta que, enquanto Jorge subia, Gláucio descia e ao se encontrarem não deram "indícios de que se conheciam". Gláucio subiu com uma sacola amarela e desceu com duas, inclusive uma marrom que pertencia ao teatrólogo. 

O tal Jorge foi procurado por agentes da 13ª DP e teve sua casa revistada quatro vezes, mas nunca foi encontrado. Parentes e amigos notaram o sumiço de um videocassete, uma secretária eletrônica e uma quantia em dinheiro de CR$17 mil. Para eles, estava claro: Luís foi vítima de homofobia, um crime de ódio. 

Diversos amigos e familiares se reuniram nessa grande tragédia

O corpo do ator foi velado no dia 25 de dezembro de 1987 na Casa de Cultura Lauro Alvim, em Ipanema, no Rio de Janeiro. De lá, ele foi transferido para Araraquara para ser enterrado no Cemitério Municipal. O irmão dele, José Celso, estava inconsolável assim como outros amigos como o Grande Otelo, Jorge Fernando, Norma Bengel, Lucinha Lins e Fernanda Montenegro. 
Nós, não apenas homossexuais, mas artistas, pessoas sensíveis estamos servindo de bode expiatório. Nós também somos responsáveis por esse crime pois permitimos a ditadura cultural, econômica e sexual. Nós permitimos esse facismo sexual que, depois de roubar videocassete e secretária eletrônica, perfura o cérebro, o coração, o fígado. Precisa haver uma tomada de posição nossa, dos artistas que estão aqui neste ritual silencioso, porque se não utilizarmos nossa força para virarmos esta situação social seremos apenas empregadinhos bem pagos - José Celso em discurso no velório do irmão mais novo, aos prantos, via Tribunal da Imprensa. 

A comunidade dos artistas se uniu para levar o algoz de Luís à Justiça. Uma comissão formada por José Celso, Fernanda Montenegro, Marília Pêra, Marieta Severo e diversos outros foi até a 13ª Delegacia de Polícia de Copacabana, no Rio, para exigir uma rápida elucidação do crime no dia 28 de dezembro daquele ano. Naquele mesmo dia, o porteiro Oliveira reconheceu Gláucio Garcia de Arruda, de 22 anos, como um dos dois jovens louros que esteve no apartamento de Luís - seis horas depois ele foi preso. 

Marília Pêra, Marieta Severo, Fernanda Montenegro e outros artistas na 13ª DP

Gláucio, preso na Rua Barão da Torre, onde morava, ao voltar da praia (o point que ele supostamente usava para conhecer as vítimas), tinha arranhões e ferimentos, mas os atribuiu à uma queda de bicicleta. O delegado Romeu Diamant é quem estava à frente da investigação e, desde começo, suspeitava que o assassinato havia sido cometido por duas pessoas: o próprio Glaúcio e 'Jorge' - os mesmos que teriam tentado matar o turista Marcel Pencern em novembro. Os dois eram, de acordo com testemunhos, frequentadores assíduos do bar da Saideira, na Rua Gomes Carneiro, local conhecido pelo público LGBTQIA+. 

Artistas fizeram protesto na delegacia após a morte de Luís

Segundo o Jornal do Brasil, o delegado Diamant ficou deslumbrado por ver tantos artistas famosos, inclusive, Fernanda Montenegro, Marília Pera e Marieta Severo no posto policial. A maioria do público, inclusive, estava no protesto apenas para ver as celebridades. Montenegro leu uma carta assinada por 201 colegas, além de oito entidades, exigindo uma apuração rigorosa do crime. 
Agredidos com o assassinato brutal de nosso companheiro, nós artistas, técnicos e intelectuais ligados à atividade teatral, viemos à público manifestar a nossa indignação. Se nos revolta a maneira, particularmente hedionda em que foi cometido esse crime, não nos revolta menos a indiferença e mesmo o eventual deboche com que são examinados, em geral, os delitos cometidos contra os homossexuais, discriminados como cidadãos de segunda classe por parte dos policiais. Não descansaremos até que o crime seja esclarecido e o responsável preso e cobraremos diariamente as autoridades no cumprimento de seus deveres. 

Glaucio foi preso um dia depois da manifestação dos artistas 

José Celso acreditava que a morte do irmão estava conectada à um grupo de extremistas que vinha agindo em São Paulo, mas o delegado descartou essa possibilidade. Fernanda Montenegro apontou que "não é só por Luís, mas contra todo esse descaso que estamos lutando". Marília Pêra, no entanto, teve uma outra visão: "Isso tudo não vai adiantar em nada. Este país não tem lei. Sabe o que vai acontecer? Eles vão prender o assassino e, um mês depois, ele estará solto". 

Marli Rodrigues de Queiroz, por exemplo, cujo irmão Valter foi assassinado em circunstâncias similares, até esteve presente e tentou verificar se os dois rapazes tinham algo a ver com a morte dele, mas foi em vão. No dia 29 de dezembro de 1987, Gláucio foi preso e o delegado, surpreendentemente, negou a participação de mais uma pessoa no crime, apesar do relato de Oliveira. Seria o caso de encerrar logo a investigação por conta da pressão dos artistas? Ele, inclusive, chegou a dizer que estava irritado e sem dormir, "a 48 horas", para encontrar o culpado.  

Na casa de Glaúcio foi achada uma bolsa da vítima com aparentes manchas de sangue (que não foi devidamente periciada), mas sem qualquer sinal da faca utilizada no crime, a secretária eletrônica e o videocassete, além do dinheiro. O rapaz, que foi acusado de utilizar a mesma camisa de quando cometeu o assassinato, negou o crime: "Não tenho a mínima ideia de quem seja o criminoso. Um sujeito que dá 80 facadas em uma pessoa não tem boa índole. Um cara que começa a esfaquear o outro e repete 80 vezes é um paranoico, um maluco. Eu queria ser polícia para te ajudar". 

Luís era um homem cheio de alegria e planos 

Gláucio, sustentado pelo pai João Garcia Pinto de Arruda Filho, funcionário público, também já foi denunciado por bater na mãe, dona Marly. A progenitora negava qualquer envolvimento do filho, apesar de seu lado violento: "Ele podia fazer isso comigo [me bater], mas com os outros não acredito". 

O surfista, que vivia no bem-bom, também negou que fosse garoto de programa e que tirava vantagens dos homossexuais. Apesar disso, ele admitiu que já se envolveu com homens no passado: "É sim, tem muito bonitão de subúrbio que vem atrás de gays na Zona Sul e eu mesmo já experimentei. Mas agora só quero saber de gatinha". Com 1,80 de altura, musculoso, bronzeado e tatuado, ele chamava atenção por onde passava. 

Glaúcio, quando foi detido, tinha escoriações nos punhos, no antebraço esquerdo, no ombro direito e na mão direita. O corpo de delito, no entanto, afirmava que esses machucados não eram derivados de um acidente de bicicleta, mas o surfista mantinha sua história: "Posso provar que não matei ninguém. Só peço, pelo amor de Deus, que aquela morena do Monza Prateado UZ, e alguma coisa que tentou me socorrer quando eu caí de bicicleta, domingo de manhã, aparecesse aqui na delegacia para provar que eu não sou marginal". Ele ainda nomeou um porteiro, uma empregada e o pessoal da Light que viram o suposto acidente, em frente a uma banca de jornal na Rua Barão da Torre, entre as ruas Teixeira de Mello e Farme de Amoedo. Nada disso foi investigado pelo delegado. 

Glaucio quando foi preso em 29 de dezembro

Em 29 de dezembro, no mesmo dia em que Glaucio foi preso preventivamente, a comissão dos artistas agiu novamente. Eles estiveram com o Secretário de Estado da Justiça para protestar contra a discriminação e pedir rigor na investigação. Técio Lins de Silva se mostrou aberto aos protestos e Rodrigo Lima voltou a frisar a existência de um grupo de extermínio de homossexuais em São Paulo e que estava ameaçando a classe artística. A polícia negou que os casos estivessem interligados e apontaram que "achavam injusto que denunciassem esse preconceito no tratamento das investigações". 

Missa de Sétimo Dia pelo corpo de Luís Martinez

No dia 30 de dezembro, mais de 500 pessoas se reuniram na Missa de Sétimo Dia de Luís Martinez na Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, Rio de Janeiro. O padre José Roberto foi quem conduziu a cerimônia e Chico Buarque cantou a música 'Amigo'. Naquele mesmo dia, no entanto, outro homem homossexual, o artista plástico, Vicente Silva de Souza, foi assassinado por dois rapazes: um louro e outro moreno. 

O julgamento de Gláucio começou no dia 11 de janeiro de 1988 pelo juiz Mário Ernesto Ferreira, da 18ª Vara Criminal. O acusado manteve sua versão de inocência e deu um roteiro do que teria feito naquele dia: foi à uma lanchonete, saiu com uma amiga chamada Monica e depois encontrou outra colega, chamada Janete e seu marido Oto em Jacarepaguá, de onde saiu às 21h. Seu advogado, José Carlos Tortima, garantiu que o retrato falado não era nada parecido com seu cliente e que a polícia apenas o prendeu para "dar uma satisfação à opinião pública". 

No dia 18 de janeiro de 1988, as primeiras testemunhas depuseram: o porteiro Manoel Messias dos Santos, que encontrou o corpo de Luís, e Marshall Rey Netherland, amigo do falecido. O delegado Romeu Diamant deixou claro que, para ele, Glaúcio era o culpado - não havia dúvidas. 

Glaucio causou confusão na cadeia

O acusado, por sua vez, mantinha a calma e, de acordo com o Jornal do Brasil, chegou a "prender o riso" inúmeras vezes, o que deixou José Celso perplexo. Marshall depôs, mas ficou bastante nervoso e não sabia dizer, com precisão quando foi a data do crime: 22 ou 23. No dia 1 de fevereiro, Oliveira Teotônio voltou de Paraíba e confirmou seu testemunho: dois homens estiveram no apartamento de Luis naquele dia. Então fica a pergunta: por que a polícia não foi atrás dessas evidências? Outro culpado estava e continua, após tantos anos, à solta. 

Antes do julgamento, Gláucio voltou a demonstrar o profundo ódio que sentia pela comunidade LGBTQIA+ ao quase asfixiar Antonio Carlos da Silva, que se identificava como Márcia. Segundo o Tribuna da Imprensa, ela teria se recusado a fazer sexo com Gláucio e ele, por sua vez, a bateu repetidamente. Ele, inclusive, teria prometido matar o inspetor Luiz Fernando Martins, que estava à frente do caso. 

Gláucio teria sido condenado a 30 anos de prisão, a pena máxima na época, se não fosse por uma falha da autópsia. Os peritos Elias Freitas e Mary Monteiro Cordeiro do IML (Instituto Médico Legal) fizeram dois laudos: no primeiro, do dia 21 de março, os profissionais concluem que a morte ocorreu no dia 23 de dezembro após às 15h. No segundo, assinado em 29 de abril, eles negam a putrefação do corpo, ou seja, Luís teria sido assassinado apenas no dia 24. 

A questão era clara: se Luís foi assassinado em 23 de dezembro, o culpado era Glaucio. Se fosse no dia 24, ele se livraria da pena. O corpo do teatrólogo foi analisado em 25 de dezembro. 

Glaucio foi inocentado por falha na autópsia

Em uma reviravolta digna de cinema, Gláucio foi considerado inocente após uma nova análise do legista Elias Freitas em junho de 1988. De acordo com a análise, Luís teria sido morto apenas no dia 24 de dezembro, inocentando o acusado. Maria Helena, irmã do teatrólogo, ao lado de José Celso e amigos protestaram no Fórum da Vara Criminal e queriam provar que o crime ocorreu no dia 23 de dezembro. Elias foi claro: Luís teria sido morto às 8h do dia 24. Outros peritos corroboraram essa visão. 

José Celso, no entanto, afirma que ficou sabendo da morte do irmão às 8h da manhã do dia 24 de dezembro, ou seja, ele foi morto no dia 23. Todos, inclusive, teriam afirmado que o corpo estava em avançado estado de putrefação quando foi encontrado. 

Em 19 de julho de 1988, Gláucio foi solto pelo juiz Edson Aguiar de Vasconcelos por falta de provas. Quase um mês depois, em 8 de agosto de 1988, um novo laudo feito pelo professor Odon Ramos Maranhão atestou que "a morte ocorreu 36 horas antes" da remoção do corpo para o IML em 25 de dezembro de 1987. Apesar disso, no julgamento, Teotônio teria sido ajudado a se lembrar de uma segunda bolsa que Glaúcio carregava pelo próprio juiz. Ou seja, o caso não foi devidamente investigado, mais uma vez, por pura incompetência policial. Não há dúvidas de que Gláucio era culpado, porém existia uma segunda pessoa envolvida que também deveria ter sido levada à Justiça. 

Nilo Batista, advogado da família, lutava por Justiça

José Carlos Tortima, advogado de Glaúcio, relembrou a contradição do porteiro e a informação de que outra pessoa entrou no apartamento, logo depois de seu cliente - afinal o que ocorreu com essa outra pessoa? Quando ele saiu do apartamento? Apesar disso, em dezembro de 1988, foi julgado um novo recurso sobre a morte de Luís Martinez. 

A família do teatrólogo continuou a pressionar por respostas e, em janeiro de 1989, fez-se um protesto bastante criativo: marcou-se um "Quem Matou Luís Antonio Martinez Correa?" em diversas notas de cruzeiros - algo que teria sido feito pelos alunos da UniRio, onde o falecido lecionava. 

Os protestos de alunos por Justiça

Em 15 de maio de 1989, Glaucio foi condenado a 26 anos e oito meses de prisão pelo assassinato de Luís Martinez, mas teve a sentença diminuída para 20 anos. Além disso, ele ainda era acusado de agressão pelo caso de Michel Pencern. O advogado dele entrou com um recurso em outubro daquele mesmo ano e diversos artistas fizeram um abaixo-assinado, com mais de mil assinaturas, contra a sua soltura. 

Em 11 de dezembro de 1990, o recurso começou a ser, definitivamente, julgado, e em 6 de dezembro Gláucio foi encontrado, após ficar foragido, por mais de um ano em Minas Gerais. Ele trabalhava na região ordenando vacas. Todos os amigos, parentes e artistas fizeram mais um protesto nas ruas com os cartazes "Luís na Cidade", em referência à "Luz na Cidade". 

Gláucio voltou a frisar, em entrevista ao Jornal do Brasil, que era inocente e só havia fugido, com medo de passar quase 30 anos na prisão. Os advogados de Luís Martinez, no entanto, contam que Oliveira Teotônio o reconheceu na delegacia mesmo e chegou a "ficar trêmulo". Maria Helena, irmã do falecido, ainda entregou um ensaio intitulado "Explode Coração" contra a impunidade nesses tipos de crimes para pressionar os juízes por Justiça. 

Maria Helena em protesto/ Gláucio sendo preso novamente

O Superior Tribunal de Justiça manteve a condenação de 20 anos de Glaúcio em decisão no dia 18 de dezembro de 1990, mas de acordo com o livro Luís, um Malandro Burguês, ele foi solto apenas quatro anos depois. Em 2012, a Justiça de Leopoldina concedeu a reabilitação dele perante à sociedade.  

Nilo Batista, advogado da família ao lado de Antonio Carlos de Almeida Castro, inclusive, fez uma conclusão final que, até hoje, serve como um manifesto dos direitos civis da população LGBTQIA+: 

Estranho país este que – na virada do século – retorna às práticas jurídicas medievais para aceitar a criminalização das condutas homossexuais e sua penalização física, mantendo na impunidade o assassinato. Com certeza este não é o país em que o homossexualismo não constitui crime, em que as penas físicas são lembranças amargas do passado, em que a tendência à incriminação da vítima foi revertida pela rejeição predominante da anacrônica tese da legítima defesa de honra. Este não é o país em que ‘todos são iguais perante a lei, sem distinção de sexo, raça, trabalho, credo religioso e convicção política’, mas sim o país onde os apetites individuais manifestam-se sem o freio das instituições jurídicas modernas e democráticas. - via o Jornal Correio. 
Luís com seu grupo de teatro nos anos 80                              Manchete

José Celso manteve a memória do irmão viva e criou o dia Ethernidade de Luís, em 23 de dezembro, na Associação Cambiante Teatro Oficina Uzyna Uzona. Segundo entrevista dele ao Itaú Cultural, todos os integrantes tiram folga nesse dia. Além disso, em Araraquara, foi criada a semana Luis Antonio Martinez Correa, que reúne projetos de ações performáticas e cenas curtas. 

Luís Antônio Martinez Côrrea foi apenas um, entre os mais de 350 homossexuais mortos nos anos 80 só no Rio de Janeiro. O Supremo Tribunal Federal, no entanto, apenas permitiu a criminalização da homofobia e transfobia em 2019. O caso dele não deve ser esquecido e servir como exemplo que o preconceito mata - e tira de nós aquilo que é o mais caro: a vida. 

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