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A conscientização social dos filmes dirigidos por Ida Lupino

Ida Lupino pode até ter ficado conhecida, em certo ponto de sua carreira, como a 'versão feminina de Hitchcock', mas ela provou ir além desse rótulo. Seu trabalho a partir dos anos 50, especialmente o noir O Mundo Odeia-me (The Hitch-Hiker, 1953) e em séries de televisão, tinha uma aura sombria e ironia equivalentes à do grande diretor. Essa semelhança, contudo, termina aí: Ida, mesmo em filmes considerados mais leves, tinha como foco explorar e esmiuçar grandes tabus - emocionando e empatizando seus espectadores.  

Ida começou como atriz, mas sempre deu sinais de expandir sua influência. Em entrevistas promocionais para o filme É Difícil ser Feliz (The Hard Way, 1943), ela, por exemplo, revelou que sonhava em ser diretora:  

Eu sempre pensei que, um dia, eu deixaria de atuar e tentaria dirigir. Eu fui muito afortunada de trabalhar com ótimos diretores e aprendi muito com eles. Eu também tenho as minhas próprias teorias que eu gostaria de testar e desenvolver. 

 

Ida Lupino no set de filmagens de O Bígamo (The Bigamist, 1953)

Em 1947, após estrelar em longas como Dentro da Noite (They Drive By Night, 1940), Seu Último Refúgio (High Sierra, 1941) e O Lobo do Mar (The Sea Wolf, 1941), Ida deu adeus à Warner Bros e se tornou uma freelancer. Um ano depois, ela se casou com o produtor cinematográfico Collier Young e os dois investiram no sonho de produzirem e dirigirem seus próprios longas. 

De acordo com a biografia 'Ida Lupino, a Biography' de William Donati, uma conversa da atriz com Roberto Rossellini, em uma festa em 1948, lhe deu o empurrão necessário para filmar 'Mãe Solteira (Not Wanted, 1949). "Em filmes de Hollywood, a estrela está enlouquecendo, ou bebe muito ou quer matar a sua esposa. Quando vocês farão filmes sobre pessoas ordinárias, em situações ordinárias?", indagou ele. 

Mãe Solteira (Not Wanted, 1949)

Sally Forrest em Mãe Solteira (Not Wanted, 1949)

Ida Lupino encontrou o projeto certo para se aventurar nos bastidores, após ler um rascunho escrito pelo roteirista Malvin Wald sobre uma mãe solteira que doa seu bebê. Paul Jerrico, na ocasião, foi contatado para transformar a história em um roteiro sólido. Com tudo pronto, o marido dela, Collier, tentou produzir o longa pela Columbia, mas o diretor do estúdio, Harry Cohn se ôpos veementemente. 

Young, sem pestanejar, se demitiu - algo que enfureceu a esposa. A chance de Ida, contudo, veio com o estúdio Emerald Productions, que era especializado em filmes de baixo orçamento. O fato do casal já ter investido dinheiro no filme The Judge (idem, 1949) ajudou que eles obtivessem o apoio da produtora. Ida, no começo dessa jornada, seria apenas creditada como produtora e roteirista, mas o diretor Elmer Clifton sofreu um ataque cardíaco antes do começo das gravações. Em 28 de fevereiro de 1949, o primeiro dia das filmagens de Mãe Solteira (Not Wanted, 1949), Ida Lupino finalmente se tornou uma diretora. 

Sally Forrest e Leo Penn, pai de Sean Penn, em cena do filme

Em Mãe Solteira (Not Wanted, 1949), Sally Forrest vive Sally, uma jovem que se apaixona perdidamente pelo pianista Steve Ryan (papel de Leo Penn - pai de Sean Penn). Após um breve romance, o músico vai embora da cidade e ela vai atrás dele. Logo depois, ela descobre que está grávida e, apesar da ajuda do gentil Drew (Keefe Brasselle), ela não sabe o que fazer. 

Sally, que se tornou a estrela de três dos filmes dirigidos por Lupino, foi escolhida após uma audição com mais de 250 garotas. Keefe, por sua vez, recebeu uma chance após Ida ficar sabendo que ele estava sofrendo para se firmar como ator - na audição ele estava tão nervoso que mal conseguia falar. Leo foi contratado após Collie vê-lo em uma foto de banco de talentos. Nos caso dos três atores, o filme Mãe Solteira (Not Wanted, 1949) foi a grande brecha que eles almejavam nos cinemas. 

Como o cerne do filme - uma mãe grávida que resolve doar seu bebê - era um grande tabu na época, e ainda o é hoje, o Escritório de Administração do Código de Produção de Hollywood interviu e exigiu que muitas cenas fossem apenas 'insinuadas' e não 'explícitas'. Ida palpitava onde e como podia para melhorar o roteiro. 

Ida Lupino dirigindo enquanto Elmer estava atrás dela

Elmer,que ainda se recuperava do ataque cardíaco, participava das gravações, mas era Ida quem tomava as rédeas do filme. Uma matéria do Daily News, em março daquele ano, notou que era a atriz quem estava comandando tudo, mas bastante graciosa, ela negou: "Eu não estou dirigindo, nem pensaria nisso".

Em Mãe Solteira (Not Wanted, 1949), Ida também encontrou problemas com os investidores, em especial na cena da casa das mães solteiras. A atriz queria exibir garotas brancas, negras e japonesas convivendo em harmonia no local, mas foi proibida. Irritada, ela os desafiou ao colocar uma garota de descendência japonesa no longa e apenas pôde mantê-la porque já era tarde demais para tirá-la do corte final. 

Mãe Solteira (Not Wanted, 1949) ficou pronto em 14 dias, com uma orçamento baixíssimo de apenas US$153 mil. A obra foi recebida com críticas mistas, mas o público compareceu em peso na estreia em 24 de junho de 1949 - arrecadando mais de US$1 milhão. O êxito de Ida, que não quis levar crédito como diretora mesmo tendo gravado tudo, foi tão grande que ela possuiu liberdade total em seu próximo filme Quem Ama não Teme (Never Fear, 1950). 
Todos nós deveríamos trabalhar para aliviar a pobreza e a doença que causa essa condição [mães solteiras que doam seus bebês]. O amor é algo precioso. Todos os humanos precisam amar e ser amados. A vida não nos dá os meios de achar amor sem os limites de nossas convenções e muitos de nós os encontram fora. E é por isso que estamos fazendo esse filme. Essas garotas têm direito de serem compreendidas. - Ida em entrevista sobre o filme em 18 de fevereiro de 1949 para a filha de Eleanor Roosevelt, Anna. 

Quem Ama não Teme (Never Fear, 1950)

Sally e Keefe: os queridinhos de Ida Lupino

Com o sucesso de Mãe Solteira (Not Wanted, 1949), Ida Lupino estava nas nuvens! Decicida a ter ainda mais controle, ela formou com o marido a produtora The Filmakers, cujo objetivo era abordar problemas sociais. Para completar, Malvin Wald foi convidado e se tornou tesoureiro. O primeiro longa da produtora foi anunciado: Quem Ama não Teme (Never Fear, 1950), que seria dirigido, originalmente, por Frank Cavett. Os investidores, no entanto, queriam Ida, já que nos bastidores todos sabiam que foi ela quem dirigiu o sucesso de Mãe Solteira. 

Animada, ela e Collier começaram a desenvolver a história de Quem Ama Não Teme (Never Fear, 1950), que reuniu Sally Forrest e Keefe Brasselle novamente. No longa, Sally interpreta a dançarina Carol Williams, que acaba contraindo poliomelite e fica internada em uma clínica de reabilitação, onde ela conhece o cativante Len, interpretado por Hugh O'Brian. Seu noivo, Guy, vivido por Keefe, faz o que pode para ajudá-la nessa transição, mas Carol quase desiste de tudo. Esse projeto era próximo de Ida já que, em 1934, ela também contraiu a doença e a venceu. 

Ida Lupino checando a maquiagem de Sally nos bastidores do filme

Malvin Wald foi consultado para contribuir com o longa e, em conversa com donos de cinemas, descobriu que o assunto da poliomelite não seria bem-recebido. Em 1949, nos EUA, uma verdadeira epidemia da doença se alastrou, deixando uma 1 a cada 1000 crianças paralíticas. Wald alertou o casal, mas Collier convenceu Ida de que valeria a pena investir em Quem Ama não Teme (Never Fear, 1950) - e ela acreditou, confiando na expertise do marido. 

Nos primeiros dias de filmagens, Lupino torceu o pé em um cabo solto e foi obrigada a dirigir o longa todo sentada. Muita das cenas, inclusive, foram gravadas em um centro real de recuperação para polio, a Kabat-Kaiser Rehabilition Institute em Santa Monica, Califórnia, nos EUA. No local podemos ver, em detalhes, toda a recuperação da personagem e até uma cena de dança de cadeiras de roda - inédito para a época! 

Cena do filme Quem Ama Não Teme - algo inédito na época

O filme foi completado em 15 dias por um orçamento de US$150 mil, cujo US$65 mil foi retirado de um empréstimo com o agente de Ida, Charles Feldman, após os investidores 'darem para trás'. Com pouco dinheiro, Collier não conseguiu exibir o filme em grandes teatros e muitos deles, inclusive, não queriam exibir um assunto tão pesado e próximo como a poliomelite - na ocasião ainda não havia vacina para a doença. 

O fracasso do filme contribuiu para a deterioração do casamento de Ida e Collier, porém a gota d'água veio quando o produtor firmou um contrato terrível com a RKO, estúdio de Howard Hughes. Em 28 de dezembro de 1949, segundo o livro The Women of Warner Brothers, de Daniel Bubbeo, Ida entrou com um pedido de divórcio e começou um romance com o ator Howard Duff. Quem Ama não Teme (Never Fear, 1950) fracassou nas bilheterias, mas deixou uma marca em todas as vítimas da polio pela sua sinceridade e representação fiel de pessoas doentes. 

Eu recebi diversas cartas de pessoas que achavam que isso tinha acontecido, de verdade, com os atores. Eu recebi tantas cartas de pessoas com poliomelite que diziam: 'O que você fez me inspirou'. Foi muito emocionante - relembra Sally Forrest no livro The Women of Warner Bros. 

O Mundo é Culpado (Outrage, 1950)

Mala Powers foi a atriz principal deste filme importantíssimo 

Ida Lupino estava presa, assim como Collier e Malvin, ao contrato com a RKO, que detinha os direitos de todas as suas obras e aprovação de atores e projetos. Disposta a fazer o melhor, a diretora se afundou no trabalho e decidiu desenvolver seu mais novo longa-metragem: a história de uma menina que é estuprada e as consequências desse trauma em sua vida. 

Mala Powers, uma novata de dezoito anos de idade, foi a escolhida para dar a vida à personagem Ann Walton em O Mundo é o Culpado (Outrage, 1950) - que se chamaria inicialmente de Nobody's Safe, ou seja, 'Ninguém está Seguro'. A parte mais impressionante do longa é, justamente, a tentativa de fuga de Ann ao ser perseguida pelo seu agressor. A tensão, o movimento de câmeras e a música criam uma atmosfera de puro terror - algo que qualquer um, especialmente uma mulher que já foi perseguida na rua ou teve essa sensação, pode perfeitamente entender.  

Ida Lupino dirigindo Mala Powers e Robert Clarke 

O Mundo é o Culpado (Outrage, 1950) começa bastante forte, exibindo os julgamentos que a personagem recebe após o ataque, a relação destruída com o então noivo, Jim, vivido por Robert Clarke, e o estresse pós-traumático de Ann. Na metade do filme, começa-se a explorar um possível romance entre Ann e o reverendo Bruce, papel de Tod Andrews, que a ajuda quando ela mais precisa. Apesar desse lado 'água com açúcar', o filme transmite com maestria sua mensagem - até o fim. 

O filme foi lançado em março de 1950, com algumas críticas mistas, mas foi um dos maiores sucessos da RKO daquele ano. Com um comando certeiro no set de filmagens, Ida, que pedia para ser chamada de 'mamãe' pelos atores, conseguia suas cenas de forma objetiva e contando com a colaboração de todos. 

Em entrevista em 1974, segundo o livro Ida Lupino, Director: Her Art And Resilience In Times Of Transition de Therese Grisham and Julie Grossman, ela definiu O Mundo é o Culpado (Outrage, 1950): 
Eu acho que foi algo bom de se fazer na época, sem ser muito moralista. Afinal, não foi  culpa da garota. Eu apenas pensei que o efeito que o estupro pode ter em uma garota não é muito discutido. A garota não fala sobre isso ou vai até à polícia. Ela tem medo de que não acreditem nela. 

Laços de Sangue (Hard, Fast and Beautiful!, 1951)

Sally Forrest interpreta uma filha sob o jugo da mãe, vivida por Claire Trevor

Ida Lupino, desde o começo de sua carreira por trás das câmeras, se focava em trazer filmes de valioso teor social para o público. Então por que ela decidiu gravar Laços de Sangue (Hard, Fast and Beautiful!, 1951), a história sobre uma tenista que é dominada pela ambição de sua própria mãe? Baseado no conto 'Mother of a Champion' de John Tunis, escrito para a Harper’s Monthly Magazine em 1929 - e baseado na vida da tenista Helen Wills Moody - o longa analisa as ambições das mulheres versus o que a sociedade espera deles e, portanto, é perfeito para quebrar os tabus do que se espera de uma mulher. 

Em Laços de Sangue (Hard, Fast and Beautiful!, 1951), Sally Forrest interpreta Florence, uma jovem que tem um futuro brilhante no tênis. A mãe dela, Millie, vivida pela incrivelmente talentosa Claire Trevor, é bastante ambiciosa e quer prover tudo do bom e do melhor para a filha. O problema é que ela acaba afastando a jovem de uma carreira brilhante ao colocar o dinheiro em primeiro lugar, favorecendo o namorado rígído da filha, Gordon, vivido por Robert Clarke. 

Ida Lupino rodeada de homens durante a exibição de Laços de Sangue (Hard, Fast and Beautiful!, 1951)

Desta vez, para o desgosto de Ida, Howard Hughes estava bastante focado no filme, já que ele amava tênis. O empresário foi quem deu a ideia para o título 'Hard, Fast and Beautiful' e também fez questão de que o som das bolas de tênis fossem críveis. "O senhor Hughes era um homem estranho que ficava intrigado com o som das bolas de tênis", relembra Forrest, "Ele insistia para que o som fosse certo. Ele passava muito tempo na sala de edição para isso". 

O estúdio RKO investiu cerca de US$25 mil para uma premiere com toda a pompa para o filme, que ocorreu em São Francisco, nos EUA - uma decisão bastante inusitada, já que a maioria dos longas eram exibidos em Los Angeles. Laços de Sangue (Hard, Fast and Beautiful!, 1951) custou apenas USS$300 mil, sendo o filme com o orçamento mais caro de Ida até então. 

Em 23 de maio de 1951, Laços de Sangue (Hard, Fast and Beautiful!, 1951) estreou nos cinemas e, apesar de uma arrecadação razoável e críticas boas, o filme não fez tanto sucesso quanto se esperava, com Hughes ficando com a maioria da bilheteria. 

O Mundo odeia-me (The Hitch-Hiker, 1953)

O Mundo odeia-me (The Hitch-Hiker, 1953) - um dos filmes mais emblemáticos de Ida

Ida Lupino estava na melhor fase de sua vida pessoal: após pagar a dívida ao seu agente, estrelando no filme Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground, 1951), ela finalmente havia se tornado mãe: com Duff, teve uma filha chamada Bridget, nascida em 23 de abril de 1952. Além disso, ela seguiu lançando filmes e atuando através da produtora The Filmakers com: Escravo de Si Mesmo (Beware My Love, 1952) e Abismos do Desejo (On the Loose, 1951). 

Recuperando-se do pós-parto e do nascimento prematuro da filha, cujos padrinhos eram seu ex-marido, Collier e a então esposa Joan Fontaine, Ida resolveu mergulhar no trabalho - desta vez se inspirando no caso real dos assassinatos ocorridos em 1951 por Billy Cook. Assim nasceu O Mundo odeia-me (The Hitch-Hiker, 1953), longa que ela estava incerta de fazer por ser muito diferente do que estava acostumada. Collier, no entanto, a incentivou e, desta vez, deu certo!

Ida dirigindo os atores Frank Lovejoy e Edmond O'Brien

Em O Mundo Odeia-me (The Hitch-Hiker, 1953), que tornou Ida a primeira cineasta a dirigir um filme noir, conta-se a história de dois amigos, Roy, vivido por Edmond O'Brien, e Gilbert, papel de Frank Lovejoy, que estão indo, de carro, para um final de semana de pesca. Quando Emmett Myers, interpretado por William Talman, pede uma carona, eles aceitam sem imaginar de que se tornariam reféns e passariam dias de desespero. 

Ida Lupino se encontrou, brevemente, com o próprio Billy Cook antes de começar a co-escrever o roteiro com Collier Young, que teve títulos como 'The Difference' e 'The Persuader'. O filme começou a ser desenvolvido em março de 1952, mas o julgamento contra o assassino ainda estava em seu curso. Para piorar, o  Escritório de Administração do Código de Produção de Hollywood, se opunha à representação de um homicída nas telonas e, por isso, de Billy Cook, o antagonista passou a se chamar Emmett. 

Com um toque Ida de ser, ela adicionou mexicanos na história de forma não-estereotipada, e permitindo que eles falassem em espanhol, sem legendas, muito antes dessa manobra ser utilizada, novamente, por Steven Spielberg no remake de Amor, Sublime Amor (West Side Story, 2021). 

Ida estava incerta de fazer o filme, mas foi um grande sucesso 

Logo depois do nascimento da filha, Bridget, Ida começou a gravar O Mundo Odeia-me (The Hitch-Hiker, 1953), entre junho a julho de 1952. O filme estreou em 20 de março de 1953 e foi um dos maiores sucessos daquele ano para a RKO Pictures e cimentou a grandeza da atriz como diretora. Para se ter uma ideia, ela era, naquela época, a única mulher a fazer parte do Director's Guild - associação dos diretores dos EUA. 

Para aumentar o suspense do filme, eu gravei as cenas em lugares claustrofóbicos do carro para intensificar o calor do lado de fora, as barreiras do deserto. Eu tentava manter o espectador à beira do assento com uma linha de violência prestes à explodir a qualquer momento. - relembra Ida em entrevista no livro The Making of The Hitch-Hiker Illustrated Por Mary Ann Anderson

O Bígamo (The Bigamist, 1953) 

Ida Lupino e Edmond O'Brien em O Bígamo (The Bigamist, 1953)

Provando não ter medo de desafios, Ida Lupino se tornou uma das estrelas de seu próximo filme O Bígamo (The Bigamist, 1953), além de dirigi-lo -tornando-se a primeira mulher a dirigir a si mesma em um filme - e, de quebra, convidou a atual esposa de seu ex-marido, Joan Fontaine, para ser uma das protagonistas. 

Baseado na história de Lawrence B. Marcus e Lou Schor, O Bígamo (The Bigamist, 1953), segue a tradição de Lupino trabalhar com os mesmos atores, pelo menos duas vezes. Nele, Edmond O'Brien interpreta Harry, que pretende adotar uma criança com a esposa, Eve, papel de Joan. O dono da agência, Mr. Jordan, vivido pelo Edmund Gwenn - o eterno Papai Noel do Milagre na Rua 34 - suspeita das frequentes viagem de Harry e descobre que ele tem uma outra esposa, Phyllis, interpretada por Lupino .

Joan, Collier e Ida Lupino durante as filmagens de O Bígamo (The Bigamist, 1953) 

O filme começou a ser gravado em junho de 1953 após a decisão do The Filmakers de deixar a RKO e distribuir seus projetos de forma independente. Os investidores gostaram de O Bígamo (The Bigamist, 1953) especialmente porque, apesar de tratar de um assunto polêmico, o filme não se desviava para um lado sórdido e sim para os sentimentos e a indecisão de um homem. 

O Bígamo (The Bigamist, 1953) foi lançado em 24 de novembro de 1953 e com críticas mistas, em especial pelo fim 'em aberto'. Um dos grandes problemas foi a distribuição limitada do filme, que não conseguiu chegar em tantas pessoas e, assim, arrecadou menos do que o esperado. 

Com essas dificuldades de distribuição da produtora, Ida recebeu a proposta de trabalhar na televisão pelo operador de câmera de O Bígamo, George Discant com o grupo 'Four Star', formado por David Niven, Charles Boyer e Dick Powell. Ela estava insegura em aceitar, mas acabou cedendo e dirigiu diversos episódios televisivos ao longo de dez anos. A produtora dela, 'The Filmakers', havia se dissolvido em 1955 após completar o filme A Vólupia do Crime (Mad at The World, 1955).  

Aqueles eram dias incríveis. Nós descobrimos novos talentos e nós fizemos o tipo de filme que é considerado 'new wave' hoje. Nós abordamos assuntos que eram polêmicos na época - mães solteiras, suborno no tênis, crimes de um mochileiro, a bigamia e o polio. - entrevista de Ida para a revista Action em 1967, da matéria 'Me, Mother Directress'. 

Anjos Rebeldes (The Trouble with Angels, 1966)

Hayley Mills e June Harding na volta de Ida aos cinemas

Após perder o preconceito com a televisão, algo comum entre os atores de Hollywood, Ida Lupino dirigiu episódios de 'Alfred Hitchcock Apresenta', 'Paladino do Oeste', 'Os Intocáveis' e 'Dr. Kildare', até aparecer a oportunidade de dirigir o filme Anjos Rebeldes (The Trouble With Angels, 1966). A diretora recebeu o convite do produtor William Frye, para compor uma gravação composta quase toda de mulheres, e não perdeu a oportunidade. 

Em Anjos Rebeldes (The Trouble With Angels, 1966), a grandiosa Rosalind Russell interpreta a Madre Superiora de uma escola católica apenas para garotas. O que ela não esperava eram as confusões que as jovens Mary Clancy, vivida por Hayley Mills, e Rachel Devery, papel de June Harding, aprontariam em sua amada escola. Misturando comédia com um pouco de ousadia - convidando a artista burlesca Gypsy Rose Lee para fazer uma ponta - o filme era baseado no livro 'A Vida com a Madre Superiora' de Jane Trahey. 

Ida, focada, ao dirigir o filme Anjos Rebeldes

Rosalind Russell e Ida se deram muito bem durante as filmagens, com Lupino mais uma vez impressionando com a sua dedicação e profissionalismo. A diretora, inclusive, fez amizade com as verdadeiras freiras da St. Mary's Home for Children, onde a obra foi gravada em Pensilvânia, nos EUA. Infelizmente, a 20th Century Fox deletou diversas cenas gravadas por Ida - que não tinha o controle criativo do longa. 

Anjos Rebeldes (The Trouble With Angels, 1966) foi lançado em 6 de abril de 1966 e recebido de forma bem morna pelo público e pela crítica. Na época, vale lembrar, havia uma overdose de longas sobre freiras, desde o sucesso de A Noviça Rebelde (Sound of Music, 1965), mas Ida conseguiu mesclar a comédia com a religiosidade de forma perfeita e traçou uma obra divertidíssima! 

Aos 48 anos de idade, mãe de uma garota de 14 anos e com um casamento atribulado com Howard Duff, Ida não tinha mais aquela audacidade dos primeiros filmes, preferindo mostrar sua maestria por trás das câmeras - o que também não deixava de ser corajoso. Ela preferia ficar mais perto de casa e após Anjos Rebeldes (The Trouble With Angels, 1966) voltou a se focar na televisão e na atuação. 

Menção honrosa: Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground, 1951)

Ida e Robert Ryan em Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground, 1951)

A menção honrosa de Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground, 1951) é por conta da suposta direção, mais uma vez, não creditada a Ida Lupino. Ela foi convidada pelo diretor Nicholas Ray para estrelar nesse filme noir, que com certeza serviu de base para O Mundo Odeia-me (The Hitch-Hiker, 1953). 

Em Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground, 1951), Robert Ryan interpreta o policial Jim Wilson que é designado para investigar a morte de uma garota no interior. Ao chegar no local, ele acaba encantado por Mary, papel de Ida, uma jovem cega que o fascina. 

De acordo com o livro Ida Lupino as Film Director, 1949-1953: An Auteur Approach de Lucy Ann Liggett Stewart, o autor David Thomson reportou que Ida gravou algumas cenas do filme quando Nicholas Ray ficou doente, mas não existe outra matéria, biografia ou entrevista de Ida que confirme esse fato. Apesar disso, Cinzas que Queimam (On Dangerous Ground, 1951) é um grande filme e a performance da atriz é fantástica. 

Ida Lupino dirigindo o filme O Mundo é o Culpado (Outrage, 1950)

Ida Lupino era pioneira no sentido mais literal da palavra: a única diretora ativa em Hollywood após a II Guerra Mundial, ela não teve medo de expor problemas sociais, de fazer o que queria da forma como queria e cimentando, assim, seu nome na história.  



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