Os bastidores do apaixonante filme Em Algum Lugar do Passado (1980) - Caixa de Sucessos

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06/10/2019

Os bastidores do apaixonante filme Em Algum Lugar do Passado (1980)

*spoilers sobre o filme Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980)

Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980) não fez um grande sucesso em sua estreia - os críticos o acharam meloso demais - mas com o passar dos anos, essa joia passou a ser um cult clássico amado pelos fãs de Christopher Reeve, o eterno Superman, e de Jane Seymour, a doce Dra. Quinn. 

Baseado no livro Em Algum Lugar do Passado, no original Bid Time Return, de Richard Matheson, publicado em 1975 e inspirado na atriz Maude Adams, o filme conta a história de Richard Collier, vivido por Reeve, um jovem autor de peças de teatro que tem toda a sua vida mudada quando encontra uma doce senhora que pede que ele retorne para ela. Algum tempo depois, ficando em um hotel fora da cidade, ele descobre que a senhora se trata de Elise McKenna, interpretada por Jane Seymour, uma respeitada atriz da virada do século XX. Assim, obcecado pela pela atriz e seu retrato, ele decide usar a hipnose para voltar no tempo e viver esse grande amor. 

Christopher Reeve e Jane Seymour se tornaram grandes amigos depois de gravarem o filme
Recém-saído de seu grande sucesso como Super-Homem em 1978, que o transformou em uma estrela de autoescalão, Christopher Reeve conta que escolheu o papel de Richard justamente para escapar dessa persona heroica, descartando o papel principal de Gigolô Americano (American Gigolo, 1980) que foi para Richard Gere e um outro onde interpretaria um viking: 
Em Algum Lugar do Passado é o meu jeito de escapar da capa. Meu time me disse para não escolher esse papel. Eles disseram que eu só deveria fazer um filme dirigido por Michael Cimino ao lado de Jane Fonda ou Barbara Streisand. Mas eu gosto da história e do personagem - um homem que está incompleto. Ele tem todas as coisas materiais que precisa, todo o conforto, mas ele não tem o compromisso apaixonado com algo além dele mesmo - e ele vai atrás disso. - Entrevista de Reeve para o New York Times em 1979.
De acordo com a mesma publicação, a história de Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980) começou em 1976, um ano após a publicação do livro. O advogado Stephen Deuscth (que depois adotou o sobrenome do pai biológico, Simon) se apaixonou pelo livro assim que foi publicado e tinha a esperança de algum dia entrar no negócio dos filmes e assim produzir essa grande obra. 

Stephen sempre tinha sonhado em entrar no mundo do cinema, especialmente porque seu pai biológico era o produtor S. Sylvan Simon, responsável por filmes como Escravos da Ambição (Lust for Gold, 1949) e Elvis e Costello (idem, 1945), e seu pai adotivo era outro grande produtor chamado Armand Deustch, ativo nos anos 50 em filmes como Tentação Verde (Green Fire, 1953) e Dupla Redenção (Carbine Williams, 1954).

Assim, de acordo com sua entrevista ao site Portland Center, Stephen Simon estava obstinado em conseguir um emprego na indústria e logo se tornou assistente do lendário produtor Ray Stark. No primeiro dia de seu emprego, em fevereiro de 1976, ele se encontrou com Richard Matheson e fez um acordo de produzir seu filme. Três anos depois, o mesmo foi produzido e ganhou o título de Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980) baseado no título da canção Somewhere in the Night de Barry Manilow

Richard Matheson, nesse ínterim, recebeu a oferta de Dustin Hoffman em 1978 para estrelar em seu filme, como relata o NY Times, mas o escritor negou seu pedido, acreditando na paixão de Simon pelo seu livro e por não achar que Dustin teria o look ideal: "Ele acabaria fascinando a garota, mas demoraria cinco dias! A personalidade dele superaria seu visual, mas não seria amor à primeira vista". 

Foto dos bastidores de Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980)
Portanto, Richard Matheson, que se envolveu em toda a produção do longa e escreveu o roteiro, logo fazia parte da busca dos protagonistas perfeitos e os encontrou em Christopher Reeve e Jane Seymour. A Universal, estúdio responsável por financiar o filme, apenas concordou em fazê-lo por causa do envolvimento de Reeve, que havia recém-saído de sua fama como Superman, e recebeu o roteiro escondido de Simon.

Já com Jane Seymour, na mesma entrevista, Simon afirma que ela os impressionou de primeira por continuar na personagem durante toda a audição e o diretor Jeannot Szwarc afirmou no documentário Back to Somewhere in Time que estava convencido que ela seria perfeita quando foi a única atriz que lhe respondeu que nunca esteve apaixonada. Mas a própria atriz, em conversa com a revista Starlog, conta uma história um pouco diferente:
Eu estava cansada depois de quatro meses pensando que faria o papel e depois descobrir que cada atriz da cidade e até do mundo estavam lendo para o papel. Para o meu horror, um dia peguei uma revista que tinha o seguinte anúncio: 'Procurando por uma garota para estrelar com Christopher Reeve em Em Algum Lugar do Passado. Deve ter mais de 1,65 cm de altura.' Eu tenho 1,63 cm. Eu não deixaria alguns centímetros me impedirem. A última vez que me encontrei com eles foi a primeira que encontrei Christopher Reeve. -Jane Seymour, 1980. 
Foi ali que decidiram que a química entre Chris e Jane era incrível e pararam de procurar pela perfeita Elise McKenna, pois já tinham encontrado. O diretor Jeannot Szwarc foi contratado por ter demonstrado o desejo em conversa ao patrão de Stephen Simon de fazer um romance como O Retrato de Jennie (Portrait of Jennie, 1948) um ano antes das gravações. Simon o compreendeu e lhe deu uma cópia do livro de Matheson. Szwarc aceitou um salário abaixo do considerado de praxe apenas para dar vida à esse drama.

Com o orçamento de apenas 4 milhões de dólares, que hoje seria por volta de 12 milhões, e gravado na pacata Ilha Mackinac, em Michigan nos Estados Unidos, especificamente no Grand Hotel, construído em 1887, enquanto a ação original do livro se passava em San Diego no Coronado Hotel, Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980) teve seu início de gravações no final de maio de 1979.
Jane Seymour e Chris Reeve no set de filmagens em 1979. 
Em sua autobiografia Still Me, Christopher Reeve relembra com muita alegria os meses que passou na Ilha, embora o hotel não tivesse ar-condicionado e as filmagens fossem feitas à noite ou no raiar do dia, afirmando que foi o set de filmagens mais calmo em que ele já trabalhou:
O mundo real se partiu enquanto a história e a localização tomavam conta de nós. Eu raramente trabalhei em uma produção que foi tão harmoniosa e relaxante. 
Ao lado de grandes astros como Christopher Plummer, quer recebeu a oferta do próprio Matheson, interpretando o bruto agente de McKenna, William Fawcett Robinson; Teresa Wright como a fiel empregada Laura Roberts; Susan French como a versão mais velha de Elise e Bill Erwin como o simpático funcionário do hotel, Arthur Biehl, o Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980) ganhou nomes de peso e grandes artistas para compor a atmosfera de 1912.

Os extras, que ganhavam apenas 25 dólares por dia, também ecoaram o mesmo sentimento de Reeve, inclusive Jo Addie que participou do filme de 1980 e conseguiu ficar amiga do astro! Em entrevista para o fã clube oficial do ator, Jo relembra que Reeve, ao lado de Jane Seymour, fazia várias viagens curtas com seu avião para o Canadá e mantinha isso em segredo, já que ele não poderia fazer algo tão arriscado assim durante a gravação de um filme. 

Outra dificuldade era o fato de que na ilha eram proibidos qualquer tipo de veículo motorizado - então todos tinham que se locomover de bicicleta, charrete ou à pé. Apenas no meio das gravações que conseguiram permissão para um carro para levar o equipamento - além de utilizar o carro nas primeiras cenas no qual Collier chega ao hotel com o veículo.

O meio de transporte das estrelas durante sua estadia na Ilha
Decidido a usar dois tipos de rolos de filmes diferentes para representar o presente mais bruto de Richard e o passado, em tons pasteis, Isidore Mankofsky, o diretor de fotografia, se focou na parte mais importante do filme: a revelação do retrato, já que era através dele que Elise McKenna se tornava real para os fãs e para Collier.

O fotógrafo responsável utilizou uma técnica no qual Jane tinha que olhar para um ponto específico, de um certo ângulo, para assim parecer que sua foto, de qualquer lugar do ambiente, estaria encarando a pessoa de volta. Para maximizar o impacto, de acordo com o documentário sobre o filme, Reeve fez questão de ver o retrato apenas quando a cena em questão fosse gravada. Sobre isso, ele afirmou:
Olhando para a foto, ter a sensação não foi nada difícil. Porque a Jane é incrivelmente linda. 
Para a grande revelação do retrato, Isidore resolveu que quando o personagem de Reeve passasse pela luz batendo no retrato, que a luz dos holofotes o "cegasse" bem na hora em que ele atravessa a luz, provocando a reação de arrebatamento que o diretor estava buscando. 

À esquerda, o retrato de Maude Adams que deu origem ao livro e à direita, o da bela Jane Seymour 
Mas nem tudo ocorreu na mais perfeita ordem e calma: na grande cena da peça de Elise, no qual ela faz um monólogo sobre seu grande amor, algo deu errado durante a gravação e Seymour teve que refazê-la, sozinha no teatro, dizendo suas falas olhando para o autor, Richard Matheson. No filme Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980), o escritor também participou como um hóspede do hotel que fica chocado com a falta de jeito de Collier para se barbear.

A gravação de Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980) se tornou ainda mais especial para Reeve: no dia da famosa cena do piquenique do quarto de Elise McKenna, sua então parceira Gae Rexton - que Reeve pediu para se manter afastada durante todo o curso do filme - ele descobriu que seria pai de seu primeiro filho, Matthew.

Assim, depois de três meses de muito trabalho árduo e alguns adiamentos como a gripe de Seymour e o rasgo no único terno do personagem Reeve, o filme teve sua gravação encerrada em agosto de 1979 e com uma grande mudança em sua história original: se no livro de Matheson, Collier morre por causa de um tumor cerebral incurável e que coloca em perspectiva tudo o que lhe aconteceu, no filme o personagem falece de coração partido.

O autor Richard Matheson afirma em entrevista que isso ocorreu porque a Universal queria um final mais romântico:
A Universal não queria isso. Além disso, apresentar Reeve que acabou de interpretar Superman como alguém que estava morrendo era algo sem sentido. 
Depois de seu acidente que lhe deixou tetraplégico, Reeve afirmou no documentário do filme que teve a mesma experiência fora do corpo do seu personagem Richard Collier ao final de Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980) e que portanto ele colocou em perspectiva seu tempo neste mundo.

Para encerrar com chave de ouro, Jane Seymour conseguiu convencer o seu bom amigo, o compositor John Barry, a criar a trilha sonora para o filme - temos uma matéria sobre a trilha, aqui. Os pais do músico tinham acabado de falecer na época e ele considerou isso um grande fator para que as composições fossem mais sentimentais e assim, perfeitas para o Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980). 

Foi ele quem decidiu mudar, por exemplo, a nona sinfonia de Wahler, que é a favorita de Richard no livro, para a romântica Rhapsody on a Theme of Pagani de Sergei Rachmaninoff, por argumentar que ela tinha um "movimento mais cinematográfico".
O filme estreou nos cinemas em 3 de outubro de 1980 e apenas conseguiu reaver 15 milhões de dólares de bilheteria - claramente não foi o sucesso que a Universal esperava ter com seu investimento e Reeve ficou desapontado com as críticas duras sobre sua atuação. Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980) apenas começou a ganhar status de cult nas reprises e logo o Grand Hotel, o local de gravação do filme, exibia anualmente o longa juntamente com uma encenação do longa. O conhecido "Final de Semana Em Algum Lugar do Passado" teve início em outubro de 1990 e em todos os anos o evento fica esgotado - em 2019 Jane Seymour vai agraciar à todos com sua presença novamente.

Para se ter uma ideia do impacto que o filme causa até hoje, além dos inúmeros tributos e eventos na Ilha Mackinac, os fãs do filme criaram um site específico apenas com notícias e curiosidades chamado INSITE (The International Network of Somewhere In Time Enthusiasts), no qual também vendem itens inspirados do filme e fazem um jornal mensal sobre o mesmo. O antigo fundador do site, Bill Shepard, até escreveu um livro sobre os bastidores intitulado The Somewhere in Time Story.
 
Uma pedra marca o local de encontro de Elise e Richard; o gazebo e o presente de caixa de música para o presidente do hotel
Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, 1980) é um dos mais belos filmes que já foram produzidos. Apesar de muitas pessoas ainda não entenderem o final - achando-o muito melodramático - o número que crê em sua sensibilidade e beleza são muito maiores. E a química incrível entre Jane Seymour e Christopher Reeve eleva o filme e muito; tanto que a atriz deu o nome à um de seus filhos de Kristopher em homenagem ao grande amigo. 
Quando nos começamos a trabalhar juntos, nos conectamos de um modo incrível e mágico e o nosso amor um pelo outro durou até o dia de sua morte. - Jane Seymour entrevista para a revista The Lady. 
Cristopher Reeve faleceu em 10 de outubro de 2004, mas o seu legado como Richard Collier e Superman continua - e os fãs de Em Algum Lugar do Passado não poderiam ficar mais felizes. 

Jane e Christopher na festa de encerramento do filme 
Hoje é o dia 27 de junho de 1912. Você está deitado em sua cama no Grand Hotel e são 6 horas da tarde do dia 27 de junho de 1912. Sua mente acredita nisso absolutamente. Elise McKenna está neste hotel neste exato momento. -frase de Em Algum Lugar do Passado. 

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