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O caso de Jo e Laurie - As Mulherzinhas de Louisa May Alcott

*spoilers de As Mulherzinhas (Little Women), Esposas Exemplares (Good Wives) e os subsequentes livros

Se você, assim como eu, viu os filmes de As Mulherzinhas antes de ler o livro de Louisa May Alcott, deve ter se apaixonado pelo rebelde e livre Laurence, especialmente o da versão de 1994 interpretado por Christian Bale.  

O professor Baher, apesar de doce e prestativo, não parecia ser exatamente o par ideal de Jo e ao ler os dois livros As Mulherzinhas (Little Women) e Esposas Exemplares (Good Wives) essa sensação continuou, mas com um porém: enquanto Jo, Beth e Meg permaneceram com as mesmas características entre As Mulherzinhas para Esposas Exemplares (que tem três anos de intervalo), Laurie e Amy sofreram as maiores alterações de personalidade e caráter e isso foi algo que nunca entendi, até pesquisar sobre a vida da própria autora, a Louisa May Alcott, e seu estado de espírito ao escrever a obra.

Jo e Laurie em suas versões cinematográficas: em 1933, 1949 e 1994 (temos matéria sobre aqui)
Louisa recebeu o pedido de escrever um livro infantil de seu editor Thomas Niles, apesar de já ter escrito, anteriormente, inúmeras obras de suspense de relativo sucesso. O motivo? Segundo a biografa Madeleine Stern, Thomas queria tentar recriar o sucesso da saga infantil Oliver Optic e pediu que Louisa tentasse escrever uma história de garotas, já que a escritora teria se dado bem com outras publicações mais juvenis.

A escritora, então, se inspirou no que conhecia: sua vida ao lado de suas três irmãs. No livro As Mulherzinhas (Little Women) ficou dividido assim: Jo, inspirada em Louisa era a protagonista. Anna, a irmã mais velha de Louisa que sonhava em ser atriz e se tornou uma dona de casa, era a carinhosa Meg. A doce Beth no livro tinha o mesmo nome na vida real, Elizabeth, e morreu de febre escarlate aos 22 anos de idade, devastando toda a família. Por fim Amy, na verdade, Abigal May, uma grande artista que encontrou sucesso em sua profissão, diferente de sua personagem.

Louisa May Alcott para começar, não queria escrever um livro para garotas e relutou com essa tarefa até o fim. Em seu diário, ela escreveu: "Eu faço, embora não goste deste tipo de coisa. Nunca gostei de garotas ou conheci poucas delas - além de minhas irmãs, mas nossas peças alegres e experiências talvez se provem interessantes, embora eu duvide muito." Alcott não poderia estar mais errada! Com o lançamento de Mulherzinhas (Little Women) em 1868, as irmãs March cimentaram seu espaço na literatura mundial, assim como o incessável debate do possível caso de amor entre Jo e Laurie.

Jo e Laurie eram o casal perfeito? 
O livro As Mulherzinhas conta a história das irmãs March - Meg, Jo, Beth e Amy - que, apesar de não serem de uma família rica, contam com os bons conselhos de sua mãe, apelidada carinhosamente de Mammie, e com muita imaginação e amor familiar. O que elas não esperavam é que Theodore Laurence, Laurie, um jovem menino rico fosse se mudar para a mansão ao lado, pertencente ao seu avó. Introvertido e sem amigos, logo Jo teima em tê-lo como seu parceiro e assim se inicia uma linda amizade, que poderia se tornar algo a mais. Além disso, em cada capítulo do livro, um ensinamento de amor e compaixão é ensinado para os leitores.

Mas por que nós, leitores, fixamos tanto entre o que poderia ter sido entre Laurie e Jo? A resposta está no primeiro livro de Louisa sobre as irmãs March, o As Mulherzinhas. Durante todo o livro, Alcott dá pistas sobre um possível romance desabrochando entre Jo e Laurie e como a sintonia entre eles seria quase perfeita. Mas quando o leitor chega na continuação Esposas Exemplares (Good Wives), a personalidade de Laurie muda completamente.

O Laurie em As Mulherzinhas é um jovem que sonha em ser músico, é alegre, travesso e não se importa com as formalidades da sociedade. Impulsivo, ele não quer ser um homem de negócios e sim um músico famoso como sua mãe. Jo, aliás, também tem sonhos grandes: quer ser uma escritora de sucesso e almeja a independência. Um par, no papel, que seria ideal, certo?

O Laurie de As Mulherzinhas não é o mesmo em Esposas Exemplares 
Em As Mulherzinhas (Little Women), aliás, temos vários momentos entre Jo e Laurie que corroboram esse possível romance. Primeiro: quando os dois se conhecem, em uma festa na casa de Laurence, ele está em uma ante-sala, sozinho, tentando se esquivar dos convidados empertigados. Ele não repara nas roupas "surradas" de Jo e preza sua companhia mais do que qualquer outra. Isso acontece também quando encontra Meg toda arrumada em uma festa de sociedade, no qual Laurie afirma: "não gosto de exageros e plumas". O Laurie em Esposas Exemplares (Good Wives) é o total oposto: parece amar extravagâncias e presentes.

Segundo ponto, em As Mulherzinhas, a própria Louisa dá a entender que Jo pode ter uma estima a mais por Laurie, que ela tem medo de admitir. Ao descrever o "seu menino", como ela o chama durante a saga de livros, Jo afirma:
"Ele é maduro para a idade que tem, é alto, e quando quer pode ter maneiras muito adultas. Além disso é rico, generoso, bom, ama à todas nós." 
Tudo bem que nesta cena em particular, Jo o descreve pois almeja o casamento entre Laurie e Meg, sua irmã mais velha (apenas com medo que ela se casa com John Brooke e desfaça a família). Sua mãe pede para que não se meta, já que ela deveria deixar "o tempo e o coração unir seus amigos." Logo depois, aliás, Laurie faz uma surpresa para Jo, referente ao bem-estar de sua irmã doente Beth e tem a coragem de lhe dar uns dois beijos tímidos na boca.

Jo se afasta dele com delicadeza e pede para que ele não faça mais isso, porém Laurie demonstra que quer se tornar mais íntimo de sua amiga rogando que lhe abrace novamente. Mas os fatos de um possível romance não são só físicos! Laurie a encoraja, inclusive, a perseguir seu sonho de se tornar uma escritora  quando ela leva alguns de seus contos para a editora local no capítulo 11 de As Mulherzinhas, afirmando: "Seus contos são obras de Shakeaspeare se comparados ao lixo que publicam diariamente. Não será divertido vê-los publicados e nos orgulhar de nossa autora?"


A prova definitiva, no entanto, de que Louisa May Alcott provavelmente planejava tornar Jo e Laurie um casal está no capítulo 10, no qual a narradora dá a entender que cartas de amor estavam no futuro da família March-Laurence, que então tinham criado uma caixa postal exclusiva entre eles. Em As Mulherzinhas, lê-se: "Sem imaginar quantas cartas de amor aquela pequena caixa postal receberia em anos futuros".

A caixa postal não recebeu cartas de amor futuras, pelo menos não em sua sequência Esposas Exemplares (Good Wives) e isso apenas torna ainda mais forte a teoria de que Louisa desistiu de tornar Laurie e Jo um casal. Tudo pela insistência atormentadora das fãs.

Em seus diários, Louisa deixou bem clara as suas intenções: "Garotas me escrevem pedindo para saber com quem as irmãs vão se casar. Eu não vou casar Jo com Laurie para agradar ninguém." May Alcott foi além e em carta para sua amiga, Elizabeth Powell, declarou:
Jo deveria ter permanecido uma escritora solteirona [assim como ela] mas tantas jovens leitoras entusiásticas escreveram que Jo deveria se casar com Laurie ou com alguém que eu não me atrevi a recusar e perversamente fui e criei um par peculiar para ela." 
É assim que em Esposas Exemplares (Good Wives) entra o autoritário e paternal Professor Baher (que preenche o papel do pai de Jo, que quase nunca aparece nos livros) e que a personalidade de Laurie se transforma completamente, em uma rotação de 180º, para que Alcott pudesse dar um choque de realidade para suas leitoras e justificar a separação do já tão querido casal.

Jo e Professor Baher em As Mulherzinhas, filme de 1949
Jo, Beth e Meg continuam com as mesmas personalidades, desejos e problemas na sequência Esposas Exemplares. Laurie e Amy são os que mais se transformam e isso tem uma explicação: já que Alcott não deixaria Jo ficar com Laurie decidiu que o jovem deveria, ainda, continuar na família e assim se casar com a outra March disponível, a egoísta Amy que se torna, ao longo da sequência, realmente o protótipo de uma boa esposa ao longo da narrativa.

No primeiro capítulo de Esposas Exemplares, o leitor conhece, logo de cara, um Laurie diferente que "fazia loucuras, namorava, mostrava-se dado a elegâncias requintadas, deu e levou trotes, falou em gírias e esteve perigosamente próximo da expulsão ou da suspensão." Um jovem que nada tem a ver com aquele que conhecemos no primeiro livro. Pode-se argumentar que essas mudanças fazem parte da adolescência, de cometer erros, de se descobrir, mas a mudança de Laurie é escrachada demais para ser apenas uma coincidência.

Tanto que, quando Thedore Laurence finalmente tem coragem e pede sua Jo March em casamento, no triste capítulo  Coração Partido, ela nega seu pedido e dá esta resposta como justificativa:
"Sou feia, desajeitada, pobre e velha e você se envergonharia de mim e nós discutiríamos...eu não gostaria da sociedade elegante e você detestaria minhas escritas e eu não poderia viver sem ela e seríamos infelizes e desejaríamos que nunca tivéssemos nos casado." 
O mesmo Laurie que jurou não gostar da alta sociedade? Que desejava viajar ao mundo e se tornar um pianista famoso? E que sempre incentivou as escritas de Jo? Louisa May Alcott transformou completamente a personalidade de Laurie na sequência de As Mulherzinhas e fez isso de propósito: para que o Laurie por quem Jo poderia se abrir e se apaixonar não existisse mais. Para jogar um "balde de água fria" nos sonhos românticos de milhares de suas leitoras. O fato de Mammie também considerar que o par não combinava (na base do novo Laurie), também não ajudou o caso do jovem apaixonado.


A introdução de Professor Baher ocorre gradualmente, antes mesmo de Jo ser pedida em casamento por Laurie, e ele é apresentado como alguém mais velho, sábio, que aos poucos ganha a afeição de Jo. Mas um leitor mais sagaz consegue ler nas entrelinhas: quando a jovem escreve de Nova York para a família, a pessoa que ela mais menciona é o Baher, sempre em uma luz positiva, falando de sua bondade e de seu carinho. Louisa May Alcott já estava programando o personagem para ficar com Jo e para que os leitores, mesmos os aficionados por Laurie, não pudessem odiá-lo.

Amy, aliás, ganha mais destaque na continuação da história e acompanhamos como ela se desenvolve em uma mulher de respeito da sociedade em Paris, que entende todos os pormenores do que faz uma dama ser uma dama. Não soa familiar o fato de Amy ser a dama que Jo nunca seria? Quando Laurie tem seu coração partido ele vai viajar pela Europa e encontra a pequena March pelo caminho que lhe dá um "sacode" e o endireita. A intenção de Louisa May Alcott é muito óbvia: transformar Laurie e Amy em um casal e deixar Jo ao lado do sempre correto e bondoso Professor Baher.

Para isso ela transforma, essencialmente, Laurie e Amy em outras pessoas, que agora seriam compatíveis um com o outro. Nesse meio tempo, Jo enfrenta a morte de Beth, sua irmã mais próxima, e isso lhe abre o coração para o amor. Para o amor do constante Baher, que lhe dá o que mais necessita em um momento de luto: segurança.

Não me levem a mal, o professor Baher nem de longe é um mau personagem. Ele é bondoso, cuidadoso, atencioso e ama crianças, mas fica claro que ele foi inserido apenas para que Laurie não tivesse chance alguma. Para atender as necessidades de Jo e não desafiá-la. Para mostrar, aliás, que nem sempre a vida acontece de acordo com o que esperamos, com o que desejamos.

Peter Lawford e Elizabeth Taylor como Laurie e Amy em Mulherzinhas, 1949
A verdade nua e crua é  que Louisa May Alcott em Esposas Exemplares simplesmente narrou as verdades da vida: nem sempre ficamos com aquele que sonhamos. Nem sempre conseguimos realizar nossos sonhos (Laurie se torna um homem de negócios e Amy desiste de sua pintura) ou temos uma vida idealizada e repleta de aventuras. O destino é cruel e, muitas vezes, nos leva a tomar decisões de acordo com nossa segurança e não por nossas paixões.

Quer um exemplo? Laurie foi baseado em um dos romances da vida real de Louisa May, o pianista Ladislas Wisniewski, apelidado por ela de Laddie (Laurie?) além de inspiração em outros amigos como Alf Whitman, Ralph Emerson e Henry Thoreau. Louisa e Ladislas não poderiam ser um casal e assim, Jo e Laurie também não.

Afinal, a vida nos muda e muda aquelas à nossa volta. Mas a moral é esta: se permanecermos unidos, como família e amigos, nada é tão ruim que não se possa enfrentar juntos. Jo e Laurie, aliás, permaneceram amigos durante os quatro livros de May, com uma cumplicidade bem maior do que dividiam com suas caras-metades.

O caso de Jo e Laurie é simples: a Jo e Laurie de As Mulherzinhas com toda a vida pela frente eram o par perfeito um do outro. O de Esposas Exemplares, com o passar dos anos e a intervenção óbvia da autora, não poderiam ser mais diferentes. Louisa elevou o sonho dos leitores apenas para despedaçá-los no caminho, como a vida mesma faz. Mas isso teve, ao menos, um efeito positivo.

Passaram-se mais de 200 anos da publicação do livro e continuamos a falar de Jo e Laurie. Continuamos a falar de As Mulherzinhas (Little Women). Continuamos a desejar que tudo pudesse ser diferente. E não é este o objetivo, afinal?



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Sobre Gabriella Baliego
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