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Sweethearts: o romance de Jeanette MacDonald e Nelson Eddy por Sharon Rich

Em uma época na qual a ópera era um gênero superpopular de música, Jeanette MacDonald e Nelson Eddy eram reis de bilheteria. 

A parceria deles começou em Oh, Marietta! (Naughty Marietta, 1935) e se estendeu em mais sete filmes, em sua maioria de grande sucesso. Se hoje o gênero musical que os consagrou é considerado ultrapassado, nos anos 30 não havia dupla mais querida no cinema do que eles. 

Ambos se casaram com outras pessoas: Jeanette com Gene Raymond, um sósia de Nelson, em 1937 até sua morte em 1965, e o barítono com Ann Deitz em 1939 até seu falecimento em 1967. Os rumores sobre MacDonald e Eddy variavam: ou se amavam nos bastidores ou se odiavam. 

Sharon Rich, fundadora de um dos maiores fã-clubes da dupla, afirma saber a verdade: os dois se apaixonaram em 1934 e tiveram um caso que durou por décadas. O grande empecilho para que eles vivessem esse amor era Louis B. Mayer, dono do estúdio MGM que controlava suas carreiras, além de desencontros, suas vaidades e o destino. 

Com base nesse romance ela escreveu o controverso livro Sweethearts: The Timeless Love Affair -- On-Screen and Off -- Between Jeanette MacDonald and Nelson Eddy lançado em 1994. 

Controverso porque nele, a autora afirma com todas as letras que Jeanette e Nelson eram amantes predestinados - e que se amavam com tanta paixão quanto brigavam - mesmo sem exibir provas factuais do caso. 

Calma que explico! Existem duas grandes falhas em Sweethearts: The Timeless Love Affair -- On-Screen and Off -- Between Jeanette MacDonald and Nelson Eddy: a primeira é a narrativa, que ao invés de ser direta se baseia nos moldes da narrativa de romance, transformando Jeanette e Nelson em personagens de um romance trágico. A segunda é que apesar de nos informar datas, detalhes, fotos, pinturas e cartas dos apaixonados, não há sequer um registro fotográfico deles no livro. 

Ao procurar resenhas críticas da obra, feita por leitores comuns, encontra-se adjetivos como "fanfiction" (ou seja, história criada por um fã), "invenção" e até outras palavras de baixo calão. Isso se dá pela escolha de discurso indireto de Rich, no qual ela ficcionaliza alguns eventos e falas para moldar tudo à sua narrativa de livro romântico.

Em suas 447 páginas, Sweethearts já começa em uma nota desafiadora: quem escreveu o epílogo do livro é Jon Eddy, o suposto filho de Nelson com a cantora de ópera Maybelle Marston .Jon é mencionado no livro e até relembra detalhes sobre o romance de seu provável pai com Jeanette, mas a autora não nos dá prova concreta da paternidade. Além da palavra dele, não há nenhuma foto de Jon com o pai ou qualquer outra circunstância.  

Na verdade, esse é um erro de construção da autora e da editora, já que ao pesquisar citações do livro e informações de jornais, consegui encontrá-las, depois de uma árdua busca, na internet e em fontes anteriores à publicação do livro, em 1994. 

Talvez o desejo de Sharon em deter informações preciosas sobre o casal impediu que ela publicasse as cartas e fotos de Jeanette e Nelson. O problema é que assim, ficamos apenas com a palavra da autora sem prova física dessas informações. É aí que o livro se torna controverso, afinal: sem exibir as provas, temos que acreditar piamente no que lemos em Sweethearts

Em  Sweethearts: The Timeless Love Affair -- On-Screen and Off -- Between Jeanette MacDonald and Nelson Eddy o leitor ganha uma miniautobiografia de Jeanette e Nelson para se situar, no qual consegue encontrar as similaridades entre os dois enamorados - que desde jovens sabiam que queriam estar no entretenimento. A autora também se concentra em refutar rumores de que Nelson era homossexual -rumores que aumentaram após ele se casar com Ann Deitz, bem mais velha do que ele - e que Jeanette seria frívola sexualmente. 

Depois desse contexto, ela narra o primeiro encontro dos dois em 1933 em um jantar na casa de Frank LLoyd e sua esposa, no qual Nelson relembra para a mãe, Isabel: 

Ela era uma visão ou um anjo. Não tenho certeza de qual. Ela usava um lindo vestido de cor lavanda e veio até mim com tanta graça e dignidade. Eu lembro que a primeira vez que a conheci fiquei sem palavras e sem saber o que fazer. - Sweethearts, página 8.

Os dois começaram um romance que terminou rapidamente quando Nelson insistiu em pedi-la em casamento e pedia que ela desistisse de sua carreira - já bem mais estabelecida do que a dele. Ambiciosa, Jeanette se recusou, mas ali já era tarde demais: ela já havia o recomendado para atuar em Oh, Marietta (Naughty Marieta, 1934) - o primeiro de muitos filmes do casal. 

Entre brigas e términos nos quais Jeanette engravidava de Nelson e alguns meses depois perdia o bebê - durante as gravações de Rose Marie (1936) e depois em Sweethearts (1938), ela ficou grávida - os dois discutiam incessantemente sobre suas carreiras e sobre o domínio de Louis B. Mayer, chefe do estúdio MGM, e que não queria os dois juntos. 

O leitor comum, que não tem muita familiaridade com o sistema de estrelas da Hollywood Clássica, fica incrédulo com as afirmações de Sharon Rich, de que Louis conseguiria separar Jeanette e Nelson por anos, com aparente facilidade para destruir suas vidas. Mas isso era feito e era muito comum. 

Lana Turner, por exemplo, também contratada pela MGM, foi impedida de continuar seu romance com Tyrone Power pelo próprio estúdio. Judy Garland era controlada constantemente por Mayer, desde seu peso até sua vida pessoal, e foi forçada a fazer um aborto de seu primeiro marido, David Rose, para não destruir sua imagem virginal.

Jeanette Macdonald, aliás, era a favorita de Louis B. Mayer - a outra era Irenne Dunne - e isso é um fato. Até a biografia oficial da ruiva, Hollywood Diva: A Biography of Jeanette MacDonald de Edward Baron Turk, sancionada por sua família, admite que a atriz passava horas no escritório do diretor e assim conseguia favores especiais - e vice-versa.

Portanto, Louis B. Mayer odiava Nelson, mas não podia mandá-lo embora da MGM porque sua parceria nas telas com MacDonald significava mais dinheiro para ele. Assim, o diretor fazia o possível para mantê-los separados, com medo de que a insistência do barítono e uma gravidez de Jeanette pudesse acabar com seu reinado.

Sweethearts: The Timeless Love Affair -- On-Screen and Off -- Between Jeanette MacDonald and Nelson Eddy relata esse período de tempo de forma fidedigna, assim como outros momentos do casal. Apesar de leitores definirem o livro como uma fanfiction, a autora não se esquiva de fatos controversos, como Nelson ter estuprado Jeanette e as brigas violentas dos dois, inclusive o temperamento explosivo e muitas vezes assustador de Eddy.


Sharon Rich fez uma pesquisa extensa, de anos, para construir seu livro. Ela teve acesso exclusivo à irmã de Jeanette, Blossom Rock - a Mama da série Os Monstros - à mãe de Nelson Eddy, amigos do casal e outros colegas de profissão além de cartas românticas dos dois enamorados, que entre idas e vindas viveram um romance que durou mais de 30 anos. Duvido - e muito - de que ela arriscaria sua reputação para escrever uma falácia. 

O erro principal do livro é que não há cópias das cartas, não há cópias das fotos e nos deparamos apenas com descrições e transcrições das provas, sem vê-las. Se essa foi uma estratégia de Sharon para reter essas preciosas informações - que ela também divide no site maceddy.com -, ela sai pela culatra porque o leitor comum, em sua maioria, não se dará ao trabalho de pesquisar as informações e referências para saber se é verdade. Então ele suspeita: se não há provas, não há crença. 

No caso, a edição de Sweethearts também não ajuda a narrativa do romance: isso porque no livro em questão, as fotos estão espalhadas pelas páginas tornando a leitura cansativa e sem qualquer alívio visual. Uma solução, por exemplo, seria se basear nos moldes de livros autobiográficos nos quais há uma seção apenas de fotos e cartas.

A questão de um milhão de dólares, que valida ou não o livro, é o seguinte: ao lê-lo, você acredita que o romance entre Jeanette e Nelson aconteceu de fato? Uma pergunta, de fato, capciosa pois ela depende: se você é um leitor fã da antiga Hollywood, especialmente de Jeanette e Nelson, e já sabe de fatos como Gene Reymond - marido da atriz - ser homossexual, a saúde frágil de Jeanette e o temperamento de Nelson, todo o livro faz sentido. Se for apenas um leitor meramente curioso, você fica com muitas dúvidas e não sabe o que acreditar. 

Sweethearts: The Timeless Love Affair -- On-Screen and Off -- Between Jeanette MacDonald and Nelson Eddy ganhou uma edição especial de 20 anos de lançamento com mais fotos, entrevistas e detalhes sobre o relacionamento dos astros, inclusive sobre o filho natimorto deles, que se chamaria Daniel.  Disponível online, por apenas R$21 no Kindle, é uma edição melhor diagramada, com mais fotos e detalhes e portanto a mais recomendada. 

Apesar disso, Sweethearts sofre com a falta de evidência fotográfica e ao utilizar uma narrativa indireta livre para tentar aproximar o leitor dos personagens, "esquece" de que é uma biografia e que neste caso se apoiar em fatos e indícios seria a melhor forma de fortalecer sua teoria. E não escrevendo uma história romântica. 

Sweethearts: The Timeless Love Affair -- On-Screen and Off -- Between Jeanette MacDonald and Nelson Eddy e, consequentemente, o relacionamento de Nelson e Jeanette, virará uma cinebiografia com o envolvimento de Sharon Rich e dirigido por Michael Radford. O filme, de acordo com o site Deadline, está em desenvolvimento e começará a ser gravado no final do ano, na Espanha. 

Se em uma próxima edição Sweethearts: The Timeless Love Affair -- On-Screen and Off -- Between Jeanette MacDonald and Nelson Eddy conseguir consertar esses erros, é certeza de que conseguirá unificar os incrédulos deste romance. 

Nos jornais da época existiam duas versões: que os dois se amavam ou que os dois se odiavam e não havia meio-termo. Até Jeanette em entrevista em 1938 fez questão de afastar rumores de brigas com Nelson:

Eu realmente acho que o Nelson gosta de trabalhar comigo. Eu sei que gosto de trabalhar com ele e estou muito feliz que continuamos como uma equipe pelo menos por um filme ao ano. - The Maitland Daily Mercury, 27 de julho de 1938

Por enquanto, o livro, por si só, continua a dividir: os que acreditam e os que não acreditam. O único jeito é ler Sweethearts e tirar suas próprias conclusões. 


INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO SWEETHEARTS

Livro: Sweethearts: The Timeless Love Affair -- On-Screen and Off -- Between Jeanette MacDonald and Nelson Eddy
Autor(a): Sharon Rich
Páginas: 447 
Editora: Diff

Onde comprar? 
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Ontem, Hoje e Amanhã - a autobiografia tão esperada de Sophia Loren

Sophia Loren não é estranha ao mundo das autobiografias. Em 1979, quando sua carreira já tinha grande estabilidade, ela autorizou o lançamento de Sophia: Living & Loving. Her Own Story de A.E Hotchner. Um ano depois, a própria atriz interpretou a si mesma e sua mãe Romilda em uma adaptação cinematográfica do livro intitulado Sophia Loren: Her Own Story (1980), dirigido por Joanna Crawford. 

Antes disso, Sophia já havia lançado inúmeros livros culinários - a italiana ama cozinhar - como In The Kitchen With Love em 1971, Sophia Loren's Recipes & Memories em 1998 e até um livro intitulado Women & Beauty no qual ela dá dicas de estilo, maquiagem e muito mais para outras mulheres. 

Mas foi apenas em 2014, aos 80 anos de idade, que Sophia decidiu que era hora de contar a história de sua vida, com suas próprias palavras. Assim nasceu o livro Ontem, Hoje e Amanhã: A Minha Vida, publicado pela editora BUR em italiano. No Brasil, a autobiografia de mais de 330 páginas, e inúmeras fotos maravilhosas, foi publicada com uma ótima tradução pela editora Best Seller. 

Sophia Loren brilha em sua carreira e nos seus livros 
É o meu baú de segredos e, de repente, sinto um aperto no coração. Tenho a tentação de deixá-lo onde está. Muito tempo se passou, muitas emoções. Mas resolvo pegá-lo, tomo coragem e volto lentamente para o meu quarto. Talvez este seja meu presente de natal. Só me resta abri-lo. - Ontem, Hoje e Amanhã: A Minha Vida, pág 12.
É assim que Sophia Loren decide narrar sua autobiografia. O leitor começa a acompanhá-la no prólogo, com a atriz descrevendo uma tarde ao lado de seus netos e empregada, preparando-se para o Natal em família. Antes de dormir, naquele mesmo dia, a atriz "desenterra" um baú de memórias e o leitor está em seu encalço, enquanto ela se recorda através de bilhetes, fotos e manchetes de jornais sobre sua vida até aquele momento.

Com uma narrativa não linear, Sophia conta desde sua infância sofrida na II Guerra Mundial, a ausência de seu pai e sua decisão de se tornar atriz, com um empurrão de sua mãe Romilda. Seu sucesso, fracasso e o amor pela atuação, além de seus filhos e sua vida glamourosa, mas sempre muito bem regrada. 

A nostalgia é um recurso muito bem utilizado pela italiana, que nos leva com ela em uma viagem rica, munida de uma linguagem direta e informal. Apesar de Loren nos dar clareza sobre sua carreira e sua vida, não se engane, ela nunca mostra demais - talvez isso seja consequência de sua personalidade mais fechada, no qual ela deixa suas emoções muito bem guardadas. Mais direta que Sophia Loren, impossível!

Tanto que até na parte no qual a diva italiana narra sobre sua prisão - Sophia ficou presa por 17 dias na Itália em 1982 por problemas com o fisco que depois foi inocentada - a esposa devotada de Carlo Ponti demonstra sua inquietação, porém sem entrar nos detalhes mais dolorosos de sua estadia. São apenas reminiscências contadas de uma forma mais leve, mas nunca diminuindo sua gravidade. Sophia em Ontem, Hoje e Amanhã: A Minha Vida não se mostra completamente vulnerável - essa é sua personalidade. 


Loren saindo de sua estadia na prisão em 1982 - anos depois conseguiu provar sua inocência
No entanto, o episódio mais chocante que Sophia expõe em Ontem, Hoje e Amanhã: A Minha Vida é a vez que ela estava em um avião com Carlo Ponti e ao fazer uma menção engraçadinha sobre Cary Grant - o astro ficou completamente apaixonado por Loren ao atuarem juntos em Orgulho e Paixão (The Pride and The Passion, 1957) - o seu marido lhe deu um tapa na cara na frente de todo mundo. 

Em sua autobiografia ela narra como ficou constrangida, mas também de certa forma encantada:
Não sabia onde me enfiar, mas no fundo estava contente. Tinha finalmente a confirmação que procurava há tempos: Carlo me amava, eu tinha feito minha escolha e, mais do que isso, tinha escolhido bem. - Sophia Loren, Ontem Hoje e Amanhã: A Minha Vida, pág 137.
Não fui só eu que fiquei abismada com esse episódio na vida de Loren e, mais, incomodada com a forma que Sophia diminuiu sua importância. Violência de qualquer tipo é sempre algo sério e nunca deve ser visto com leveza. Uma jornalista do The Telegraph entrevistou a atriz sobre a autobiografia e também não cedeu às suas justificativas, rebatendo que "ciúmes não é o equivalente do amor". Neste momento, a jornalista descreve que: "Sophia fica em silêncio, o que não é comum, já que ela é uma pessoa extremamente falante." 

Sophia ao lado de Cary e de seu amado Carlo: ficaram casados até a morte dele em 2007
Em respeito aos seus filhos, Carlo Jr. e Edoardo, além de seus quatro netos e a memória de Carlo Ponti que faleceu em 2007, aos 94 anos, Sophia detalha seu romance com Cary Grant, com quem ela atuou em Orgulho e Paixão (The Pride and The Passion, 1957) e Tentação Morena (Houseboat, 1958), porém como algo mais inocente e é objetiva ao afirmar que não tinha dúvidas que no final escolheria o produtor italiano. Carlo era do seu mundo, Cary não.
Por ironia da sorte, logo depois Cary e eu nos casamos diante das câmeras em Tentação Morena: ele, com uma gardênia na lapela e eu com um lindo vestido de renda branca. Sophia Loren: Ontem, Hoje e Amanhã pág 135.
Curiosamente, essa foi a única vez que Sophia se casou de forma tradicional, seja no cinema ou na realidade. A atriz teve apenas um casamento rápido com o produtor no México em 1958 e um considerado válido em 1966. Contudo, ela permaneceu muito amiga de Cary Grant e conta várias notas de amizade e carinho que ela dividiu com o astro e como Carlo, depois de um tempo, também começou a aceitá-lo. 

Apesar de falar sobre sua vida pessoal, contando até sobre sua dificuldade em se tornar mãe e sobre alguns abortos espontâneos, Sophia foca muito mais em sua carreira, nos levando com ela em seus concursos de beleza, sua vida como extra no Cinecittà, seu trabalho em fotonovelas, ser descoberta por Carlo Ponti e sua grande chance, aos 19 anos, ao ser dirigida por Vittorio de Sica em O Ouro de Nápoles (L'oro di Napoli, 1954). Também conta curiosidades de astros com quem ela trabalhou como Frank Sinatra, John Wayne, Vittorio Gassman, Silvana Magano, além dos bastidores de seus filmes. 

O tão amado baú de recordações de Sophia Loren 
Sophia também sabe conseguir manchetes e por isso até menciona sua rixa com outra grande atriz italiana, Gina Lollobrigida, afirmando que tudo não passava de uma armação dos jornais alimentando a competição entre mulheres. Fez questão de afirmar que não tinha nada contra Gina. Isso não impediu que Gina, em seu festão de 90 anos em 2017 dissesse isso sobre Loren: 
Eu não estava procurando rivalidade com ninguém. Eu era a número 1. - Gina Lollobrigida para o jornal Corriere della Sera.
A viúva de Carlo Ponti, no entanto, parece esquecer em sua autobiografia que ela, inclusive, alimentou essa rivalidade, chegando a afirmar que a personalidade de Gina era limitada e que sim, suas medidas de busto eram maiores do que as de Lollo. Até cutucou Lollobrigida ao afirmar que "nunca critica os mais velhos." Ouch! 

Rivalidades à parte, é inegável a criatividade de Sophia Loren em sua autobiografia Ontem, Hoje e Amanhã: A Minha Vida. Ela utiliza um recurso tão simples como um baú de recordações para mostrar o bom, o ruim e as dificuldades de sua existência. Até os interlúdios, no qual a atriz retorna ao presente para preparar o Natal em família, são usados em seu favor: traz uma familiaridade ao leitor, como se ele fizesse parte do círculo íntimo de Sophia Loren e estivesse bem ali com ela, segurando sua mão durante o passeio. 

Sophia Loren com seus queridos filhos
Uma autobiografia honesta, Ontem, Hoje e Amanhã: A Minha Vida tem o título do filme de Sophia com Marcello Mastronianni de 1963 não por coincidência: foi uma grande obra prima em sua carreira que a reuniu com as pessoas que mais gostava no seu país favorito, a Itália. Traz, aliás, uma mensagem de esperança, na qual a vida continua muito além da ficção - e pode ser tão divertida quanto seu striptease sensual no filme. 

Com 334 páginas, a autobiografia de Sophia Loren Ontem, Hoje e Amanhã: A Minha Vida pela editora Best Seller é indispensável na prateleira de seus fãs. Mesmo se você não for super interessado na atriz, ao ler o livro, garanto que vai descobrir uma mulher que não foge de seus princípios: uma guerreira e acima de tudo, uma pessoa com os pés no chão e com o coração bem fincando em suas raízes italianas. 

Apesar de não contar tudo queremos saber, Sophia dosa muito bem as tragédias de sua vida com as felicidades e constrangimentos - tratando até sobre sua icônica foto ao lado de Jayne Mansfield - mostrando que aos 80 anos de idade, na época do lançamento, ela não tinha nenhuma pretensão de diminuir o ritmo. 

Tanto que em pleno 2020, seu mais novo filme La Vita Davanti a Sé, dirigido pelo seu filho Edoardo, estreará na Netflix. Tem um amanhã mais belo do que esse? 

INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO ONTEM, HOJE E AMANHÃ: A MINHA VIDA


Livro: Ontem, Hoje e Amanhã: A Minha Vida
Autor(a): Sophia Loren
Páginas: 334
Editora: Best Seller 

Onde comprar? 
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O relacionamento de Elvis e Priscilla Presley e o livro Elvis e Eu

Priscilla Beaulieu Presley decidiu lançar o livro autobiográfico Elvis e Eu (Elvis and Me) em 1985, oito anos após a morte da lenda conhecida como Elvis Presley, para relatar seu relacionamento de mais de 12 anos com o cantor de rock.

O livro, que foi escrito por Priscilla com a ajuda da escritora Sandra Harmon, logo se tornou um dos grandes bestsellers daquele ano e cimentou, de vez, a fascinação dos fãs sobre a vida pessoal de Elvis, especialmente seu namoro tóxico com a jovem Priscilla, que começou quando ela tinha apenas 14 anos de idade e Elvis, 24 anos. Para os fãs, a história do casal já é conhecida: quando o cantor estava na Alemanha após ser convocado para prestar serviço militar (que consistia em basicamente entreter as tropas), um amigo de Presley convidou Priscilla para uma das festas do músico. Elvis ficou encantado com ela e fez questão de conhecê-la cada vez mais, transformando-na, pouco a pouco, em sua "mulher ideal". 

O livro Elvis e Eu (Elvis and Me) tenta mostrar um pouco da dinâmica entre o músico e Priscilla, incluindo os altos e baixos do relacionamento, mas nunca se aprofunda de verdade nos assuntos que os fãs querem saber. No fim, é uma versão higienizada da história do casal, quase como se Priscilla tivesse medo de contar toda a verdade.

Elvis e Priscilla em seu dia de casamento, em 1 de maio de 1967
A história do livro Elvis e Eu (Elvis and Me) começa com Priscilla relembrando o dia da morte de Elvis, em 16 de agosto de 1977, e como ela se sentiu impotente e sem direção ao saber dessa notícia, pois havia sido o cantor que a havia transformado na pessoa que se tornou:
Ele havia me ensinado tudo: como me vestir, como andar, como aplicar maquiagem e usar o meu cabelo, como me comportar e como retribuir o amor - da sua maneira. Ao longo dos anos ele se tornou meu pai, marido e quase Deus. Agora, ele se foi e eu me senti mais sozinha e com medo do que nunca. - Elvis e Eu, pág 15. 
A partir daí, no esquema de narrativa na 1ª pessoa, Priscilla tenta se tornar mais próxima do leitor ao contar mais sobre sua vida antes de conhecer Elvis, porém falha em seu objetivo. Isso porque ela apenas "risca" a superfície de todos os assuntos que a obra trata. Neste ponto sabemos que a jovem, aos 12 anos de idade, descobre que quem ela achava que era seu pai, na verdade é seu padastro. Sabemos que ela era considerada uma jovem linda e, que além de tudo, era inteligente e requintada. Mas essa é apenas a imagem que ela passa e nunca, durante todo o livro, conseguimos entender a fundo, quem Priscilla é.

Outro ponto narrativa que gera alta especulação foi o começo de seu namoro com Elvis. Em 1959 na Alemanha; que foi onde eles se conheceram, Priscilla tinha 14 anos e Elvis, 24. Durante toda a extensão da obra, Priscilla deixa claro que seus pais eram totalmente contras ao seu relacionamento com Elvis e que ela teve que implorar para ficar ao seu lado. Mas se seus pais, Anna e Paul (pai adotivo, o biológico era James) não aprovavam o namoro, por que deixaram uma jovem de 16 anos de idade morar sozinha com Elvis nos Estados Unidos?

Priscilla e seus pais
Elvis retornou aos Estados Unidos depois de sua passagem na Alemanha em 3 de março de 1960 e a própria Priscilla deixa claro em seu livro que as ligações e as cartas eram escassas entre eles. Se os seus pais não queriam que a jovem, então com 14 anos, namorasse o cantor eles tinham todos os meios e possibilidades para tal. Assim, apesar de grandes falácias na biografia escrita sobre Priscilla Presley, intitulada Child Bride: The Untold Story of Priscilla Beaulieu Presley por Suzanne Finstad, uma teoria se sobressai como verdadeira: o fato de os pais de Beaulieu, especialmente sua mãe, terem-na impulsionado a namorar Elvis, já que eles sempre esperavam que a jovem atingisse a grandeza, em boa parte por ser tão bela, independente dos meios para tal.

O fato é que, mesmo um fã do Elvis, não pode negar que o relacionamento entre Priscilla e o cantor era abusivo: o consagrado Rei do Rock a transformou em uma boneca real, sua mulher fantasia, e a jovem aceitou alegremente este papel, muito provavelmente pela seguinte combinação: pressão dos pais, o sonho de namorar um grande astro, aspirações de grandeza e a ingenuidade de uma jovem garota que se achava a mais bela de todas.

Muitos fãs se perguntam por que Elvis sempre voltava para Priscilla, apesar de Ann-Margret sua co-estrela em Amor a Toda Velocidade (Viva Las Vegas , 1964) ser um par tão mais acertado para ele. A resposta está no próprio relacionamento dos dois e no livro Elvis e Eu (Elvis and Me): Priscilla já estava moldada, desde os 14 anos, a fazer tudo que Elvis desejava e ele não conseguiria encontrar isso em nenhuma outra mulher. O fato de o namoro dele e Priscilla ter sido tão divulgado, até mesmo na Alemanha, também serviu como um impulso a mais: com a jovem, Presley teria segurança.
A parte mais fundamental de nosso relacionamento era que Elvis era o meu mentor, alguém que estudava cada um dos meus gestos, escutava criticamente cada uma de minhas palavras e era generoso com algumas de minhas falhas. Quando eu fazia algo que não era de seu agrado, eu era corrigida. Era extremamente difícil relaxar sob tanto escrutínio. Quase nada o escapava. - Elvis e Eu, pág 136. 
Elvis tinha em casa uma mulher perfeita e de seu agrado: com os longos cabelos pretos, maquiagem forte, sempre vestida com as roupas que ele aprovava e que não colocaria sua carreira acima dele, afinal Priscilla não tinha uma. Era apenas uma jovem que desde os 16 anos de idade morava ao seu lado em Graceland, casa do cantor em Memphis, e exibia sua incrível beleza.

E não é só Priscilla que conta esse lado de Elvis. Billy Smith, funcionário do cantor e parte do grupo Memphis Máfia (que englobava todos aqueles amigos, colegas e funcionários que trabalhavam com Elvis) contou em entrevista para o livro Elvis and The Memphis Mafia de Alanna Nash: "Quando Elvis disse que queria as moças jovens para que ele pudesse moldá-las e educá-las, ele não contava que Priscilla seria tão boa em flertar quanto ele."

Priscilla e Elvis quando o cantor partia da Alemanha em 1960
Apesar das circunstâncias bizarras do relacionamento deles, Priscilla nunca tem uma palavra ruim sobre Elvis no livro: ela escreve sobre suas mudanças de comportamento, seu vício em pílulas e seu temperamento forte, mas sempre segue com algum elogio ou enaltece sua natureza generosa, que presenteava pessoas até com carros. Tanto que ao contar que ficou dois dias "apagada" com uma das pílulas que o cantor lhe deu em sua primeira viagem para Memphis, ela minimiza com a seguinte exclamação:
-Dois dias? São dois dias que não pude aproveitar minha viagem! - Elvis e Eu, pág 99
Até quando Priscilla escreve, com a ajuda de Sandra Harmon, sobre sua vida sexual com Elvis, ela deixa claro que não ocorria nada mais sério, perdendo a virgindade só depois de seu casamento em 1967, quando tinha 21 anos de idade e que os dois apenas gravam as fantasias sexuais do astro. Exemplificando, enfim, o ideal sulista de Presley: a mulher tinha que ficar em casa, cuidar do seu marido e ser o mais virginal e pura possível. Isso só prova que Priscilla, com Elvis e Eu, não pretendia revelar tudo sobre sua vida com Elvis em seu livro e deixa isso claro a cada página, inclusive ao escrever sobre sua lua de mel.

Sobre a ocasião, ela se limita a escrever: "A intensidade da emoção que eu estava sentindo era eletrizante. O desejo e a luxúria que foram se empilhando durante os anos explodiram em um frenesi de paixão." Assim, o leitor não se sente próximo de Priscilla e Elvis e a leitura se torna distante: ela nem dá detalhes sobre as traições de Elvis e nem as dela. Não dá detalhes sobre o vício do marido e nem sobre sua convivência com a avó do Rei ou seu relacionamento com a filha do casal, Lisa Marie, ela apenas narra os fatos.

Para os fãs ferrenhos de Elvis, o livro não consegue desfazer a impressão que muitos tem sobre Priscilla: de que ela é uma mulher mimada, manipuladora e fútil, isso porque o leitor nunca conhece ninguém na "história" a fundo, são apenas fatos contados de maneira superficial. Mas cuidado: Priscilla pode muito bem ser todas essas coisas, contudo isso não exclui o fato de que ela foi moldada e manipulada por Elvis também, com o objetivo de se tornar sua mulher perfeita. Ninguém é a vítima perfeita. O Rei aprendeu, da pior maneira, que não existe perfeição e foi uma lição merecida - Elvis teria se beneficiado e crescido muito se tivesse vivido uma relação de igual para igual, assim como a própria Priscilla.

Priscilla, Lisa Marie e Elvis em 1970
Tanto que, quando Priscilla soube que estava grávida, seu primeiro pensamento segundo o livro Elvis e Eu foi que ela ficaria menos atraente para o seu marido:
Eu queria ser linda para ele. Ao invés disso, minha estreia como a noiva de Elvis seria arruinada por uma grande barriga, rosto e pés inchados. - Elvis e Eu, pág 249. 
A partir daí, Priscilla descreve como diminuiu o número de refeições e fez questão de perder peso no primeiro mês de gravidez para não ficar "gorda". Exibindo, enfim, a visão individualista e superficial da própria musa de Elvis, que foi ensinada de que as mulheres devem ser lindas e apenas isso importa. No livro, ela também admite que não deu a atenção necessária à sua filha, Lisa Marie, e que teve que correr atrás do prejuízo e dedicar mais do seu tempo para ela, deixando assim Elvis de lado.

Por fim, Priscilla narra seu divórcio de Elvis, sua descoberta de que havia um mundo além de seu marido e como ela ainda o amava, apesar de tudo. Infelizmente, a ex-esposa de Elvis e sua co-autora Sandra Harmon apenas provocam e nunca chegam aos finalmentes do relacionamento de Priscilla e Elvis.

Elvis e Eu (Elvis and Me, 1985) se tornou um sucesso de vendas graças ao fascínio com a vida do astro do rock. Isso porque em suas páginas, os fãs de Elvis não conseguem compreender, a fundo, a intimidade do músico e de sua esposa. Apenas aproveitam algumas das histórias dele ao lado de Priscilla.

Susan Walters e Dale Midkiff interpretaram Priscilla e Elvis no filme Elvis e Eu, de 1988
A verdade é que o livro é desconcertante: vemos um Elvis diferente do idealizado, um que moldou uma menina de 14 anos de idade para se tornar a esposa perfeita e que era manipulativo e inseguro. Priscilla, em minha visão, viu uma chance de ficar com Elvis e foi sem pensar, impulsionada por sua própria prepotência juvenil e a ambição de seus pais.

O livro Elvis e Eu não torna Priscilla necessariamente uma menina boa e sem defeitos e nem torna Elvis em um monstro: ela sabe dosar as qualidades e os defeitos de cada um e mostrar como, aos poucos, conseguiu assegurar cada vez mais sua própria voz em um mundo só de Presley. Mas o fato é que o livro só insinua as atribulações e as felicidades do casal, nunca permitindo que o leitor conheça a vida de Priscilla e Elvis a fundo. O leitor não consegue forjar uma conexão com Priscilla porque ela não dá abertura suficiente para isso, fazendo com que a obra parece mais uma homenagem ao ex-marido do que uma biografia.

Uma ação inteligente de Priscilla, que na época já era muito criticada por tentar capitalizar em cima de Elvis, através de publicidades, papeis no cinema e televisão e por chefiar Graceland, que após a morte de Presley se tornou um grande santuário para seus fãs, com grande fluxo de dinheiro. Ela tenta ganhar simpatia, mas sem falar mal do ex-marido no processo, o que se tornou um grande trunfo para ela e sua reputação.

O livro ganhou uma versão para a TV em 1988, intitulado Elvis e Eu (Elvis and Me) que não foi um grande sucesso, mas se mantém em voga graças ao fascínio ao redor da relação entre o casal.

Elvis e Eu, escrito por Priscilla Presley e Sandra Harmon, exibe uma visão superficial do astro do rock e de seu casamento e relacionamento abusivo (sim!) com Priscilla. É uma ótima leitura inicial para quem quer saber mais sobre a vida do astro, mas não conta toda a relação complexa que ele tinha com sua ex-esposa. Para isso você terá que comprar outro livro!
INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO ELVIS E EU

Livro: Elvis e Eu
Autora: Priscilla Beaulieu Presley e Sandra Harmon
Páginas: 350 

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O caso de Jo e Laurie - As Mulherzinhas de Louisa May Alcott

*spoilers de As Mulherzinhas (Little Women), Esposas Exemplares (Good Wives) e os subsequentes livros

Se você, assim como eu, viu os filmes de As Mulherzinhas antes de ler o livro de Louisa May Alcott, deve ter se apaixonado pelo rebelde e livre Laurence, especialmente o da versão de 1994 interpretado por Christian Bale. 

O professor Baher, apesar de doce e prestativo, não parecia ser exatamente o par ideal de Jo e ao ler os dois livros As Mulherzinhas (Little Women) e Esposas Exemplares (Good Wives) essa sensação continuou, mas com um porém: enquanto Jo, Beth e Meg permaneceram com as mesmas características entre As Mulherzinhas para Esposas Exemplares (que tem três anos de intervalo), Laurie e Amy sofreram as maiores alterações de personalidade e caráter e isso foi algo que nunca entendi, até pesquisar sobre a vida da própria autora, a Louisa May Alcott, e seu estado de espírito ao escrever a obra.

Jo e Laurie em suas versões cinematográficas: em 1933, 1949 e 1994 (temos matéria sobre aqui)
Louisa recebeu o pedido de escrever um livro infantil de seu editor Thomas Niles, apesar de já ter escrito, anteriormente, inúmeras obras de suspense de relativo sucesso. O motivo? Segundo a biografa Madeleine Stern, Thomas queria tentar recriar o sucesso da saga infantil Oliver Optic e pediu que Louisa tentasse escrever uma história de garotas, já que a escritora teria se dado bem com outras publicações mais juvenis.

A escritora, então, se inspirou no que conhecia: sua vida ao lado de suas três irmãs. No livro As Mulherzinhas (Little Women) ficou dividido assim: Jo, inspirada em Louisa era a protagonista. Anna, a irmã mais velha de Louisa que sonhava em ser atriz e se tornou uma dona de casa, era a carinhosa Meg. A doce Beth no livro tinha o mesmo nome na vida real, Elizabeth, e morreu de febre escarlate aos 22 anos de idade, devastando toda a família. Por fim Amy, na verdade, Abigal May, uma grande artista que encontrou sucesso em sua profissão, diferente de sua personagem.

Louisa May Alcott para começar, não queria escrever um livro para garotas e relutou com essa tarefa até o fim. Em seu diário, ela escreveu: "Eu faço, embora não goste deste tipo de coisa. Nunca gostei de garotas ou conheci poucas delas - além de minhas irmãs, mas nossas peças alegres e experiências talvez se provem interessantes, embora eu duvide muito." Alcott não poderia estar mais errada! Com o lançamento de Mulherzinhas (Little Women) em 1868, as irmãs March cimentaram seu espaço na literatura mundial, assim como o incessável debate do possível caso de amor entre Jo e Laurie.

Jo e Laurie eram o casal perfeito? 
O livro As Mulherzinhas conta a história das irmãs March - Meg, Jo, Beth e Amy - que, apesar de não serem de uma família rica, contam com os bons conselhos de sua mãe, apelidada carinhosamente de Mammie, e com muita imaginação e amor familiar. O que elas não esperavam é que Theodore Laurence, Laurie, um jovem menino rico fosse se mudar para a mansão ao lado, pertencente ao seu avó. Introvertido e sem amigos, logo Jo teima em tê-lo como seu parceiro e assim se inicia uma linda amizade, que poderia se tornar algo a mais. Além disso, em cada capítulo do livro, um ensinamento de amor e compaixão é ensinado para os leitores.

Mas por que nós, leitores, fixamos tanto entre o que poderia ter sido entre Laurie e Jo? A resposta está no primeiro livro de Louisa sobre as irmãs March, o As Mulherzinhas. Durante todo o livro, Alcott dá pistas sobre um possível romance desabrochando entre Jo e Laurie e como a sintonia entre eles seria quase perfeita. Mas quando o leitor chega na continuação Esposas Exemplares (Good Wives), a personalidade de Laurie muda completamente.

O Laurie em As Mulherzinhas é um jovem que sonha em ser músico, é alegre, travesso e não se importa com as formalidades da sociedade. Impulsivo, ele não quer ser um homem de negócios e sim um músico famoso como sua mãe. Jo, aliás, também tem sonhos grandes: quer ser uma escritora de sucesso e almeja a independência. Um par, no papel, que seria ideal, certo?

O Laurie de As Mulherzinhas não é o mesmo em Esposas Exemplares 
Em As Mulherzinhas (Little Women), aliás, temos vários momentos entre Jo e Laurie que corroboram esse possível romance. Primeiro: quando os dois se conhecem, em uma festa na casa de Laurence, ele está em uma ante-sala, sozinho, tentando se esquivar dos convidados empertigados. Ele não repara nas roupas "surradas" de Jo e preza sua companhia mais do que qualquer outra. Isso acontece também quando encontra Meg toda arrumada em uma festa de sociedade, no qual Laurie afirma: "não gosto de exageros e plumas". O Laurie em Esposas Exemplares (Good Wives) é o total oposto: parece amar extravagâncias e presentes.

Segundo ponto, em As Mulherzinhas, a própria Louisa dá a entender que Jo pode ter uma estima a mais por Laurie, que ela tem medo de admitir. Ao descrever o "seu menino", como ela o chama durante a saga de livros, Jo afirma:
"Ele é maduro para a idade que tem, é alto, e quando quer pode ter maneiras muito adultas. Além disso é rico, generoso, bom, ama à todas nós." 
Tudo bem que nesta cena em particular, Jo o descreve pois almeja o casamento entre Laurie e Meg, sua irmã mais velha (apenas com medo que ela se casa com John Brooke e desfaça a família). Sua mãe pede para que não se meta, já que ela deveria deixar "o tempo e o coração unir seus amigos." Logo depois, aliás, Laurie faz uma surpresa para Jo, referente ao bem-estar de sua irmã doente Beth e tem a coragem de lhe dar uns dois beijos tímidos na boca.

Jo se afasta dele com delicadeza e pede para que ele não faça mais isso, porém Laurie demonstra que quer se tornar mais íntimo de sua amiga rogando que lhe abrace novamente. Mas os fatos de um possível romance não são só físicos! Laurie a encoraja, inclusive, a perseguir seu sonho de se tornar uma escritora  quando ela leva alguns de seus contos para a editora local no capítulo 11 de As Mulherzinhas, afirmando: "Seus contos são obras de Shakeaspeare se comparados ao lixo que publicam diariamente. Não será divertido vê-los publicados e nos orgulhar de nossa autora?"


A prova definitiva, no entanto, de que Louisa May Alcott provavelmente planejava tornar Jo e Laurie um casal está no capítulo 10, no qual a narradora dá a entender que cartas de amor estavam no futuro da família March-Laurence, que então tinham criado uma caixa postal exclusiva entre eles. Em As Mulherzinhas, lê-se: "Sem imaginar quantas cartas de amor aquela pequena caixa postal receberia em anos futuros".

A caixa postal não recebeu cartas de amor futuras, pelo menos não em sua sequência Esposas Exemplares (Good Wives) e isso apenas torna ainda mais forte a teoria de que Louisa desistiu de tornar Laurie e Jo um casal. Tudo pela insistência atormentadora das fãs.

Em seus diários, Louisa deixou bem clara as suas intenções: "Garotas me escrevem pedindo para saber com quem as irmãs vão se casar. Eu não vou casar Jo com Laurie para agradar ninguém." May Alcott foi além e em carta para sua amiga, Elizabeth Powell, declarou:
Jo deveria ter permanecido uma escritora solteirona [assim como ela] mas tantas jovens leitoras entusiásticas escreveram que Jo deveria se casar com Laurie ou com alguém que eu não me atrevi a recusar e perversamente fui e criei um par peculiar para ela." 
É assim que em Esposas Exemplares (Good Wives) entra o autoritário e paternal Professor Baher (que preenche o papel do pai de Jo, que quase nunca aparece nos livros) e que a personalidade de Laurie se transforma completamente, em uma rotação de 180º, para que Alcott pudesse dar um choque de realidade para suas leitoras e justificar a separação do já tão querido casal.

Jo e Professor Baher em As Mulherzinhas, filme de 1949
Jo, Beth e Meg continuam com as mesmas personalidades, desejos e problemas na sequência Esposas Exemplares. Laurie e Amy são os que mais se transformam e isso tem uma explicação: já que Alcott não deixaria Jo ficar com Laurie decidiu que o jovem deveria, ainda, continuar na família e assim se casar com a outra March disponível, a egoísta Amy que se torna, ao longo da sequência, realmente o protótipo de uma boa esposa.

No primeiro capítulo de Esposas Exemplares, o leitor conhece, logo de cara, um Laurie diferente que "fazia loucuras, namorava, mostrava-se dado a elegâncias requintadas, deu e levou trotes, falou em gírias e esteve perigosamente próximo da expulsão ou da suspensão." Um jovem que nada tem a ver com aquele que conhecemos no primeiro livro. Pode-se argumentar que essas mudanças fazem parte da adolescência, de cometer erros, de se descobrir, mas a mudança de Laurie é escrachada demais para ser apenas uma coincidência.

Tanto que, quando Thedore Laurence finalmente tem coragem e pede sua Jo March em casamento, no triste capítulo  Coração Partido, ela nega seu pedido e dá esta resposta como justificativa:
"Sou feia, desajeitada, pobre e velha e você se envergonharia de mim e nós discutiríamos...eu não gostaria da sociedade elegante e você detestaria minhas escritas e eu não poderia viver sem ela e seríamos infelizes e desejaríamos que nunca tivéssemos nos casado." 
O mesmo Laurie que jurou não gostar da alta sociedade? Que desejava viajar ao mundo e se tornar um pianista famoso? E que sempre incentivou as escritas de Jo? Louisa May Alcott transformou completamente a personalidade de Laurie na sequência de As Mulherzinhas e fez isso de propósito: para que o Laurie por quem Jo poderia se abrir e se apaixonar não existisse mais. Para jogar um "balde de água fria" nos sonhos românticos de milhares de suas leitoras. O fato de Mammie também considerar que o par não combinava (na base do novo Laurie), também não ajudou o caso do jovem apaixonado.


A introdução de Professor Baher ocorre gradualmente, antes mesmo de Jo ser pedida em casamento por Laurie, e ele é apresentado como alguém mais velho, sábio, que aos poucos ganha a afeição de Jo. Mas um leitor mais sagaz consegue ler nas entrelinhas: quando a jovem escreve de Nova York para a família, a pessoa que ela mais menciona é o Baher, sempre em uma luz positiva, falando de sua bondade e de seu carinho. Louisa May Alcott já estava programando o personagem para ficar com Jo e para que os leitores, mesmos os aficionados por Laurie, não pudessem odiá-lo.

Amy, aliás, ganha mais destaque na continuação da história e acompanhamos como ela se desenvolve em uma mulher de respeito da sociedade em Paris, que entende todos os pormenores do que faz uma dama ser uma dama. Não soa familiar o fato de Amy ser a dama que Jo nunca seria? Quando Laurie tem seu coração partido ele vai viajar pela Europa e encontra a pequena March pelo caminho que lhe dá um "sacode" e o endireita. A intenção de Louisa May Alcott é muito óbvia: transformar Laurie e Amy em um casal e deixar Jo ao lado do sempre correto e bondoso Professor Baher.

Para isso ela transforma, essencialmente, Laurie e Amy em outras pessoas, que agora seriam compatíveis um com o outro. Nesse meio tempo, Jo enfrenta a morte de Beth, sua irmã mais próxima, e isso lhe abre o coração para o amor. Para o amor do constante Baher, que lhe dá o que mais necessita em um momento de luto: segurança.

Não me levem a mal, o professor Baher nem de longe é um mau personagem. Ele é bondoso, cuidadoso, atencioso e ama crianças, mas fica claro que ele foi inserido apenas para que Laurie não tivesse chance alguma. Para atender as necessidades de Jo e não desafiá-la. Para mostrar, aliás, que nem sempre a vida acontece de acordo com o que esperamos, com o que desejamos.

Peter Lawford e Elizabeth Taylor como Laurie e Amy em Mulherzinhas, 1949
A verdade nua e crua é  que Louisa May Alcott em Esposas Exemplares simplesmente narrou as verdades da vida: nem sempre ficamos com aquele que sonhamos. Nem sempre conseguimos realizar nossos sonhos (Laurie se torna um homem de negócios e Amy desiste de sua pintura) ou temos uma vida idealizada e repleta de aventuras. O destino é cruel e, muitas vezes, nos leva a tomar decisões de acordo com nossa segurança e não por nossas paixões.

Quer um exemplo? Laurie foi baseado em um dos romances da vida real de Louisa May, o pianista Ladislas Wisniewski, apelidado por ela de Laddie (Laurie?) além de inspiração em outros amigos como Alf Whitman, Ralph Emerson e Henry Thoreau. Louisa e Ladislas não poderiam ser um casal e assim, Jo e Laurie também não.

Afinal, a vida nos muda e muda aquelas à nossa volta. Mas a moral é esta: se permanecermos unidos, como família e amigos, nada é tão ruim que não se possa enfrentar juntos. Jo e Laurie, aliás, permaneceram amigos durante os quatro livros de May, com uma cumplicidade bem maior do que dividiam com suas caras-metades.

O caso de Jo e Laurie é simples: a Jo e Laurie de As Mulherzinhas com toda a vida pela frente eram o par perfeito um do outro. O de Esposas Exemplares, com o passar dos anos e a intervenção óbvia da autora, não poderiam ser mais diferentes. Louisa elevou o sonho dos leitores apenas para despedaçá-los no caminho, como a vida mesma faz. Mas isso teve, ao menos, um efeito positivo.

Passaram-se mais de 200 anos da publicação do livro e continuamos a falar de Jo e Laurie. Continuamos a falar de As Mulherzinhas (Little Women). Continuamos a desejar que tudo pudesse ser diferente. E não é este o objetivo, afinal?



O amor e a razão no livro Longe Deste Insensato Mundo de Thomas Hardy

*spoilers sobre o livro Longe Deste Insensato Mundo de Thomas Hardy (e subsequentes filmes) 

Bathsheba Everdene é uma personagem considerada à frente de seu tempo: recusa propostas de casamento para reafirmar sua independência, é dona de sua própria fazenda e vai ela mesma vender seu produto em feiras no vilarejo, sem medo de negociar o melhor preço que possa conseguir, falando de igual a igual com seus colegas homens. A personagem do livro Longe Deste Insensato Mundo (Far from the Madding Crowd, 1874), obra do literário Thomas Hardy é uma feminista, ou melhor, o máximo que ela poderia ser naquela naquele trecho restrito da época. 

Isso porque Bathsheba, como é escrita por Thomas Hardy, ainda é levada pelos seus sentimentos, amor e vaidades, algo que em 1874, quando o livro foi escrito e ainda hoje até, é algo que definia o que era ser mulher. Ela confunde o amor e a razão por todo o livro, apaixonando-se perdidamente por um certo soldado enquanto mantém seu feitiço no pastor Gabriel Oak e o senhor de terras, o sr. Boldwood, além de seu melhor julgamento, e assim quase leva à ruína tudo que havia trabalhado tanto para conseguir em sua fazenda e em sua vida. 

Ela acaba se submetendo aos desejos do seu então marido, o sargento Frank Troy, e perde o controle de sua fazenda, de seus funcionários, tudo para manter a atenção e a paixão de seu esposo - ela, apesar de aparentar ser uma mulher independente do século XIX, ainda se submete aos desejos do seu marido, como um casamento convencional entre homem e mulher, no qual é a esposa que sempre faz sacrifícios para manter a felicidade do casal.

Bathseba cuidando de sua fazenda ao lado de Gabriel Oak - ilustrações de Helen Alligham(1874)             Divulgação
Assim, Bathseba Everdene é uma personagem que pode ser considerada relativamente feminista, mas apenas o máximo que era tolerado para uma mulher naquela época. Ela começa forte, mas se perde no meio da história e não consegue voltar à sua gloriosa independência depois. A vida não lhe permite e os homens de sua vida também não. 

Longe Deste Insensato Mundo foi o primeiro sucesso literário do autor inglês, Thomas Hardy. Publicado, primeiramente, de forma anônima, na revista Cornhill Magazine com ilustrações da artista Helen Allighan, como pode se ver acima. Tudo começou em 1872, como conta a biografia The Life and Work of Thomas Hardy, quando Leslie Stephen, editor da revista Cornhill Magazine, escreveu pedindo que Thomas, já com relativa fama por escrever livros como Under The Greenwood Tree, escrevesse uma história para publicação. Thomas não conseguiu escrever imediatamente, pois ele estava terminando seu livro A Pair of Blue Eyes, mas escreveu revelando que a próxima história seria de Stephen. 

O autor já tinha em mente o título: Far From The Madding Crowd (Longe Deste Insensato Mundo) e sabia que escreveria sobre uma jovem mulher, um pastor e um sargento da cavalaria. E assim ele criou Bathsheba Everdene, uma jovem mulher forte que ganha de herança a propriedade de seu falecido tio e se muda para Weatherbury em Wessex, local fictício criado pelo escritor e usado em todos os seus livros, para governar a fazenda. Lá, ela reencontra o pastor bondoso Gabriel Oak, que havia lhe pedido em casamento, mas ela o recusou. 

Por obra do destino, ele se torna gerente da propriedade de Bathsheba, porém ele não é o único que busca o amor dela. O velho William Boldwood, dono da propriedade vizinha, acaba se apaixonando por ela depois de uma brincadeira de mau gosto (ela envia para ele uma carta de dia de namorados para provocá-lo; ele acredita que suas intenções são verdadeiras). Há também o duvidoso sargento Troy, que busca uma vida fácil, mas causa uma paixão arrebatadora em Bathsheba com grandes repercussões. 

Thomas Hardy também era poeta                                                        Divulgação
Vale lembrar, no entanto, que esse assunto de independência da mulher em suas terras, não era relativamente novo, como conta este artigo do site The Conversation de 2015. Antes das chamadas A Lei das Propriedades de Mulheres Casadas (Married Women's Property Act) de 1870, as mulheres do Reino Unido eram apenas vistas, depois de casadas, como uma extensão de seus maridos, sem direito à nada - tudo que tinham eram deles, inclusive terras herdadas antes do casamento. 

A lei Married Women's Property Act de 1870 mudou isso: assim as esposas tinham direito de serem proprietárias legais de seus dinheiros e de suas propriedades, inclusive aquelas herdadas e conquistadas antes do casório. As mulheres solteiras e as viúvas já tinham o direito de possuir a terra em seu próprio nome, antes do Ato, como era o caso da personagem Bathsheba Everdene. 

O problema é que o Married Women's Property Act causou um furor na sociedade machista, que acreditava que as mulheres terem controle de suas propriedades e de si mesmas, não era benéfico para elas. O Married Women's Property Act também ganhou um adendo em 1882, dizendo que mulheres casadas poderiam controlar sua própria propriedade e estabelecer contratos, assim como as solteiras tinham direito, podendo ganhar, vender e ter uma propriedade separada do marido. As mulheres casadas poderiam ter uma identidade separada de seu marido, pelo menos perante à lei. Não era isso que acontecia por trás das portas, no entanto. As mulheres ainda eram controladas por seus maridos. 

A Wessex que Thomas Hardy inventou para seus livros e poemas                                Divulgação/1902
A personagem Bathsheba, então, estava livre para ter sua própria propriedade antes de se casar e depois também. Que fique claro que isto não era algo novo na Inglaterra, mas ter Bathsheba Everdene em um papel que mostrava que a mulher tinha tanta mente para os negócios como os homens, contam pontos para que Longe Deste Insensato Mundo mostre as mulheres em uma luz um tanto mais favorável. Infelizmente esse pioneirismo se perde quando o leitor fica mais interessado com quem Bathsheba vai escolher como seu marido do que com sua própria e merecida independência e quando ela abre mão de tudo por causa de uma paixão. 

No capítulo X do livro Longe Deste Insensato Mundo de Thomas Hardy, há uma passagem na qual Bathsheba se apresenta como nova dona da fazenda e faz questão de reafirmar sua posição como mulher autossuficiente:
Agora prestem atenção: vocês tem uma patroa ao invés de um patrão. Ainda não conheço meu poder e meus talentos para a agricultura, mas devo fazer o meu melhor e se me servirem, servirei a vocês. Se houver alguém desleal entre vocês achando que por eu ser uma mulher não sei a diferença entre bom e mau comportamento (...)Acordarei antes de vocês, estarei nos campos antes de vocês acordarem e tomarei meu desejum antes que estejam nos campos. Resumindo, surpreenderei todos vocês." - Longe Deste Insensato Mundo, capítulo X, página 68. 
Mas nem suas afirmações e ações, no começo do livro, compensam pela narrativa que cada vez mais prende Bathsheba aos três homens de sua vida. Isso porque Gabriel Oak, o bondoso fazendeiro que perde suas terras e se torna pastor da propriedade de Bathsheba, é quem efetivamente administra a fazenda dela. Gabriel salva as terras de sua amada de serem totalmente queimadas e se torna o "gerente"; posteriormente ele salva o rebanho de ovelhas e inclusive protege o feno da fazenda, este último com a ajuda de Bathsheba (que deixa-o terminar sozinho, na tempestade).  

Bathsheba e sargento Troy em uma das cenas mais "eróticas" da novela 
Com Mr. Boldwood, o senhor com quem ela brinca com os sentimentos depois de um cartão do Dia dos Namorados, à ponto de levá-lo, pouco a pouco, à loucura; Bathsheba mostra a sua imaturidade em relação aos sentimentos do outro, sem pensar em consequências. O leitor fica com dó de Mr. Boldwood durante a leitura, mas ele cada vez mais usa de artimanhas e situações que nos fazem duvidar de sua sanidade - como se Everdene devesse à ele alguma coisa, sendo que se trocássemos o papel, a personagem seria considerada apenas louca. 

Já com o sargento Troy (que a conquista com uma exibição de espadas bem explícita), ela experimenta o amor desenfreado, sem limites, sem consequências, algo que quase arruína sua vida e sua fazenda. O autor Thomas Hardy cria uma mulher fascinante e forte nos primeiros capítulos, para destruí-la depois - tudo pelos homens que a rodeiam e fazendo valor a falsa noção que a mulher nunca poderá ser uma chefe ideal por ser levada pelos seus sentimentos e emoções. 

Mas se comparada com a personagem Fanny Robin, que era namorada do sargento Troy, uma antiga empregada da Fazenda, Everdene é realmente uma mulher à frente de seu tempo. Isso porque Fanny representa o ideal de mulher doce, tola, servil e bondosa que Bathsheba nunca seria e assim é o amor da vida do único homem que Bathseba sempre quis. Porém se Everdene é teimosa, idealista e destemida em certos casos, quando se trata do amor ela nunca consegue ver a razão. E é por isso que a personagem, em uma opinião controversa, não pode ser considerada feminista: o escritor, os personagens masculinos e a sociedade da época nunca a permitiriam.  

A personagem fica, nas 328 páginas do livro lançado em 2016 pela editora Pedra Azul Editora, dividida entre a estabilidade; representada por Gabriel Oak, a paixão; representada pelo sargento Troy; e a respeitabilidade; representada pelo Mr. Boldwood e quanto mais páginas lê-se, mas fica evidente o caminho que Everdene escolherá. Em seu primeiro casamento com o sargento Troy, Bathsheba se tornou uma mulher submissa, completamente levada pelo amor, como ela mesma percebe:
-Diga-me a verdade Frank. Não sou tola, embora seja uma mulher e tenha meus momentos de mulher. Eu não quero muito, apenas justiça e basta. Ah, uma vez senti que não poderia me contentar com nada menos do que a mais alta homenagem do marido que eu escolhesse. Agora qualquer coisa aquém da crueldade me satisfaz. Sim, a Bathsheba independente e espirituosa tornou-se assim. - Longe Deste Insensato Mundo, capítulo XLI, página 223. 
O trecho acima viabiliza a teoria de que Thomas Hardy criou uma personagem mulher mais independente do que a maioria das mulheres da época, mas mesmo assim uma mulher. Ela nunca seria tão forte fisicamente ou mentalmente quanto Gabriel Oak, por exemplo. Bathseba Everdene é com certeza uma personagem à frente do seu tempo, que deve ser admirada por sua tenacidade, teimosia e cabeça para "os números" e ser mencionada quando se trata de mulheres fortes da literatura, mas ela não era um exemplo feminista, pelo menos não na concepção de Thomas Hardy. 

Bathsheba Everdene se adequa às normas e imposições da época e ela não consegue burlá-las como se vê ao longo da história. Ela é uma personagem feminina a ser admirada, mas não sei se cabe à ela a denominação de feminista de fato, já que o próprio autor considerava que ser mulher era "um defeito", mesmo que um leve. Afinal, o que exatamente seria "momentos de mulher" a não ser uma referência ao único defeito em Bathsheba na história? Ela nunca seria forte, sensata e inteligente como os homens - ela era uma mulher.  

Longe Deste Insensato Mundo de Thomas Hardy, apesar disso, é uma leitura gostosa de se ter e nos sentimos no campo, sentados sob uma árvore, aproveitando a brisa e conhecendo cada vez mais as personagens. É fato que o autor exagera demasiadamente em descrever as paisagens de Wessex e isso cansa um pouco a leitura, mas a medida que nos acostumamos com o ritmo da narrativa, é impossível não se cativar pelo livro e pela história de Bathsheba e tudo que ela teve que enfrentar para firmar sua posição na sociedade e retomar as rédeas de sua vida. 


Bathsheba Everdene nas telas - apenas Julie Christie com seus cabelos loiros foge à descrição da personagem 
O livro Longe Deste Insensato Mundo de Thomas Hardy ganhou sua primeira adaptação para o cinema em 1915 estrelando Florence Turner e Henry Edwards como Bathsheba e Gabriel Oak, respectivamente. Em 1967, foi a vez de Julie Christie e Alan Bates estrelarem a versão. Em 1998 teve a versão para a televisão e em 2015, Carey Mulligan encarou a responsabilidade de interpretar a personagem nas telonas. 

Em Longe Deste Insensato Mundo há sempre o atrito entre o amor e a razão e em como o amor calmo de Gabriel Oak pode resistir até as maiores tempestades, o desenfreado de Bathsheba pode cegar sua visão sobre outro alguém e como o amor obsessivo de Mr. Boldwood pode destruir uma pessoa. A razão está sempre à espreita, no entanto, para ser vista, basta que as personagens queiram vê-la. 

O que nem sempre é o caso, tanto na literatura quanto na vida real. 




INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO


Livro: Longe Deste Insensato Mundo
Autora: Thomas Hardy
Páginas: 328

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