Sessue Hayakawa e o escândalo de paternidade

Sessue Hayakawa, nascido Kintarō Hayakawa, foi o primeiro astro japonês de Hollywood. Nascido em 10 de junho de 1886, na província de Nanaura; hoje Minamibōsō; em Chiba, Japão, o ator sempre sonhou em se tornar "alguém" na vida. Desde pequeno, ele estudava inglês e, vindo de uma família abastada e bastante tradicional, ele tentou fazer parte da Marinha Japonesa. Por conta de um tímpano perfurado, Sessue não conseguiu se tornar marinheiro e tentou se suicidar por levar "desgraça à família". 


Aos 18 anos de idade, Sessue se mudou para os Estados Unidos, de acordo com a biografia Sessue Hayakawa: Silent Cinema and Transnational Stardom de Daisuke Miyao para ajudar o irmão, Otojiro, e outros imigrantes na pesca da concha abalone, pr um plano do governo de Japão para exibir sua prosperidade internacionalmente. Com ajuda de amigos, ele se inscreveu no curso de Economia Política na Universidade de Chicago para obter um visto americano. 


Após sua saída da Universidade - que é questionada já que não há registros dele como aluno - Sessue trabalhou como lavador de pratos, garçom, vendedor de sorvete e até funcionário de fábrica. Apesar do que ele revelou em sua autobiografia Zen Showed Me the Way ...: To Peace, Happiness, and Tranquility, seu começo na atuação não foi nada glamoroso. 


Sessue começou a trabalhar com a companhia japonesa de teatro de Fujita Toyo, intitulada Little Tokyo, em Los Angeles, por volta de 1912. Thomas H. Ince, produtor e diretor de cinema, ficou interessado no ator bonitão - que agora já havia adotado o nome de Sessue - e o convidou para atuar em alguns filmes mudos, certo de que grande parte do público ficaria interessado naquele visual exótico. 


Hayakawa fechou contrato com Thomas H. Ince para uma série de cinco curtas, estrelando ao lado de Tsuru Aoki, que se tornaria a futura esposa do astro, em 1913. O primeiro filme de Sessue foi o Mimi San (1914) e, naquele mesmo ano, ele se casou com Tsuru, que era o nome mais reconhecido entre o casal. Sessue, no entanto, não demorou para ultrapassar a esposa e se tornou o protagonista em filmes como The Wrath of Gods (1914) e Typhoon (1914), ganhando um contrato com o estúdio Famous Players (hoje a Paramount Pictures). Foi aí que ele se tornou uma estrela com o filme The Cheat (1915), dirigido por Cecil B. DeMille. 


Esse filme [The Cheat, 1915] foi a primeira grande onda na estrada de Sessue Hayakawa, que o tornou em menos de dois anos, o colega de estrelas sensacionais como Douglas Fairbanks, William S. Hart e Mary Pickford - Cecil B. DeMille em The autobiography of Cecil B. DeMille

 

Fannie Ward e Sessue Hayakawa em The Cheat (1915)


Em The Cheat (A Trapaça; em tradução livre), Sessue interpretava em empresário japonês sem escrúpulos, que atraia a personagem de Fannie com sensualidade e exotismo. O ator se tornou uma sensação e símbolo sexual, com grandes fãs, inclusive mulheres brancas. Na sequência, ele estrelou em mais de quinze filmes, todos como protagonista, mas, por conta da censura, Sessue nunca poderia acabar com a mulher no final. 

O ator criou sua própria produtora, a Haworth Company Pictures, em 1917, mas depois de enfrentar uma apendicite em 1921, ele decidiu dar um tempo e viajar para o Japão com a esposa, Tsuru. Ao voltar, eles se basearam em Nova York, já que Sessue queria tentar os palcos da Broadway com o vaudeville, e foi aí que ele conheceu Ruth Noble, a mãe de seu filho Yukio, que mudaria sua vida para sempre. 


De acordo com a própria Ruth Noble, ela conheceu Sessue através da esposa, Tsuru, que entrevistava atrizes para atuarem com o marido na peça The Bandit Prince, baseada em um livro escrito pelo próprio ator. Não demorou muito para que ele demonstrasse interesse em Ruth:

Nós íamos dançar e jantar depois do show. A esposa dele estava sempre presente. Eu não achava que ele queria algo sério. Ele tinha o hábito de me chamar para o seu camarim para ensaiar e aí nós começávamos a fazer amor. Eu acho que a esposa achava que eu o roubaria dela. O show fechou e eu voltei para Nova York em 1927. - testemunho de Ruth para o jornal em 1 de novembro de 1931. 

 

Ruth Noble e Sessue Hayakawa, com a esposa Tsuru e Yukio

Ruth e Sessue, que também estava hospedado em Nova York, continuaram a se ver após a peça e, segundo a jovem, ele afirmou que não poderia se divorciar de Tsuru a não ser que ela tivesse um filho. Ruth concordou e deu à luz em 31 de janeiro de 1929, no Park West Hospital, ao pequeno Alexander Hayes. Apesar disso, Sessue não se divorciou de Tsuru, mas continuou a dar dinheiro e prover para a atriz e o bebê, agora morando em Los Angeles com a esposa. 

Segundo Noble, a esposa de Sessue descobriu sobre a criança após ele mandar o recibo de uma conta, acidentalmente, para ela. Os dois brigaram, mas Tsuru logo começou a ver o bebê, até março de 1930 quando o astro foi para Japão. O casal teria, supostamente, parado de enviar dinheiro tentando forçá-la a abrir mão do menino. Sem emprego ou finanças, ela finalmente concordou em entregar o filho para Tsuru e Sessue e assinou o termo de adoção em 21 de julho de 1931:

Sem emprego ou dinheiro, eu concordei que eles levassem o menino e eles me permitiam vê-lo uma vez por semana. Eu mal podia esperar para essas visitas chegarem. Mas eles nunca me deixavam sozinha com a criança. Eles me deixavam brincar por alguns minutos, quando a esposa de Sessue interrompia. - Entrevista de Ruth Noble, 1 de novembro de 1931. 
Sessue, Tsuru e Alexandre na assinatura dos papeis de adoção do juiz Samuel Blake

A história oficial, propagada por Sessue Hayakawa, foi outra: em 26 de agosto de 1931, o jornal The Los Angeles Times, confirmou que ele, aos 45 anos de idade, e a esposa Tsuru, aos 38 anos, adotaram um menino chamado Alexander Hayes, de dois anos e meio, que morava com eles desde julho daquele ano. 

Em setembro de 1931, Sessue anunciou a adoção definitiva e a troca do nome de Alexander para Yukio, que seria filho de um amigo próximo dele, chamado Hayashi, membro de uma importante família ligada à política. Com a morte de Hayashi, o casal se ofereceu para adotar o menino para lhe dar uma vida melhor e a viúva teria concordado. Já naquela ocasião, existiam rumores de que Sessue era o pai da criança, mas seu advogado tentou abafar o caso. 

Em 16 de outubro de 1931, no entanto, o escândalo de paternidade de Sessue chegou à imprensa. Ruth entrou com um processo contra o amante para tentar reaver o filho- apesar de ter assinado um contrato abrindo mão de sua maternidade por U$4.500 e U$150 por mês por um período indefinido- após descobrir que Hayakawa pretendia levar o menino para o Japão, permanentemente: "Mas eu sou uma mãe. Eu quero quebrar esse contrato. Assim que o bebê se foi, eu o queria. É o desejo de mãe que me faz tomar essa decisão", disse Ruth. 

No dia 30 de outubro de 1931, Ruth anunciou para a imprensa, através de seu advogado, Charles H. Clark, que havia desistido de seu processo para reaver a guarda do filho. A atriz não deu nenhuma explicação, chocando à todos com a decisão, ainda mais com a proximidade do julgamento, que ocorreria no dia 3 de novembro. 

Na foto, uma parte do termo de adoção, que conta com a assinatura de Ruth 

Sessue e Tsuru, ao lado de Yukio, ainda estavam morando em Hollywood e, por enquanto, não tinham pretensões de se mudarem para o Japão. Quando Ruth soube da iminente viagem de Haykawa para sua cidade natal, em 7 de novembro de 1931, ela ameaçou não desistir do processo. Em uma manobra considerada estranha, até para a imprensa racista que a protegia por ser uma mulher branca, Ruth encontrou o ex à bordo do navio Tastu Maru, com destino ao Japão. 

Ruth entrou no navio sob o nome de Ruth Noble Darby, sobrenome de seu último marido, em Los Angeles, com a desculpa de que "queria pedir perdão" por todo o mal que lhe causou. Sessue apenas soube de sua presença no dia 9 de novembro e ela disse que o perseguiria até ser perdoada, sem intenção de desembarcar em Yokohoma, no Japão. De acordo com o jornal Nichibei Shibun, oficiais do navio afirmaram que ela tinha passagem para Yokohoma, mas desistiu e desembarcou em São Francisco - a multa foi paga por Hayakawa. 

A atriz e o astro japonês falaram com a imprensa, presente no navio, e Ruth se desculpou publicamente por ter causado danos ao ex - isso, é claro, depois de ganhar U$7 mil e U$150 por mês por três anos, totalizando R$27 mil:
Eu sinto muito ter causado toda essa dor a ele. Eu percebi que o magoei demais com toda essa publicidade, mas toda vez que eu tentei vê-lo em Hollywood, eu nunca conseguia. -Ruth Noble
Sessue e Ruth a bordo do navio, rumo ao Japão 

Em telegrama para a esposa, após Ruth deixar o navio no dia 10 de novembro, Sessue contou uma história diferente, afirmando que teve que "forçá-la a deixar a embarcação no último minuto em São Francisco" após encontrá-la escondida na segunda classe. Para a imprensa, Tsuru, esposa de Hayakawa, ainda se mostrava como a dona de casa compreensiva e perfeita:
Sessue não me magoaria. Eu sei que ele me ama. Ele não ama mais a srta. Noble. O caso deles está morto, e o bebê está começando a me amar também. Eu darei um Natal bem americano para ele. - replicado do jornal Nichibei Shunbin, 1931. 

Sessue, Tsuru e Yukio, no entanto, ainda seriam assombrados por Ruth por bastante tempo! Em dezembro de 1931, ela tentou tirar um passaporte britânico, alegando que seu último marido, Rush Darby, era de origem inglesa. Os dois se divorciaram em 1927, quando o caso da atriz com o japonês se tornou bastante sério. Ruth tentava a repatriação para embarcar livremente para o Japão em dezembro de 1931, onde Sessue ficaria até janeiro de 1932. 


Tsuru Aoki; ou Aoki Tsuruko, ficou furiosa com as tentativas de Noble em cercar o marido, tentando mantê-lo sempre perto dela. Em testemunho para os jornalistas, em dezembro de 1931, a atriz afirmou que Ruth estava tentando desfazer o seu lar. Tsuru conta que não sabia do affair do marido, embora suspeitasse que algo estava errado, e apenas descobriu quando Yukio tinha pouco mais de seis meses, após Sessue mandar a nota de um rádio que comprou para Ruth, para ela, por engano. 

Ruth Noble e Alexander Hayes, agora chamado de Yukio Hayakawa 

Tsuru confrontou o marido, que revelou o affair, e ela o convenceu a diminuir a pensão de U$1500 para apenas U$450 por mês. Do Japão, eles enviavam U$100 por mês para Ruth, mas quando eles retornaram em meados de 1931 para os EUA, decidiram pagar U$4.500, de uma vez, para que ela lhes desse a custódia de Yukio, e mais U$150 por três anos:


Eu estou rezando por alívio das maquinações dessa mulher, que parece estar tentando fazer o pior para desfazer o meu lar. Eu sei do affair entre ela e meu marido há anos [...] Sinto muito pelo affair entre eles, mas tenho certeza que ele me ama e apenas a mim. O caso dele com Ruth está acabado, mas ela ainda tenta conquistá-lo - Tsuru para o jornal Nichibei Shibun, 1931. 

 

Em junho de 1932, Tsuru e Yukio, agora com quatro anos de idade, se mudaram permanentemente para o Japão, reencontrando Sessue que, apesar de afirmações, não retornou do país após dois meses. Um mês depois, em 13 de julho de 1932, Ruth desembarcou no Japão, disposta a reconquistar a guarda de seu filho. 


A sra. Rush Darby se encontrou com Hayakawa para demandar um novo plano de custódia do filho e um acordo financeiro para ela e Yukio. Os jornais relataram que Ruth se encontrou com os advogados do ator e retornou aos EUA, no dia 28 de julho, sem ter visto Yukio, que era legalmente de Sessue e da esposa, Tsuru. Na ocasião, o ator afirmou que Ruth estava "bêbada" e pediu que, para o bem da criança, que ela os deixasse em paz. 

Tsuru e Sessue nos anos 1930

As indiscrições de Sessue continuaram, apesar do perdão de Tsuru. Em 2 de abril de 1933, a atriz Midorisan, de apenas 19 anos, deu à luz uma menina e se recusou a revelar quem era o pai. A jovem ficou hospedada -de maneira suspeita -em uma casa em Omori, cedida por Hayakawa, a mesma em que Yoshiko, primeira filha de Sessue, e, dois anos depois, Fujiko, moravam. Elas foram adotadas já que Tsuru, ao que tudo indica, não podia ter filhos naturalmente.  


Sessue e Tsuru viveram o mais harmonicamente possível durante todos os anos seguintes, com o ator retornando ocasionalmente aos holofotes em filmes como Feras que Foram Homens (Three Came Home, 1950), A Ponte do Rio Kwai (1957); pelo qual foi indicado como Melhor Ator Coadjuvante no Oscar; e O Rei dos Mágicos (The Geisha Boy, 1958). 


O casal achava que o pior havia passado, até que em 6 de janeiro de 1961, quando Yukio já tinha 32 anos de idade, Ruth entrou com um processo contra Sessue por U$500 mil. Ela o nomeou, novamente, como pai de seu filho, e alegou que ele não havia lhe pago a quantia que combinaram após o contrato de adoção. Ela ainda pediu os adicionais U$15,180 que lhe era devido, afirmando que o ex e Tsuru não cumpriram o combinado, no qual Ruth poderia ver o filho uma vez por semana, levando-o para o Japão sem seu aval.


Eu nunca mais vi a criança. [Quando fui para o Japão em 1932] Hayakawa me pressionou para deixar o país. [...] Com a quebra de contrato de Sessue, no qual não pude ver meu filho, eu não tive a companhia, amor, afeição e companhia de minha criança...infelizmente. - Ruth Noble para o jornalista Alfred Albelli ao Daily News, 1961. 

 

O caso foi a julgamento em abril de 1962, quando Tsuru já havia morrido, e o juiz negou o pedido de Ruth, afirmando que o prazo já havia expirado para que ela pedisse qualquer residual de um acordo de adoção feito em 1931. 

Sessue Hayakawa nos anos 1950

Yoshiko, filha mais velha de Sessue e Tsuru (conhecida como Reiko Eliott), em sua autobiografia de 2004, intitulada Don't Come Back! A Love Story, publicada postumamente por seu marido, Rob Eliott, revelou que Yukio se mudou para os Estados Unidos nos anos 70, com a esposa e o filho, já que era um cidadão americano. Ele não seguiu os passos do pai e também nunca mais teve contato com a mãe, Ruth. Ao que tudo indica, ele tinha uma relação bem difícil com o pai -já que era o queridinho da mamãe- e com a morte de Tsuru, e o novo casamento de Sessue, a relação entre eles se deteriorou muito. Tanto que com a morte do ator, em 1973, ninguém da família concordava com um enterro. 

Yukio Hayakawa faleceu em Los Angeles, California, EUA, no dia 13 de janeiro de 2001 aos 72 anos de idade. Com uma relação quebrada com o pai e mãe verdadeiros, Yukio encontrou em Tsuru, por pior que fossem as circunstâncias, o verdadeiro amor materno. 




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