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Rita Hayworth: A Afrodite de Hollywood

Treinada para ser dançarina desde pequena, Margarita Carmen Cansino, a primogênita de Eduardo Cansino - filho de um dos dançarinos mais famosos do meio artístico por popularizar o bolero nos Estados Unidos, e Volga Hayworth - também uma artista-  Margarita não tinha outra escolha a não ser uma estrela de cinema: ela foi moldada  pelo pai para brilhar nas telonas, já que ele não podia fazer o mesmo. 

Rita foi feita para as câmeras                                                                 Divulgação/Gif 
Nascida no Brooklyn, em Nova York, no dia 17 de outubro de 1918, Margarita começou a dançar desde que se entendia como gente, mas ela já admitiu, em inúmeras entrevistas, que não gostava de dançar quando criança e que apenas começou a tomar lições para se tornar cada vez melhor e fazer com que seu pai se sentisse orgulhoso. Na biografia If This Was Happiness de Barbara Leaming, uma antiga vizinha de Rita, chamada Loretta Parkin, afirma que se lembrava da estrela de cinema sempre como uma garota solitária e com um pai que não permitia que ela fosse apenas uma criança: " Ela era muito tímida. Eu senti pena dela porque durante toda a brincadeira ela apenas ficava sentada na varanda. Era tudo que ela fazia. " 

A vizinha ainda se lembra de quando Margarita e seu pai praticavam as danças, já que aos 12 anos de idade, ela fazia sua primeira aparição como a dupla Cansinos, em 1931, dessa vez substituindo sua tia, a dançarina Elisa: "Quando ela fazia um erro ele gritava com ela e eu nunca escutei Rita responder de volta, nunca. Ela simplesmente fazia o número de novo, até que ele estivesse satisfeito. Ela era sempre quieta, doce e obediente." 

Rita, aos 12 anos de idade, que para dançar seus pais mentiram sobre sua idade            Divulgação/Montagem
Talvez não existam três adjetivos melhores do que esses para definir Rita Hayworth, que antes de retomar a dupla Cansinos, já dançava sozinha desde os seis anos de idade, fazendo sua primeira aparição no cinema ao dançar no filme La Fiesta (1926), que tinha seu pai e sua tia, como uns dos dançarinos principais. Aliás, um exímio dançarino, Eduardo nunca fez mais sucesso do que deveria por conta de seu sotaque e péssimo inglês: coisa que não seguraria o estrelato de Rita, afinal, ela era americana, apesar de suas origens hispânicas.

Margarita foi descoberta, justamente, através de sua dança: menor de idade, ela tinha que passar pela fronteira dos Estados Unidos para o México e dançar em Tijuana, no México, em clubes chamados Foreign e Agua Caliente. Foi chamada aos quinze anos pelo Max Arno, da Warner Bros, para fazer um teste. Foi um desastre. Logo depois, em 1934, foi vista por Winfield Sheehan, da Fox, e por um milagre do destino, além de uma ajuda do câmera Rudolph Maté que apenas filmou seus melhores ângulos, Margarita conseguiu um contrato, por seis meses, na produtora.

Margarita Cansino em um de seus primeiros papeis no cinema:A Nave de Satã (1935)         Divulgação/Youtube 
Rita Cansino, como ela era conhecida na época, com seu mais novo nome artístico, era a protegida de Weinfield Sheehan e ele estava determinado a torná-la uma estrela, fazendo com que ela fosse escolhida como a protagonista do filme Ramona (1936). O único problema era que a produtora Fox estava em crise e se alinhou a Twentieth Century, formando a 20th Century Fox. Os novos donos da produtora, Jose Schenck e Darryl F. Zanuck, demitiram Weinfield, colocando Loretta Young como a estrela de Ramona e despedindo Rita Cansino depois de ela terminar com as obrigações de seu contrato. 

Antes de terminar seu contrato, no entanto, Rita fez o filme Perdida na Metrópole (1936) ao lado da atriz Jane Whiters, que amiga de longa data da estrela, revelou durante seu funeral: "Quando eu descobri o quão dolorosamente tímida ela era eu fiquei chocada." Ela segurou a mão de Rita e fez uma oração: "Deus, está é a Rita e ela está com medo....Por favor, fique com ela porque ela é especial." 



rita hayworth
Rita Hayworth em 1946                                                           Divulgação/Cinelândia
E especial ela era, mas à partir desse nervosismo e da necessidade de ser guiada, que o primeiro marido de Rita, o controlador Eddie Judson, entrou em cena. Um empresário relativamente bem-sucedido (ou pelo menos era isso que ele dizia), ele prometeu transformar Rita em uma grande estrela, se ela permitisse que ele fizesse as mudanças necessárias para que ela ficasse realmente linda. Assim, com a influência de Eddie, Rita conseguiu um emprego fixo na Columbia Pictures, em 1937.

Mas se no estúdio Fox queriam que Rita fosse um tipo mais nova de Dolores Del Rio, Harry Cohn, o chefe da Columbia, achava que o sobrenome de Rita era hispânico demais e sugeriu a troca. Foi assim que Margarita Cansino se transformou em Rita Hayworth.

A transformação ainda não havia acabado, no entanto: a cabeleireira do estúdio, Helen Hunt, depois de muita insistência de Eddie, que não queria ver sua esposa sem o estúdio, sugeriu que ela fizesse um penoso tratamento: uma depilação por eletrólise, que usava uma corrente elétrica para destruir as raízes do cabelo e se livrar do pico de viúva nos cabelos de Rita e expandir a linha de seu couro cabeludo. 
Rita passou por várias mudanças até ser considerada uma estrela                     Divulgação/Montagem
Esse processo acabou apagando muito da etnia de Rita Hayworth, mas para Hollywood não importava. Harry Cohn queria uma estrela para o seu estúdio e Eddie Judson fazia tudo ao seu alcance para que Rita se tornasse famosa. Apagar sua herança étnica não lhes preocupava nem um pouco. Aliás, antes de seu cabelo ser cortado para o filme A Dama de Shangai, a revista Life, na edição de novembro de 1947 afirmou que Cohn disse, sem sombras de dúvida que: "Todo mundo sabe que a coisa mais bonita de Rita é o seu cabelo." 

Apesar da transformação dolorosa de Rita, ela logo conseguiu papeis substanciosos em filmes depois da mudança como em O Paraíso Infernal (1939), seu primeiro papel importante. O diretor do filme Howard Hawks não estava nem um pouco impressionado com Rita e em uma cena ao lado de Cary Grant  na qual ela tinha que fingir estar bêbada, Hawks teve tão pouca paciência que pediu que Cary derrubasse um balde de água gelada na atriz, já que apenas queria sua reação na hora e não como profissional. 

Mas para o alívio de Rita, outros filmes seguiram como Uma Loira com Açúcar (1941), Protegida de Papai (1940), seu primeiro papel de três com Glenn Ford (seu melhor amigo da vida toda), Sangue e Areia (1941) e Ao Compasso do Amor (1941), com o maravilhoso dançarino Fred Astaire que já afirmou em sua biografia Steps in Time: An Autobiography que Rita foi sua parceira de dança favorita e que a dança era um dos talentos genuínos da garota. 

Rita era uma das dançarinas mais disciplinadas do showbusiness                        Divulgação/Gif 
Foi mais ou menos nessa época, que Rita acabou se apaixonando por Orson Welles, depois de afirmar que se casaria com o ator Victor Mature, com quem ela atuou no filme Minha Namorada Favorita(1942). Mas Rita mudou de ideia quando ficou admirada que um homem tão inteligente quanto Orson pudesse amá-la. Já o diretor estava certo de que se casaria com Rita depois de ver a tão famosa foto, que ficava pendurada nas acomodações de vários soldados durante a Segunda Guerra Mundial, com ela vestida com uma camisola e com um sorriso insinuante, mas incerto. A foto foi tirada em 1941 e só ficou atrás da de Betty Grable, a pin up oficial das Forças Armadas .

Logo depois, o maior papel de Rita Hayworth chegou, um tempo depois de se casar com Orson e ter sua primeira filha, Rebecca Welles: foi o da personagem Gilda no filme noir Gilda (1946). De acordo com sua coestrela, Glenn Ford, em Glenn Ford: A Life, ele e Rita tiveram um caso durante as filmagens e o diretor do filme encorajava que essa química na vida real passasse pelas telas: "A instrução dele para nós era inacreditável. Eu nem posso repetir as coisas que ele dizia para nós antes de fazermos uma cena." O caso entre Ford e Hayworth era de idas e vindas, mas a amizade entre eles era tão forte que quando Rita morreu, Glenn ajudou a carregar seu caixão e os dois, por um tempo, moravam em casas anexas. 

Rita em um papel mais gélido, a direita em Dama de Shangai, não fez nenhum sucesso com os fãs   Divulgação/Montagem
Com uma cena extremamente sensual para a época: o tirar de luvas de Rita, ou melhor, de Gilda, em Put The Blame on Mame, a atriz ficou para sempre eternizada como um símbolo sexual, a eterna femme fatale.  Mas Rita, com razão, sempre considerou que tinha mais potencial do que isso e ao se separar de Orson acabou conseguindo um dos mais importantes papeis de sua carreira: no filme dele A Dama de Shangai (1947), que foi quando tingiu seus longos cabelos de loiro e os cortou acima do ombro. 

O filme foi um fracasso de bilheteria, mas os críticos amaram e até hoje me pergunto como Rita não ganhou uma indicação ao Oscar pela sua atuação. No futuro, no entanto, ela acabou sendo indicada ao Globo de Ouro pelo filme O Mundo do Circo (1964), em que atuou ao lado de John Wayne e Claudia Cardinale. 

Se Rita, no começo de sua carreira, era tímida demais, ela não perdeu tempo em aprender com os seus erros e se tornou pioneira em duas coisas em Hollywood: ao criar uma companhia de produção chamada The Beckworth Company (em homenagem à sua filha Rebecca) na qual ela tinha certo controle produtivo sobre seus filmes e ganhava uma porcentagem de 25% de seus lucros que entrou em vigor ao gravar o filme Os Amores de Carmen (1948) até 1954, quando vendeu a empresa para pagar dívidas. Rita também passou na frente de Grace Kelly e foi a primeira estrela de Hollywood a se casar com um membro da família real: o príncipe árabe Aly Aga Khan. Com ele, Rita teve sua segunda filha Yasmin Aga Khan. 

As duas filhas de Rita: Rebecca e Yasmin                                    Divulgação/Montagem
Apesar de afirmar que não se afastaria dos filmes enquanto estivesse casada com o príncipe, durante seu casamento com Aly, de 1949 a 1951 (com o divórcio finalizado em 1953), Rita não estrelou em nenhum filme, nem ao ser convidada para interpretar a personagem Karen Holmes em A Um Passo da Eternidade (1953) ao lado de seu grande amigo Glenn Ford. O papel, é claro, foi dado para Deborah Kerr e foi um grande sucesso. Assim, ela não ganhou muito lucro com a The Beckworth Company. 

Depois do casamento, Rita voltou para Hollywood e estrelou em Um Caso em Trinidad (1952), ao lado de Ford, com grande sucesso, apesar de ela parecer receosa de fazer sequer mais um filme. Mesmo assim, ela estrelou em Salome (1953) e Saddie Thompson (1953) , este último pelo qual recebeu muitos elogios da crítica.  O único problema nessa época foi seu casamento com o trapaceiro Dick Haymes, que consumiu quase todas as finanças de Rita que foi, inclusive, denunciada por manter suas filhas em pobres condições, já que quase nunca estava com elas e sim com o marido controlador e viciado em jogo. O relacionamento acabou em 1955 e ela acabou se casando de novo, com o mais uma vez abusivo Jamie Hill, mas o relacionamento acabou depois de dois anos.

Rita Hayworth em 1976. Nessa época ela foi tirada à força de um avião ao ter um acesso de raiva     Divulgação/Youtube
O último papel de Rita na Columbia Pictures foi em Meus Dois Carinhos (1957), que Harry Cohn fez questão de firmar o lugar de Kim Novak como sua nova estrela, quase como se Rita fosse obrigada a lhe passar a tocha. Mas Hayworth não estava nada triste de deixar o estúdio, como ela mesma afirmou: "Ele achava que era o meu dono. (...) Às vezes eles me davam um filme ruim de propósito e me faziam tirar uma suspensão. E você quer saber o que eu acho dele? Eu acho que ele é um monstro."

Rita continuou a trabalhar em filmes até 1972 e o que muitos consideravam alcoolismo, já que ela estava cada vez mais irritadiça, nervosa e esquecendo suas falas, descobriu-se apenas mais tarde que Rita sofria o mal de Alzheimer, em 1980. Em uma entrevista de 1971 para o jornal The Victoria Advocate, Rita contou sobre seu problema de conseguir papeis: "Não tem muitos filmes para uma mulher da minha idade. Alguém sempre pega os papeis que eu quero." 

Mas não era só isso para Rita: em seu último filme A Divina Ira (1972), ao lado de seu grande amigo, Robert Mitchum que insistiu para a escalação da atriz, Rita não conseguia lembrar de suas falas e tinha que gravar cada uma de suas linhas de cada vez. Essa realidade deve ter sido horrível para Rita, que era conhecida por sua vivacidade e rapidez de decorar tanto falas quanto passos de danças no seu auge como atriz. 

Rita Hayworth estava mais frágil, mas sua reputação asegurou-lhe um caso com seu costar Frank Langella      Divulgação
Antes da descoberta do Alzheimer, até mesmo sua filha, Yasmin, achava que era demência causada por álcool. No fim de sua vida sofrida, na mão de homens controladores, rotinas ensaiadas e a busca pelo amor, Rita acabou dando uma nova luz e importância ao Alzheimer, ajudando nas pesquisas e arrecadações para estudo da doença, já que sua filha Yasmin criou a Associação de Alzheimer Rita Hayworth Gala em 1985, dois anos antes do falecimento de sua mãe, para reunir fundos para tentar descobrir a cura da doença. Nessa época, infelizmente, Rita não estava mais falando com sua filha mais velha, Rebecca.

E depois de tantas tragédias de sua vida, Rita não deixou se convalescer da doença, como mostra o documentário I Remember Better When I Paint (2009), na qual Yasmin narra que sua mãe produzia lindas obras de arte mesmo com a debilitante doença. 

Uma das frases mais famosas de Rita era a de que os homens dormiam com Gilda, mas acordavam com ela. E ao lado de amigos como Robert Mitchum, Jack Lemmon, Evelyn Keys e Ann Sheridan, Gilda não significava nada. Eles se importavam apenas com Rita, assim como ela deveria ter feito.

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