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A decepção do livro Scarlett, continuação de E o Vento Levou...

*Aviso: Spoilers sobre o livro

O final de E o Vento Levou... não poderia ser mais ambíguo. O romance entre a espirituosa Scarlett O' Hara e o nada cavalheiro Rhett Butler continua a fomentar o imaginário de gerações de leitores, que não se contentam com o final ambíguo do livro. Apesar da negativa de Rhett para Scarlett no final, com a frase: "Minha querida eu não dou a mínima", o livro acaba com a seguinte frase: "Penso nisso amanhã, em Tara. Vou aguentar então. Amanhã vou pensar em algum modo de tê-lo de volta. Afinal, amanhã é outro dia." Muitos leitores acreditam que Rhett e sua amada acabam juntos no final. Já outros acreditam que eles nunca dariam certo. E também existem uns poucos leitores que afirmam mudar de ideia do desfecho do casal a cada leitura. 

No entanto, Margaret Mitchell, a autora do livro, não tinha qualquer dúvida sobre o final de E o Vento Levou... e afirmou, com todas as palavras, na edição de 18 de outubro de 1945 da revista Yank: "Pelo que eu sei, Rhett pode ter achado alguém que é menos difícil. Por que, querida, pense nisso, dessa nova união hipotética poderia surgir um robusto jovem que cresceria para se tornar um charmoso segundo-tenente." E é aí que entra Alexandra Ripley, a escritora de Scarlett: A Continuação de E o Vento Levou. 

Ela foi escolhida pelos herdeiros de Mitchell para escrever a sequência    Osmund Geier/Creative Commons License
Tudo começou em 1975 quando o irmão de Margaret, Stephen Mitchell, temendo que os direitos autorais da autora não valeriam mais a partir de 2011 e que inúmeras sequências do clássico fossem feitas,decidiu autorizar uma continuação para que tivessem controle sobre o conteúdo e royalties. Foi assim que Alexandra, que já tinha uma vasta experiência ao escrever romances históricos como Charleston e New Orleans Legacy chamou a atenção dos agentes do patrimônio de Mitchell. 

Antes de Stephen Mitchell conseguir processar a MGM e ganhar controle de todos os direitos do livro, a produtora já tinha tentando tirar uma sequência do esboço com a autora Dianna Hammond, que daria o nome do roteiro/livro de Scarlett e Rhett, Anne Richards (autora da famosa biografia de Mitchell Road to Tara) que escreveu uma novela chamada Tara: A Continuação de E o Vento Levou.... com mais de 750 páginas, mas o produtor James Goldman acabou não gostando da densidade do livro e decidiu escrever seu próprio roteiro. Nenhum deles sequer saiu do papel. 

E foi assim que Alexandra tirou a sorte grande e acabou sendo escolhida para escrever a continuação. Uma grande dama sulista, ela nasceu em Charleston, a mesma cidade natal de Rhett Butler. Talvez seja por sua criação que a autora nunca tenha se identificado com Scarlett e já afirmou, para a revista People, que gostava muito mais da personagem Melanie: "Ela era tudo que eu tinha sido ensinada que gostaria de ser. Ela era uma dama e eu fui ensinada que se você não era uma dama, igual a Scarlett, eu não teria um final feliz." 

É claro que Ripley acabou dando o final feliz de Scarlett, que os fãs de E o Vento Levou tanto queriam, mas perdeu a essência da personagem no processo, exatamente por não entender Scarlett: ela até poderia não ser uma dama, mas nunca seria uma devassa. E a autora não soube dosar nada disso. Tanto que já afirmou que: "Eu não sei por que Scarlett tem um apelo tão grande. Quando eu comecei a escrever o livro, eu tive vários problemas porque a Scarlett não é o meu tipo de pessoa. Ela é praticamente iletrada, não tem gosto e nunca aprende de seus erros."  


O livro Scarlett começa no enterro de Melanie, quando a protagonista impede que Ashley salte em cima do caixão da amada. Repreendida mais uma vez por suas ações, Scarlett não parece se importar com mais nada a não ser ter Rhett de volta. Assim todo o amadurecimento da personagem no final de E o Vento Levou se perde. Ela não liga para suas obrigações, seus filhos e nem ao menos para Tara: ela larga tudo para viver na Irlanda e se tornar matriarca dos O'Hara. O único problema é que Scarlett não é nada sem sua terra e eu, como leitora, duvido muito que ela abriria mão de algo que é tão precioso para ela. 

Ao ler o livro de Mitchell, Ripley confessou em uma entrevista ao jornal The Baltimore Sun em 1991, que não conseguiria escrever tão bem quanto a autora e que leu o livro seis vezes antes de começar sua sequência. Infelizmente, a atenção de Ripley não serviu de nada porque ela, desde o começo, não conseguia entender Scarlett e esse foi seu grande erro. 

Isso ficou ainda mais claro quando Scarlett recebe a família bonachona da parte de seu pai, os O'Hara, com o coração aberto na Irlanda. Apesar do amadurecimento emocional, Scarlett ainda se preocupava com as aparências e fica difícil imaginá-la andando de pés descalços, grávida, pelas planícies da terra natal de seu pai. A parte mais complicada de se aturar, no entanto, é quando Scarlett e Rhett ficam finalmente juntos, nas últimas sete páginas da trama, e desistem de suas terras porque um é a casa do outro.  

O livro Scarlett deu origem a minissérie E o Vento Levou 2 de 1994                       Divulgação/Youtube
Em E o Vento Levou, Katie Scarlett O' Hara já contou várias vezes como a terra era importante para ela. Quando ela se casou com o Senhor Kennedy foi para salvar Tara, assim quando foi encontrar Rhett na prisão, para pedir um adiantamento para salvar sua plantação. Ela não apenas esqueceria Tara depois de tudo para deixar na mão do marido de Suellen, sua irmã mais nova. Tara é sua casa, sua estabilidade e Rhett é o seu amor. Um fato não anula o outro. 

Além do estilo literário bem diferente, embora Ripley tenha tentado ficar o mais próxima possível de Mitchell, a autora cria em seu livro um enredo mais mirabolante do que o outro, com até uma bruxa fazendo o parto de Scarlett na Irlanda. E foi aí que Alexandra perdeu seus leitores: ao tentar tornar a história mais interessante possível ela se esqueceu que às vezes o cotidiano e a dureza da vida, exatamente como ela é, já é mais do que suficiente para se escrever e ter um bom material. Ainda mais com personagens tão interessantes quanto Scarlett e Rhett. 

Para um fã aficionado por tudo relacionado ao E o Vento Levou... o livro deve ser lido, mas sem grandes expectativas. Se a história não fosse uma continuação de E o Vento Levou, com personagens com outros nomes, o livro até poderia ser considerado bem divertido. Mas como uma sequência de E o Vento Levou.., ele não funciona. Jamais. 

                           
Livro: Scarlett: A Continuação de E o Vento Levou...
Autora: Alexandra Ripley 

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3 comentários:

  1. Scarllet não precisa ser fantasiosa e romantizada, ela já é maravilhosa em Eo vento levou.

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    Respostas
    1. Com certeza, ela é uma das grandes personagens femininas da literatura e isso não transparece neste livro, infelizmente!

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  2. Ripley deveria continuar combatendo Aliens e não se meter com a vida de Scarleth....rs

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