A verdadeira história do filme Bohemian Rhapsody sobre o Queen - Caixa de Sucessos

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19/01/2019

A verdadeira história do filme Bohemian Rhapsody sobre o Queen

*Obs: a matéria ficou um pouco maior do que esperado, então dividimos em tópicos! 

Rami Malek ganhou o Globo de Ouro em 2019 como Melhor Ator de Drama por sua atuação como Freddie Mercury no filme Bohemian Rhapsody (homenageando a canção mais icônica da banda). Apesar dos críticos terem suas ressalvas sobre a película, chamando-na de uma "versão higienizada sobre Queen", todos concordam que a atuação de Malek é a melhor coisa sobre Bohemian Rhapsody.

O filme pretende contar a história da banda inglesa Queen, formada por Freddie Mercury, Brian May (Gwilyn Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello) desde seu início tocando em pubs londrino até a ascensão e o show histórico no festival Live Aid, em Wembley, Londres que aconteceu em 13 de julho de 1985. 

O que é verdade e ficção cinematográfica sobre Queen?                                       Divulgação/Gif
Por ser uma adaptação da história da banda, Bohemian Rhapsody sofre do mesmo problema de inúmeras outras cinebiografias: o de cortar e misturas várias linhas do tempo para dar maior dinamismo ao longa-metragem. Quem não é fã de carteirinha do Queen não deve notar essas mudanças, mas é impossível negar que esses "ajustes" e cortes tiraram um pouco do brilho do grupo nas telonas, porque a história do Queen em si é rica por si só.

Assim, nós da Caixa de Sucessos decidimos analisar o filme Bohemian Rhapsody (idem, 2018) e mostrar o que é verdadeiro e o que é falso no longa-metragem. 

COMO A BANDA QUEEN REALMENTE COMEÇOU
Os membros do Queen: John Deacon, Freddie Mercury, Roger Taylor e Brian May 
Freddie Mercury já conhecia Brian May e Roger Taylor antes da saída de Tim Staffell da banda Smile. Se você não está entendendo nada, explicamos: Freddie se formou na Faculdade Ealing Art College em 1969 no curso de design e logo depois da formatura ele quis perseguir seu sonho de se tornar um cantor, que ele mantinha desde os 12 anos de idade quando formou o grupo The Hectics. 

A partir daí, Freddie tocou em algumas outras bandas até que se interessou por um grupo em particular chamado Smile, formado por Brian May, Roger Taylor e Tim Staffell, de quem era amigo. Sobre o primeiro encontro de Freddie com os dois no começo de 1969, o guitarrista May relembra: 
Eu fui, pela primeira vez, apresentado ao Freddie Mercury - um homem paradoxalmente tímido mas exibicionista - do lado do palco em um de nossos shows iniciais com o grupo Smile. Ele me disse que ficou impressionado pelo jeito que nós tocávamos, que tinha algumas ideias e que sabia cantar! Eu não tenho certeza se o levamos a sério, mas ele agia como alguém que estava certo. 
Logo depois, Freddie conseguiu uma vaga de vocalista na banda Ibex e a amizade entre ele e os outros dois membros do Smile foi se fortalecendo, com Mercury e Taylor vendendo roupas juntos para ganhar alguns trocados a mais. A grande chance de Freddie se juntar a banda Smile, que depois se tornaria Queen, foi no final de 1969 quando Tim já estava cansado da vida na estrada deu a desculpa que o Smile não era a banda certa para ele. 

Tim Staffell realmente saiu da banda para se tornar vocalista do Humpy Dong, ao lado do ex-bateirista do Bee-Gees, Colin Petersen.  Mas foi apenas em abril de 1970 que o Smile finalmente mudou seu nome para Queen e se tornou uma das bandas de maior sucesso do mundo 

A PARTICIPAÇÃO DE JOHN DEACON NA BANDA (E POR QUE FOI DEIXADO DE FORA NO FILME)
John Deacon e Freddie Mercury eram amigos muito próximos
John Deacon foi o único integrante vivo de Queen que se recusou a continuar participando da banda depois da morte de Mercury em 1991. Após o falecimento do cantor, Deacon participou apenas de mais três apresentações como Queen: em 1992 em um concerto tributo para Freddie relacionado à AIDS, em 1993 com Roger Taylor em um show de caridade e em 1997 ao lado de Elton John para o Bejart Ballet em Paris, na França. 

Em uma entrevista em 1996, John Deacon deixou claro: "Não há sentido em continuar. É impossível substituir Freddie." Assim, o baixista finalizou seu trabalho no álbum Queen Rocks, o último da banda com músicas gravadas com Mercury, em novembro de 1997 e nunca mais se juntou a banda novamente. Brian May e Roger Deacon, no entanto, decidiram continuar usando o nome Queen com parcerias ao lado de vocalistas como Paul Rodgers, em 2004, e Adam Lambert, em 2009. 

Assim, quando o desenvolvimento do filme sobre Queen se tornou realidade lá em 2011 (quando ainda Sasha Baron Cohen estava envolvido), Brian May e Roger Taylor já estavam por dentro de todos os aspectos artísticos, porém sem sinal de John Deacon que cumpriu sua palavra na entrevista de 1996 e não se envolveu com mais nada da banda. Tanto que sua representação no filme foi prejudicada e Deacon é tratado como um personagem secundário, quase como se Freddie e ele fossem meros conhecidos e a união fosse mais forte entre Roger, Brian e Freddie.

Na vida real, John e Freddie eram os amigos mais próximos da banda Queen e a personalidade quieta do baixista lhe rendeu a alcunha de 'Easy Deacon', ou seja 'Fácil Deacon'. Ao falar sobre o músico em uma entrevista para a revista Circus, Freddie demonstrou como Deacon era importante ao grupo:
Ele [John] sabe tudo o que está acontecendo e o que não deveria estar acontecendo. O resto do grupo não faz nada a não ser que o John diga que está tudo bem. Todos nós nos tornamos empreendedores, embora não fosse por nossa vontade. 
Por isso é uma pena que Bohemian Rhpasody tenha renegado John Deacon a apenas um personagem que foi selecionado para ocupar o lugar de baixista na banda. Deacon foi vital para o Queen e o fato de ter sido menosprezado no filme, evidencia como Brian e Roger tentaram reescrever, em partes, a história da banda.

Outro ponto controverso é como Deacon entrou na banda. Bohemian Rhpasody faz parecer fácil, como se eles apenas tivessem encontrado alguém para participar da banda, mas na história verdadeira foi bem diferente: a ainda banda Smile teve dois baixistas: Mike Grose, que ficou até meados de 1970, e Barry Mitchell que partiu em janeiro de 1971.

Foi em fevereiro que Brian, Freddie e Roger tiraram a sorte grande e conheceram John: o baixista, segundo a biografia Freddie Mercury: A Kind of Magic de Mark Blake, através da namorada de Roger na época, que estava estudando em uma faculdade preparatória para professoras. Foi lá que ela conheceu a namorada de Deacon, que mencionou como o amado era um bom baixista. O resto é história! 

O RELACIONAMENTO ENTRE FREDDIE MERCURY E MARY AUSTIN
Freddie e Mary na vida real e os interpretados por Lucy Bonton e Rami Malek                      Divulgação
No filme Bohemian Rhapsody, vemos uma Mary mais desenvolta e certa de si, apesar de ser uma pessoa muito doce. Na vida real, no entanto, Mary Austin era tímida e quando conheceu Freddie tinha certeza que ele estava afim de sua outra amiga! 

Mas vamos por partes: se em Bohemian Rhapsody (idem, 2018), Freddie dá em cima de Mary nos bastidores de uma festa de faculdade, na vida real foi Brian May quem chamou a jovem de 19 anos de idade para sair! De acordo com a biografia Mercury: An Intimate Biography of Freddie Mercury de Lesley-Ann Jones, Brian notou Austin em um show no Imperial College por volta de 1970 e os dois logo começaram a sair, mas não havia química entre eles. Brian conta:
Ela [Mary] era bem desconfiada, então nós geralmente saíamos para tomar algumas bebidas, desejávamos boa noite com um beijo na bochecha e era isso, realmente. Nunca foi além disso e chegou em um ponto no qual Freddie começou a falar comigo sobre ela e ficou bem óbvio que ele queria sair com Mary. Então eu disse: 'Olha, nós não estamos saindo dessa maneira, somos só bons amigos, então eu vou te apresentar para ela.'
Assim foi feito! Freddie, aliás, estava tão afim de Mary que fazia questão de passar na loja de roupas Biba, assim como mencionado no filme, apenas para vê-la. Em entrevista republicada no livro Somebody to Love de Matt Richards e Mark Langthorne, Mary Austin conta: "Ocasionalmente, Freddie era corajoso o suficiente para ir sozinho [na loja Biba para vê-la], mas na maioria das vezes ele aparecia com Roger ou outro conhecido e ele me cumprimentava e sorria, e isso acontecia frequentemente e durou uns cinco ou seis meses." 

Freddie, finalmente, a chamou para sair em 5 de setembro de 1970, data de seu 24º aniversário, mas Mary recusou tentando dar "uma de difícil". Mesmo assim, o cantor insistiu e no dia seguinte eles tiveram seu primeiro encontro, no show da banda Mott The Hople. Cinco meses depois eles já estavam morando juntos. 

Apesar da história parecer um conto de fadas, Mary já admitiu que demorou uns três anos para realmente se apaixonar por Freddie, mas quando aconteceu já não tinha mais volta: "Eu nunca mais conseguia deixá-lo. A dor dele se tornou a minha e sua alegria era a minha alegria também," ela confessou.

Mary Austin e Freddie Mercury 
Já o pedido de casamento, que no filme Bohemian Rhapsody acontece quando os dois estão juntos na sala, depois de fazer amor, aconteceu de maneira bem mais extravagante, do jeitinho Mercury de ser. Em entrevista a revista Daily Mail em 2013, Mary revelou:
Em um Natal quando eu tinha 23, ele me comprou um anel e colocou na maior caixa de todas. Eu abri a caixa e dentro tinha outra caixa e mais uma e outra, até que eu encontrei uma caixinha. Dentro tinha um lindo anel de jade. Eu olhei e fiquei sem fala. Eu lembro de ter pensando que não entendia o que estava acontecendo. Então eu perguntei: 'Em que dedo devo colocar?' e ele respondeu: 'Dedo de anel, mão esquerda' e ele continuou: 'Porque, você quer se casar comigo?' Eu estava chocada, então eu sussurrei: 'Sim, eu vou'. 
Logo depois, Mary levou Freddie para conhecer o seu pai, que era surdo, assim como sua mãe que havia morrido quatro anos antes (ela se comunicava com eles através da língua dos sinais). A relação entre eles continuou a florescer enquanto o Queen lançava seu primeiro álbum homônimo em 1973, mas com o sucesso da banda, os dois começaram a ficar mais tempo separados e os questionamentos de Freddie quanto à sua sexualidade se tornaram mais frequentes. 

Nesse ínterim, até o final do relacionamento de Mary e Freddie em 1976, o cantor fez uma verdadeira ode à namorada com o hit Love of My Life no álbum A Night At The Opera em 1975. Em entrevista ao jornalista Ronald Ritter, o cantor confessa: "Sim, é verdade e detalha minha relação completa com Mary. Foi um presente especial em palavras para ela que agora ela pode guardar em sua vida." 

Mas o romance entre eles não era para ser. Finalmente Freddie revelou sua bissexualidade para Mary, no qual ela foi resoluta: "Eu não acho que você é bissexual, acho que você é gay". Apesar disso, na vida real, Freddie se recusou a se limitar e teve casos com homens e com mulheres, em menor escala. Os dois concordaram em se manterem amigos e apesar de não morarem mais juntos em 1980, a gravadora do Queen comprou um apartamento para Mary perto do flat de Mercury. 

Mary Austin teve dois filhos com o pintor Piers Cameron, Richard, afilhado de Freddie por volta de 1986 e Jamie, logo após a morte de Freddie em 1991. O cantor deixou boa parte de sua fortuna e sua mansão em Kensington, em Londres para Mary, que ficou ao seu lado e cuidou do cantor até o fim, apesar do astro namorar com Jim Hutton na época. 
Todos os meus amantes perguntam por que não poderiam substituir Mary, mas isso é simplesmente impossível. O único amigo que tenho é a Mary e eu não quero ninguém mais. Para mim, ela era minha esposa. Para mim era um casamento. Nós acreditamos um no outro e isso é suficiente para mim. - Freddie Mercury, 1985. 

O RELACIONAMENTO ENTRE FREDDIE MERCURY E JIM HUTTON
Freddie Mercury ao lado do namorado Jim Hutton
Apesar de não receber tanto destaque, Jim Hutton foi um parceiro essencial na vida de Freddie Mercury. Em Bohemian Rhapsody (idem, 2018), o encontro deles acontece quando Jim trabalha como garçom em uma das festas de Mercury e os dois começam a conversar. Após um breve beijo, Jim vai embora e deixa para a sorte, e a força de vontade do cantor, de procurá-lo. 

Na vida real, o relacionamento entre Jim e Freddie não aconteceu assim. De acordo com entrevista de Jim para o jornal The Time of London em 2006, o encontro deles não foi amor à primeira vista. Os dois se conheceram em março de 1985, cinco meses antes do histórico Live Aid, em uma boate gay chamada Heaven, em Londres quando Freddie perguntou o que Hutton gostaria de beber.
Nós dois estávamos usando um colete branco apertado e calça-jeans branca. Eu disse: 'Não, o que você quer para beber?' ao que ele respondeu: 'Uma vodka forte'. Depois ele me perguntou: 'O seu pênis é grande?'.
A partir daí, os dois começaram a namorar e Hutton, inclusive, esteve presente na incrível participação do Queen no Live Aid. O encontro com os pais de Mercury que aparece no filme, no entanto, nunca aconteceu. Os dois mantinham seu relacionamento o mais privado possível apesar se referirem como "maridos" e usarem anéis de compromisso, especialmente porque a família de Freddie era bem tradicional. Assim como o filme mostra com o anel de Mary, Freddie ficava extremamente chateado quando Jim tirava seu anel, mesmo que fosse para jardinagem.

Tanto que em entrevista para o jornal Sounds em 2006, Jer Bulsara, mãe de Freddie, deixa claro que o filho nunca se assumiu como gay para ela: "Não." Mas ela destaca que Mercury não se importava que as pessoas soubessem de sua orientação sexual, ele apenas considerava um assunto privado. Quando Freddie morreu, Jer mandou uma carta para Jim agradecendo por todo o carinho e cuidado que ele teve com seu filho.

Mary, Jim e Freddie juntinhos
Jim Hutton e Freddie Mercury viviam juntos na mansão do cantor em Kensigton, com Jim trabalhando como jardineiro oficial da mansão e, apesar de Bohemian Rhapsody mostrar um relacionamento cordial entre Hutton e Mary Austin, ex-namorada de Mercury, na vida real isso foi bem diferente!

Jim se incomodava muito com a presença de Mary e já foi creditado dizendo: "Mary nunca parecia ser capaz de lagar Freddie". Em sua biografia Mercury e Eu lançada em 1995, Jim afirma que Freddie deixou claro que após sua morte ele poderia ficar na mansão em Kensington, mas como o músico não oficializou esse suposto desejo em seu testamento, Mary pediu que ele se retirasse de lá, o que causou uma ruptura ainda maior entre eles. Jim ficou com 500 mil libras e comprou um terreno na Irlanda, sua cidade natal.

Sobre seu relacionamento com Freddie, que durou até sua morte em 1991, Jim afirma que apesar das festas loucas e consumo de cocaína do cantor, os dois eram um casal normal em seus momentos de intimidade:
Eu voltava do trabalho e nós ficávamos no sofá juntos. Ele massageava os meus pés e me perguntava sobre meu dia. Uma vez eu estava limpando a fossa, eu estava de pernaltas e ele disse que queria um abraço, então nos abraçamos e eu deixei cair lama por todo o chão.
Além de Jim, viviam na mansão Peter Freestone, então assistente de Mercury, e Joe Fanelli seu cozinheiro. Jim Hutton descobriu em 1990 que tinha AIDS, mas ele morreu 20 anos depois devido à um câncer de pulmão. Nunca saiu do lado de Freddie e esteve com ele até o final. 

PAUL PRENTER E A "PROMISCUIDADE" DE MERCURY
Freddie ao lado de Paul em uma de suas notórias festas
Paul Prenter recebeu a alcunha de "vilão" no filme Bohemian Rhapsody (idem, 2018) por ser retratado de que ele foi responsável pelo desmembramento da banda e por controlar cada aspecto da vida de Freddie, preenchendo sua vida com festas vazias e relacionamentos sem sentido.

Na vida real, no entanto, a história não era bem assim: embora os outros membros do Queen achassem que Paul era uma má influência, o assistente apenas começou a trabalhar para Freddie em 1977, depois do lançamento do álbum A Night At The Opera, e não desde o começo como o filme Bohemian Rhapsody retrata.

Paul e a banda se conheceram através de John Reid, o antigo empresário do Queen, e Freddie logo se sentiu atraído pelo pobre jovem irlandês, que afirmava que sua vida até então tinha sido trágica, e que precisava de ajuda. Freddie nunca negaria esse pedido a ninguém e, assim, começou uma amizade de 10 anos que terminou em traição.

Peter Straker, amigo próximo de Mercury, em entrevista ao livro Somebody to Love de Matt Richards e Mark Langthorn e, afirmou que Paul foi uma importante parte do distanciamento da banda: "Paul fazia tudo que Freddie queria ou desejava e ele podia ser uma pessoa bem divisiva, especialmente porque ele tinha a atenção do cantor." 

A influência de Paul chegou ao limite para o restante da banda quando ele começou a dar palpite no álbum Hot Space, sugerindo que soasse menos rock. Roger Taylor relembrou desse momento da banda com desgosto:
Ele era uma péssima, péssima influência no Freddie e, portanto, na banda. Ele queria que a nossa música soasse como se estivéssemos em uma boate gay. E eu não queria. 
Paul Prenter foi interpretado no filme Bohemian Rhapsody pelo ator Allen Reech
Apesar de um hit com Under Pressure, parceria com David Bowie, o resto das canções do álbum, lançado em 1982, não foi bem-recebido e até Freddie teve que assumir, publicamente, que eles já estavam planejando novas músicas. Brian, Roger e John odiavam Hot Space e sempre o consideraram o pior disco do Queen.

Foi a partir dessa época que Freddie adotou o estilo "clone", ou seja, o visual "macho" com bigode, um corpo bem definido e os cabelos curtos, assim como os gays na cena underground usavam. Freddie nunca precisou se assumir como homossexual, ele já estava claramente dando sinais de sua orientação sexual: via quem queria ver. As festas eram regadas de drogas como cocaína, heroína, e pessoas de todos os tipos, tornando-se lendárias e ficaram conhecidas como 'Freddie's Parties'.

Mas não se engane: Paul apenas ajudou Freddie a realizar o que mais queria fazer. De acordo com o livro Somebody To Love, desde a turnê do Queen em 1976 nos Estados Unidos, Freddie saia das obrigações pós-shows bem cedo e caia na noite gay da cidade de Nova York. Paul Gambaccini, amigo e locutor de rádio, recorda: "Eu sempre tive a impressão que suas idas para Nova York foram sempre bem loucas já que a cena gay lá era mais forte do que qualquer outro lugar."  Mas o grande erro do Bohemian Rhapsody (idem, 2018) é conectar essas festas "promíscuas" com a razão pela qual Freddie contraiu AIDS. A verdade é que qualquer um pode contrair o vírus, seja mais saidinho ou caseiro. A doença não discrimina: a única coisa que você precisa fazer é sexo sem proteção. 

John Reid, ao falar sobre a relação entre Freddie Mercury e Paul Prenter deixou claro que, nesta época, os dois viviam de forma dependente um do outro: "Ele se tornou muito ambicioso e determinado em expor Freddie. Eu não sei se eles tiveram um relacionamento sexual, mas era simbiótico. Os dois eram viciados em drogas e Paul agia como o seu fornecedor pelo mundo. Freddie precisava de apoio."

Mas, apesar de Paul ser uma das pessoas que ajudaram no declínio de Freddie, não foi ele que separou a banda ao falar sobre a oferta de dois discos solos para o cantor. Essa oferta nunca aconteceu. A demissão de Paul apenas ocorreu em 1987, quase dois anos depois do fatídico Live Aid. O motivo? Paul Prenter foi demitido da equipe de Freddie porque o músico descobriu que era ele que estava dando informações confidenciais sobre ele na imprensa britânica. O motivo de Paul fazer isso?Pode ter sido ciúmes: afinal, com a entrada de Jim Hutton, ele não era mais tão necessário quanto antes.

Diferente do filme Bohemian Rhasody, Paul não fez uma entrevista contando tudo que sabia sobre Freddie Mercury na TV e sim em uma matéria altamente polêmica para o tabloide The Sun, afirmando que o cantor tinha AIDS e havia passado para dois de seus parceiros sexuais. 

A QUESTÃO DO LIVE AID 
O show lendário retornou à banda aos holofotes
Diferentemente do que Bohemian Rhapsody (idem, 2018) mostra nas telonas, o Queen não havia se separado para que Freddie seguisse com sua carreira solo, após receber uma oferta para lançar dois álbuns solos. 

O que aconteceu, na realidade, foi um desgaste natural que ocorre em todas as bandas. Em 1983, vários tabloides noticiaram a separação do Queen, especialmente depois do fracasso comercial do álbum Hot Space que parecia ter estremecido o grupo. A verdade, no entanto, era outra. 

Cansados da vida na turnê, depois de dez anos lançando álbuns e os promovendo mundo a fora, a banda chegou em um acordo mútuo de que cada um se concentrasse em seus álbuns solos e explorassem sua individualidade. Infelizmente, esse acordo entre quatro homens maduros ganhou uma versão ficcional que explorou, cada vez mais, o lado "diva" de Freddie Mercury, mas de uma maneira negativa. 

Para se ter uma ideia, Freddie achava toda a história da banda ter se separado uma besteira e foi creditado afirmando:
Seria uma besteira começar uma nova banda aos 40 anos de idade. 
Durante esse tempo, Roger Taylor estava ocupado com seu segundo álbum Stranger Frontier, lançado em 1984, três anos depois de seu primeiro, Fun in Space. Brian May, aliás, também se concentrou em seu primeiro EP, o Star Fleet Project enquanto Freddie Mercury trabalhava no Mr. Bad Guy. Entre todos, apenas John Deacon descartou projetos solos e se concentrou na família: sua esposa Veronica Tetzlaff (para quem ele escreveu You're My Best Friend) estava grávida do quarto filho do casal. 

O clipe I Want to Break Free foi ideia de Roger Taylor 
Em agosto de 1983, no entanto, eles já estavam de volta a ação trabalhando em seu décimo primeiro álbum The Works, e saíram para fazer uma turnê do álbum (que passou no Rio de Janeiro em 1985). Depois que I Want To Break Free teve seu clipe banido na América por mostrar os membros do Queen como drag queens, eles juraram dar um tempo. Isso não deu muito certo: Live Aid estava próximo! Apesar do que o filme quer retratar, o Queen de fato, nunca se separou, sempre estiveram na ativa. 

Na vida real, Paul Prenter não foi o grande vilão que quase impediu Freddie de tocar no Live Aid, o maior show do mundo na época para combater a fome na África. Bob Geldof, cantor que organizou o evento, segundo o livro Mercury: An Intimate Biography of Freddie Mercury de Lesley-Ann Jones, tentou pedir para o Queen participar do festival através de Spike Edney, que trabalhava como músico para a banda, mas os integrantes ficaram ofendido e perguntaram: "Por que ele mesmo não nos convida?" 

O Queen só aceitou o convite através de Jim Beach, o novo empresário da banda depois da saída de John Reid em 1978, quando Bob foi atrás dele e o confrontou sobre a recusa da banda: pelo visto Freddie tinha ficado chateado de não receber um convite oficial. Nisso, Bob afirmou:
Então eventualmente eles nos retornaram e disseram que definitivamente faria e eu pensei 'ótimo'. E quando eles fizeram Live Aid, Queen foi absolutamente a melhor banda daquele dia. Quando o dia chegou, eles tocaram melhor, soaram melhor e eles usaram o tempo da melhor forma possível. Eles entenderam o conceito do festival - que era uma jukebox global. Eles foram e arrasaram com um hit atrás do outro. Foi inacreditável. 
Para se ter uma ideia do sucesso do Queen em Live Aid, de acordo com o namorado de Freddie, Jim Hutton, Elton John afirmou após a apresentação da banda: "Seus desgraçados, vocês roubaram tudo". O efeito Live Aid foi real e a banda estava mais energizada do que nunca, com o amor dos fãs, para continuar a trabalhar e divulgar suas músicas. 

A apresentação do Queen no Live Aid, em 13 de julho de 1985, deu o gás que Queen precisava para retomar o seu amor por tocar ao vivo e um ano depois, quando trabalharam no álbum A Kind Of Magic, eles saíram em sua última turnê, pois em 1987 Freddie descobriria que estava com AIDS.


Bem diferente da linha do tempo mostrada em Bohemian Rhapsody (idem, 2018), não? O que nos leva ao próximo tópico....

A LINHA DO TEMPO DE BOHEMIAN RHAPSODY

Freddie Mercury e Rock In Rio 
Um erro gritante no filme Bohemian Rhapsody (idem, 2018) que desagrada do espectador é a linha do tempo totalmente inequivocada. Mas não se engane; apenas quem é fã, com algum conhecimento da história da banda vai notar esses erros, que são gritantes demais para terem sido apenas coincidência: foi um recurso utilizado pelo diretor Bryan Singer e o substituto Dexter Fletcher para incluir no filme os momentos mais marcantes da carreira do Queen. 

Um recurso que saiu pela culatra! Um exemplo: quando Freddie Mercury termina com Mary no filme, os dois estão vendo a performance do Queen no Rock in Rio em janeiro de 1985. Ficou perplexo? Pois é, o cantor e Austin tinham terminado há quase dez anos quando o Queen veio tocar no país. Poderiam ter mostrado a cena icônica da audiência brasileira cantando acapella Love of My Life na data certa, afinal a vinda de Queen ao país aconteceu antes do Live Aid e não era necessária para a cena de término de Freddie e Mary. 

Outro caso é o relacionamento entre Freddie e Jim que é exibido de modo acelerado, quando o cantor vai buscá-lo no mesmo dia do Live Aid. A verdade é que os dois já estavam namorando há meses antes disso. Uma licença poética desnecessária. Seria um benefício ao filme e ao legado de Mercury se tivessem mostrado mais de Jim Hutton, um dos parceiros mais importantes na vida do músico, depois de Mary Austin. 

Outros erros graves foram cometidos em datas relacionadas as músicas do grupo: a icônica canção We Will Rock You foi lançada no álbum no álbum News of The World em 1977 quando Freddie ainda usava seu visual andrógino e sem o bigode, como o filme Bohemian Rhapsody (idem, 2018) retrata. Crazy Little Thing Called Love veio depois, no disco The Game de 1980. 

Outro erro na linha do tempo de Bohemian Rhapsody (idem, 1985) foi a inserção de Fat Bottomed Girls no início da turnê do Queen em 1976, quando a música apenas foi lançada em 1978. Como filme, Bohemian Rhapsody pretende maravilhar o espectador com o maior número de hits do Queen, apostando que a nostalgia e o poder da música do Queen faça com que não se note esses "pormenores" de cronologia. Infelizmente, é impossível não notar! 

Uma decisão cronológica que causa estranhamento na audiência é o pulo que a banda faz de tocar em bares universitários para conseguir uma gravadora, indo direto para o Top of The Pops em 1974 com o hit Killer Queen. A verdade é que a canção é do terceiro álbum de estúdio da banda, o Sheer Heart Attack (1973). Os dois álbuns anteriores, Queen e Queen II não tiveram tanto sucesso e a presença do Queen no programa, depois que David Bowie cancelou de última hora, foi o que os colocou no mapa no Reino Unido e, consequentemente, no mundo todo. 

Por fim, existe um acontecimento detalhado com sucesso no filme que mostra como é possível de seguir a história verdadeira da banda: Bohemian Rhapsody, o grande hit da banda no álbum A Night At The Opera foi realmente considerado longo demais para ser tocado no rádio e a gravadora da banda, a EMI Records sugeriu um corte que o Queen veemente negou. Assim como foi exibido no filme, foi graças a participação de Freddie no programa de rádio de Kenny Everette, ao lhe dar uma cópia do single 'proibido', que a canção recebeu destaque e se tornou um verdadeiro hit.

Todas as possibilidades para que o filme Bohemian Rhapsody (idem, 2018) mostrasse a realidade da vida da banda estavam lá. Por que não utilizaram? 

FREDDIE MERCURY E A AIDS
Freddie Mercury já estava bem debilitado em 1991
Infelizmente, assim como no filme Bohemian Rhapsody (idem, 2018), a história de Freddie Mercury tem um final trágico: o cantor morreu de complicações da AIDS em 24 de novembro de 1991.

Freddie recebeu o alerta vermelho de que poderia estar infectado com a doença quando seu ex-amante Tony Bastin morreu de AIDS no final de 1986. No começo de 1987, Freddie realizou o teste e descobriu que já tinha contraído a doença. Diferentemente do filme, no entanto, não contou a verdade para os seus colegas de banda abertamente. Isso porque, na época, o estigma em volta da doença era tremenda: pessoas achavam que AIDS podia ser transmitida pelo toque, que apenas pessoas gays podiam contrair a doença e outras desinformações ridículas sobre a doença que tornava a vida de quem o tinha ainda mais solitária.

Roger Taylor, em entrevista ao jornal The Sounds, em 2006, conta que Freddie nunca abriu a verdade para os colegas e eles foram percebendo a gravidade de tudo apenas com o passar do tempo:
Ele não disse para ninguém da família. Nós descobrimos gradualmente que ele tinha uma doença, mas não tínhamos ideia de quão sério era. Então em agosto de 1990, eu e Kash [sua esposa na época] vimos uma marca vermelha no pé de Freddie. Era um carcinoma de Kaposi. Kash perguntou o que era, se estava melhorando e Freddie afirmou: 'Vocês tem que entender que o que eu tenho é terminal. Eu vou morrer'. Apenas isso, ele não disse que era AIDS. 
Brian May confirma a versão de Roger e relembra que, quando começaram a gravar The Miracle em 1988, Freddie não escondeu que estava doente, mas não detalhava seu estado:
Primeiramente ele disse: 'Vocês provavelmente já sabem do meu problema, minha doença.' E naquela época acho que já sabíamos, mas não falávamos. E então ele disse: 'É isso. Eu não quero que faça diferença nenhuma. Eu não quero que saibam, eu não quero falar sobre isso, eu só quero continuar e trabalhar até o dia que eu não puder mais.' Acho que nenhum de nós vai esquecer desse dia. Todos nós saímos e passamos mal em algum lugar.
Determinado a gravar o máximo de músicas que podia antes de morrer, Freddie Mercury voltou ao estúdio e gravou o álbum Barcelona, todo de ópera, ao lado da cantora soprano Montserrat Caballé.


Com o Queen, ele se focou em escrever músicas autorais que descreviam seu estado emocional e mental como The Show Must Go On e Was It All Worth It, e finalizou os álbuns The Miracle, de 1989, e Innuendo em 1991, lançado no mesmo ano de sua fatídica morte. Made in Heaven foi compilado em 1995, como uma homenagem pós-morte para Freddie, reunindo algumas de suas canções para o álbum solo Mr. Bad Guy, assim como Queen Rocks em 1997.

Freddie, aliás, apenas contou apenas que tinha AIDS para pessoas muito próximas, como Mary e Jim, e apenas fez seu anúncio na imprensa, um dia antes de sua morte, por persuasão de Jim Beach, seu empresário que acreditava que Freddie não deveria morrer sem antes contar a verdade sobre sua condição aos fãs.

O último videoclipe de Mercury foi da canção These Are The Days of Our Lives, lançado em 30 de maio de 1991. Ao final do clipe, ele sussurra: "Eu ainda amo vocês". E o sucesso do filme Bohemian Rhapsody (idem, 2018), apesar das inconsistências da obra, é a prova definitiva disto: nós também te amamos, Freddie.





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