A criatura em O Monstro da Lagoa Negra (1954) - Caixa de Sucessos

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04/03/2019

A criatura em O Monstro da Lagoa Negra (1954)

Julie Adams, a eterna Kay Lawrence de O Monstro da Lagoa Negra (Creature from The Black Lagoon, 1954), morreu aos 92 anos de idade no dia 3 de fevereiro de 2019. Apesar de ter feito vários outros filmes, participações em séries e até arriscado um pé no teatro, é impossível desconectar a imagem de Julie da cena maravilhosa dela nadando no lago, em sincronia, com o monstro

Os efeitos especiais do filme, desde as cenas de nado e ataque da criatura até o próprio visual do monstro, foram um esforço de equipe liderado por Bud Westmore (diretor de maquiagem artística), Russell A. Gausman e Ray Jeffers (responsáveis pelo cenário), Scotty Welbourne, responsável pela fotografia na água e James Curtis Havens que dirigiu as cenas debaixo d'água de O Monstro da Lagoa Negra (Creature from The Black Lagoon, 1954). 

Julie, ou melhor Kay, assustada com o realismo da criatura                            Divulgação
De acordo com o livro Meet the Creature from the Black Lagoon por Brent Peterson, o fato de O Monstro da Lagoa Negra (Creature from The Black Lagoon, 1954) ter sido todo filmado em formato 3D, ou seja, em vidros de papelão com lentes especiais, realçava todos os detalhes do longa, fazendo com que eles pulassem para fora das telonas. 

O mais importante, no entanto, era a formação da criatura, muito mais do que os atores que os interpretavam. Para as cenas em terra firme, Ben Chapman foi o escolhido por sua imponente altura: 1,95 cm! Já para aquelas que aconteciam na água, e que exigiam uma expertise, o escalado foi Ricou Browning, um campeão olímpico que conseguia segurar sua respiração por mais de cinco minutos debaixo d'água. . 

Chapman, no entanto, tinha uma rixa com Ricou, até afirmando, erroneamente, que ele teria sido seu dublê debaixo d'água. Mas em entrevista ao site The Reel Gilman, Ben Chapman resolveu se focar no filme e contou como era feito o traje que usava de monstro, que demorava até três horas para ser colocado:
O traje era feito de borracha de espuma. Não era pesado, era bem leve. Era confortável, a única coisa ruim é que era apenas de uma peça e só o meu rosto recebia ar. O resto estava todo fechado, o que era perigoso já que se você fecha seus poros, é desse jeito que seu corpo respira. [...] Se eu estivesse em um lago e me sentia hiperventilando, eu entrava na água e nadava o dia todo. Se eu estivesse no estúdio, eu tinha um cara com uma mangueira. 
No caso de Browning, a borracha de espuma embaixo d'água deixava o traje pesado e frio e ele tinha que batalhar para poder se esquentar. No começo, a equipe lhe dava algumas doses de whisky para ficar mais acesso, mas quando ele começou a ficar bêbado e "nadando em zigue zague", a alternativa foi descartada e o nadador teve que lidar com o frio.

O Monstro da Lagoa Negra foi baseado no folclore brasileiro o Cabloco D'Água, tanto que o longa se passa no Brasil.  O Cabloco é um ser mítico, defensor do Rio São Francisco que tem uma aparência monstruosa com garras e barbatanas, e que defende o rio de pescadores e exploradores. Ele pode viver fora d'água, mas não pode ficar muito longe da beira do lago. A Universal queria tanto que os telespectadores acreditassem que a criatura era real que não creditou os atores no longa-metragem, para tentar criar uma atmosfera de mistério entre os fãs do filme. 

Milicent Patrick, atriz e maquiadora, foi outra que não recebeu o devido crédito no filme, mas foi a responsável pela criação da criatura e todo o visual que os fãs conhecem e amam. Era vista, inclusive, no set de filmagens dando alguns retoques artísticos em sua criação. Em 1952, trabalhando no estúdio da Universal, a experiente artista foi contratada por Bud Westmore para criar todo o visual da criatura, tendo feito o mesmo para filmes renomados de terror como Abbott e Costello Enfrentando o Médico e o Monstro (1953) e Veio do Espaço (1953). 

Milicent foi a segunda mulher, depois de Diana Gemora, a projetar um monstro icônico dos cinemas.
Segundo a entrevista de Milicent para o jornal The Brooklyn Eagle Daily em 1954 intitulado Science Fiction Monsters - Who Invents Them? A Girl!, a criatura, ou melhor o visual final de como seria o Gill-Man demorou seis semanas para ficar pronto:
Eu fiquei seis semanas fazendo ele. Ele mudou de forma três vezes antes de receber a aprovação dos executivos que dão a última palavra em Hollywood. A forma que ele está agora, eu acho fofo. Mas isso é porque eu trabalhei nele durante tanto tempo. Espera-se que ele assuste outras pessoas. 
Apesar do que é divulgado em muitos sites e jornais, Milicent foi a única responsável pela concepção visual do Gill-Man. Bud Westmore e sua equipe de maquiagem artística ficaram encarregados apenas da tarefa de esculpir o monstro. O processo era feito da seguinte maneira: colocavam um gesso para tirar um molde de cada pessoa que usaria o traje, que era preenchido com látex líquido, colorizado de verde no caso da criatura, com nuances de ouro e marrom para dar mais profundidade ao traje. 

O molde de látex, com todos os acessórios prontos, era colado em um tecido de algodão bem fino e de tamanho exato dos atores, junto com a cabeça, com espaço grande para os olhos e a boca, e o pé sendo colocados separadamente. Os detalhes eram adicionados e colocados por cima desse molde que no corpo, era de espuma de borracha.

As botas, que representavam o pé tinham um zíper que iam até as panturrilhas com um barbatana cobrindo essa parte. A mesma coisa acontecia com as mãos: os zíperes, do lado de dentro das luvas, eram cobertos por outras barbatanas. As luvas então eram presas no resto do traje para parecer que eram um só. Finalmente, a parte da cabeça também tinha um zíper atrás, coberto por mais uma barbatana. Assim foi criado a criatura!

Bud Westmore, Chris Mueller Jr e Milicent Patrick: responsáveis pela criatura. Abaixo, Ricou sendo moldado e Ben na fantasia
Com toda a publicidade da Universal centrada em Milicent Patrick, que estava sendo denominado de A Bela que Desenhou a Besta, Bud ficou possesso e mandou memorandos dentro do estúdio afirmando que ele era o criador da criatura, sendo que Milicent apenas ajudou a finalizar seu já iniciado trabalho, e que ele nunca mais a contrataria para nada dentro do estúdio. Uma clara tentativa de diminuir o trabalho de Milicent Patrick, como elabora o livro The Lady From The Black Lagoon de Mallory O'Meara, baseado na vida da artista. 

Porém não foi apenas Milicent que teve seu nome apagado dos créditos do filme. Apesar de Scotty Welbourne ser creditado como chefe de fotografia debaixo d'água, Ricou Browning conta que o profissional era o verdadeiro responsável de como ele deveria agir em suas cenas, em entrevista ao livro Universal Terrors, 1951-1955: Eight Classic Horror and Science Fiction Films por Tom Weaver, David Schecter, Robert J. Kiss
Nós ficávamos na beira do lago com Havens [creditado como diretor das cenas aquáticas] e nós falávamos e ensaiávamos a cena que seria, por exemplo, 'a criatura nada atrás da garota'. Então quando o resto de nós íamos lá para baixo, nós tínhamos que achar um jeito de gravar a cena e como teria que ser feito. Scotty e eu eramos os responsáveis por isso. Se eu tinha ido bem, Scotty e eu dizíamos: 'Foi ótimo' e Havens dizia: 'Ok' e então fazíamos a próxima sequência. 
Ricou, aliás, junto com a dublê de Julie Adams, a Ginger Stanley, foram responsáveis pela belíssima cena de "balé na água" do filme. A atriz revelou que, para ela, a cena era como "fazer amor" e elabora:
Para mim, um dos momentos mais excitantes de O Monstro da Lagoa Negra foi quando fomos ver Florida Unit Dailies com Ricou e Ginger fazendo o seu belíssimo balé na água.O jeito que ele imitava cada movimento dela era incrível e ainda mais maravilhoso quando foi juntando com as minhas próprias cenas nadando na superfície. Eu ainda amo ver essa cena. 

A maior parte de O Monstro da Lagoa Negra (Creature from The Black Lagoon, 1954) foi gravada na Califórnia no estúdio da Universal, mas a fantástica cena de balé aquático foi a única gravada fora: no sul da Flórida em Wakulla Springs.

Nas cenas no tanque de água da Universal, Ricou Browning usava a técnica de respirar com uma mangueira de ar, no qual vários homens em diversos cantos do tanque, ficavam com um à postos caso ele precisasse respirar.

Ele relembra: "Eu teria um homem de segurança segurando a mangueira de ar enquanto eu estivesse respirando. Quando eu estivesse pronto, eu dava um sinal de ok ao Scotty e continuava respirando. Quando ele me desse o ok e eu deixava a mangueira com o homem e nadava. Do outro lado havia um outro homem que estava com uma mangueira se eu precisasse."

Acima, no tanque da Universal. Abaixo, no lago da Flórida. 
O tanque do estúdio Universal, conforme o livro Universal Terrors, 1951-1955: Eight Classic Horror and Science Fiction Films por Tom Weaver, David Schecter, Robert J. Kisstinha 9 metros de profundidade e 6 metros de diâmetro, com um buraco para a entrada e outo para a saída. Existiam várias réplicas da cabeça do Gill-Man para as cenas debaixo d'água e apenas uma peça de corpo, processo esse que demorava mais para ser feito do que os outros. Como era extremamente colado, os atores que interpretavam a criatura tinham que manter o peso sempre regular, sem engordarem ou emagrecerem.

Os artistas Jack Kevan, que supervisionou o visual final da criatura, Chris Mueller e Bob Hickman foram os verdadeiros responsáveis por esculpir o Gill-Man e por transformar, em realidade, o desenho de Milicent.

Apesar de ganhar mais dois filmes, a Revanche do Monstro (Revenge of The Creature, 1955) e À Caça do Monstro (The Creature Walks Among Us, 1956) foi o longa original, lançado em 12 de fevereiro de 1954, que conquistou o coração do público e dos fãs de filmes de terror. Nenhuma das outras continuações contou com os atores originais e a magia da criatura, foi pouco a pouco, se perdendo sem conseguir ser replicada.

Em O Monstro da Lagoa Negra (Creature From The Black Lagoon, 1954) tudo se encaixa e mostra , ainda, como uma terrível criatura pode ser tão bela: basta olhar mais de perto.

Life Magazine

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