Ruan Lingyu no clássico A Deusa (Shen nu, 1934) - Caixa de Sucessos

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15/07/2019

Ruan Lingyu no clássico A Deusa (Shen nu, 1934)

*aviso: esta matéria trata sobre suicídio e depressão.

Ruan Lingyu pode não ser um grande nome no cinema mundial (e deveria!), mas na China nos anos 1930, a atriz era uma enorme estrela. Seu talento e sua morte prematura aos 24 anos de idade, aliás, marcaram de vez seu lugar como um ícone do cinema chinês. 

Descobri o nome de Ruan através de um Instagram dedicado à memória das estrelas do cinema mudo, o @silenceisplatinum, e fiz questão de descobrir mais sobre essa dedicada artista, que teve uma vida breve, porém brilhante. Assim, o filme A Deusa (Shen Nu, 1934), o mais famoso da filmografia da chinesa se destacou - e como! 

Ruan Lingyu, nascida Ruan Feggen e também conhecida por seu nome em inglês Lily Yuen, nasceu em 26 de abril de 1910, em Shangai na pequena vila Xiagnshan County, na província de Guangdong. Seu pai, Ruan Yongrong, era de uma família muito pobre e havia se mudado para Shangai seis anos antes para conseguir um futuro melhor. Já sua mãe, He Aying, depois da morte do seu marido e de sua filha mais velha, começou a trabalhar como empregada para sustentar Lingyu na casa da rica família Zhang, cujo filho logo reaparecerá na vida de Lingyu. 

Ruan aos 23 anos de idade - considerada a Greta Garbo chinesa
De acordo com a biografia 神女: The Goddess of Shanghai da Hong Kong University Press, a mãe de Lingyu conseguiu colocá-la em uma boa escola particular para expandir sua educação e onde seus amigos alimentaram sua paixão pelo cinema - levando a jovem para assistir filmes sempre que podia. Ela, no entanto, decidiu ser uma atriz desde pequena, ao ser levada pela amiga de seus pais ao teatro.

Quando sua mãe foi demitida de seu emprego por culpa do filho mais novo da família Zhang, o Damian, Ruan e ela receberam o apoio do rapaz, que as abrigou em uma de suas casas e prometeu se casar com a futura atriz. A Madame Zhang o expulsou de casa considerando a união desonrosa e, posteriormente, o deserdou.

Assim, noiva e sem perspectivas de dinheiro já que Damian era um viciado em jogo que se afundava em dívidas, Lingyu respondeu a um anúncio no jornal do estúdio Ming Xing em março de 1926, que estava procurando por uma atriz principal para o filme Husband and Wife in Name (sem tradução). Foi assim o começo da carreira de Ruan e também sua ruína.

Em 1930, depois de sua primeira tentativa de suicídio, ela se juntou ao estúdio Lianhua, fundado por Luo Mingyou, e que prometia produzir filmes de alta qualidade para a indústria cinematográfica doméstica focando-se em popularizar a educação social e na realidade do povo chinês. Logo depois ela adotou sua filha Xiaoyu.
O filme Spring Dream of The Old Capital foi o primeiro filme que fiz quando me juntei ao estúdio Lianhua. Eu já estive em 10 filmes agora. (...) Os profissionais envolvidos na indústria do cinema fazem isso apenas para ganhar dinheiro. Ninguém fala sobre estudar ou pesquisar esta arte. Para mim, por exemplo, agora eu dependo apenas dos filmes para ganhar dinheiro. - entrevista de Ruan Lingyu em 1933.
Ruan Lingyu estava pronta para mostrar suas melhores performances em Love and Duty (idem, 1931), Peach Girls (idem, 1931), Three Modern Women (idem, 1933) e, é claro, A Deusa (The Goddess, 1934) - todos filmes mudos.

Cena do filme A Deusa (The Goddess, 1934)
A Deusa (Shen nu, 1934), é um dos primeiros filmes da história do cinema que aborda a prostituição, contando a história de uma pobre mãe solteira, vivida por Ruan Lingyu, que para sustentar à si e à seu filho, interpretado por Ling Keng, trabalha como prostituta pelas ruas da China. Em uma noite fugindo da polícia, ela acaba nas garras do Chefão (Zhang ZhiZhi) que a nomeia como sua mulher e pega grande parte do seu dinheiro para jogar. A jovem, no entanto, quer dar uma vida melhor ao seu filho e busca lhe dar uma educação - custe o que custar.

Escrito e dirigido por Yonggang Wu, A Deusa (Shen nu, 1934) refere-se a palavra shennü, que além de significar "deusa", também é um eufemismo para a prostituição. Assim, enquanto a personagem de Lingyu é uma mãe feroz, disposta a se sacrificar pelo seu filho, ela tem que se prostituir e vender uma parte de si mesma para isso.

Para entender melhor o filme, é necessário compreender a sociedade chinesa na época de A Deusa (The Goddess, 1934). Considerado um dos períodos mais tumultuados do país, já que em 1931 o Império Japonês invadiu a China e a guerra culminaria em 1937. Ademais, a Guerra Civil Chinesa estava à todo vapor. Em Shangai, onde a história de A Deusa (Shen nu, 1934) se passa, a cidade sofria de invasões, clima instável e a presença japonesa, além de um boom comercial desenfreado - nessa época mais de 100 mil mulheres recorriam a prostituição como meio de vida.

A personagem de Ruan Lingyu era um reflexo das mulheres do seu tempo. Mas, acima de tudo, era uma mãe disposta à tudo para prover o melhor para o seu filho, como Marlene Dietrich em A Vênus Loira (The Blonde Venus, 1932).

A Deusa e seu amado filho
A ideia original do roteirista e diretor Yonggang Wu, entretanto, era que A Deusa (Shen nu, 1934) focasse mais na realidade cruel da prostituição. Ele desistiu dessa ideia porque ele percebeu que não tinha acesso ou nem conseguia se relacionar com essa realidade.

De acordo com a matéria que ele mesmo escreveu, replicada no livro Remaking Chinese Cinema: Through the Prism of Shanghai, Hong Kong, and Hollywood Por Yiman Wang, o roteiro seria bem diferente:
Quando eu comecei a escrever o roteiro, eu queria focar na experiência de vida das prostitutas. Mas minhas circunstâncias tornaram isso impossível. Para esconder essa fraqueza, eu foquei no amor maternal enquanto deixava a prostituição como plano de fundo, mostrando a vida de uma prostituta ilegal enquanto ela luta entre duas vidas para proteger sua criança. Eu uso um assunto explorativo para impulsionar o enredo. Eu também permito colocar as palavras de justiça na boca de um diretor de escola deixando que ele exponha a causa social da prostituição. Eu não ofereci uma solução ao problema. Minhas circunstâncias apenas permitem que eu peça por simpatia e justiça. Eu reconheço a minha covardia, que permite uma tentativa humilde. 
A cena inicial de A Deusa (Shen nu, 1934) deixa explícito essa dicotomia ao exibir uma estátua de uma mulher com as mãos amarradas atrás das costas tentando amamentar o seu filho. O texto de abertura lê-se:
A Deusa...lutando no redemoinho da vida...nas ruas, ela é apenas uma prostituta qualquer...mas quando ela segura seu filho nos seus braços ela se torna uma mãe amorosa. Entre suas duas vidas, ela mostra uma grande humanidade. 
Graças a atuação forte de Ruan Lingyu conseguimos nos conectar e compadecer com sua personagem, que se vende por necessidade e coloca o seu filho acima de todos. A única vez que o telespectador vê a Deusa se descontrolar e agir por impulso próprio é quando ela vai enfrentar o Chefão em busca do dinheiro roubado, buscando justiça em uma sociedade corrupta. É nesse momento que ela tenta reaver sua independência e sua posição como ser humano. Infelizmente, o mundo logo lhe mostra qual é o seu lugar e que ela nunca será nada além disso- algo que ela não quer que seu filho pertença.

O diretor, vivido por Tian Jiang, representa a consciência social
O filme A Deusa (Shen nu, 1934) tem em um de seus grandes trunfos o fato de ser parte do cinema mudo: tudo que precisa ser dito é feito através dos olhos de Ruan Lingyu e do roteiro conciso de Yonggang Wu. A representação da caótica cidade de Shangai como a causa do problema social, a Deusa e o Chefão como vítimas dessa causa, além do diretor como a figura de consciência e o filho representando o futuro social que a mãe sempre almejou. Tudo isso evidencia a atualidade do assunto e como o ambiente pode influenciar uma pessoa - que faz tudo para sobreviver. Fica a questão: passaram-se 85 anos e o que de fato realmente mudou?

O preconceito que a Deusa enfrenta das outras mães, o título de "menino miserável" de seu filho e sua desonra podem ser aplicados em inúmeras histórias e épocas diferentes e todas com o mesmo resultado - o julgamento desenfreado dos outros que causa a ruína de muitos. Um sintoma da desigualdade social e do capitalismo que perdura até hoje.

A Deusa (Shen nu, 1934) é uma grande película cujo grande trunfo é ser justamente um filme mudo, pois consegue transcender a barreira da linguagem mostrando uma realidade tão poderosa: o amor incondicional de uma mãe e a injustiça social, especialmente aquela direcionada às mulheres. O filme chinês, portanto, torna-se um clássico e uma análise da sociedade como um todo.

O ambiente influencia o indivíduo
Ruan Lingyu surpreendeu à todos com sua performance e cimentou de vez seu lugar como uma das mais importantes atrizes chinesas do período. Com o advento cada vez mais próximo dos filmes falados, ela preparava sua voz para fazer uma transição bem-sucedida, porém não contava com os problemas de sua vida pessoal que a calariam para sempre.

Nesse ínterim de gravar A Deusa (Shen nu, 1934), Ruan estava se separando, secretamente, de Damian (cuja jogatina estava fora de controle) e começou um namoro com o gerente da Chahua Tea Company, Tang Jishan, mais para o final de 1933. Ela entrou em um acordo com Zhang, no qual lhe pagaria 100 yuans por um período de dois anos para que os dois se separassem legalmente. O playboy milionário, no entanto, entrou em mais dívidas e tentou extorquir dinheiro de Ruan e seu novo amante que, infelizmente, também abusava fisicamente da atriz.

Damian contratou um advogado para processar Ruan e Tang e o novo amante da atriz fez o mesmo sob o pretexto de difamação.  Dois dias antes do caso ir ao tribunal, como reconta o livro Cinema and Urban Culture in Shanghai, 1922-1943 Por Yingjin Zhang, Ruan Lingyu tirou sua própria vida se envenenando e morreu em 8 de março de 1935, ironicamente no Dia Mundial das Mulheres.

O suicídio de Ruan, aconteceu por dois motivos: o medo da opinião pública que já se voltava contra ela, a rotularizando como uma "mulher fácil" e por ser incapaz de deixar Tang, que era fisicamente abusivo e ainda a traia. Por ter deixado Damian por Tang, a atriz não poderia deixar o amante sem sofrer um revertério ainda maior da opinião pública. Assim, sentindo-se sem saída, ela fez uma segunda tentativa de suicídio e dessa vez, infelizmente, deu certo.

Lingyu com seu então marido Damian Zhang
Ruan Lingyu teria escrito dois bilhetes de suicídio, um culpando diretamente a mídia por lucrar em cima de seu sofrimento, sem se preocupar se o que escreviam era verdade, cunhando a famosa frase: "fofoca é algo muito terrível." Muito semelhante ao enredo de seu último filme New Woman (idem, 1935), no qual ela interpreta uma atriz que se mata pela pressão midiática. Posteriormente, grande parte dessa carta se provou ser uma farsa, inclusive o segundo bilhete no qual Ruan exonera Tang de toda a culpa por sua morte. 

Em abril de 1935, mais de um mês depois de sua morte, supostas cópias dos verdadeiros bilhetes de Lingyu foram publicados no Siming Business Journal. Para Damian, que começou a difamá-la publicamente nos jornais para obter dinheiro, ela escreveu via Ruan Ling-Yu: The Goddess of Shangai de Richard Meyer:
Você pode não ter me matado com suas duas mãos, mas eu morri por sua causa. Por que você não pensa no subsídio de 100 yuens que te dei depois que nos separamos? Você é realmente sem coração. Agora estou morta e você provavelmente ficará satisfeito. Pessoas vão achar que sou horrível e que fui punida por isso. 
O mais chocante, no entanto, foi o bilhete que ela teria escrito ao Tang Jishan, que mudava muito da carta que o milionário tinha divulgado entre a família de Ruan e a mídia. Nela, Lingyu o acusava de traição e abuso físico, uma parte que ele omitiu na primeira divulgação:
Se você não estivesse apaixonado por tal pessoa, se não tivesse me batido naquela noite e nesta também, eu não teria feito isso [me suicidado]. Depois da minha morte, no futuro, certamente as pessoas verão que você é um diabo que brinca com mulheres. Eles vão até dizer que sou uma mulher sem alma, mas eu não estarei viva e será você quem terá que lidar com as acusações. (...) Eu estou morta, mas eu não te odiarei, esperando que você cuide bem da minha mãe e filha. 
O funeral, que ocorreu em 14 de março de 1935, causou grande comoção na China
O corpo de Ruan Lingyu foi velado por mais de quatro dias e 25 mil pessoas prestaram seus respeitos à atriz. Em 14 de março de 1935, a procissão para enterrar o corpo da estrela no cemitério Luen Yee Sayzoong Cemetery foi acompanhado por mais de 100 mil pessoas, alguns jornais estimam 300 mil, e várias jovens se suicidaram também, justificando: "Se ela está morta, o que resta para viver?"

Em 1991, o diretor Stanley Kwan lançou um filme biográfico/documentário sobre a vida de Ruan Lingyu chamado Centre Stage (idem, 1991) que foi recebido com muitas críticas positivas pela crítica, mostrando que o legado de Lingyu continua mais vivo do que nunca e que seu potencial nunca totalmente alcançado era uma promessa doce demais para existir neste mundo.
Além de atuar, a única coisa que me deixa contente é ler. Eu particularmente gosto da revista Lunyu de Lin Yutang. Aos domingos, eu gosto de passear e jogar golfe, mas eu raramente gosto de jogos. - Ruan em entrevista em 1933. 
Aproveite e desfrute a performance de Ruan Lingyu em A Deusa (Shen nu, 1934), abaixo!



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