A vinda adorável de Jeanette MacDonald ao Brasil - Caixa de Sucessos

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19/11/2019

A vinda adorável de Jeanette MacDonald ao Brasil

Jeanette MacDonald ganhou o coração do público americano ao estrelar no filme Alvorada do Amor (Love Parade, 1929) e com sua parceria com Nelson Eddy em mais de cinco filmes (Rose Marie ganhou uma resenha aqui!), a soprano marcou seu lugar como uma das mais talentosas atrizes do cinema. 

Tanto que sua vinda ao Brasil em 19 de fevereiro de 1954, fazendo parte da comissão do Festival Internacional de Cinema do Brasil, que aconteceu em São Paulo, para comemorar o IV Centenário da cidade, foi recebida com muita alegria. Delegações de vários países como a Itália, Argentina, Japão e a França compareceram, mas nenhuma fez tanto alvoroço quanto os americanos. 

Ao lado de Jeanette e seu marido Gene Raymond, outras estrelas compareceram em peso como Errol Flynn e esposa, Joan Fontaine e marido, Jane Powell, Rhonda Fleming,Irenne Dunne, Ann Miller, Collier Young, Jeffrey Hunter e esposa Barbara Rush, Fred MacMurray e sua namorada June Haver, Waltder Pidgeon, Edward G. Robinson, Robert Cummings e esposa, Helmut Dantine, Janet Gaynor e seu marido, o estilista Adrian. 

Jeanette MacDonald brilhando em São Paulo                                          Revista Manchete
Jeanette embarcou ao lado de seu esposo, Gene Raymond, e seus colegas de Hollywood, em um avião em Los Angeles, no dia 18 de fevereiro, logo pela manhã. Todos deveriam desembarcar no Aeroporto de Congonhas às 17h30, mas atrasos fizeram com que o quadri-motor da Braniff Airways apenas pousasse na terra da garoa às 21h. Isso não impediu, no entanto, a recepção mais do que calorosa dos fãs, apesar de uma chuva torrencial acontecendo lá fora. 

Os astros, contudo, passaram correndo pela alfândega e logo entraram no carro, sendo protegidos pelos polícias e não tendo nenhum contato nem com os fãs e nem com a imprensa. Chegaram seguros, escoltados pela Polícia Marítima, e ficaram no Hotel Jaraguá, um dos mais chiques de São Paulo. 

Jeanette ao lado de Gene Raymond no aeroporto - atravessando a multidão de fãs        Correio Paulistano
De acordo com a revista Correio Paulistano, o itinerário dos astros da delegação americana era bem conciso:
No dia 20, uma entrevista coletiva dos astros às 15h no Palácio do Trocadero. Os artistas permanecerão em São Paulo até o dia 26, depois rumo para Rio de Janeiro para passar o Carnaval, no dia 28 visitando o presidente da República e no dia 1 de março participarão do grande baile do Municipal.
No dia 20, no entanto, Jeanette compareceu ao lado de seu marido, Gene, e seus amigos americanos ao I Festival de Cinema de São Paulo, que ocorria no famoso Cine Marrocos. Ela foi assistir a exibição dos filmes e foi flagrada na saída ao lado da estrela Laura Hidalgo, protagonista do filme argentino exibido no local, intitulado Maria Madalena, que foi todo rodado na Bahia.

Ainda segundo a revista O Cruzeiro, durante o Festival, Jeanette ficou comovida com as demonstrações de carinho dos fãs e afirmou que voltaria "feliz aos Estados Unidos, com a certeza de que sua obra no cinema ficará para sempre". E chorou.

Jeanette durante o festival no Cine Marrocos - atrás, Joan Fontaine
Porém, como já é de praxe, as visitas dos astros no Brasil não ocorrem sem aquela polêmica! No caso da delegação americana, a entrevista coletiva não ocorreu no dia planejado e os jornalistas ficaram furiosos, culpando os artistas à todo o momento. A coletiva finalmente aconteceu às 11h no dia 23 de fevereiro no Palácio do Trocadero e os americanos pediram desculpas, avisando que apenas seguiam o itinerário que lhes era passado pelos realizadores do evento, como o sr. Eric Johnston e Jorge Guinle.

Como sempre, no dia 23 de fevereiro, dia da coletiva, Jeanette estava acompanhada do marido Gene Raymond, com um vestido branco chique e com uma lenço com seu nome gravado. Os jornais da época notaram que ela odiava "ser fotografada de óculos" e sempre os tirava quando percebia que alguém tirava um click dela. As perguntas da coletiva de imprensa eram as mesmas: quando ela faria mais um filme com Nelson Eddy. Sua reposta, via Correio da Manhã:
Sim, gostaria de fazer um outro filme com o Nelson Eddy. A diferença está em encontrar a história adequada... 
Jeanette e Gene ao lado de Joan Fontaine, abaixo à esquerda na coletiva e na direita no desembarque.
Mas você está errado(a) se acha que Jeanette, por ter na época 50 anos de idade, ficou no seu hotel descansando ao lado de outras estrelas como Irenne Dunne e Janet Gaynor. MacDonald caiu na noite paulistana ao lado do marido, frequentando as incríveis "boites", ou seja, as baladas da época. 

Ao lado de jovens estrelas como Ann Miller, ela brilhou ao cantar na noite paulistana e de acordo com o Diário da Noite foi quem "mais aplausos arrancou". Tanto que, ainda na capital paulista, o jornal Correio da Manhã conta que Jeanette deu um verdadeiro show:
Na capital paulista, os americanos costumavam iniciar suas noites no Oasis (uma "boite" da época) e terminá-las no Esplanada. Esta última boite foi muito mais feliz, porque certa noite, Ann Miller, Jeanette MacDonald, Jane Powell, Walter Pidgeon, Edward G. Robinson e Gene Raymond deram um verdadeiro "show".
Jeanette ao lado da esposa de Jorge Guinle e seu marido, Gene - mais afastada, Barbara Rush
E os dias de Jeanette MacDonald no Brasil continuaram mais agitados do que nunca! No dia 24 de fevereiro, em São Paulo, todos da delegação americana foram convidados para participarem de um maravilhoso banquete na Fazenda da Penha, propriedade de Iolanda Penteado Matarazzo, a grande dama da sociedade paulista, em Leme. Foram para lá em um trem exclusivo e depois levados de ônibus para a Fazenda Empyreo, sendo recebidos com fogos de artifício e uma banda local, como relata o jornal Correio da Manhã.

A publicação ainda revela que Jeanette se divertiu muitissímo na Fazenda, comendo iguarias brasileiras como o vatapá e aracajé. Gene Raymond saiu por aí cometendo algumas "indiscrições" que supostamente não foram flagradas pelas câmeras. Já Jeanette se sentou ao lado da colega, a sempre lady, Irenne Dunne. Notou-se, também, pela imprensa, o quão educada e bondosa era Jeanette, afirmando que ela "falou muito, atendendo à todos." O regresso dos americanos se deu na madrugada, pelo mesmo trem especial.

Jeanette ao lado de Irenne - com ela segurando uma revista com sua foto estampada
A estrela de Rose Marie (idem, 1936) ficou com seus colegas americanos e o marido, Gene, em São Paulo até o dia 27 de fevereiro, o dia do encerramento do I Festival de Cinema de São Paulo, quando partiu para o Rio de Janeiro, chegando à Terra Maravilhosa para as festas de Carnaval. Toda a delegação da terra do Tio Sam ficou hospedada no luxuoso hotel Copacabana, naquele anexo incrível, e chegaram ao Rio pelo Aeroporto do Galeão.

Logo no dia 28 de fevereiro, uma dia depois de sua chegada, os americanos, incluindo a atriz, foram convidados para uma recepção no Palácio do Itaboraí, em Petrópolis no Rio de Janeiro, para encontrar o presidente Getúlio Vargas. Ele não compareceu, mas os astros confraternizaram com o governador Ernani do Amaral Peixoto e a senhora Alzira Vargas do Amaral Peixoto. Após a recepção, os astros foram convidados para jantarem na residência de Campo do sr. Fernando Delamare, em Samambaia, próximo à região serrana. Lá realizou-se uma autêntica festa carnavalesca em homenagem aos convidados.

Na foto abaixo, da revista A Noite: Suplemento, Jeanette está ao lado de seu marido e convidados no Palácio do Itaboraí, de braços dados com o governador. Que honra para ele!

Ernani - o felizardo!
Nesse ínterim de 28 de fevereiro a 5 de março de 1954, Jeanette e a delegação americana compareceram a uma infinidade de festas, inclusive uma dada pelo próprio ministro Oswaldo Aranha, no sítio do ilustre sr. Inácio Nogueira. Na festa/almoço, Oswaldo conversou animadamente com Jeanette e também a levou para dançar - foi notado pelo jornal O Cruzeiro que ela dançava tão bem quanto cantava. Outro que também bailou com a estrela foi o sr. Assis Chateaubriand - e parecia nas nuvens com a situação!

Jeanette na recepção - com muito samba. Acima com Oswaldo e abaixo com Assis
Também ocorreu um chique coquetel na casa do casal Jorge Prado, seguido por um jantar bem-chique do empresário e senhor Horácio Lafer. De acordo com a coluna da sociedade de Jacinto de Thormes, para o Diário Carioca, a festa ocorreu no começo de março, e Jeanette ficou deslumbrada com a fineza do local. Ela teria dito que "há anos não tinha visto um jantar tão elegante". Gene Raymond, por outro lado, ficou temeroso pela presença do colunista e o sr. Bento Ribeiro Dantas, o assegurou que ele não precisava temê-lo, pois era do "bem".

Jeanette ao lado de Horácio Lafer
Jeanette também aproveitou os bailes carnavalescos durante sua estadia no Rio de Janeiro. Com uma frisa particular ao lado dos outros astros, ela "se jogou" nos bailes no Municipal, embora não tenha comparecida fantasiada, como Ann Miller e Jane Powell.

De acordo com o jornal Manchete, as atividades favoritas de Jeanette foram jogar confetes e serpentinas, evitando a muvuca típica do carnaval, e acenando para seus queridos fãs.

Jeanette ao lado de Gene e Janet Gaynor -aproveitando o Carnaval carioca
O resto da estadia de Jeanette e o marido, Gene Raymond, foi só alegria, tanto que a atriz fez questão de visitar o Teatro Municipal do Rio de Janeiro antes de partir do Brasil, ficando mais de uma hora no local. Antes de partir ela fez questão de se encontrar com Barreto Pinto, de quem era grande amiga, assim como era da cantora Bidu Sayão:
Barreto Pinto, já somos velhos amigos desde 1939, quando esteve em Hollywood. Não lhe quis, porém, importunar, avisando dessa minha visita. Mas agora, ao retirar-me, quero dizer-lhe que estou profundamente impressionada com o que me foi possível ver. O Teatro Municipal goza de uma grande reputação e prestígio no mundo inteiro pelas suas grandes Temporadas Líricas. -Jeanette em entrevista ao jornal Diário da Noite.
Barreto replicou, dando brecha para um convite de que Jeanette se apresentasse no Festival do Rio de Janeiro em outubro daquele mesmo ano. A atriz, no entanto, educadamente recusou:
Quem sabe? E contudo parece impossível em 1954, devido a grande turnê que tenho que empreender agora pelos países escandinavos. 
Jeanette, Gene e Barreto Pinto no Teatro Municipal
Mas engana-se quem pensa que a partida dos americanos foi sem alguns contratempos. De acordo com os jornais da época, o avião da Braniff estava programado para deixar o Aeroporto do Galeão às 11h do dia 5 de março de 1954. Não foi isso que aconteceu já que alguns artistas não acordaram e a partida só aconteceu às 12h30.

No aguardo da partida do avião, Jeanette e Gene ficaram sentados em uma das mesas do restaurante do Aeroporto ao lado de Walter Pidgeon e seu affair brasileiro, conhecida apenas como L. B. Segundo o jornal Tribuna da Imprensa, a razão do atraso foi Edward G. Robinson, June Haver e Fred MacMurray, que partiriam direto para Hollywood, mas decidiram, depois de não serem acordados à tempo, tomar o avião que partiria para Buenos Aires com os outros artistas.

Assim, com muita emoção, a delegação americana, incluindo Jeanette MacDonald, foi embora do Brasil no dia 5 de março de 1954, pelo aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro, sem a companhia de Janet Gaynor e Adrian, Jane Powell e Rhonda Fleming, rumo ao Festival de Cinematográfico de Mar de La Prata, em Buenos Aires, Argentina, onde todos ficaram por uma semana antes de retornarem para casa.
Um up close da diva Jeanette MacDonald: viva!
Tônia Carrero, grande atriz brasileira, foi uma das que teve sorte de conhecer Jeanette e as outras estrelas ao vivo durante o Festival e afirmou, via A Noite:
Foi muito comovida que apertei a mão de Jeanette, de Janet Gaynor e Irenne Dunne, grandes artistas que conheço desde infância. Acostumei-me, desde menina, a apreciar o trabalho dessas artistas e vê-las agora, conversar com eles na minha terra, não podia deixar de me causar uma grata emoção. 
E assim foi a visita de Jeanette MacDonald no Brasil: adorável, deixando claro que ela era uma artista de primeira classe que encantou à todos com sua gentileza, modos e principalmente a sua voz - e andar - de anjo.

Um comentário:

  1. Maravilhoso registro dessa diva encantada do cinema e da música. Aprendi a apreciá-la ao assistir SAN FRANCISCO, com Clark Gable e Spencer Tracy. Uma voz de deusa. Beleza de artigo Gabriella. Sucesso pra vc.

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