A estadia 'bossa nova' de Lena Horne no Brasil

Lena Horne foi uma das grandes atrizes negras de Hollywood nos anos 40 e 50. Apesar do preconceito racial e das poucas chances nas telas - seus papeis em filmes A eram apenas números musicais que poderiam ser descartados em estados do Sul dos EUA - Lena conseguiu se estabelecer como uma estrela. 

Considerada uma ameaça tripla - Lena era atriz, cantora e dançarina - a bela artista perdeu inúmeras chances de até chegar a ser considerada para filmes famosos como Barco das Ilusões (Showboat, 1951) por causa de sua cor de pele. Porém, munida de seu carisma, aquele fator diferente e, é claro, de seu talento inegável, ela conseguiu marcar de vez seu lugar em Hollywood.

Tanto que sua vinda ao Brasil, em 19 de maio de 1960, para uma apresentação especial nas chamadas boites da época, no renomeado Golden Room do Copacabana Palace, à convite de Carlos Machado, todas as mesas para prestigiá-la estavam esgotadas desde abril. O valor do convite? 3.600 cruzeiros, o que equivalem hoje à R$1.310,00. 

Lena, fabulosa, em sua chegada ao Brasil em 19 de maio de 1960.
Segundo O Jornal, a vinda de Lena Horne seguiria o seguinte cronograma: ela estrelaria no Copacabana na segunda-feira, dia 23, e cantaria na TV Tupi nos dias 26 e 29. Logo depois ela já partiria no começo de junho, participando posteriormente, à convite do Príncipe Rainier e da Princesa Grace, do baile da Cruz Vermelha em Monte Carlo. 

Mas estamos nos precipitando: em 19 de maio de 1960, à bordo do avião "Super G Constelation" da Varig e acompanhada de seu marido, Lennie Hayton, Lena Horne desembarcou no Aeroporto do Galeão às 19h com um atraso de mais de seis horas, pois o avião teve uma pequena pane. Recebida com um buquê de flores por Carlos Machado, ela afirmou naquele primeiro encontro, com 29 malas à tiracolo, que trazia 17 vestidos e um maiô para sua estadia no Rio de Janeiro. Indagada pelos jornalistas se era um biquíni, Lena brincou:
Sou mãe de um casal de jovens de 17 e 19 anos, então... - Lena Horne para O Jornal

Ela também não poupou elogios ao Brasil, afirmando que o "Rio era muito quente" e que queria chegou mais cedo justamente para praticar suas músicas. Ademais, ela afirmou que almejava visitar  Brasília, a nova capital do Brasil: 

Em meu país ninguém desconhece a maravilha que o presidente Juscelino Kubitschek inaugurou como nova capital do Brasil. Pretendo conhecer pessoalmente Brasília, que eu já admirei em muitas fotos. - Lena Horne para o jornal Diário Carioca. 
Lena Horne em sua chegada ao Rio de Janeiro - à direita, seu autógrafo para o jornalista do Diário Carioca
Afirmando que gostaria de conhecer o Pão de Açúcar, Lena partiu em um cadillac para o seu apartamento de anexo nº 1 no Copacabana Palace, confidenciando ao Diário Carioca que pretendia dormir até quase às 15h, e que atenderia no dia 20 de maio, às 16h, os jornalistas para a coletiva de imprensa no Copacabana. 

Assim foi feito: Lena atendeu ao lado de seu marido toda a imprensa brasileira, contando algumas particularidades de sua estadia até aquele momento. Afirmou que em sua primeira manhã no Rio de Janeiro ligou o rádio esperando ouvir samba, mas ficou desapontada em apenas escutar "canções norte-americanas". E mais: contou que na noite anterior havia pedido um de seus pratos favoritos, feijão preto com arroz, mas veio em seu lugar a famosa feijoada carioca, que Lena jurou "nunca mais revisitar antes de sua estreia, por ser muito pesado." 

O papo também ficou mais profundo, com Lena conversando com o jornal Correio da Manhã sobre a segregação racial:
Sou negra e como negra luto contra a segregação. Ou luto contra ela simplesmente por que sou humana? América é um grande país, um ótimo pais. Mas infelizmente tem esse defeito. Qualquer dia, talvez, não o terá mais, pois já melhorou muito.
Quando um jornalista falou que ela não seria considerada negra no Brasil, Lena foi rápida na resposta:
Mas eu sou. 
Lena aproveitando a coletiva para cheirar as flores, comer, e conversar 
Ao lado de seu marido, Lennie, a atriz também abriu o jogo sobre se já havia sentido medo por ter se casado com um homem branco, afinal na época havia ainda mais preconceito do que atualmente. Sempre honesta e objetiva, ela afirmou: 
Tive [medo] sim e muito. Mas ao sentir a ausência total de qualquer problema racial no caráter de Lennie, eu subjuguei esse medo. Sofremos as mais severas críticas, da família, dos jornais, dos amigos. Mas vencemos todas. Somos casados há treze anos.  
Ainda sobre o assunto de preconceito, Lena esbravejou aos quatro ventos durante a entrevista, que era uma orgulhosa democrata e que acreditava que o partido político era o melhor para seu país, embora ela torcesse mais para o senador Murphy do que Kennedy:
Sou democrata convicta, sempre o fui e sempre admirei muito o presidente Roosevelt. Acho que agora os democratas vencerão: Kennedy terá o meu voto. 
Apesar de católica, em entrevista ao Diário Carioca, a atriz afirmou que antes de ir embora do Brasil fazia questão de prestar uma homenagem à Iemanjá, deixando claro que "já ouviu falar muito de Iemanjá e que não ignora seus estranhos sortilégios."  Indagada se preferia o teatro ou o cinema, a atriz vibrou ao falar do primeiro, pois tem contato direto com a plateia. Declarou, ademais, que era supersticiosa, acordando sempre do mesmo lado da cama, e que amava gatos, mas não os deixava dormir com ela. 

Lena durante a coletiva de imprensa no Copacabana
Lena também adiantou algumas das canções que interpretaria no seu show, como a música brasileira Bim-Bom de João Gilberto e "You do not have to know the language", canção que fala do Brasil, Copacabana e o Pão de Açúcar. A atriz deu um show de simpatia com os jornalistas - desculpando-se até pelo atraso de 10 minutos - e pousou do jeito que lhe pediam: no terraço do Copa, cheirando uma flor, comendo banana (fruta que ela adorava) e até chegou a perguntar ao marido, preocupada, se sua anágua aparecia em alguma das fotos. 
A atriz também revelou seu ator favorito: Yves Montand e definiu seu top 3 de atrizes com Elizabeth Taylor, Katherine Hepburn e Ingrid Bergman. Preocupada com o seu português, ela já havia começado aquela manhã do dia 20 treinando para seu número e garantiu, via Correio da Manhã:
Ensaiarei muito e todo o meu programa nesses primeiros dias depende do progresso dos meus ensaios. 
À noite, para comemorar a proximidade de sua estreia, atendeu um coquetel em sua homenagem na casa de Carlos Machado, seu agente no Brasil. Durante o final de semana, Lena e seu marido conheceram mais do Rio de Janeiro, conhecendo outros boites e saindo com amigos e pessoas da alta sociedade. No dia 21, ela foi homenageada em mais um coquetel: o do conselheiro dos Estados Unidos e da sra. Niles Bond. 

Sem se esquecer de sua semana lotada de shows no Golden Room do Copacabana Palace, Lena ensaiava de forma árdua e valeu a pena: sua noite de estreia, no dia 23 de maio às 1h30, foi um estrondoso sucesso! 

Lena com um lindo vestido preto justo em sua noite de estreia, dia 23
Todos os críticos de seu show foram resolutos: Lena foi um grande sucesso, apesar de um começo um tanto morno, e não devia em nada à performer anterior, a grande Ella Fitzgerald. Pedro Müller, em sua coluna JB em Sociedade, no Jornal do Brasil, recontou sobre o momento: 
Entrou no palco nervosíssima, cantou alguns números que o público não conhecia, conseguiu as primeiras palmas com a canção The Lady is a Tramp e, de aplausos em aplausos, o público delirou quando a cantora norte-americana entrou com um samba de João Gilberto, da bossa-nova, em excelente português para quem tinha dois dias de Brasil. Mas o Golden Room quase veio abaixo, quando ela convidou o pandeirista Charles, a tocar alguns passos com ela. 
A noite de estreia do dia 23 de maio de 1960 foi um grande sucesso para Lena - e para seu marido que a acompanhou tocando piano- e no final do espetáculo, de acordo com o jornal Última Hora, João Gilberto e sua esposa foram visitar a atriz norte-americana em seu quarto no Copa. Durante a presença do intérprete de Bim-Bom, tocou ao fundo a canção Chega de Saudade. 

Lena conhecendo João Gilberto - se veriam mais vezes
No total, os produtores do show de Lena Horne no Brasil ficaram aliviados: arrecadaram 2 milhões de cruzeiros por sua temporada toda. De acordo com a mesma coluna, JB Na Sociedade, a segunda noite de Lena no Copacabana também foi um grande sucesso.
Pela segunda vez Lena Horne entrou no palco de Copacabana. Desta, estava calma, de vestido verde e com seu repertório melhor distribuído. E o resultado traduziu-se em grande salva de palmas. 
Já no dia 26, Lena se preparava para estrear na televisão brasileira, mais especificamente no canal 6 da TV Tupi, às 22h30. Infelizmente não há fotos de sua estreia na TV, mas temos um relato de sua apresentação, via Diário de Notícias
(...) Lena Horne continua a ser uma intérprete de primeira categoria. (...) Em destaque do programa: The Man I Love de Gershwin e Stormy Weather. Lena, rebolando, cantou esplendidamente o Bim-bom de Jão Gilberto. Se isso é bossa-nova, gostamos e muito. Lena cantou o Bim em nosso idioma, sucesso.
Infelizmente, como nem tudo são flores, os críticos de TV reclamaram das interrupções desnecessárias dos locutores,  Norma Blum e Antonio Leite, além da falha na segunda parte da transmissão por problemas técnicos. No dia 29, na sua segunda apresentação na TV Tupi, a falha técnica aconteceu novamente, mas Lena brilhou.  

A única foto que consegui encontrar da apresentação de Lena na TV brasileira
As apresentações de Lena no Copacabana Palace aconteceram sem muitas atribulações e o jornal O Cruzeiro até fez uma surpresa para a atriz, convidando João Gilberto para visitá-la mais uma vez durante os seus ensaios e cantar ao seu lado, Bim-Bom. 

Lena ao lado de João Gilberto -dizem que ela teria ficado encantada por ele. 
Infelizmente, mais para o fim de sua temporada, Lena ficou afônica e por recomendação médica não pode se apresentar no seu último dia do Copacabana, domingo, dia 29. Mesmo assim, ela aproveitou essa "tragédia" ao máximo, e fez questão de conhecer ainda mais do Rio de Janeiro. 

De acordo com o Mundo Ilustrado, ela causou o maior tumulto em uma joalheria na Rua Gonçalves Dias. À noite, dias antes de sua partida, ela participou de duas festas muito importantes: a primeira parada foi no Little Club, no qual Booker Pitman, o maior saxofonista do mundo, a recebeu para uma sessão de jazz. Seu marido, Lennie, seus músicos e o guitarrista Bola Sete a receberam de braços abertos e Lena se divertiu muito - apenas não cantou. 

Lena andando pelas ruas do Rio e ao lado com Booker e Bola Sete                            Mundo Ilustrado
Posteriormente, Lena compareceu à uma festa dada em sua homenagem por Carlos Machado, antes de sua partida. Na comemoração, só a creme de la creme da música brasileira: Dorival Caymmi, Ari Barroso, João Gilberto, Norma Bengell, Bibi Ferreira e muitos outros. 

Lena, acima, com a esposa de Carlos Machado. Abaixo, com Caymmi e os outros artistas 
Na festança de despedida de Lena, ela também aprendeu a sambar com os outros músicos e deu um show no meio da sala de Carlos Machado. Muito feliz, ela ecoou o sentimento de sua estreia no Copacabana, ao afirmar: 
Os cariocas are wonderful. 
Lena conversando com os músicos e dando um show de samba.                                 Manchete
No dia 31 de junho, um dia antes de sua partida para os Estados Unidos, Lena também visitou o Instituto Brasileiro de Café, onde aprendeu a fazer um típico café brasileiro e até lhe prometeram um saco de grãos que seria enviado para sua casa pela sede do IBC nos Estados Unidos. Recebeu, também, flores, um conjunto de xícaras de prata e uma cafeteira e aproveitou para elogiar bastante o café brasileiro, ao lado de Carlos Machado e Oscar Ornstein. 

Lena partiu para os Estados Unidos no dia 2 de junho de 1960, embarcando no navio SS Argentina já que odiava voar. Ficou ansiosa por ir de navio, já que acreditava que a embarcação faria uma parada na Bahia, local que ela gostaria muito de visitar. Infelizmente, o navio não aportaria na cidade daquela vez. 

Em sua última conversa com a imprensa, Lena garantiu que amou no Brasil "as batidas de maracujá, siri e camarão frito" e que voltaria em breve. A atriz acabou não voltando ao Brasil, mas deixou seu lugar marcado como uma amante da bossa nova e com uma energia tipicamente brasileira. 

Lena tomando o típico cafezinho brasileiro
Sobre sua estadia no Brasil, que Lena aproveitou ao máximo e que diferente de outros artistas, aconteceu sem nenhuma polêmica, a atriz resumiu bem em sua fala para a revista O Cruzeiro:
Não foi o café, não foi o Pelé, nem Carnaval, foi a bossa nova que mais adorei no Brasil. 
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