A espirituosa parceria de Lucille Ball e Desi Arnaz no cinema

A atrevida ruiva e o galante latino: uma dupla que no papel e na mente dos grandes produtores tinha tudo para dar errado. Na vida real, contudo, foi o maior acerto da carreira de Lucille Ball e Desi Arnaz. Os dois se tornaram queridinhos do público e da imprensa, casaram-se, tiveram dois filhos e formaram uma empresa, a Desilu Productions que deu origem a tão amada série, que atravessa gerações, I Love Lucy (1951-1957). 

Antes de todo o êxito profissional e pessoal, Lucille Ball era apenas mais uma esperançosa atriz da RKO em busca da grande chance que a tornaria uma estrela. A atriz já era conhecida entre o público, com seu característico cabelo ruivo, e entre os anos 1930 e 1940 atuou em mais de 20 filmes, mas era sempre renegada a papeis coadjuvantes. 

O sucesso que Lucy tanto buscava a encontraria no final de 1939 no set de filmagens de A Vida é uma Dança (Dance, Girl, Dance, 1940) na persona do galante Desi Arnaz. 

Lucille Ball e Desi Arnaz: amantes e depois amigos para sempre 

 Sobre o fatídico encontro, Lucy relembra:
Quando conheci Desi estava usando um vestido rasgado na minha coxa e meu longo cabelo ruivo caído em meus ombros. Também tinha um olho roxo falso, onde meu amante no filme tinha me socado. George Abbott, que estava lanchando no estúdio com o elenco de Too Many Girls [a peça musical estrelada por Arnaz na Broadway] me chamou. Desi ficou chocado ao me ver: 'Que mulher horrível!'. No final das filmagens [...] Desi não me reconheceu como a mulher do almoço, fomos reapresentados. Ele me convidou para jantar e eu aceitei. - Lucille Ball na autobiografia Love, Lucy. 
 Depois disso, Lucy e Desi nunca mais se desgrudaram, para o melhor e o pior.

GAROTAS EM PENCA (TOO MANY GIRLS, 1940)
Ann Miller, Desi Arnaz e Lucille Ball para Garotas em Penca (Too Many Girls, 1940)
Não demorou muito para que entre Lucy e Desi começasse a acontecer um namoro mais informal. Apesar do astro cubano ser conhecido como "dinamite latina" e passear com várias starlets, Desi acabava voltando sua atenção para sua querida ruiva. 

Assim, logo depois de se conhecerem, os dois atuaram juntos no filme Garotas em Penca (Too Many Girls, 1940) quando Lucille já havia acabado suas obrigações no filme A Vida é Uma Dança (Dance, Girl, Dance, 1940) que proporcionou seu primeiro encontro com Arnaz. Este foi o primeiro filme do jovem de 22 anos de idade. 

Baseado na peça Too Many Girls de George Marion Jr. que estava em cartaz na Broadway e foi a grande estreia de Desi Arnaz, Garotas em Penca (Too Many Girls, 1940) conta a história de Connie, vivida por Ball, uma mimada menina rica que decide, num ímpeto, entrar numa faculdade. Seu pai, suspeitando de motivos escusos da filha, contrata três de seus alunos, ótimos jogadores de futebol, para ficarem de olho nela. O problema é que logo Clint Kelly (Richard Carlson) se apaixona por Connie, mas tem obrigações com seus amigos Jojo (Eddie Bracken) e Manuelito (Desi Arnaz). 

Lucille e Desi em cena de Garotas em Penca (Too Many Girls, 1940)

De acordo com a co-estrela Ann Miller, que participou do filme como Pepe e era grande amiga da comediante, era evidente que Lucille Ball e Desi Arnaz estavam se apaixonando perdidamente:
Eles estavam juntos, absolutamente, dia e noite. Eles estavam completamente envolvidos um pelo o outro, o que é um eufemismo. - para o livro Lucy & Desi: The Legendary Love Story of Television's Most Famous Couple de Warren G. Harris. 
Apesar da paixão prevalente entre eles, Lucille ainda estava saindo de forma fixa com Alexander Hall e Desi, com Renée deMarco. Os dois chegaram à um empasse e tiveram uma franca conversa. A decisão: tentariam a sorte em um relacionamento. No começo de 1940, Lucy - apelido que o ator deu à sua amada - e Desi eram inseparáveis: saíam juntos, comiam juntos, moravam juntos e faziam questão de criar ciúmes um no outro. 

No entanto, a diferença de idade - Lucy era seis anos mais velha - as indiscrições de Desi com outras mulheres e o fato do ator ser católico pesou na decisão de Ball e os dois decidiram dar um tempo no relacionamento. Neste momento, o filme Garotas em Penca (Too Many Girls, 1940) já tinha sido lançado em 8 de outubro de 1940, e as críticas foram positivas, mas não incríveis. 

Desi e Lucy no backstage do espetáculo Too Many Girls no teatro Roxy em Nova York: eles tinham se casado há uma hora quando a foto foi tirada 
Desi, a despeito da situação, estava decidido em casar com Lucille, e tinha arranjado um fuga em Greenwich, Connecticut para o casório. Segundo a própria Lucy em sua autobiografia Love, Lucy, Desi planejava se casar com ela no Escritório do Oficial da Paz John J. O' Brien, mas tinha se esquecido da aliança. O agente dele, Deke Magaziner, teve que sair e comprar uma feita de latão, a única que ele encontrou e que fazia o dedo de Lucille ficar verde - mas ela amava. 

Entre as confusões e a pressa do casal, o juiz da paz resolveu escolher um local mais digno para o casamento dos pombinhos e em 30 de novembro de 1940, os dois se casaram no Byram River Beagle Club, assim como seus personagens em I Love Lucy
Casar às escondidas com Desi foi a coisa mais corajosa que já fiz em minha vida. Eu nunca me apaixonei por ninguém tão rápido. Ele era muito bonito e romântico. Mas ele também me assustava, ele era tão selvagem. Eu sabia que não deveria ter me casado com ele, mas esse era um dos grandes atrativos.  - Lucy para o livro Lucy & Desi: The Legendary Love Story of Television's Most Famous Couple de Warren G. Harris. 
Naquela mesma noite, depois do espetáculo de Too Many Girls no teatro Roxy em Nova York, Desi deu uma festa de arromba para comemorar o casamento e logo o casal estava na melhor fase de suas vidas: a lua de mel. 

LUA DE MEL AGITADA (THE LONG, LONG TRAILER, 1954)

Lucille Ball e Desi Arnaz em foto publicitária para Lua de Mel Agitada (1953)
Apesar de escreveremos apenas sobre a parceria de Lucille Ball e Desi Arnaz no cinema, é impossível não mencionar o seriado I Love Lucy (1951-1957) que ganhará em breve sua própria matéria. Depois do casamento, Lucy e Desi estavam muito felizes, porém não demorou muito para que as diferenças falassem mais alto. Ball entrou com um pedido de divórcio em 1944. Logo se reconciliaram. 

Pensando em ter uma vida normal e mais perto de seu marido infiel, resgatando a faísca da parceria dos dois no vaudeville no teatro Loew's em 1942, Lucille viu uma saída quando a CBS se mostrou interessada em mover seu sucesso My Favorite Husband do rádio para a televisão.

O casal criou a Desilu Productions e Lucille demandou Desi como seu marido na série. Após inúmeras negociações, em 2 de março de 1951, o piloto de I Love Lucy virou realidade, assim como a gravidez tão esperada de Desi Jr. após inúmeros abortos espontâneos da atriz. A série se tornou uma das mais bem-sucedidas de todos os tempos. 

I Love Lucy continua uma das séries mais amadas da televisão
Assim, quando Lucille e Desi se uniram nas telonas para protagonizarem Lua de Mel Agitada (The Long, Long Trailer, 1953), dirigido pelo fenomenal Vicente Minelli, eles já eram uma dupla querida e amada pelos fãs. Lucy já tinha dado luz à sua segunda filha, Lucie, e Desi estava mais comprometido em se manter fiel à família por um tempo. O casal aproveitou a brecha nas filmagens de I Love Lucy para protagonizarem o filme. 

À pedido do velho amigo Pandro S. Berman (ex-amante da ruiva), Lucy e Desi aceitaram 250 mil dólares da MGM para serem as estrelas de Lua de Mel Agitada (The Long, Long Trailer, 1954), adaptação de Clinton Twiss. No filme, conhecemos o casal Nicky e Tacy que ao se casarem decidem passar a lua de mel em um trailer. Durante a viagem, eles acabam aprendendo que viver sob rodas é difícil e também hilário.

O filme foi um grande sucesso de bilheteria e provou que Lucy e Desi eram astros de primeira grandeza. Uma curiosidade interessante é que Lua de Mel Agitada (The Long, Long Trailer, 1954) contou com uma participação de Liza Minelli, filha do diretor, em cenas que acabaram sendo descartadas. Anos mais tarde, Liza e Desi Jr. teriam um longo romance.

Lucy, Desi, Minelli e sua filha Liza no set de filmagens de Lua de Mel Agitada (The Long, Long Trailer, 1953)
Não foi um filme caro de fazer e foi bem divertido. A única coisa é que sempre tínhamos que colocar alguns travesseiros embaixo de Desi no carro sempre que mostrávamos os dois juntos dirigindo. Mesmo que eles tivessem a mesma altura, ela parecia muito mais alta do que ele quando estavam sentados - Vincente Minelli no livro Lucy & Desi: The Legendary Love Story of Television's Most Famous Couple de Warren G. Harris. 
Os fãs apareceram aos montes para prestigiar o casal e a MGM, que acreditava que o público não pagaria para ver um casal que tinham de graça na TV, mordeu a língua e encheu o bolso de dinheiro, tanto o deles quanto dos Desilus. Finalmente Lucy conseguia um sucesso como protagonista e atriz de cinema, aos improváveis 42 anos de idade.

Em sua autobiografia A Book, Desi Arnaz descreveu aquele ano de A Lua de Mel Agitada como "nos trazendo nada além de sucesso, bençãos, honras e riquezas". Infelizmente, tudo tem um fim.

EU E MEU ANJO (FOREVER, DARLING, 1956)

Lucille Ball e Desi Arnaz em foto publicitária para Eu e o meu Anjo (Forever, Darling, 1956)
Nos anos 1950, Lucille Ball e Desi Arnaz estavam no topo: o estúdio que os subestimou, a MGM, agora estava aos seus pés e I Love Lucy era o seriado de maior audiência dos Estados Unidos. Em casa, Lucy e seu marido tinham dois filhos lindos e tudo parecia ir às mil maravilhas - grande engano! Desi começava a exagerar na bebida, na jogatina e à medida que o sucesso crescia, Lucy se tornava cada vez mais controladora.

Talvez o começo do fim tenha sido marcado pelo filme Eu e meu Anjo (Forever, Darling, 1956). Na película, dirigida pelo ex-noivo de Ball, Alexander Hall,  Lucy interpreta Susan que está casada com Lorenzo, papel de Desi, e o relacionamento está começando a esfriar. Seu marido mais interessado em desenvolver um inseticida para sua empresa, mas leva Susan com ele na viagem. Lá, aparece ajuda para a ruiva em forma de seu anjo da guarda, interpretado por James Mason, que tenta ajudá-la a resolver seus problemas conjugais.

O filme foi considerado um fracasso de bilheteria e a própria Lucy não poupou palavras para descrever o desastre:
Eu nunca estive em muitos fracassos na minha vida, mas esse foi muito ruim. [...] O filme foi feito de forma apressada, com um pobre roteiro e tanto os críticos quanto o público odiaram. - Lucy em sua autobiografia I Love Lucy.
A única coisa memorável no filme, admitido pela própria Ball e Desi também, era a canção-tema intitulada Forever, Darling, escrita por Bronislau Kapper e Sammy Cahn. A música se tornou uma tradição na família Desilu, cantada nos aniversários de casamento de Lucille e Desi e, posteriormente, no casamento de seus filhos.


De acordo com o livro Lucy & Desi : the legendary love story of television's most famous couple, o casal resolveu de comum acordo encerrar o contrato de filmes com a MGM, temendo que mais um fracasso pudesse por em risco a audiência de I Love Lucy
A partir dali, Lucille e Desi não fizeram mais nenhum filme juntos e concentraram seus esforços no tão famoso seriado. Mas não sem seus desafios: o casal estava começando a se distanciar e a rotina dos ensaios, da nova empresa monumental que a Desilu se transformou, marcou o fim para Lucille e Desi. 
O fracasso de Eu e meu Anjo (Forever, Darling, 1956) era profético para o final do casal Desilu: acabariam o casamento se odiando - dormindo em camas separadas - assim como o público se sentiu vendo o filme. 
Entre 1951 a 1957, o consumo de álcool de Desi só aumentava e suas infidelidades se tornavam cada vez menos discretas. Lucy, por outro lado, tornava-se cada vez mais perfeccionista, meticulosa e a espontaneidade e brigas de ciúmes que haviam unido o casal não existiam mais: eles mal se falavam fora dos deveres de I Love Lucy
Eu percebi que nunca gostamos um do outro. Nós tínhamos uma grande atração no começo, mas não nos aprovávamos. Ele desaprovava a minha moderação e conservadorismo.  Eu era quadrada, ele disse. Eu desaprovava a maneira que ele trabalhava demais, jogava demais, não era moderado em nada. Era como viver no topo de um vulcão que você não fazia ideia de quando entraria em erupção. - Lucille em sua autobiografia Love, Lucy. 
Lucy esperou que Desi tomasse o primeiro passo e pedisse o divórcio. Em 3 de março de 1960 o fim de uma era foi decretada: o casal Ball e Arnaz já não estavam mais junto. Em 20 de dezembro de 1960, Lucille conheceu o comediante Gary Morton, com quem ela ficou casada de 1961 até sua morte em 1989.

Desi e Lucy em seu segundo casamento em 1949 
Já Desi demorou alguns anos, mas finalmente "sossegou" ao lado de Edith Hirsch em 1963, ruiva igual Lucy, e os dois casais encontraram um saudável balanço: eram graciosos uns com os outros, mas sem intimidades. Lucy e Desi, no entanto, se falavam sempre no telefone, diversas vezes ao dia e continuavam a dividir aquela química inegável.

Tanto que quando Lucille soube que a condição de saúde de Desi, acometido por câncer de pulmão, estava piorando cada vez, ela fez questão de aparecer em sua casa em Del Mar e conversar com ele por horas. A última vez que falaram no telefone foi no que seria o aniversário de 46 anos de casamento deles. Três semanas depois, em 2 de dezembro de 1986, o cubano que havia conquistado seu coração morreu.

Amigos do ex-casal afirmam que apesar da separação, nem Desi e nem Lucy conseguiram superar um ao outro e se amaram pelo resto da vida. Em 26 de abril de 1989 foi a vez de Lucille Ball partir deste mundo e encontrar o latino que tanto amou e feriu seu coração.
Eu comecei a chamá-la de Lucy logo depois de nos conhecermos.  Eu não gostava do nome Lucille, já tinha sido usado por outros homens. 'Lucy' era apenas meu. - Desi Arnaz em sua autobiografia A Book.
A história de Lucille Ball e Desi Arnaz já serviu de inspiração inúmeras vezes para Hollywood: gerou dois filmes para a TV, o Lucy & Desi: Beyond the Laughter (1991) e Lucy (2003), e Uma versao para o cinema com ninguém menos que Cate Blanchett como nossa ruiva favorita.

Provando, mais uma vez, que a magia que Lucy e Desi tinham é eterna.
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