Como Katharine Hepburn superou o rótulo de veneno de bilheteria - Caixa de Sucessos

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21/11/2020

Como Katharine Hepburn superou o rótulo de veneno de bilheteria

Katharine Hepburn é uma das maiores atrizes do cinema mundial: com quatro Oscars, 12 indicações e um trabalho de atuação que fala por si só, ela se tornou uma lenda - e ainda nem foi mencionado seu estilo andrógino, que causou balbúrdia nos anos 1930. 

Mas em 3 de maio de 1938 a carreira de Katharine sofreu um baque que parecia quase impossível de se recuperar: ela foi declarada como "veneno de bilheteria". 

A matéria intitulada Dead Cats, ou seja, Gatos Mortos, escrita por Harry Brandt para a Manhattan's Independent Theatre Owners Association, Inc, listava as seguintes estrelas como veneno: a própria Hepburn, Joan Crawford, Marlene Dietrich, Greta Garbo, Mae West, Kay Francis, Norma Shearer, Luise Rainer, John Barrymore, Dolores del Rio, Edward Arnold e Fred Astaire. 

Indagada sobre sua posição na lista, Hepburn, de acordo com a matéria replicada na revista Time em 16 de maio daquele ano, replicada no site Joan Crawford:The Best of Everything, deu a seguinte resposta:

A atriz Katharine Hepburn terminou semana passada o seu contrato com a RKO Rádio que elevou seu salário de U$75 mil para U$100 mil por filmes e estava considerando ofertas melhores. "Eles dizem que eu já era...", ela reclamou, "Se eu não estivesse rindo tanto, eu choraria." - Katharine Hepburn, 1938. 

Katharine Hepburn fotografada por Alfred Eisenstaedt, 1938.

Katharine Hepburn, nascida Katharine Houghton Hepburn, começou sua carreira no teatro, em 1928, determinada em tornar sua paixão por atuação em uma carreira sólida. 

Sempre uma moleca, gostando de usar cabelos curtos, brincar com os meninos e praticar esportes, a futura atriz também atendeu à universidade, se formando em Filosofia e História. Infelizmente, a "energia agressiva" dela não era bem-vista por muitos atores e ela acabava sendo demitida de peças de teatros por não ser "boa o suficiente" para interpretar uma protagonista. 

Tudo mudou quando Katharine foi escalada, aos 24 anos de idade, para a peça The Warrior's Husband na Broadway, em Nova York. Interpretando Antiope, a jovem era perfeita para viver uma amazona forte e independente ao lado da rainha Hipólita. 

Com críticas extremamente positivas, exaltando seu "talento e beleza", Katharine começou a ser procurada pelo agente Leland Hayward que queria colocá-la em Hollywood. Apesar de ser seu sonho, de acordo com o livro Katharine Hepburn Por Grace May Carter ela pediu um salário alto e fez uma audição um tanto desafiadora: ao fazer o teste para o estúdio RKO, de David Selznick, ela ficou de costas para a câmera o tempo todo, menos na cena final. 

George Cukor, que depois se tornaria seu grande amigo, considerou Hepburn perfeita para o filme que ele estava dirigindo: Vítimas do Divórcio (Bills of Divorcement, 1932) no qual ela interpretaria a filha de John Barrymore. Assim Katharine tinha entrado de vez para Hollywood. 

Katharine e John Barrymore para o filme Vítimas do Divórcio (1932)

Desde que pôs os pés em Hollywood, Katharine Hepburn era uma mulher obstinada: ela não aceitava qualquer ordem do estúdio, e se metia em que roupas usaria, em como a mídia falaria sobre ela e até na maquiagem e retoques em seu visual. Ela ficou com uma reputação de "difícil e teimosa" por dar pitacos em seu contrato e filmes, mas essas fatos, com o sucesso de seus filmes passou despercebido pelos chefões de Hollywood. 

Em sua autobiografia Me: Stories of My Life, lançado em 1991, Katharine admitiu que era um tanto quanto inflexível em suas convicções e que o sucesso de seus filmes, depois de sua estreia, subiu à sua cabeça: 
Eu tive um começo incrível com Vítimas do Divórcio (1932), Assim Amam as Mulheres (Christopher Strong, 1933), Manhã de Glória (Morning Glory, 1933) As Mulherzinhas (Little Women, 1933) e Mística (Spitfire, 1934). Eu até tinha ganhado um Oscar [por Manhã de Glória] E então veio a peça The Lake. Eu estava, bem - o sucesso subiu à minha cabeça. Eu tinha todo esse sucesso na Califórnia e agora em Nova York minha posição estava segura (...) Eu era uma força a ser reconhecida. Na verdade, as pessoas te colocam nessa posição. Eles te adoram e de cima desse pedestal você tenta fingir que nada mudou. -Me: Stories of My Life; pág 155. 
Recém-separada de seu primeiro marido, Ludlow Hudgen Smith, e navegando em seu êxito como uma grande estrela, Katharine acreditou que poderia ajudar seu amigo Jed Harris, produtor da Broadway que estava na pior, e aceitou estrelar na peça The Lake, um grande fracasso. 

Os críticos absolutamente odiaram sua performance na peça e, com a bilheteria mediana de Mística (Spitfire, 1934), considerado um dos piores personagens da atriz, Katharine Hepburn estava patinando em gelo fino. Seu próximo passo e próximo filme seriam cruciais para levantá-la ou enterrá-la para sempre. 

Katharine na peça The Lake (1933) e em Mística (1934) - o começo de seu declínio momentâneo

O problema é que Katharine escolheu projetos na RKO, seu estúdio, que estavam aquém de seu talento e não lhe recuperaram de seu último fiasco no teatro e no cinema. 

A atriz, além de continuar no teatro, estrelou em Sangue Cigano (Little Minister, 1934), Corações em Ruínas (Break of Hearts, 1935) com Charles Boyer, A Mulher que Soube Amar (Alice Adams, 1935) - o único desta lista com apelo - até o filme Vivendo em Dúvida (Sylvia Scarlett, 1935) no qual ela vivia uma mulher que se disfarçava de homem em seu primeiro papel com Cary Grant e se provou "provocador demais" para sua época. 

Foi através do ator, aliás, que ela conheceu o magnata dos filmes e galanteador Howard Hughes, que estava obcecado pela ideia de conhecê-la. Os dois começaram a namorar e não demorou muito para se tornarem um casal poderoso em Hollywood. 

De acordo com Katharine, esses filmes foram os piores dessa época em sua carreira

Mas Katharine, como ela mesma conta em sua autobiografia, se tornou persona non grata para os donos de cinemas por seu fiasco neste filmes: Corações em Ruínas (Break of Hearts, 1935),  Vivendo em Dúvida (Sylvia Scarlett, 1935), Liberta-te Mulher (A Woman Rebels, 1936) e A Rua da Vaidade (Quality Street, 1937) - os dois últimos, filmes de época. 

Apesar de sucesso modesto com Levada da Breca (Bringing Up Baby, 1938), isso não era nem perto de suficiente ainda mais por ser vista como "masculina demais" batendo de frente com a feminilidade da década: 
Durante esse período, a minha carreira realmente decaiu. Foi aí que o rótulo de "veneno de bilheteria" começou a aparecer. Os donos dos cinemas queriam se livrar de mim, Marlene Dietrich e Joan Crawford. Parecia que eles eram "forçados" a pegar nossos filmes para terem acessos à aqueles que eles realmente queriam. - Me: Stories of My Life, pág 199
Quando ela ficou no topo da lista de "veneno de bilheteria", Katharine tinha acabado de completar o filme o Boêmio Encantador (Holiday, 1938), também com Cary Grant, e por conta de sua reputação, a película não foi tão bem-sucedido quanto que poderia ter sido. 

Diante desse cenário, a RKO e Katharine, "de comum acordo" decidiram terminar seu contrato com o estúdio em 4 de maio de 1938, coincidentemente um dia depois de ser oficialmente taxada como "veneno de bilheteria" pela imprensa.  

Katharine Hepburn e Howard Hughes: amigos e amantes em foto publicada na autobiografia da atriz

Namorando com Howard Hughes, a Paramount ofereceu um contrato para Hepburn de U$10 mil dos U$150 mil que ela recebia e a atriz recusou por não acreditar no filme oferecido. O magnata e entusiasta da aviação acreditava que a atriz tinha cometido um terrível erro, mas ele estava enganado.

Focando-se em mais uma peça de teatro, ela se refugiou em sua casa em Fenwick, Connecticut e recebeu a ligação do amigo, o roteirista Philip Barry. Ele lhe mostrou dois roteiros que estava trabalhando - um deles era Núpcias de um Escândalo (The Philadelphia Story, 1940) e ali a jovem sabia que tinha um sucesso nas mãos. 

Howard Hughes lhe aconselhou a comprar os direitos da obra e fez esse favor para sua namorada - que seria sua amiga pela vida toda. L.B Mayer, diretor da MGM, ficou interessado na obra e barganhou com Katharine para levar esse filme às telonas. 

Ela queria Spencer Tracy e Clark Gable nos papeis coadjuvantes, mas eles não aceitaram: ela ficou com o novato James Stewart e seu velho conhecido, Cary Grant. Katharine foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz e James ganhou o de Melhor Ator Coadjuvante. Núpcias de um Escândalo (The Philadelphia Story, 1940) foi um dos maiores sucessos de 1940 e fez com que a atriz retornasse ao topo. 
Comprar os direitos de Núpcias de um Escândalo (The Philadelphia Story, 1940) foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida. Eu acho que ganhei um pouco de dinheiro também. Mudou a minha vida, a minha carreira. Howard sabia melhor. -I Know Where I'm Going: Katharine Hepburn, A Personal Biography Por Charlotte Chandler.  
Katharine Hepburn em foto publicitária para seu grande retorno aos cinemas

Depois do estrondoso sucesso, que a colocou no topo e com uma parceria com a MGM, ela escolheu a dedo seu próximo projeto, comprando os direitos do roteiro A Mulher do Ano (Woman of The Year, 1942), seu primeiro trabalho com Spencer Tracy por quem ela se apaixonou perdidamente. 

A partir daí, seu rótulo de "veneno de bilheteria" foi esquecido e Katharine estrelou em sucesso atrás de sucesso. Em 1940 ainda recebeu mais uma indicação ao Oscar por Mulher do Ano. Depois em 1952 por Uma Aventura na África e assim sucessivamente, com o total de 12 indicações em todas as décadas seguintes, até 1980. 

Katharine, portanto, superou o rótulo de veneno de bilheteria por ter fé em seu talento e tomar decisões baseadas na inteligência e não na emoção. Se por quebrar barreiras com suas vestimentas e por ter controle total de seus filmes e carreira - escolhendo seus diretores e papeis - ela foi taxada de difícil, foi exatamente isso que, anos depois, a fez retomar seu lugar em Hollywood como uma das maiores atrizes do cinema. 

Katharine, assim como Joan Crawford, acreditou em seu talento e lutou por ele: essa é sempre a resposta. 



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