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Casos de imitação: Rebecca e a sua Sucessora

Rebecca pode até ser a mulher inesquecível, mas foram suas sucessoras que ganharam destaque: Marina e a Sra. de Winter. Ambas inocentes, de famílias humildes, que se casaram com homens ricos e que são assombradas pela imagem aparentemente perfeita da primeira esposa de seus maridos. Essa mesma sinopse, aliás, acabou sendo usada por duas escritoras: Daphne du Maurier de Rebecca e Carolina Nabuco, autora de A Sucessora. Uma coincidência inocente ou plágio?
Carolina (à esquerda) e Daphne foram unidas por uma história bem similar          Divulgação/Fotos de livros
De acordo com a própria Carolina Nabuco em sua autobiografia Oito Décadas: Memórias, a história teria acontecido mais ou menos assim: esperançosa de ver seu livro A Sucessora publicado em inglês, ela mandou um manuscrito já traduzido para vários editores nos Estados Unidos e confiou mais um para um agente literário na Inglaterra. Mal sabia ela que ao invés de publicarem seu livro, ele acabou sendo usado como base para o lançamento, quatro anos depois, do livro Rebecca: A Mulher Inesquecível, da londrina Daphne Du Maurier. E não foi só Nabuco que percebeu as semelhanças entre os dois romances: em 1941, um jornalista do New York Times, Frances R Grant percebeu como os livros eram parecidíssimos e escreveu o seguinte artigo An Extraordinary Parallel Between Miss du Maurier's "Rebecca" and a Brazilian Novel; Literary Coincidence (Um Extraordinário Parelelo entre o livro Rebecca da sra. du Maurier e um livro brasileiro; coincidência literária).  

Nele, o jornalista traça os similares paralelos entre as duas obras e admite que "se isso é uma coincidência,  é uma das mais surpreendentes da literatura". Ele ainda conta que Carolina ficou sabendo da obra através da carta de um amigo que morava na Inglaterra, com o seguintes dizeres: "Você já leu a versão em inglês de A Sucessora? Eu estava lendo Rebecca e era como se eu estivesse lendo A Sucessora. Soube que Daphne escreveu o livro em 90 dias." E o caso entre Rebecca e a Sucessora ainda estava longe de terminar. 

Divulgação
Quando o filme Rebecca: A Mulher Inesquecível estreou aqui no Brasil em 1940, estrelado por Laurence Olivier e Joan Fontaine, Carolina contou em sua autobiografia que o advogado da United Artists, a companhia de cinema financiando o longa, aproximou-se do seu advogado tentando convencê-la a assinar um documento afirmando que as semelhanças entre seu livro e o de Daphne e, consequentemente, do filme, não passavam de uma mera coincidência. Se ela o fizesse seria recompensada monetariamente por isso. Nabuco recusou, é claro.  

Assim, até hoje a dúvida permanece: teria sido a obra de du Maurier plágio ou apenas inspirada no livro brasileiro? Vale a pena mostrar que as evidências, quando empilhadas, não estão ao lado de Daphne Du Maurier. Além de ter escrito o livro depois de Nabuco, ela possivelmente teve acesso ao manuscrito do seu livro pelo seu agente literário, já que na época ela já era uma escritora publicada com quatro livros de moderado sucesso. Tanto Daphne quanto seu editor negaram qualquer cópia de Nabuco, mas um processo veio de qualquer maneira, em 1941 em nome da escritora Edwina MacDonald pelo seu livro Blind Windows, lançado em 1927. Segundo os herdeiros de Edwina, existiam inúmeros paralelos entre as duas publicações: 46 paralelismos para ser mais exata. A verdade? De acordo com uma sinopse do livro no The New Orleans of Fiction: A Research Guide de James A Kaser, o romance de MacDonald conta a vida da heroína Wilda que resolve se casar com um homem mais velho e com dinheiro, um viúvo. Ele tem uma filha de sete anos e logo Wilda percebe que não se encaixa naquela sociedade de Nova Orleans. Ela acaba se separando de seu marido e casa-se de novo, buscando sempre mais fortuna e poder.  

Em Blind Windows, Wilda também é rodeada pelas memórias da primeira esposa de seu marido, mas é aí que a coincidência começa e também acaba ao se comparar com os livros de Daphne e Nabuco. Carolina Nabuco, uma das figuras mais amadas da época no Brasil, filha de Joaquim Nabuco, famoso diplomata e político, teria muito mais chances em um processo contra Daphne, se ela tivesse perseguido esse caminho. 

Suzana Vieira como Marina na novela A Sucessora e Joan Fontaine no filme Rebecca                Divulgação
As semelhanças entre as duas histórias são fortes demais: de um lado Marina, uma inocente menina do campo, que acaba se apaixonando pelo viúvo Roberto Steen e se muda com ele para uma luxuosa nova casa em Petrópolis, no Rio de Janeiro enquanto se sente assombrada pelo quadro emoldurado de sua antiga esposa Alice, tendo que suportar sua cunhada Germana, que idolatra a primeira esposa de Roberto. Do outro, a nova esposa de Max de Winter, sem nome, uma mulher simples que se vê assombrada pelo quadro da bela Rebecca e pela a antiga empregada, a senhora Danvers, que tenta, à todo custo, deixar a memória de sua patroa viva.  

O filho de Daphne, Kits Browning, concedeu uma entrevista ao jornal The Telegraph e nem sequer mencionou a acusação de plágio. Para ele, sua mãe teve a ideia durante uma viagem no Egito e pelo ciúmes que ela tinha da primeira noiva de seu marido, chamada Jan Ricardo, que assinava seu nome com um lindo R. Juntando isso, com sua casa em Milton Hall na qual trabalhava uma estranha empregada e essa é a justificativa de Daphne e seu filho para a composição de Rebecca. 

Existem diversos pontos em comum em ambos os livros que não podem ser negados: uma sala reservada apenas para o quadro da primeira esposa, a sensação de serem observadas por serem as sucessoras, a comparação constante de amigos e parentes, e a busca, de uma maneira ou de outra, para se livrarem da casa que jamais pertencerá à elas.

Será que essas evidências justificariam o suposto plágio de Daphne Du Maurier com a obra de Carolina Nabuco? As evidências apontam que a sucessora é a Rebecca e não Marina. 

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