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Mistério: a morte da atriz Virginia Rappe


Ser uma jovem sonhadora em Hollywood já não é fácil hoje em dia, e na época dos filmes mudos, era muito menos. Muitas mulheres com grandes aspirações tinham seus sonhos destruídos e tentavam, de qualquer maneira, sobreviver no tão sonhado mundo do entretenimento. Virginia Rappe era uma dessas pessoas. Nascida Virginia Caroline Rapp, em 7 de julho - embora o ano não seja preciso: alguns noticiam 1894, outros 1895 e 1896, e até chegam à 1891! - a vida dela já não começou nos melhores termos: sua mãe, Mabel Rapp, não era casada quando a teve: um escândalo para a época. Mabel morreu quando Virginia tinha apenas 11 anos de idade e logo a pequena ficou aos cuidados de sua avó, em Chicago.

Divulgação/Gif
Assim, ela foi picada pelo mosquito da fama: começou a trabalhar como modelo quando era adolescente, por volta dos 15 anos de idade, envolvendo-se com um homem bem mais velho: John Sample tinha 48 anos e era um escultor, ela era ainda uma adolescente. Mas já foi antes desse relacionamento, aliás, que Virginia teria dado à luz uma filha, que foi doada para um casal da região. De acordo com o jornal The Des Moines Register, em outubro de 1921, Virginia ainda cuidava financeiramente da filha, segundo seu advogado Bates Bald, que nasceu entre 1912 -1913: "O pai da criança desapareceu logo antes do nascimento. Quem ele era e quando eles se casaram permanece um mistério. Virginia estava seguindo os passos de sua mãe, na época, sobrevivendo como modelo e sem meios de prover para a criança." 

Bates, aliás, ainda afirmou que "não sei onde a filha de Virginia está no momento, mas estou confiante que ela está em Chicago e possa localizá-la logo e provar quem é ela. Virginia pagava pelo cuidado da criança e tenho confiança que continuou a fazer antes de sua morte." Apesar de tantas notícias sobre o tema, a filha de Virginia Rappe continua a ser apenas um boato: não houve nenhuma menção sobre ela depois do fato, então o caso continua um mistério.  

The Daily Star/Jornal
Mas voltando a história de nossa atriz e modelo, Virginia, logo depois da trágica morte de seu noivo, resolveu estudar para ser estilista de moda e era muito boa, tanto que muitas pessoas queriam suas opiniões sobre como se vestir. Foi em 1916, que ela resolveu se mudar de Chicago para São Francisco.E lá, segundo o escritor Charles F. Addams que ela ficou noiva mais uma vez: de Robert Moscovitz, o herdeiro de uma fábrica de roupas. Esse romance também acabou em tragédia, com a morte de Robert em um acidente de carro alguns meses depois.  

Decidida a deixar tudo para trás, Virginia foi para Los Angeles na primavera (para nós outono) de 1916 e estava cada vez mais perto de seu fatal destino do dia 9 de setembro de 1921. Ao chegar ela ficou no famoso Hollywood Hotel - repleto de roteiristas, diretores, atores e produtores - e mais tarde se mudou com sua tia de consideração, Kate Hardebeck. Tudo mudou, no entanto, quando ela conheceu o famoso produtor Henry Lehrman em 1918, depois de estrelar em seu primeiro filme, o perdido Paradise Garden de 1917, sendo dirigida por Fred J. Balshofer. 

Henry Lehrman e Virginia Rappe                                                      Divulgação/Montagem
Os dois só começaram a namorar de forma séria em 1918 e ele já arranjou de colocar Virginia na maioria de seus filmes - Lehrman era um produtor de filmes mudos que tinha sua própria empresa, a Henry Lehrman Productions - inclusive a fazendo uma estrela exclusiva de seu estúdio. De acordo com o livro sobre o caso de Virginia, o Room 1219 de Greg Merritt, ela ganhou seu contrato em meados de setembro de 1919, sendo anunciada como "a garota mais rica das telas." O que era uma mentira, é claro. Um ano antes, aliás, ela tinha ganhado um outro rótulo, como a 'Garota Mais Bem Vestida dos Filmes' ao estrelar com um novato Rudolph Valentino em Over the Rhine, que foi lançado com The Seductress em 1920 e como Isle of Love em 1922, para tentarem capitalizar com a morte da atriz. O fato de ela ter sido uma estilista a ajudava muito em escolher suas roupas e como podemos ver em uma das versões cortadas do filme, o guarda-roupa de Virginia era impecável! 

O problema é que o estúdio de Henry foi um fracasso: em 1921, a relação entre os dois esfriava, ao mesmo tempo que Henry Lehrman Productions afundava, fazendo com que o produtor perdesse sua empresa e até sua casa. Virginia foi viver ao lado de sua "tia" Hardebeck novamente. Sua carreira estava totalmente estagnada depois de ser protagonista do filme Twilight Lady (1920) e ela não sabia mais o que fazer. Foi aí que recebeu o convite de seu agente, Alfred Semnacher para fazer uma viagem como ele até São Francisco com sua outra amiga e amante dele Maude Delmont, que não tinha as melhores das reputações Assim, ela se encontrou novamente com Fatty 'Roscoe' Arbuckle, quem ela teria conhecido em 1918, ao visitar seu noivo Lehrman no set de filmagens de Joey Looses a Sweetheart (mais um filme perdido).  

Fatty Arbuckle e Virginia Rappe                                                      Divulgação/Montagem
A partir desse ponto, a narrativa dos fatos se torna meio borrada. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu naquela noite e muitos afirmam que Fatty e Virginia já se conheciam antes e ele sempre dava em cima dela. Outros afirmam que eles se conheciam apenas de vista e naquela fatídica noite foi apenas um caso de 'lugar errado na hora errada.' De acordo com o livro Crimes and Trials of the Century, as versões sobre Fatty Arbuckle são controversas: Fatty tinha planejado dar uma festa no hotel St. Francis para comemorar seus dias de folga no feriado do Dia do Trabalho em 5 de setembro de 1921. Ele havia comprado muita bebida para a festa -lembre-se que essa era a época da proibição do álcool- e de algum modo Virginia e seus amigos foram convidados, já que eles também estavam em São Francisco. 

Todos que estavam lá naquela noite - Alfred, Maude, Fatty, Fisbach e Sherman - concordam que Virginia se embebedara rápido e logo estava tão fora de si que tinha rasgado suas roupas e pedido para que a ajudassem. Foi o testemunho de Maude, no entanto, que mudou a percepção da opinião pública. Já Fatty, um astro famoso e o primeiro comediante a ganhar um milhão de dólares por um filme - tinha alugado três quartos no hotel, o famoso 1221 (no qual tudo aconteceu) e mais dois - uma para ele, outro para as mulheres da festa; todos interligados - teria, segundo ele mesmo, encontrado Virginia bêbada, passando mal no banheiro, colocou-a na cama e mudou de roupa para voltar à sua festa. 

Maude Delmont, contou algo bem diferente para os jornais da época, antes do julgamento em outubro: disse que tinha visto Fatty levar uma Virginia embriagada para o quarto, onde ele bateu nela e a estuprou, revelando que as últimas palavras de Rappe no hospital foram: "Ele deveria estar aqui para ver o que fez comigo e sofrer." Como essa foi a primeira versão da história noticiada, não adiantou depois que as investigações revelassem que Virginia não tinha sido estuprada e que, provavelmente, sofria de uma infecção na bexiga depois de tantos abortos sofridos anteriormente que não foram muito bem executados. A opinião pública estava contra Fatty, ainda mais depois de saberem que ele e sua turma foram embora e deixaram Virginia para trás. 


Fatty no primeiro de seus três julgamentos             Divulgação/Biblioteca do Congresso
Virginia Rappe faleceu em 9 de setembro de 1921 no no sanatório Wakefield e, apesar do mais novo sucesso de Fatty nas telonas, Gasoline Gus, ele foi recebido em sua casa por uma horda de jornalistas e logo começou um processo de julgamento que durou até abril de 1922 - Fatty 'Roscoe' passou por mais de três julgamentos e todos foram ao seu favor, ou seja, foi considerado inocente. Mesmo assim, a absolvição não o ajudou: ele foi removido da indústria do cinema e ninguém mais o contratava. Morreu aos 46 anos de idade, prestes à voltar para as telonas para seu primeiro filme depois de mais de 10 anos sem aparecer no cinema. 

Aliás, o noivo tão amado de Virginia, que fez um escândalo na época, dizendo palavras doces como: "Meu único consolo é que Virginia morreu como viveu - forte, orgulhosa e lutando até o último minuto por sua honra.", não era nada além de um charlatão. Ele já estava envolvido com a atriz Jocelyn Leigh e alguns dias depois da morte dela, segundo conta o jornal The Odgen Standard de janeiro de 1922, ele saiu para comprar um casaco de pele para sua futura esposa, dando o calote logo depois. 


 R$1.000 para lírios, mas nem um centavo para lindo casaco de pele                Jornal/Divulgação
Isso não ajudou em nada a reputação da já falecida Virginia Rappe, ainda mais quando uma enfermeira de Chicago, chamada Virgina Warren revelou que assistiu à Rappe durante o nascimento de sua suposta filha e outra enfermeira, Elizabeth Roth, que cuidava de uma maternidade em Chicago, revelou em frente ao júri: 
"Entre 1908 e 1910, Virginia Rappe estava para se tornar mãe quatro vezes. Eu a atendi em todas as ocasiões. Na primeira ela estava muito doente. Nas outras ocasiões, eu a atendia seis semanas cada. Na primeira um bebê nasceu. A senhora Rappe já sofria de problema na bexiga." 
Isso contribuiu para que o o júri compreendesse melhor a causa da morte de Virginia: periotinite: uma ruptura no abdômen, que pode ter ocorrido devido às más condições em que ela teve o aborto: com instrumentos mal esterilizados e local sem higiene adequada. Ainda suspeitava-se que ela tinha acabado de fazer mais um aborto antes do dia 5 de setembro, dessa vez da criança que teria com seu noivo Henry Lehrman. Mas nada disso é concreto, porque a biópsia do corpo foi feita às pressas pelo Hospital, para tentar encobrir sua incompetência. 

Mesmo inocentado três vezes pela morte de Virginia Rappe, Fatty Roscoe protagonizou o primeiro escândalo de Hollywood e seu primeiro mistério: até hoje ninguém sabe o que aconteceu durante aqueles três dias em que ela ficou no quarto convalescendo. Por que não buscaram ajuda antes? A morte dela poderia ter sido evitada? Isso nunca se saberá.  


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