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A poesia de Vivien Leigh no Brasil

Vivien Leigh foi uma das grandes atrizes do cinema. Apesar de uma carreira cinematográfica curta, ela ganhou dois Oscars de Melhor Atriz por suas atuações em ...E o Vento Levou (Gone With The Wind, 1939) e Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, 1951), a atriz amava mesmo era o teatro. 

Tanto que, ao lado de seu marido por mais de vinte anos, o renomado Laurence Olivier, Vivien estrelou com ele num total de dezesseis peças, incluindo Hamlet, na qual Leigh interpretava Ophelia em 1937 e acabou conhecendo Olivier, que se apaixonou perdidamente por ela. 

Infelizmente, Vivien Leigh sofria com a depressão e o transtorno bipolar e na época, com a falta de informação e tratamento, a promissora atriz sofreu muito. Mas antes de sua morte, em 1967, a atriz agraciou os brasileiros com sua presença no país, sendo considerada uma dama de graça maior. 

Vivien com a elegância de sempre no Brasil                                        Divulgação/Cinelândia
O ano era 1962 e Vivien chegava em São Paulo com a companhia de teatro Old Vic Theatre Company. A trupe teatral estava fazendo apresentações em todos os locais do mundo e depois de uma passagem em Montevidéu, Buenos Aires, eles aterrizaram em São Paulo no dia 7 de maio de 1962 para cumprir o mesmo programa de peça que fariam no Rio de Janeiro. 

Ao lado de astros do teatro como John Merivale, seu amante,  Sally Home e Basil Henson, com a direção de Robert Helpmann, ela interpretou ao total cinco peças, A Noite dos Reis do dramaturgo William Shakespeare, a Dama das Camélias de Alexandre Dumas e Grandes Cenas de Shakespeare. A apresentação da trupe, no entanto, não agradou: um crítico a intitulou de "tempero sem gosto." 

Quando Vivien Leigh ainda estava em São Paulo, se apresentando no Teatro Municipal, uma coincidência aconteceu: a atriz Maria Fernanda estava interpretando a personagem Blanche DuBois, por qual Leigh recebeu seu segundo Oscar de Melhor Atriz do filme Uma Rua Chamado Pecado em 1952. Assim o teatro Oficina resolveu combinar o encontro de Vivien, Maria Fernanda e de Henrietta Morineau, a primeira intérprete da Blanche no Brasil. 

Na ordem: Maria Fernanda, Vivien Leigh e Henrietta                     Divulgação/Cinelândia
Vivien estava muito chique com um casaco de peles e um lenço na cabeça, além de uma linda maquiagem, mas de acordo com a revista Cinelândia, recusou-se a ser filmada pela TV por afirmar não estar com a "maquiagem apropriada." Mas ao ser perguntada se preferia a Blanche que fez no teatro, sendo dirigida por Laurence Olivier, ou a do cinema por Elia Kazan, ela nem pestanejou: "Meu marido compreendia e amava Blanche. Elia Kazan, não!" 

Uma anedota fofa foi a do filho de Maria Fernanda, então com apenas 5 anos, que ofereceu um ramo de flores para Vivien, que classificou sua estadia em São Paulo como uma bela temporada, comprando inúmeras lembrancinhas para seus amigos, além de pinturas de Aldemir Martins para levar para casa. Vivien também escolheu todo um guarda-roupa novo, de acordo o jornal Última Hora, com seis vestidos da Maison Deiner, saindo até de braços dados com o costureiro! Que chique. 

No dia 12 de maio, no entanto, ela tinha mais uma temporada do teatro para cumprir, dessa vez no Rio de Janeiro. Chegando ao lado de seus funcionários, de seus colegas e de seu amante, John Merivale, no voo das 12h30 do aeroporto do Galeão, Vivien ficou hospedada no hotel Glória e, diferentemente de Ava Gardner, não teve problemas.

Foto borrada de Vivien Leigh no Aeroporto do Galeão                            Divulgação/Tribuna
No dia seguinte da sua chegada, em 13 de maio de 1962, Vivien Leigh sentou-se para conversar com os jornalistas ávidos, além de fãs e estudantes de teatro. Segundo o jornal Correio da Manhã, a atriz deixou claro sua preferência pelo teatro: "Tenho preferência pelo teatro e só de cinco em cinco anos faço um filme. Fiz recentemente a Em Roma na Primavera (The Roman Spring of Mrs. Stone, 1961), de José Quintero, que considero um dos melhores diretores do cinema, assim como Elia Kazan." 

Apesar de sua preferência pelo teatro, no entanto, Leigh não pareceu muito animada com os teatros de São Paulo e do Rio de Janeiro: "Nesse particular o país é um dos mais atrasados da América do Sul, abaixo mesmo do México, Chile e Uruguai e o Teatro Municipal, onde vou me apresentar, não passa de um teatro lírico para cantores de ópera, pois a distância entre o palco e a plateia é muito grande e os artistas de teatro não podem ser ouvidos pelo público. Aliás, antes de vir para cá Jean-Louis Barrault, tinha me informado disso e acabei de confirmar." Vivien também afirmou que ama o teatro inglês, por estar mais familiarizada com a linguagem, mas considera o teatro francês muito bom também. 

Logo depois da reunião com os repórteres, que foram informados que deveriam evitar de fazer qualquer pergunta de cunho pessoal, afinal a atriz havia acabado de se separar de Olivier, Vivien e seu diretor da peça, além de uma parte do elenco, iriam para uma festa feita especialmente para eles na Embaixada Britânica no Brasil. 

Vivien Leigh na coletiva de imprensa do Hotel Glória                     Divulgação/Correio da Manhã
Em uma das inúmeras festas feitas para a companhia de teatro Old Vic, Vivien Leigh se reencontrou com Maria Fernanda, que além de atriz, também é filha da poetisa Cecilia Meireles. Cecilia sofria com um câncer no estômago, algo que Maria comentou com Vivien durante sua estadia no Rio de Janeiro. Maria Fernanda e Vivien se deram muito bem e se tornaram boas amigas. 

A atriz, então, resolveu visitar a poetisa e levar-lhe um ramo de lindas rosas. Não apenas uma vez, como já conta o jornal Correio da Manhã - ela a visitava regularmente. Em entrevista à Roda Vida da TV Cultura, o ator Renato Borghi, um dos fundadores do teatro Oficina, na qual Maria Fernanda atuou, corrobora a história: "E depois, ela ficou muito amiga da mãe da Maria Fernanda, da Cecília Meireles, que estava doente, estava mal, no hospital. E a Vivien Leigh passou a ir lá, todo dia, ficar sendo companheira mesmo, nesse hospital, com a Cecília Meireles." 

Supostamente, Cecilia teria escrito um poema para Vivien Leigh por todo o carinho que ela demonstrou à ela, falando sobre as rosas que a atriz a levou. Dizem que o poema seria Desventura, mas não encontrei fontes que corroborassem essa informação. Mesmo assim, deixo com vocês o poema que seria para Vivien, na íntegra:
"Tu és como o rosto das rosas: diferente em cada pétala. Onde estava o teu perfume? Ninguém soube. Teu lábio sorriu para todos os ventos e o mundo inteiro ficou feliz. Eu, só eu, encontrei a gota de orvalho que te alimentava, como um segredo que cai do sonho. Depois, abri as mãos, — e perdeu-se. Agora, creio que vou morrer."
Vivien se apresentando no teatro Municipal do Rio de Janeiro em 1962                            Divulgação
Mas como já percebemos, nenhuma estadia de um astro no Brasil passa sem alguma turbulência e com Vivien, não foi diferente. Segundo o jornal Última Hora, Vivien teve uma crise de nervos antes da apresentação no teatro do Rio de Janeiro - algo que sabe-se hoje em dia ser por causa de seu transtorno bipolar - e a ordem da apresentação das peças foi trocada, já que o colega e ator Richard Helmut recusou-se a contracenar com a atriz. 

Assim, já no final da temporada, ele foi até Vivien e lhe disse poucas e boas na cara dela. Ofendida, Vivien logo embarcou em uma avião de volta para Londres ao lado de Marvile e encerrou suas atividades com a companhia Old Vic. Vivien partiu do Brasil no dia 18 de maio de 1962 e foi embora com uma confusão final: seu secretário, Dannuel, partiu para cima dos fotógrafos que queriam tirar uma foto de Vivien e foi escoltado de volta ao avião. 

Vivien Leigh parte do Brasil no dia 18 de maio de 1962                           Divulgação/Montagem

Apesar de uma única vinda ao Brasil, Vivien Leigh foi considerada por todos uma grande dama, com muita classe e beleza. Apesar das críticas duras sobre a peça que trouxe ao Brasil, sua performance e sua gentileza foram incrivelmente acolhidas.

Vivien faleceu em 8 de julho de 1967, mas para os amantes de cinema e teatro, ela continua tão viva quanto antes!


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