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As vidas entrelaçadas de Pássaros Feridos, o livro de Colleen McCullough

*aviso: spoilers sobre o livro Pássaros Feridos 

Já vamos logo avisando: o livro Pássaros Feridos da escritora australiana Colleen McCullough é bem diferente do que sua primeira estreia como autora com a novela Tim. Enquanto Tim é um livro pequeno, conciso, mas detalhado, Pássaros Feridos é uma odisseia que segue uma família inteira e seus amores e desavenças pelo longo período de mais de 40 anos. 

Colleen McCullough morreu aos 77 anos de idade, em 2015                                 Divulgação
Essa grandiosa novela, com mais de 600 páginas, foi lançada em 1977 e inspirada pela avó de Colleen, Margaretta Hughes. Isso porque, Margaretta contou ao pai de Colleen uma história, ou melhor, lenda de um pássaro que empalava à si mesmo antes de cantar uma última linda canção. Foi esse conto que serviu de inspiração para a história do clã da família Cleary.  A autora, aliás, é extremamente ligada à assuntos religiosos sendo que Pássaros Feridos e suas outras obras lidam com o ambiente da Igreja Católica X a vida rural. 

Em entrevista ao jornal Wales Online, em 2009, a escritora contou: "A história foi contada à meu pai pela sua mãe, uma grande figura. Ela tinha mais de 1.80 metros de altura e bem grandona e, aparentemente, quando tinha uma eleição ela votava no seu candidato favorito mais de 70 vezes e ninguém a impedia. Ela tinha inúmeras histórias e contos e sempre contava ao meu pai James. A história dela do pássaro mistico sempre ficou na minha cabeça e acho que minha avó ouviu em Wales." 

O trecho do qual Colleen McCoullough se refere, e serviu de inspiração para seu livro, está descrito na primeira página de seu maior bestseller:
Existe uma lenda acerca de um pássaro que só canta uma vez na vida, com mais suavidade do que qualquer criatura sobre a terra. A partir do momento que deixa o ninho, começa a procurar o espinheiro-alvar e só descansa quando o encontra. Depois cantando entre os galhos mais selvagens, empala-se no acúleo mais agudo e mais comprido. E morrendo, sublima a própria agonia e despede um canto mais belo do que a cotovia e o rouxinol.Um canto superlativo, cujo preço é a existência. Mas o mundo inteiro para para ouvi-lo e Deus sorri no céu. Pois o melhor só se adquire  à custa de um grande sofrimento...Pelo menos é o que diz a lenda. 
Pássaros Feridos conta a história da família Cleary, composta em sua maioria por homens, com apenas Meggie, a única filha, e Fee, sua mãe distante e infeliz. O clã se muda para a Austrália à pedido de Mary Carson, irmã do chefe da família Cleary, Paddy. Assim o encontro de um jovem e belo padre Ralph de Bricassart e Meggie é inevitável, criando um vínculo entre eles que se estende por mais de 40 anos entre desavenças e amores não realizados. 

A primeira edição do livro              Divulgação
Para dar conta de um longo período de tempo a ser contado, a autora sabiamente dividiu sua novela em tais períodos: 1915-1917 Meggie; 1921-1928 Ralph; 1929-1932 Paddy; 1933-1938 Luke; 1938-1953 Fee; 1954-1965 Dane e por fim 1965-1969 Justine. Cada um deles conta a história e o desenvolvimento de cada personagem, dando ênfase em cada uma das pessoas que passam em sua vida. 

Para Meggie, a pessoa especial é o padre Ralph; para sua mãe Fee é Frank, seu primogênito, já Luke é o próprio ponto de amadurecimento para a tão vivaz Meggie, que a faz descobrir muito mais a realidade da vida e a dureza que é ser uma mulher. Todas as vidas estão entrelaçadas, até para os personagens mais secundários e é essa destreza de Colleen em seu livro que torna Pássaros Feridos uma grande obra-prima.

 O livro se inicia com Meggie, a única que deu continuidade aos Clearys, já que seus irmãos nunca se casaram, e se encerra com Justine, a única mulher que poderia ter filhos e continuar a enaltecer Drogheda, mas não o fez. Portanto, Meggie é o começo, Justine é o fim. 

A autora, é verdade, se estende em demasia ao descrever o tempo seco da Austrália, dando parágrafos enormes para descrever a seca e a chuva, alguns dos quais poderiam ser descritos brevemente. Mas é só nisso que o livro peca. Ao tear as personagens umas nas outras, Colleen é uma mestra - ninguém é esquecido e todos tem seu propósito na história, que com 668 páginas, poderia facilmente cair na monotonia. Isso nunca acontece em Pássaros Feridos, apesar de ser uma leitura densa e detalhada. 

A autora baseou grande parte da história de Pássaros Feridos em sua própria família: seu pai era abusivo e bruto, assim como Luke O'Neill, o primeiro marido de Meggie. A mãe da autora, aliás, foi quem deu origem à personagem Meggie, que como ela mesma contou em entrevista ao Daily Mail, ela tanto odiava: "Meggie em Pássaros Feridos é basicamente minha mãe. Eu a detestava. Você imagina escrever um livro com 280 mil palavras e odiar sua heroína? Ela era tudo que eu detestava em uma mulher. Ela sofreu e, o pior de tudo, ela gostava de sofrer." 

Podemos, então, dizer com certeza que a independente Justine, filha mais velha de Meggie, foi baseado um tanto na própria autora. Ambas com grandes carreiras, à frente de seu tempo e rebeldes. Casaram-se tarde na vida e nunca tiveram filhos. Fugiram, como o diabo foge da cruz, de ter o mesmo destino de sua mãe. 

O livro ganhou uma adaptação em  minissérie em 1983 que a autora detestou, mas que fez um enorme sucesso     Divulgação
Dean, o filho favorito de Meggie, glorioso com toda a sua beleza e bondade, também foi baseado no irmão mais novo de Colleen, Carl, que assim como Dean morreu em 1965 com 25 anos de idade do mesmo modo que o personagem: ao salvar duas pessoas do afogamento, porém morrendo na água, afogado.  

O livro Pássaros Feridos, na realidade, conta a história do clã McCullough, com apenas a tão famosa propriedade Drogheda sendo imaginada. Todo o resto foi baseado em histórias reais da vida da própria autora com algumas pinceladas de ficção, é claro. Seu irmão, na vida real, nunca quis ser padre e nem ela atriz, mas a essência dos dois está extremamente presente no livro.  

De acordo com a entrevista para o jornal The Guardian, a escritora nunca perdoou seus pais por tudo que lhe fizeram, assim como Meggie, e não sentiu nenhum impulso de fazê-lo, bem diferente de Justine que no livro mostra um lado mais vulnerável no final, que sempre intencionava em buscar o afeto e amor de sua mãe. 

O livro de McCullough, Pássaros Feridos é extremamente bem escrito, com detalhes das emoções e paisagens de uma família que ela conhecia tão bem, afinal era a sua. Além da descrição um pouco detalhada demais, ao nível de cansaço,  outro ponto negativo é quando Mary Carson, deixando sua fortuna ao padre Ralph, deixa claro que Drogheda pertencerá aos Cleary desde que haja um descendente direto. Ao passar do livro fica muito óbvio que a Fazenda deixará de existir quando Meggie e Fee e seus irmãos morrerem. Um tanto óbvio demais para ficarmos triste com o destino da propriedade. 

Apesar de algumas obviedades na narração, é incrível como a autora conseguiu desenvolver toda uma família sem fantasiar os acontecimentos ao seu redor: a Primeira Guerra, a Segunda Guerra e as mudanças de conceitos e de movimentos culturais são agregados à Pássaros Feridos de modo natural, assim como todo bom escritor deveria fazer. 

Pássaros Feridos, no fim, revela que nada na vida vem de graça - tudo tem um preço. Um preço alto, às vezes, alto demais. 



INFORMAÇÕES SOBRE O LIVRO 


Livro: Pássaros Feridos
Autora: Collen McCullough 
Páginas: 668 

Onde comprar? 
Estante Virtual: (clique aqui)
Mercado Livre: (clique aqui) 








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  1. Li essa obra por ocasião de leu lançamento (entre 78-79). Exatamente o ponto criticado foi o que mais me fascinou. A descrição do cenário daquela região da seca e e da chuva inundou meu imaginário, fazendo-me CAMINHAR junto aos personagens tão fortes e integrados ao ambiente.

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    Respostas
    1. Que demais, Celeste!
      Realmente, cada um tem seu ponto favorito ou não né? Acho que senti isso especialmente na segunda parte do livro, achei as descrições um tanto arrastadas, mas de forma alguma tira o brilho do livro.

      Obrigada e volte sempre :)

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