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A comédia deliciosa de Casei-me Com Uma Feiticeira (I Married a Witch, 1942)

Veronica Lake era uma das grandes estrelas da década de 1940, afinal quem consegue esquecer de sua franja lateral, cobrindo um de seus olhos, e que lhe dava aquele olhar de mulher fatal -apesar de seus 1,51 cm de altura - que todas as mulheres queriam copiar? 

Ela se tornou uma estrela hollywoodiana quando protagonizou o filme Contrastes Humanos (Sullivan's Travels, 1941). Praticamente desconhecida até então, ao interpretar a garota no filme, ela causou um impacto tão grande que teve seu rosto no poster de Contrastes Humanos (Sullivan's Travels, 1941). Logo depois veio a película Alma Torturada (This Gun For Hire, 1942) com Alan Ladd, o primeiro de oito filmes juntos - os dois com sua beleza, química (apesar de não se darem bem fora das telonas) e sua pouca estatura (que os fazia parecer mais altos do que eram) faziam a dupla perfeita. 

Nesse ínterim, no entanto, Veronica Lake conseguiu participar da deliciosa comédia Casei-me com uma Feiticeira (I Married a Witch, 1942) ao lado de Fredric March e o sucesso era garantido, mesmo que ninguém previsse esses percalços. 

Veronica Lake e Fredric March em foto de divulgação                                        Divulgação
O diretor francês René Clair naquela época, já havia dirigido filmes de comédia independentes e sua primeira tentativa de sucesso em Hollywood com o filme Paixão Fatal (The Flame of New Orleans, 1941) foi um desastre, tanto que o cineasta achava que não conseguiria fazer mais nada em Hollywood.

Assim René conta na entrevista René Clair in Hollywood: an Interview para a revista Film Quarterly, que apenas conseguiu dirigir o filme Casei-me com uma Feiticeira (I Married a Witch, 1942) por causa do sucesso de Veronica Lake, embora ele não achasse que ela fosse certa para o papel, no começo.
Meu agente Myron Selznick (irmão do famoso produtor David O. Selznick) tinha me mandado um livro chamado The Passionate Witch. Eu li e achei que poderia fazer algo com aquilo. Eu conheci Preston (Sturges; que dirigiu Lake em Contrastes Humanos (1941)), que eventualmente se tornou um bom amigo meu e que era, então, o diretor principal do estúdio Paramount. Falamos sobre o projeto e ele concordou em produzi-lo para mim. Paramount estava tentando encontrar o veículo certo para Veronica Lake, que estava recebendo muita atenção - em parte pelo seus belos cabelos. Eles não queriam um papel qualquer para ela e Preston os convenceu de que Casei-me Com Uma Feiticeira era o filme ideal para ela. E foi isso que os convenceu: Veronica Lake conseguiu o emprego para mim. Ela era bem mais importante para o estúdio do que eu, acredite. 
Casei-me com uma Feiticeira (I Married a Witch, 1942) foi baseado no livro The Passionate Witch escrito por Thorne Smith; o autor, no entanto, faleceu antes de terminar de escrever o livro e o mesmo foi completado por seu amigo Norman H. Matson. O livro conta a história da bruxa Jennifer, no filme interpretada por Lake, que é condenada no século XVII por praticar magia negra. Ela e seu pai, vivido por Cecil Kellaway, são condenados a serem queimados na fogueira, e antes de terem seus espíritos aprisionados, Jennifer lança uma maldição para que todos os homens de família Wooley - a do homem que a condenou - se casem apenas com mulheres horríveis. 

Depois de séculos, finalmente libertada, Jennifer e seu pai resolvem se vingar do mais novo descendente da família Wooley, Wallace, interpretado por Fredric March. Ela faz de tudo para que ele se apaixone por ela, com resultados hilários, mesmo ele estando prometido para outra garota, a metida Estelle, vivida por Susan Hayward antes de se tornar uma estrela. Mas será que ela consegue conquistá-lo sem o uso de mágica e finalmente vingar sua família?
A personagem de Veronica utilizava-se de inúmeras táticas para conquistar Wooley             Divulgação/Gif
O filme Casei-me com Uma Feiticeira (I Married a Witch, 1942) foi conturbado desde seu início. Isso porque o papel de Wallace Wooley foi dado, primeiramente, para o ator Joel McCrea, mas ele declinou porque não queria trabalhar com Veronica novamente, depois da péssima relação que os dois tiveram em Contrastes Humanos (Sullivan's Travels, 1941). Assim o roteiro, escrito por Robert Pirosh e Marc Conelly, foi enviado para o ator Fredric March, que o leu e ficou muito animado em participar do filme - ainda mais por ganhar U$ 100 mil dólares de salário antes de voltar a fazer a peça The Skin of Their Teeth na Broadway; como conta o livro Fredric March - A Consummate Actor de Charles Tranberg.

As gravações do filme Casei-me com Uma Feiticeira (I Married a Witch, 1942) começaram em abril de 1942 e duraram apenas seis semanas. Mesmo assim, isso foi tempo suficiente para que Veronica e Fredric começassem a se odiar. De acordo com a biografia Peekaboo: The Story of Veronica Lake de Jeff Lenburg, a luta de Veronica já começou quando o diretor René achava que ela não era atriz o suficiente para lidar com um papel de comédia. Depois de ver os primeiros rolos de gravação, René Clair viu como estava errado e se desculpou com Veronica. Mal ela sabia que sua próxima batalha seria com sua co-estrela, Fredric March! 

Fredric March tinha a fama de ser um mulherengo completo. Claudette Colbert que trabalhou com ele em quatro filmes, reafirma essa noção: "Freddie era o pior mulherengo que eu já conheci. Suas mãos tinham 20 dedos, eu juro, e elas sempre estavam na minha bunda." E quando o ator viu Veronica, no auge de sua beleza, ele não resistiu de avançar na atriz, coisa que Lake não gostou nada. 


Infelizmente, os dois se detestavam, mas isso não aparecia nas câmeras            Divulgação/ScenaMuda
Teet Carle, publicista da Paramount e que havia trabalhado com Veronica em dois filmes anteriores, revelou o problema que Veronica tinha com Fredric: "Fredric March já tinha trabalhado com atrizes lindas e achou a Veronica maravilhosa. Bem, ela costumava provocá-lo dizendo que ele era um velho tarado (March tinha 45 anos de idade então e Lake nem tinha 20 anos ainda), já que ele ficava dando em cima dela e das outras mulheres no set. Ele tinha a reputação de estar alerta o tempo todo." 

Por causa disso, Lake e March não se deram nada bem e insultado, Fredric March devolveu à atriz na mesma moeda, afirmando que ela era uma: "lorinha tonta e sensual, sem qualquer talento para atuar." Infelizmente para March, ele não sabia que a tal loirinha podia e faria da vida dele, naquelas seis semanas, um inferno! Para se ter uma ideia, na cena em que Jennifer finalmente se materializa em um corpo, ela é carregada por Wooley em um prédio em chamas e está apenas coberta por um casaco de pele. Veronica, pronta para retaliá-lo, colocou, costurado no casaco, um peso de 18 kg e March teve um baita de um trabalho para carregá-la. Profissional, ele mesmo assim a carregou e ao indagar como uma mulher tão pequena pesava tanto, Lake teria ironizado: "tenho ossos grandes." A partir daí, Fredric March teria passado a chamar o filme de 'I Married a Bitch', ou seja, "Casei-me com uma Vadia." 


Veronica conseguia ser tão vingativa quanto sua personagem, Jennifer.                                  Divulgação
A rivalidade dos dois não ficou só aí. Em sua autobiografia Veronica: The Story of Veronica Lake, a atriz relata outro momento conturbado entre os atores. Ele aconteceu durante a gravação de outra cena, no qual apenas o tronco dos atores apareciam na câmera, depois que um quadro cai em cima da cabeça de Jennifer, e Lake aproveitou para acariciar com seu pé as partes íntimas do ator, sabendo que ele não sairia do personagem por nada neste mundo. 
Sendo um profissional, ele nunca demonstrou na cena. Mas não foi fácil para ele e eu me diverti em saber o que se passava pela mente dele. Naturalmente, quando a cena acabou ele veio pra cima de mim. Eu apenas sorri. 
Se o nervosismo de March, que ao aceitar o papel achava que seria um filme fácil e tranquilo de fazer, e seus avanços sexuais para Lake tornaram o filme Casei-me com uma Feiticeira (I Married a Witch, 1942) um pesadelo para ela; a falta de profissionalismo de Veronica teve o mesmo efeito para March. 

Segundo a biografia Fredric March - A Consummate Actor de Charles Tranberg, Veronica tinha a reputação de nunca aparecer para suas cenas na hora e de deixar o elenco e a equipe de filmagem sempre esperando, ficando com fama de difícil no seu estúdio, a Paramount. Para se ter uma ideia, no dia em que ela deveria tirar fotos com Fredric como divulgação para o filme, ela deixou o ator e o fotógrafo esperando por horas e quando apareceu, os dois estavam tão irritados que as fotos saíram horríveis. 

Preston Sturges iria inicialmente produzir o filme ao lado de Clair, mas achou o diretor autoritário demais e saiu da produção, a mesma pela qual havia lutado para que Lake conseguisse o papel. Já não bastasse que os dois protagonistas se odiassem e que o diretor René Clair tivesse que se desdobrar para atender as demandas de Lake e March (com ela se saindo melhor na primeira gravação enquanto o ator florescia com inúmeras tomadas), a atriz Susan Hayward que interpretava a noiva Estelle também não estava feliz com o seu papel. 

Susan Hayward não ficou feliz com seu papel de coadjuvante no filme                     Divulgação

Isso porque ela já havia ganhado crédito como protagonista no filme Clarão no Horizonte (The Forrest Rangers, 1942) e ficou muito chateada de ser renegada à coadjuvante em seu filme posterior, o Casei-me com uma Feiticeira (I Married a Witch, 1942), além de ter que interpretar uma personagem completamente horrorosa. Assim, ela era difícil de se lidar e permanecia desligada do resto da equipe. Neste caso, no entanto, Fredric March encontrou desculpas para seu comportamento: 
Ela era cheia de 'não me toques' no set de filmagem e muito raramente ela se entrosava com a equipe, mas em algum lugar a partir daí ela aprendeu a atuar. Cada centímetro daquela mulher é de uma atriz. 
Para o papel de Estelle, a atriz Patricia Morrison - atualmente vivíssima com 103 anos de idade - também foi considerada, mas tendo o conhecimento de que Patricia perdeu o papel principal no filme Capitulou Sorrindo (The Glass Key, 1942) no dia anterior de começar a gravar para Veronica, foi até bom que as duas não atuaram juntas, sendo esse o motivo pelo qual Patricia não fora escalada. 

Casei-me com Uma Feiticeira (I Married a Witch, 1942) estreou nos Estados Unidos em 30 de outubro de 1942 e foi um sucesso de público absurdo, tanto que a Paramount se arrependeu de ter quase vendido os direitos do filme para a United Artists. O filme foi indicado para um Oscar, o de melhor música, mas acabou não ganhando. 

Isso, no entanto, não retira em nada o brilho de Veronica Lake como Jennifer, uma bruxa espevitada e simplesmente encantadora. March, como sempre, está perfeito no papel do certinho Wallace, que descobre em Jennifer, a espontaneidade que lhe faltava. Com uma química certeira, é impossível notar que os dois se odiavam quando gravaram o filme.
 
Olha só esse beijo! Impossível saber que os dois não se davam bem.                 Divulgação/Gif

Vale lembrar que Casei-me com uma Feiticeira (I Married a Witch, 1942) e o filme Sortilégio de Amor (Bell Book and Candle, 1958) foram as inspirações para a bem-sucedida série estrelada por Elizabeth Montgomery, A Feiticeira (Bewitched, 1964-1972) como a querida Samantha Stephens. 

Casei-me com uma Feiticeira (I Married a Witch, 1942) é uma comédia romântica super gostosa de se ver - o filme não é clichê, é imaginativo e foi feito especialmente para Veronica Lake brilhar. E nossa! Como ela brilha neste filme. 


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Sobre Gabriella Baliego
Vem revirar a caixa do cinema com a gente! Filmes, músicas, arte, livros, séries - tudo que tem a ver com o universo clássico da sétima arte.

4 comentários:

  1. Esse filme teve os bastidores bem quentes, confesso que eu com certas atitudes da Veronica KKKKKK

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  2. Sim, Gabriela, eu também ri demais com as travessuras da Veronica!Ela era bem vingativa assim como a personagem e não levava desaforo pra casa!
    Uma diva mesmo! Hahaha

    Volte sempre ;)

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  3. Que matéria bem pesquisada e divertida! Me deu vontade de assistir o filme. Vou procurar.

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