Os bastidores de um clássico: O Rei e Eu (The King and I, 1956) - Caixa de Sucessos

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19/06/2019

Os bastidores de um clássico: O Rei e Eu (The King and I, 1956)

*spoilers de O Rei e Eu (The King and I, 1956)

Um dos maiores clássicos do cinema de Hollywood, O Rei e Eu (The King and I, 1956) garantiu à Deborah Kerr, Yul Brynner e Rita Moreno os seus lugares de destaque no mundo do entretenimento. 

O filme foi o primeiro grande papel de Yul, que já arrebatou, logo de cara, um Oscar por reprisar sua performance do rei Mongkut do teatro, e foi também o grande destaque de Rita Moreno, que a partir daí conseguiu mais e mais papeis em Hollywood. Entre eles, na época, apenas Deborah Kerr já era amada e conhecida pelo grande público e isso contou muito para que ela fosse a escolhida entre inúmeras atrizes. 

O Rei e Eu (The King and I, 1956) é baseado na autobiografia de Anna Leonowens, uma professora que depois de ficar viúva, aceita uma posição na Tailândia, para educar e servir ao rei e seus filhos, que buscavam uma educação mais moderna e ocidental. Anna e seu filho Louis ficaram no país por seis anos e foi relatando sobre sua experiência em seu diário, entre 1862 a 1867, que ela lançou o famoso livro intitulado A Governante Inglesa na Corte Siamesa (1970). Mas foi a versão ficcionalizada da escritora Margaret Landon em sua publicação Ana e o Rei (1944) que o filme que todos amam e conhecem começou a tomar forma. 

Foi Yul quem indicou Deborah Kerr para o papel
A história do filme O Rei e Eu (The King and I, 1956) começou lá em 1950, quando o advogado da renomada atriz de teatro Gertrude Lawrence, Fanny Holtzmann, ligou para a famosa dupla teatral, o compositor Richard Rodgers e o letrista Oscar Hammerstein II, indagando se eles estariam interessados em criar uma produção musical baseada no livro best-seller Ana e o Rei do Sião. Os dois produziram musicais famosos como O Barco das Ilusões, Oklahoma e Carrossel. 

Lawrence já possuía os direitos do livro de Margaret Landon, por sugestão de sua agente literária Helen Strauss que previa que a personagem Anna seria um grande trunfo para ela. De acordo com a biografia Deborah Kerr: A Biography de Michelangelo Capua, Lawrence queria que Cole Porter compusesse as músicas, mas ele recusou. Assim o encontro de Fanny com a esposa de Hammerstein assegurou a presença dos dois para a peça. Mas não sem as suas ressalvas.

A dupla teatral também não estava muito animada de trabalhar com Lawrence. Tanto que em sua autobiografia, via Michelangelo Capua, Richard afirmou: 
Nós nunca tínhamos feito um musical com um ator ou atriz específico em mente e nos preocupávamos que esse trato não nos daria a liberdade de escrevermos o que queríamos, como queríamos. O que também nos incomodava é que, embora admirássemos Gertrude tremendamente, sentíamos que seu alcance musical era bem limitado e que ela nunca conseguiu superar suas notas chatas. 
Após assistirem o filme Ana e o Rei do Sião (Anna and the King of Siam, 1946) estrelado por Irenne Dunne e Rex Harrison, eles se convenceram de que a peça poderia ser um sucesso e trabalharam durante quase todo o final de 1950 para que a história e as músicas do musical fossem as melhores possíveis. Assim foram criadas canções clássicas como I Whistle a Happy Tune, Getting to Know You e We Kiss in a Shadow. 

A dupla queria que Rex Harrison reprisasse seu papel como o Rei (e Irenne Dune queria a chance de reinterpretar Anna), mas depois de uma audição fracassada, ele foi descartado. Outros nomes como José Ferrer, Ezio Pinza, Nöel Coward e Alfred Drake foram considerados, mas foi o diretor de televisão Yul Brynner quem arrematou o papel. Persuadido por sua esposa e amiga, Mary Martin, ele fez uma audição para ser o Rei (com o cabelo já raspado) e impressionou à todos, enquanto ele mesmo se apaixonava pelo personagem no processo! Assim nasceu o Rei da Broadway! 

Yul e Gertrude durante as primeiras performances de O Rei e Eu
As primeiras performances da peça O Rei e Eu não foram lá muito bem-recebidas: a peça tinha mais de 5 horas de duração e nenhum romance entre o Rei e Ana. Foi Yul quem sugeriu, de acordo com a biografia Yul Brynner: A Biography, de que uma grande história de amor faltava na peça. A canção Shall We Dance foi incluída e o Rei e Eu diminui para duas horas de duração. Em sua estreia na Broadway em 19 de março de 1951, o sucesso foi absoluto! Tanto que um jovem Sal Mineo, o mesmo de Juventude Transviada (Rebel Without a Cause, 1955) também participou da peça como um substituto e, posteriormente, filho do rei. Ele e Yul se tornaram ótimos amigos e colegas de trabalho.

Logo não demorou muito para que a peça fosse transformada em um filme e o estúdio 20th Century Fox aproveitou a deixa assegurando os direitos da peça. Gertrude, que possuía os direitos do livro, firmou um contrato no qual se fosse feita uma versão para o cinema, ela interpretaria Ana. Infelizmente, a atriz morreu em setembro de 1952 de um câncer não diagnosticado de fígado. Ela foi enterrada com o vestido de dança que usou na peça. 

Portanto, o papel de Anna poderia ser de qualquer uma: Vivien Leigh foi brevemente considerada e Maureen O'Hara quase assegurou o papel. Daryl F. Zannuck, diretor do estúdio, queria que O'Hara interpretasse Anna, mas de acordo com a autobiografia da atriz Tis Herself, Hammerstein e Rodgers não queriam que uma "rainha pirata interpretasse sua Anna!". Quando foi convidada para uma reprise da peça, contudo, Maureen recusou. Assim, a rosa inglesa Deborah Kerr, que tinha impressionado Yul com seu papel na peça Tea and Sympathy, conseguiu o tão cobiçado papel de Ana. 

Já para a Fox assegurar o temperamental Yul Brynner foi bem mais complicado: ele ainda estava envolvido na apresentação teatral de o Rei e Eu e afirmou que apenas participaria do filme se estivesse dentro de sua agenda. Mais do que isso, segundo o livro The Making of The Magnificent Seven de Brian Hannan, ele tinha a ideia maluca de dirigir o filme e contratar Marlon Brando para interpretar o Rei (o papel que ele mais amava no mundo). A afirmação de Yul, hoje em dia, parece apenas um papo para que ele conseguisse o maior lucro possível e assim foi feito, com urgência pelo produtor do filme, Charles Brackett: Brynner receberia 300 mil dólares de cachê e uma porcentagem dos lucros.  

Sobre a recusa de Marlon, na biografia Yul Brynner: The Inscrutable King de Jhan Robbins, Yul apenas afirmou:

Falamos sobre o papel, mas ele recusou. Foi uma pena porque eu sempre achei que Marlon faria um fascinante Rei Mongkut. 

Ademais, Yul, sempre muito modesto, também deixou claro que aceitou interpretar o Rei mais uma vez depois de muita ponderação espiritual e que: "acredite quando eu digo que o dinheiro não foi um fator decisivo". Pode até não ter sido decisivo, mas com certeza o ajudou bastante!

A verdade é que eu não tinha atingido nem a superfície das complexas contrariedades do rei. Você tem que conhecê-lo por um longo tempo para entendê-lo. - Yul Brynner sobre o papel do Rei. 

Seja como for, Yul e Deborah estavam confirmados e a produção de O Rei e Eu (The King and I, 1956) poderia finalmente começar.

Yul e Deborah durante as filmagens de O Rei e Eu (The King and I, 1956) em 1955
Contratando Ernest Lehman como o roteirista e Walter Lang como diretor, além de manter a dupla Rodgers e Hammerstein e a estilista Irene Sharaff, que criou as vestimentas da peça, as filmagens de O Rei e Eu (The King and I, 1956) se iniciaram em maio de 1955 e duraram sete meses, com seis semanas apenas para a preparação dos atores.

Atores estes que incluíam a incrível Rita Moreno, que ganhou o papel da escrava Tuptim por pura sorte - e por ser contratada da Fox! Segundo a própria atriz, em entrevista ao site Elle, ela conseguiu fazer parte do filme por pedido de Daryl F Zannuck:

Quando eu era contratada da Fox, eles me disseram que queriam que eu testasse para o papel de Tuptim. Eu estudei e fui para o teste. Lá tinham outras garotas testando para o papel e uma que era perfeita para ele. Era uma garota chamada France Nuyen - linda, maravilhosa - que era vietnamita e francesa. Eu pensei que ela conseguiria o papel. Mas fui eu quem conseguiu e sempre me senti culpada porque o papel deveria ter sido dela. Mas eu consegui porque era contratada do estúdio. 

Antes disso, no entanto, Dorothy Dandridge recebeu a oferta de interpretar Tuptim e tinha aceitado, mesmo que ela receasse interpretar uma escrava. Para piorar sua indecisão, seu então namorado, o diretor Oscar Preminger, havia afirmado que o papel secundário era muito pouco para ela e Dorothy então recusou. Como ela havia acabado de assinar contrato com a Fox, isso não caiu nada bem para os chefes do estúdio e ela foi considerada difícil de se trabalhar. 

Em entrevista para o jornalista Earl Conrad ao escrever suas memórias para o livro Everything and Nothing: The Dorothy Dandridge Tragedy, Dorothy conta:

Me ofereceram o papel de Tuptim. Era um papel secundário naquele musical. 

Infelizmente para Dorothy, a recusa dificultou ainda mais sua carreira no cinema (além dos obstáculos do gênero e raça), mas para Rita Moreno, o papel de Tuptim se provou um dos maiores triunfos de sua carreira. Não obstante, o produtor do filme e o diretor Walter Lang não tiveram a mesma sorte: trabalhar com Yul Brynner se provou um desafio e tanto!

Walter Lang, ao lado de Deborah Kerr, dando instruções para os seus atores em cena
Yul Brynner tinha uma visão bem específica de seu personagem, tanto que brigava com qualquer um que não as acatava, inclusive o produtor Charles Brackett. No livro Yul Brynner: The Inscrutable King de Jhan Robbins, Brackett conta que as ameaças do ator eram horrendas:

Ele tentava me incitar. Ameaçava sair do set de filmagens se suas ideias não fossem imediatamente adotadas. Em conferências do roteiro, ele sempre tinha que ter a última palavra. A partir do momento que ele agachava como um coletor de beiseball, eu sabia que ele me daria um sermão.

Com Walter Lang, então, a atitude de Yul era ainda pior. Segundo o diretor, para o astro, tudo o que ele fazia era errado e o Rei fazia questão de afirmar que dirigiria o filme O Rei e Eu (The King and I, 1956) muito melhor do que ele. Tanto que ele se abstinha em apenas direcionar Yul para o seu melhor ângulo. Ademais, os rumores de que Vincente Minelli teria dirigido o número Small House of Uncle Thomas também não ajudou a desmistificar a incompetência de Lang.

 Se você não concordasse com Yul, você poderia esperar ser chamado de um idiota de merda ou muito pior. Ele afirmava que ele era o real diretor do filme e que eu não era necessário. E que sem ele para mandar, o filme seria uma porcaria. - Lang sobre Yul. 

Deborah Kerr, a outra estrela do filme, no entanto, se deu muito bem com Yul e não se cansava de afirmar que o filme não seria nada se não fosse por ele, reafirmando a incompetência do estúdio e seus contratados:

Yul foi a inspiração sólida para esse filme. Ele conhecia e amava cada frase dessa história e tudo deu tão certo pela insistência dele de fazer isso e aquilo do jeito que ele queria. Ele podia ser difícil, mas só porque ele sabia que estava certo. 

Yul Brynner era tão obstinado (e francamente, difícil) que brigou com os executivos da Fox, que ele apelidou maldosamente de 16th Century Fuck, quando eles planejavam mudar o final de O Rei e Eu (The King and I, 1956) para que o Rei morresse não de um coração partido e vergonha e sim ao ser pisoteado por um elefante branco. O ator era persistente e apesar dos executivos rirem de sua explicação para o final melodramático, eles foram convencidos e o final de O Rei e Eu (The King and I, 1956) continuou intocado. 

O ator de origem russa, aliás, também fez questão que mais cenas fossem gravadas com pequenos gestos, salientando o amor entre Ana e o Rei do Sião. A química entre Deborah e Yul se provou explosiva e rumores de um romance entre eles corriam à solta. Para adicionar mais lenha à fogueira, os dois sempre falavam bem um do outro e Kerr já descreveu seu colega de cena como alguém que "emana sex appeal". Nunca foi confirmado esse possível envolvimento, contudo. 

Fotos tiradas por Yul Brynner do set de filmagens - replicadas na revista LIFE
Assim, excluindo as brigas entre Yul, Charles e Walter, a outra maior dificuldade ficou com a voz de Deborah Kerr. Apesar de ter começado aulas de canto com a professora Rhea Shelter, Kerr sabia que não tinha uma voz à altura do desafio. Portanto, após uma busca nacional Jean Bradley foi contratada, mas ela faleceu pouco tempo depois. Em agosto de 1955, foi contratada a novata Marni Nixon (que posteriormente dublaria algumas canções de Rita em Amor Sublime Amor) que conseguiu dublar com perfeição a atriz, replicando os exatos movimentos de Kerr nas cenas enquanto cantava as músicas. O resultado foi uma dublagem perfeita.

A dublagem foi tão perfeita que eu quase me convenci de que tinha cantado todas as músicas. - Deborah sobre Marni.

Rita Moreno, apesar de ter uma linda voz, recebeu a ajuda vocal de Leona Gordon nas notas mais altas de suas canções. Seu par, Lun Than, vivido por Carlos Rivas, foi dublado por Ruben Fuentes. Em sua autobiografia, Moreno afirmou que Carlos era "atraente, talentoso e comprometido a acabar com a discriminação racial". Pelo visto, ela também aprovou a sua co-estrela. 

Os dois grandes casais de O Rei e Eu (The King and I, 1956)
Em 29 de junho de 1956, o filme O Rei e Eu (The King and I, 1956) foi finalmente lançado nos cinemas e se tornou um sucesso absoluto de crítica e público. A película foi indicada a nove Oscars, ganhando Melhor Ator para Yul Brynner, Melhor Mixagem de Som, Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte.

Deborah afirmou que interpretar Anna foi uma das melhores oportunidades de sua carreira, já Yul, apesar de ter ganho um Oscar, não ficou tão feliz assim com o filme:

Eu não gosto do filme. Eu falo em alto e bom som, apesar de estar muito grato de ter conseguido um Oscar por ele. Foi uma pena que o filme deveria ter sido 10 vezes melhor, já que a peça era também.

Yul continuou a interpretar o Rei na peça da Broadway, entre várias temporadas, até a sua morte em 1985. O filme foi tão importante para ele e Deborah que os dois ganharam suas estrelas na Calçada da Fama em março de 1956, na própria Fox em volta dos cenários de O Rei e Eu. Em seu bloco de concreto, além das mãos e pé, Deborah escreveu "and I" e Yul "The King". Os dois blocos estão um ao lado do outro em frente ao Grauman Theater formando o nome da película tão querida para os dois. 

Flickr
O Rei e Eu (The King and I, 1956) apesar do aparente e inegável erro de escalação (contratando atores brancos para interpretar tailandeses), é um daqueles musicais que nos fazem sentir acolhidos, amados e sempre será um clássico, não importa que se passem 150 anos.

A atuação e dominância de Yul foi fundamental, apesar dos percalços, para que o filme se tornasse esse sucesso. Tanto que ao parabenizar o ator por sua vitória no Oscar pelo papel em um telegrama, Deborah escreveu:

Uma vitória dupla merecida. Você não é apenas um ator incrível como também é um diretor maravilhoso.

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