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Os figurinos deslumbrantes de Xica da Silva (1976)

*alguns spoilers de Xica da Silva (idem, 1976) 

Xica da Silva, ou melhor Chica da Silva, foi uma importante figura da história brasileira. Apelido de Francisca da Silva Oliveira, filha de uma escrava e seu senhor, que tornou-se "rainha" de Minas Gerais ao ser comprada por João Fernandes da Oliveira, contratador de diamantes, que lhe deu a alforria e a liberdade de ser uma importante dama da sociedade. Com ela, ele teve treze filhos.

Apesar do mito de que Xica da Silva era uma grande "potência sexual" e que havia conseguido sua liberdade rapidamente - em dois meses na pose de João - apenas por sua beleza e charme, a verdade não poderia ser mais diferente. De acordo com o livro Para conhecer Chica da Silva por Keila Grinberg, Lucia Grinberg e Anita Almeida, a primeira descrição de Chica na literatura não a exaltava por seus atributos físicos:
[Chica] não possuía graças, não possuía belezas, não possuía espírito, enfim, não possuía atrativo algum que pudesse justificar uma forte paixão. - trecho da obra Memórias do Distrito Diamantino de Felício dos Santos, 1868. 
Zezé Motta interpretou a exuberante Xica da Silva
A noção a respeito de Chica da Silva mudou com o passar dos anos, quando a figura dela como uma mulher confiante e sensual, começou a ser disseminada em livros e em escolas de samba - até em músicas de Carnaval. A consagração de Chica como o estereótipo da mulher mulata sendo símbolo sexual ocorreu no livro Xica da Silva de João Felício dos Santos, sobrinho-neto do marido da ex-escrava.

Agora com o apelido que todos a conhecem, Xica da Silva sem o Ch, a rainha de Diamantina de Minas Gerais, a tão importante figura era descrita da forma mais caricata e sexy possível:
Muco é que quase desmaia com o inesperadíssimo. — Examina meus dentes outra vez, uai! — Xica era impiedosa com o pobre Muco — Examina, sô! — e abriu muito a boca, pícara e sensual nos lábios escuros, mexendo com a língua como uma serpente prestes a picar. - livro Xica da Silva, página 102. 
É de mais valia informar essa mudança na caracterização da figura histórica de Xica da Silva, já que o diretor Cacá Diegues usou esse livro -e o mito popular criado pelo povo - como inspiração para criar o tão famoso filme Xica da Silva (1976). E foi com base nessa Xica voluptuosa, sensual, provocadora e conquistadora que o diretor de arte Luiz Carlos Ripper, nascido em 16 de julho 1943, criou os figurinos desse grande filme.

Irmão do também talentoso arquiteto, José Ripper, a ligação de Luiz com as artes começou desde criança e de acordo com o livro Luiz Carlos Mendes Ripper: Poesia e Subversão de Heloisa Lyra Bulcão, ele estudou xilogravura e pintura no Instituto Belas Artes e depois arquitetura e cinema pela Universidade de Brasília.
Luiz Carlos Ripper recebendo o prêmio Coruja por seus trabalhos de cinema em 1971                    BBC Gov
Uma figura contrastante, Ripper começou a fazer sucesso criando cenários e figurinos para peças de teatro brasileiras e logo fez a transição para o cinema. Seu primeiro trabalho solo como figurinista e diretor de arte foi para o filme El Justiceiro (idem, 1967) e logo ele foi reconhecido por seu talento artístico.

Assim, não demorou muito para que Cacá Diegues notasse o seu talento e o chama-se para trabalhar com ele no filme Os Herdeiros (1970). Jarbas Barbosa, um dos produtores da obra, afirmou que Ripper tinha "fama de terrível e complicado e com quem os diretores não conseguiam trabalhar. Era muito difícil." Isso, no entanto, não impediu que ele e Cacá se reunissem com Luiz novamente em Xica da Silva (1976).

Isso porque, ainda de acordo com a entrevista de Jarbas Barbosa para o livro 30 anos de cinema novo de Silvia Oroz, Ripper era um gênio:
Não pode ser difícil trabalhar com quem é competente. Deve-se saber aproveitar a competência dos outros. Tanto assim que depois o levei para Xica da Silva, onde fez um trabalho grandioso. É o maior cenógrafo do Brasil. Se eu hoje viesse e a fazer um filme, chamaria de novo o Luiz Carlos Ripper. É... até que pode ser. 
Foto publicitária de Xica da Silva (1976)
Perfeccionista, de acordo com a matéria da revista Manchete, Ripper queria que tudo na produção tivesse senso de autenticidade. Tanto que "uma equipe de engenharia está reconstruindo a galera que João Fernandes mandou fazer para que sua amada tivesse a sensação de velejar no mar." Esse mesmo sentimento foi transposto para os figurinos de A Xica da Silva (1976) que ao mesmo tempo que eram fieis à sua época, também possuíam uma explosão de cor e sensualidade inerentes dos anos 70.

Seguindo uma vibe mais carnavalesca, as roupas de Xica da Silva são condizentes com a época em que a escrava estava inserida, 1860, com os vestidos vitorianos, saias em inúmeras camadas e o colo à mostra. No entanto, Ripper subverte a etiqueta de vestimentas da época e insere cores fortes e destoantes entre si, como o laranja, rosa, azul, sempre pendendo para o lado do exagero com mangas bufantes e corpetes estruturados.

A ex-escrava também usa inúmeras joias e utilizava uma peruca por cima de seus cabelos, cobertas com um pó opaco e branco que tornava os cabelos cinzas, pois naquele período isso era apenas utilizado pelos mais ricos e bem-nascidos, ou seja, evidenciavam sua superação de classe. Apesar das roupas vibrantes e das maneiras sensuais, Xica ainda queria pertencer à classe na qual era inserida, queria respeito. A maquiagem era forte, com os olhos marcados de sombras brancas e amarelas, feita para que onde quer que ela fosse, Xica fosse notada.

Um contraponto com Hortência, interpretada por Elke Maravilha, que sempre aparecia coberta e com cores mais sóbrias, exacerbando a diferença de classe social entre as duas: a mulher negra que batalhou para conseguir uma posição confortável e a branca que já nasceu com todas as regalias, mas também sofria com as amarras da sociedade machista. 

Zezé Motta exibindo figurinos sensuais e cheio de cores para Xica da Silva (idem, 1976)
De acordo com O Percevejo Online, que replicou a entrevista de Luiz Carlos Ripper em seu periódico por Heloisa Lyra Bulcão, o cenografista trabalhou em conjunto com a população de Diamantina, onde o filme foi gravado, para criar os cenários e principalmente os figurinos de Xica da Silva:
Eu  sempre  faço  isso:  produzir  o  que  tenho  de  fazer  com  a comunidade.  E  nunca  levo  as  coisas  prontas.  Por  exemplo, os  tecidos  foram  comprados  no  depósito  do  armarinho. Alguns  eu  comprei  em  Belo  Horizonte,  algumas  coisas  eu comprei.  Mas,  na  realidade,  fiz  tudo  lá,  com  as  costureiras de  lá,  com  os  carpinteiros  de  lá.  E  normalmente  faço  isso. 
Percebe-se, portanto, muito bem a noção do carnavalesco em Xica da Silva, com sequências repletas de danças e com Xica e seus criados usando roupas vibrantes, beirando ao que vemos em desfiles de escolas de Samba. Em certa parte do filme, a personagem de Zezé Motta até passa dourado pelo corpo, dançando nua, em uma alusão - estereotipada - direta à conexão das negras como símbolos sexuais nas festanças de fevereiro.

De todos os personagens, apenas Conde de Valadares, interpretado por José Wilker tem um guarda-roupa tão vibrante quanto Xica. O amado da ex-escrava, João Fernandes (Walmor Chagas) se veste de modo sóbrio, quase como se Ripper quisesse afirmar que opostos se atraem - a vibrante e sensual Xica e o tradicional português.

As roupas vibrantes e coloridas de Xica da Silva (idem, 1976)
Luiz Carlos Ripper também pensou em um grande trunfo ao fazer com que Xica da Silva iniciasse tendências, como adicionar cores vibrantes as roupas brancas simples dos criados. Em sua primeira noite com José, ela usa uma camisola simples, branca e é a única vez que a vemos dessa maneira. Ao longo do filme sempre muito amarelo - representando o status de riqueza dela - e roxo - considerado uma cor da realeza -e o vermelho vibrante, para enaltecer seus atributos sensuais.

Por exemplo, quando Xica da Silva recebe sua carta de alforria, atestando que ela é finalmente uma negra livre, ela está totalmente vestida em tons de amarelo, inclusive sua peruca é da mesma cor. Apenas vemos a personagem em tons sóbrios quando João Fernandes a larga, graças à uma tramoia feita pelo conde de Valadares.  Dali, ela volta a usar roupas mais simples e recatadas.

Os elementos lúdicos, típicos de Luiz Carlos Ripper, também são uma parte importante de Xica da Silva (1976) pois remetem a noção de que cada pessoa tem da personagem e os permitem imaginar que tipo de Xica eles querem enaltecer: a sedutora, a esperta ou a transgressora. Além de permitir que o filme tenha uma atmosfera mais intimista, como se tudo estivesse passando na frente de seus olhos,  em um teatro.

Tudo isso, aliás, inserido em um universo colorido que representa tanto a realidade da época de Xica quanto a dos anos 70, década da gravação do filme, utilizando a metalinguagem com maestria.

Um teatro dentro do filme - uso da metalinguagem
Em seu livro Vida de cinema: Antes, durante e depois do Cinema Novo por Cacá Diegues, o diretor exemplifica muito bem o que todos queriam realizar com Xica da Silva e como Luiz Carlos Ripper, tanto como diretor de arte como figurinista, superou suas expectativas:
Xica da Silva sofreria uma transição de cores rigorosa. Ela devia começar pelo ocre e pelo dourado solenes do interior das igrejas, passaria pela graciosidade dos azuis, amarelos e vermelhos suaves de suas fachadas, até chegar à explosão de cores quentes e exuberantes no apogeu de Xica. Da partida do contratador [João] em diante, o filme ia se tornando monocromático até a volta da cidade alegremente colorida no final. 
Foi com este sentimento carnavalesco, vibrante e lúdico que Luiz Carlos Ripper conseguiu inserir uma inerente brasilidade em Xica da Silva (1976) e provar que os figurinos de um filme são ferramentas que definem seus personagens.

Tornando, assim, Xica da Silva (1976) em um filme que talvez não seja fiel à figura de Chica, mas sim à construção popular da personagem. E que Xica!

Os figurinos de Carmen Jones (idem, 1954) e a estilista Mary Ann Nyberg

 As mulheres deveriam, determinadamente, seguir seus próprios gostos e usarem aquilo que as favorecem. - Mary Ann Nyberg, 1953. 

A estilista Mary Ann Nyberg teve uma das carreiras mais curtas da antiga Hollywood. Seu primeiro trabalho na MGM foi como a figurinista do filme Lili (idem, 1953) estrelado por Leslie Caron e Mel Ferrer. Logo em seguida, em apenas um período de dois anos, Nyberg também trabalhou em A Roda da Fortuna (The Band Wagon, 1953), Nasce Uma Estrela (A Star is Born, 1954) e por fim, em Carmen Jones (idem, 1954). 

Após uma breve consulta como estilista para a película O Homem do Braço de Ouro (The Man With The Golden Arm, 1955), e duas indicações ao Oscar de Melhor Figurino, Mary Ann desapareceu do mapa e nunca mais trabalhou na indústria do entretenimento.

Dorothy Dandridge como a sensual Carmen
Nascida em 7 de fevereiro de 1923 em Tulsa, Oklahoma, filha única de Jean Nyberg e Ernest C. Nyberg, Mary tinha apenas 20 anos quando partiu para Hollywood buscando seus sonhos de fama como artista e estilista. Nada se sabe sobre como a carreira de Mary começou, mas ela frequentava inúmeros eventos da alta sociedade e já foi namorada do cantor Rudy Vallee, que também fazia algumas pontas no mundo do cinema. Essa pode ter sido sua entrada no mundo do design, já que em todas as saídas dela, Mary usava peças idealizadas por ela mesma e os jornais faziam questão de elogiá-la.

Ela se casou em 1965 com o crítico de cinema Arthur Knight e posteriormente com Don J. Koch em 2 de setembro de 1977 até sua morte em 19 de setembro de 1979. Nyberg foi enterrada no mesmo jazigo de sua mãe Jean, que havia falecido 5 anos antes. 

Mas antes de tudo isso acontecer, Mary Ann era a nova badalada estilista de Hollywood. Suas criações para o filme A Roda da Fortuna (The Band Wagon, 1953) estavam em todos os jornais e não demorou muito para que ela fosse chamada para criar as roupas de Judy Garland em Nasce Uma Estrela (A Star is Born, 1954). Infelizmente ou não (depende do ponto de vista), os desentendimentos entre as duas fizeram com que Mary desistisse do filme e ela se concentrou em Carmen Jones (idem, 1954) trabalhando ao lado do diretor do filme, Otto Preminger.

Mary aos 30 anos de idade                                                Foto Shutterstock
Carmen Jones (idem, 1954) é baseado na ópera de Bizet, que por sua vez, se inspirou no livro Carmen escrito por Prosper Merimeé. O musical conta  a história de Carmen, vivida por Dorothy Dandridge, uma jovem sedutora que vira o mundo do saldado Joe, interpretado por Harry Belafonte, de cabeça para baixo, tanto que ele resolve desonrar seu compromisso com Cindy Lou (Olga James) e fugir para viver feliz com Carmen. O que ele não contava é que para a tentadora isso era apenas um jogo e ela não estava interessada em ser uma esposa. 

Em relação aos figurinos do filme, Mary Ann quis sair do óbvio ao desenhar as roupas de Dorothy, tanto que o vermelho nunca aparece, a não ser quase na primeira abertura do filme, no qual Carmen foge com o soldado Joe, seduzindo-o. Nele a personagem de Dorothy usa uma saia de cor laranja (que em algumas luzes passa-se por vermelho e é erroneamente reproduzido assim) com uma enorme fenda, além de segurar uma rosa vermelha na mão durante o número Dat's Love - personificando a sedução e a tentação que leva o alterego de Harry Belafonte à loucura.

Depois dessa cena, no entanto, Carmen Jones não usa mais nenhuma peça que possa remeter à cor vermelha e isso, de acordo com a própria Mary Ann Nyberg tem um motivo muito importante: sair do óbvio.

Em entrevista ao jornal The Beverley Times em 1955, a estilista explica:
Vermelho remete à paixão, fogo, sexo. E eu estou confiando de que a Dorothy vai projetar essas qualidades em sua performance.
Os esboços de Mary Ann para o figurino sedutor de Carmen Jones                          Reprodução
De acordo com a própria estilista, suas escolhas de cores para a personagem de Dorothy Dandridge foram: rosa, azul, um pouco de laranja, preto e branco. Mas isso não significa que o corpo bem delineado de Dorothy não seja evidenciado nos vestidos, que são justos e majestosos.

O seu primeiro conjunto em Carmen Jones (idem, 1954), como foi evidenciado, era uma blusa preta com mangas bufantes e uma saia de tafetá laranja-avermelhado. Logo depois, em uma luta com uma das namoradas dos soldados, as mangas bufantes são rasgadas e temos o visual icônico de Carmen Jones.

O decote e a fenda evidenciam os atributos mais sexies de Carmen: seu colo e as pernas. Ela se destaca de todas as outras mulheres do recinto, que são comportadas e usam vestidos sem decote e que vão até a altura do joelho. A roupa da personagem de Dorothy representa muito bem a trajetória de Joe: de um soldado bom moço, ele se enlouquece pela poderosa Carmen e seu modo de andar e suas roupas são um grande chafariz para essa mudança.

O figurino do filme também faz uma menção à do musical de Oscar Hammerstein II, uma atualização da ópera de George Bizet e que deu origem à Carmen Jones. Segundo a matéria da revista Theater Time de 1949, a entrada da personagem é o mais importante: ela dá o tom à peça e, posteriormente, no filme:
A sua saia bufante, acessório exagerado e o vermelho em seu figurino quebram a tonalidade marrom-amarelada do cenário, a cena tropical do meio-dia, prevendo as emoções excitantes que virão. 
A roupa de Dorothy faz exatamente isso no filme, embora numa menor escala e adequada ao filme.

O figurino mais famoso de Carmen                                                  Reprodução
Logo em seguida, o espectador vê Dorothy com dois lindos vestidos na suave cor rosa. O rosa, de acordo com o significado da cor, remete ao romantismo e ternura, completamente o oposto da personalidade de Carmen. É assim, no entanto, que Joe a vê: como a mulher mais bela e perfeita do mundo.

Assim, enquanto seus trajes rosas remetem à doçura e romance, as atitudes de Carmen na boate e ao largar seu namorado para paquerar o grande lutador de peso pesado Husky Miller (Joe Adam) dizem outra coisa completamente diferente. Neste trecho do filme, vemos a luta interna de Joe de ver Carmen por quem ela realmente é ou continuar acreditando que ela é uma jovem que o ama, projetando nela a imagem virginal de sua ex-namorada Cindy Lou (Olga James).

 

Não entenda mal: o corte bem justo e sensual dos trajes continua o mesmo, assim como os acessórios de pulso de Carmen e seus brincos espalhafatosos. A personagem gosta de chamar atenção de qualquer maneira e dribla sua aparente pobreza - usando sempre as mesmas luvas e bolsa pretas - com trajes muito bem delineados e que chama atenção ao seu corpo e rosto - e não ao contrário.

Como em uma transição, o próximo modelito de Carmen é um roupão curto de bolinhas na cor azul escura, que deixa as pernas da atriz à mostra. O azul, neste caso, representa a tranquilidade de Joe, que está em paz com sua decisão de sair do exército e seguir Carmen por onde quer que ela vá.

Reprodução
O traje acima, em sua concepção original, era de um tom azulado, mas foi mudado para um pêssego claro. Com um corte assimétrico e bem solto, o vestido é complementado com acessórios discretos, um salto e conta com um capuz que está acoplado na parte detrás do vestido.

Reprodução
Outro detalhe interessante é que comparada com suas amigas, Carmen não está tão espalhafatosa e se destaca pelo lema: "menos é mais". Enquanto suas companheiras parecem vulgares com o excesso de joias e acessórios, Carmen está simples e elegante, sem nenhuma distração para atrair seu ricaço pugilista. 

E assim acontece: assim que ela assegura o coração do famoso lutador, o guarda-roupa de Carmen ganha um upgrade. Ela se veste com um conjunto azul formado por uma blusa com listras reluzentes, uma saia lápis chique e um salto alto de bico. Ela não veste mais tamancos ou os mesmos acessórios: Carmen agora é uma mulher chique e refinada. 

Reprodução
Na foto acima, percebe-se muito bem a diferença entre Cindy Lou e Carmen. Enquanto a primeira é mais pura e virginal, a típica namorada fiel que Joe tentou transformar a Carmen, a segunda está totalmente à vontade com sua sexualidade e até onde sua beleza pode levá-la. 

O que nos leva ao clímax de Carmen Jones (idem, 1954) no qual Carmen ao lado de suas amigas presencia a importante luta de boxe de seu affair. Agora ela está no auge de seu poder, usando um vestido branco com toques de dourado, um casaco de pele e acessórios de puro diamante. Não tem mais prata para essa garota, agora ela é a mais glamourosa e sensual de todas, provando que nem sempre precisamos do vermelho para representar o poder da sedução. 

O lindo vestido que Nyberg criou para Dorothy                   Reprodução/Montagem
No gran finale de Carmen Jones (idem, 1954), a personagem de Dorothy está mais bela do que nunca mostrando que o objetivo dela sempre foi conseguir vencer na vida, usando de seus melhores atributos. E que, é claro, os diamantes são os melhores amigos de uma garota. 

Sobre sua personagem no filme, em entrevista ao jornal The Australian Women's Weekly em 1957, ela explica que a sedução era sua característica mais importante:
Eu compreendo aquela Carmen. Ela é a mulher que todas querem ser, mas a maioria não tem coragem. Se eu não tivesse uma parte dentro de mim que fosse assim, eu não poderia interpretá-la da maneira correta. Mas não devemos admitir. Mulheres devem ser damas, mas geralmente tem um jeito de contornar isso. 
Um figurino à altura de Carmen Jones, Mary Ann Nyberg demonstrou todo o seu talento em Carmen Jones (idem, 1954). Uma pena que seu nome foi quase totalmente esquecido, afinal Mary Ann era uma verdadeira artista.


O figurino icônico de Jean Louis para Rita Hayworth no filme Gilda (1946)

*aviso: alguns spoilers sobre o filme Gilda (idem, 1946) 

A palavra icônica é usada de modo leviano hoje em dia, como bem se sabe! Em seu significado original, ícone é aquilo que se distingue, simboliza uma época, uma cultura ou uma arte. Gilda (idem, 1946) é o filme mais lembrado da atriz Rita Hayworth, o que a consolidou como um símbolo sexual, sendo amado por milhares no mundo todo tornando-se um marco no cinema norte-americano.

Gilda (idem, 1946) se tornou um filme tão icônico graças aos atores, o diretor, as danças e ao figurino de Jean Louis, feito especialmente para Rita Hayworth. Quem assisti ao filme não consegue esquecer daquele seu vestido preto, com luvas, a definição mais literal de um tomara-que-caia.

Rita e o estilista Jean Louis em Gilda (idem, 1946)                                     Divulgação 
Jean Louis fez um figurino que complementou cada curva de Rita e também não era para menos: ele já havia trabalhado com ela em mais de seis películas. Sobre a estrela, uma das mais queridas com quem conviveu durante seu trabalho no estúdio Columbia, Jean Louis a cobriu de elogios:
Rita Hayworth era a mais divertida e tão linda. Não tinha nada de comum sobre ela. O seu nariz, seu queixo eram extraordinários. E suas pernas, tão tão longas." 
A única "falha" no corpo de Rita (de acordo com os padrões de beleza vigentes, que fique claro) era que ela não tinha uma cintura fina. Assim, Jean enfatizava a parte do meio do corpo de Rita com cintos bem apertados, para que desse a ilusão que ela tivesse uma cintura fina e quadris mais largos.

Para Gilda (idem, 1946) Jean Louis gastou a grande quantia de U$ 60 mil, o que convertido para os dólares de hoje daria em torno de quase U$700 mil. A revista Life Magazine de 4 de fevereiro de 1946 ficou tão impressionada com o alto valor do figurino que fez uma matéria detalhando cada item do guarda-roupa de Rita para a película.

Analisar o guarda-roupa de Rita Hayworth para o filme é entender sua personagem, em cada curva e símbolo. Para se ter uma ideia, em Gilda (idem, 1946) a primeira vez que vemos Rita, ou melhor, sua personagem, entrar em cena é quando Johnny, interpretado por seu melhor amigo na vida real Glenn Ford, vai conhecer a nova esposa de seu patrão do cassino,o  Ballin, vivido por George Macready. É uma cena icônica para qualquer um que assiste: uma vez que você a vê nunca mais esquece!

Rita em sua entrada triunfal a partir do minuto 14 do filme                               Divulgação/Gif
Nessa cena, Gilda está usando um negligê tomara-que-caia rosa, feito com mais de 18 metros de tecido, com sapatinhos rosa, no estilo mullet para combinar. Esta peça custou U$300. O livro Gilda's Gown de Rachel Ann Wise exemplifica muito bem esse momento e como a pergunta que Ballin faz para esposa: 'Gilda, você está decente?', exemplifica Gilda :
Claro que o decente tem significado ambíguo, se referindo à suas roupas e o estado de sua moralidade. A questão, portanto, mescla o significado das roupas e o caráter de Gilda, em uma relação conectada que permanecerá constante pelo filme." 
Ao ver Johnny, com quem Gilda divide um grande passado, a primeira reação da personagem é cobrir um de seus ombros, quase que instantaneamente. Logo, ela afirma: 'Sim, estou decente'. Essa é uma forma, inconsciente, de Gilda tentar camuflar seus próprios sentimentos, embora não se cubra totalmente: ela ainda é um ser sexual, uma femme fatale.

Uma das alças caídas no ombro de Rita também se refere à famosa pintura Madame X, de John Singer Sargent,  feita em 1884 representando a socialite Virgine Gatreau. Em sua concepção original, a pintura tinha uma das alças do vestido preto caídas, mas o choque da sociedade francesa foi tão grande, que John fez uma pequena alteração, colocando a alça em seu devido lugar.

Outro ponto importante de se notar: mais uma vez o uso do cinto em volta da cintura de Rita. Isso porque as gravações de Gilda começaram em 4 de setembro de 1945, nove meses depois da atriz dar à luz Rebecca, sua filha com Orson Welles.  A atriz  ainda não havia perdido todo o peso que ganhou na gravidez e exibia uma pequena barriga.

A primeira roupa de Rita no filme                LIFE 
Na primeira metade do filme, Gilda aparece completamente sensual. Depois do negligé rosa convidativo, com o qual ela tem uma conversa nada amistosa com Johnny em seu quarto, Gilda pede para Ballin que convide seu funcionário para jantar com eles. Na próxima cena, a personagem já aparece completamente vestida, mas com dificuldades em fechar o seu zíper.

Brincando, ela confessa ao marido: "Eu nunca consigo fechar um zíper sozinha. Será que isso significa algo?" Muito provavelmente, essa dificuldade de Gilda mostra a vulnerabilidade da personagem, que depende dos homens à sua volta para realizar o que deseja. Mas também consegue exibir, claramente, seu poder de sedução: ela tem Ballin ajoelhado, aos seus pés, fazendo o que ela tanto deseja. É o poder e a maldição de ser uma femme fatale, de ser Gilda.

O vestido no qual Rita Hayworth usa em Gilda, em sua segunda aparição, é uma túnica branca decorada com contas douradas e saltos da mesma cor. O visual custou U$750. Vale lembrar que o dourado representa poder enquanto o branco é pureza. Uma verdadeira dicotomia em que a personagem vive: Gilda, como vemos ao longo do filme, não é nada pura, mas no primeiro momento, tenta ser o que não é para ter a vida confortável que sempre quis.

Divulgação/Gilda (1946)
Em uma posição de poder sob Johnny, afinal ela tem a vantagem de estar casada com o patrão de seu amado,  Gilda se exibe e dança com outro homem usando todas suas armas de sedução para mostrar o quanto é querida, desejada e que não precisa dele.

No entanto, isso não a impede de ser maltratada por Johnny novamente e é aí que Gilda se mostra vulnerável pela primeira vez após seu marido Ballin a confrontar sobre seus sentimentos. Isso, no entanto, logo passa. Na próxima cena, Gilda aparece novamente em sua posição de poder.

Novamente com um vestido de cor branca, com detalhes dourados, a personagem aparece ganhando uma rodada de apostas: mais um sinal de que sua sorte e sua posição de poder ainda continuam consolidados. O auge de sua rebeldia contra Johnny acontece quando ela sai da boate com um homem, na continuação da história.

Ele vai atrás dela, afirmando que é por causa de seu patrão. Gilda é uma visão com seu casaco dourado, que reluz sob a luz da lua. Ela está em seu momento de poder supremo: Johnny tem ciúmes dela, agora Gilda tem certeza e usa todas essas armas para sua vantagem.

Gilda em seu momento supremo de poder sob Johnny                                                         
Na próxima aparição, Gilda está com um vestido tubinho, basicamente uma túnica bege. Tocando o violão, vemos um lado menos produzido da personagem, na madrugada, que tenta finalmente professar seu amor à Johnny, mas em vão: ele é leal demais ao seu patrão e tenta odiar a mulher que tanto ama.

É aqui que Gilda, pela primeira vez, mostra sua vulnerabilidade: ela aparece mais coberta, menos sensual, tentando se tornar a mulher que Johnny tanto deseja.

Divulgação
Logo o filme Gilda (idem, 1946) passa para a cena do carnaval, na qual há uma grande festança no cassino de Ballin. A personagem principal, vivida por Hayworth, escolhe a fantasia de vaqueira, o que se olharmos objetivamente diz muito sobre a narrativa: é neste momento que ela vai dominar Johnny de vez.

É nesta parte do filme, também, que ele confessa, finalmente, seus verdadeiros sentimentos sobre Gilda. Ela sobe ao quarto primeiro, trocando-se para algo mais confortável, um negligé que não marca tanto suas curvas. Para Johnny, Gilda se mostra como realmente é: uma mulher apaixonada, sem artimanhas de maquiagens e roupas: exatamente como quer ser. 

Gilda dominando Johnny e depois, se deixando conquistar
Ao ter certeza que Johnny a ama, Gilda resolve de vez mudar sua persona de femme fatale para se ajustar ao que era esperado de uma mulher de boa-família dos anos 40. Muito feliz ao se casar com o personagem de Glenn Ford, Gilda usa na cerimônia um terninho com saia, bem modesto e com cores sóbrias. 

Isso mostra como ela quer mudar de vida: quer se casar com o homem que ama e continuar ao seu lado, sem jogos. Bem lá no fundo ela não deseja ser uma femme fatale, ela quer ser uma esposa. Gilda ainda está de luto pelo falecido ex-marido, mas parece mais feliz ao usar preto e ao lado de Johnny do que com roupas glamourosas. Esse é o poder do amor!

Gilda em seu momento mais real
Gilda, no entanto, sofre um baque logo após do casamento com Johnny: ele se casou com ela apenas para conseguir o resto das ações e assim se tornar o sócio-majoritário do cassino. Na próxima vez que vemos a personagem de novo, desiludida pelo amor e tentando desesperadamente chamar a atenção de Jonnhy, ela voltou a ser a antiga femme fatale.

Com roupas caras, sensuais, Gilda começou a sair com cada homem que pudesse, na chance de fazer com que Johnny sentisse ciúmes dela, o que não funcionou.

Gilda em suas melhores roupas para atrair Johnny
Com um vestido tomara que caia azul, a personagem aparece com um casaco de pele, do valor de U$ 10 mil, colocando para fora todos seus sentimentos sobre seu amado, apesar de estar toda arrumada. Sem jogos porque ela entendeu que Johnny não a queria mais (ou pelo menos dizia isso à si mesmo). Isso mostra que Gilda só consegue ser real ao lado de Johnny, seja produzida ou não.

Gilda volta aos seus antigos hábitos
Ao perceber, contudo, que nunca terá a felicidade que tanto procura com Johnny, Gilda foge e encontra um trabalho como dançarina em um club. Em sua próxima aparição, a personagem aparece angelical em um vestido descrito pela Life Magazine como: "um vestido estampado com umas das pinturas de Fra Angelico". 

Para se ter uma ideia, o pintor Fra Angelico era conhecido por pintar imagens celestiais durante a Era da Renascença e colocar Gilda em uma roupa que pode ser descrita como 'angelical' é um tanto quanto contraditória, afinal quando uma femme fatale pode ser caracterizada como "um anjo"? 

Essa mudança brusca, no entanto, tem uma resposta: nesta parte do filme Gilda está tentando seduzir um novo homem, chamado Tom, para se casar com ela. Mais uma vez, então, ela busca mesclar a sensualidade com a fachada de boa-garota para conseguir o que quer. É um disfarce, unindo o que muitos homens procuram em uma mulher: o lado sexy com o lado modesto, tudo em um pacote só. 

Gilda não é um anjo, embora tenha toda essa beleza exterior 
Para Tom, com quem Gilda planeja se casar após conseguir o divórcio de Johnny, ela confessa: "Nunca mais pensei que fosse confiar em um homem de novo, mas lá vamos nós de novo...", e na cena seguinte aparece com um terninho de saia, bem coberto e modesto, mudando sua persona sensual para uma de uma mulher decente, sem quaisquer pecados aparentes. 

O futuro casamento não acontece já que Gilda é encontrada por Johnny e logo vemos a personagem de Rita Hayworth em uma mudança completa: de uma possível dona de casa ela se torna, definitivamente, um ser sexual de novo. 

Gilda está animada com o que o futuro lhe reserva
Já que Johnny não quer lhe dar o divórcio, mas também não quer deixá-la viver livremente, ela age como um gato encurralado. Resolve fazer uma grande performance no cassino de seu esposo, para chocar e forçá-lo a, finalmente, notá-la e tomar uma providência sobre a vida deles, seja boa ou ruim. É nesta cena da performance de 'Put The Blame on Mame' que o telespectador vê o icônico vestido preto de Rita Hayworth que parece desafiar a gravidade.  

Mais uma vez pode ser visto a influência do quadro Madame X de John Singer Sargent. O vestido preto de Rita foi feito em base no quadro, que representa uma verdadeira femme fatale. A mulher retratada na pintura era a aristocrata Virgine Gatreau, conhecida tanto por suas infidelidades quanto por sua beleza. 

Os ombros nu da modelo com a alça do vestido caindo (em sua concepção original) e o perfil totalmente descoberto representam bem a personagem: Virgine causou uma verdadeira comoção em 1884 com sua representação no quadro. Gilda, no filme, causa a mesma impressão: seu striptease das luvas, sua dança sensual, tudo é elevado ao extremo para chocar tanto a audiência quanto Johnny. 

Virgine Gatreau e Gilda: duas personagens polêmicas 
Jean Louis contou que o nó do lado esquerdo do vestido não foi por acaso: "Para emagrecer sua cintura, um pouco mais cheia desde que ela teve um bebê, eu imaginei um cinto drapeado, amarrado do lado." 

A construção do vestido, feito em tomara-que-caia para acompanhar o conceito de sensualidade da época vigente, foi construído de tal modo para parecer que fluía pelo seu corpo. Como Jean Louis revelou para a revista People em 1987, os meios para atingir esse resultado não foram nada fáceis: 
O vestido mais famoso que fiz foi um de cetim preto que desenhei para Rita Hayworth em Gilda. Todo mundo se perguntava como o vestido não caia enquanto ela dançava Put The Blame on Mame. Dentro tinha arreios de como você colocava em um cavalo. Nós colocamos grosgorão (tecido mais grosso) debaixo do busto com dardos e três cintas, um no meio e dois dos lados. Então moldamos o topo do vestido com plástico. Pobre Rita, ela ensaiava tanto, os pés sangravam, mas o vestido não caia. 
Gilda, ou melhor Rita Hayworth, está no seu ápice de sensualidade no número Put The Blame on Mame, cuja canção, aliás, fala de desastres naturais e tragédias que aconteceram por causa de mulheres: um paralelo claro sobre o que Johnny acha de Gilda. Quando ela tira uma das luvas, é um paralelo ao escândalo de Madame X com a alça do vestido.
O vestido parecia maravilhoso desde a primeira vez que pensei nele. Eu acho que Rita o tornou sexy pela casualidade com a qual ela o usou. Tinha algo voluptuoso sobre sua facilidade [ao usá-lo]. - Jean Louis em Hollywood Costume: Glamour, Glitter, Romance
Os dois personagens se confrontam depois dessa cena extremamente sensual e quando fica claro que Gilda nunca o traiu; sempre fiel ao seu amado, o casal termina juntos, exatamente como deveria ser. O interessante disso tudo é que na cena de reconciliação, Gilda aparece com a mesma roupa que usava quando acreditava que se casaria com seu outro namorado, Tom. 

Gilda aparece com a mesma roupa: um sinal?
Usar o mesmo traje significa, neste ponto da trama, que Gilda estava mais uma vez esperançosa com seu futuro, certa de que poderia confiar em Johnny de novo e que juntos, seriam felizes. Ela estava confiando, mais uma vez, em um homem. Mas não qualquer um e sim seu Johnny, seu verdeiro amor.

Sobre os trajes de Gilda (idem, 1946), Jean Louis afirmou:
Eu tentei fazer que tudo para ela [Rita] fosse especial porque também foi minha chance de fazer algo especial.
O estilista conseguiu contar a história de Gilda através de suas roupas brilhantemente: não há nada mais especial do que isso!


O estilista Travilla para Marilyn Monroe em Os Homens Preferem as Loiras (1953)

A lenda conta que as fotos de Marilyn Monroe vestindo um saco de batatas em 1952 foram tiradas porque os jornais da época a chamaram de "barata e vulgar" por causa do vestido que ela usava quando recebeu o prêmio de mais promissora iniciante na premiação Henrietta Awards em 1951. O vestido, o primeiro que Marilyn comprou que era bem caro, foi criado por Oleg Cassini - então marido de Gene Tierney - e era vermelho e super decotado! 

A imprensa da época declarou que o vestido era tão ofensivo que teria sido melhor que ela estivesse usando um saco de batatas. O estúdio de Marilyn Monroe, a 20th Century Fox, não deixou barato e um de seus publicitários pediu que o estilista William Travilla desenhasse um vestido de saco de batatas para que Marilyn usasse e tirasse fotos com ele, no qual o fotógrafo Earl Theisen fez também parte. Sobre a façanha publicitária, Earl confessou como noticia a revista American Photo de 1997: "Tudo que ela fez para as câmeras é estudado minuciosamente. Ela sabe exatamente o que está fazendo. Você pode vê-la 'clicar' enquanto você está focando a câmera nela ou preparando-se para ligar a câmera."

Marilyn Monroe provou que ficava bem em tudo!                                 Fotos publicitárias
William Travilla se tornou um grande amigo de Marilyn a partir dessa época e se tornou responsável por inúmeros trajes que a atriz usaria em mais de oito filmes - inclusive o do filme Os Homens Preferem as Loiras (Gentlemen Prefer Blondes, 1953). 

O estilista nasceu em 22 de março de 1920 em Los Angeles na Califórnia e desde criança mostrou uma predisposição para a arte. Seu talento era tanto que aos oito anos de idade, ao participar de aulas em uma escola de artes, ele foi para a turma adulta avançada. Acabou herdando um dinheiro de seu avô e viajou pelo sul do país, até que a Segunda Guerra Mundial começou. Com 18 anos de idade, pensou que seria recrutado, mas por ter o pé-chato foi declinada sua participação e conseguiu terminar sua faculdade de artes. 

Entrou no mundo do showbusiness graças à atriz Ann Sheridan, grande amiga sua, que o contratou como estilista pessoal durante alguns filmes que fez para o estúdio da Warner Bros em 1947 e fez com que ele se tornasse conhecido nesse meio. Antes disso, no entanto, ele trabalhava em uma boutique chique de roupas chamada Jack's enquanto fazia alguns freelas para vários estúdios. Foi em 1944 que ele conheceu Dona Drake, sua futura esposa e atriz birracial, quando ela foi até a loja para fazer alguns vestidos. A paixão foi tanta que os dois se casaram apenas 10 dias depois de se conhecerem, como conta o livro Creating the Illusion de Jay Jorgenson e Donald L. Scoggins. Famosa por personagens mexicanas, ela fingia ser dessa origem, escondendo a verdade sobre sua raça de todos, até de seu marido, já que seria ilegal uma negra casar com um branco na época. A lei da segregação foi apenas revogada nos Estados Unidos em 1948. Os dois se separaram mais de dez anos depois, mas continuaram legalmente casados e amigos, dividindo uma filha chamada Nia Novella. 

Dona Drake e seu marido Travilla em 1948                 Divulgação/Jornal das Moças
Assim, William Travilla entrou de vez no mundo do cinema ao ser estilista e figurinista para inúmeras estrelas, ficando bem próximo de Marilyn Monroe, tão próximo que os dois até tiveram um caso! Os dois trabalharam pela primeira vez no filme O Inventor da Mocidade (Monkey Business, 1952) e Travilla já era um grande nome - tinha ganhado um Oscar de Melhor Figurino pelo seu trabalho no filme As Aventuras de Don Juan (The Adventures of Don Juan, 1948) estrelado por Errol Flynn. 

Marilyn Monroe e William Travilla se conheceram nos estúdios bem antes de qualquer envolvimento artístico, em 1950. De acordo com o livro Goddess: The Secret Lives Of Marilyn Monroe de Anthony Summers, o encontro foi épico: "Minha introdução foi vê-la em um maiô preto. Ela abriu as portas de correr do meu camarim e uma das alças caiu, deixando seu seio exposto. Ela fez isso de propósito. Ela tinha uma qualidade maravilhosa, de ser tão linda, de querer se mostrar. Ela era como uma criança que queria fazer tudo e você perdoaria como perdoaria uma criança. Ela era tanto uma criança quanto um bebê e tanto homens e mulheres a amavam." 

Travilla confessou que os dois tiveram um caso durante a gravação de Homens Preferem as Loiras(1953) quando "Joe Dimaggio estava fora e minha esposa estava na Flórida" e o caso durou apenas algumas semanas. Marilyn tinha inúmeros outros pretendentes. Mesmo assim, é bem possível que essa paixão tenha inspirado Travilla a criar inúmeros trajes maravilhosos para Marilyn, que também o encorajou dando de presente um calendário com fotos nuas dela que dizia: "Por favor, me vista para sempre; com amor Marilyn". 

Marilyn Monroe sendo vestida por Travilla durante Os Homens Preferem as Loiras (1953)          Divulgação
O filme Os Homens Preferem as Loiras (Gentlemen Prefer Blondes, 1953) começou a ser gravado em novembro de 1952, baseado no livro escrito por Anitta Loos e posteriormente adaptado em forma de peça musical por Joseph Field. O filme conta a história de Lorelei Lee, vivida por Marilyn Monroe, e Dorothy Shaw, interpretada por Jane Russell, duas grandes amigas e performers do entretenimento. Lorelei se mete em inúmeras confusões ao buscar seu tão cobiçado diamante enquanto Dorothy tenta livrar sua amiga de problemas ao mesmo tempo que foge da paixão que sente pelo detetive Ernie Malone (Elliot Reid).

De acordo com o livro Dressing Marilyn: How a Hollywood Icon Was Styled by William Travilla de Andrew Hansford e Karen Homer, a cena de entrada de Lorelei e Dorothy no filme, com os vestidos vermelhos com paetê foram feitos com muito cuidado por Travilla, com uma confecção feita de "um tecido de crepe pesado, com milhares de lantejoulas costuradas pelo vestido em toda a direção. O decote profundo do vestido enganou os censores da época ao adicionar um tecido cor de pele por baixo até a cintura, que também deu a sensação de nudez, sem ser muito revelador. O broche de diamantes também cobre a abertura das pernas até as coxas das atrizes."

Jane e Marilyn nos figurinos idealizados por William Travilla                      Divulgação/Montagem
Aliás, sabe aquelas fotos que aparecem por aí de Marilyn Monroe em um vestido dourado com decote profundo parecendo uma deusa? Pois é, o figurino foi criado por William Travilla e seria usado por Marilyn em algumas cenas do filme Os Homens Preferem as Loiras (1953), mas as cenas foram cortadas. A atriz, no entanto, gostava tanto do vestido que sempre o usava em eventos públicos e em premiações importantes.

Marilyn e seu icônico vestido dourado                                        Divulgação/Montagem
Outra grande mudança do filme em relação aos vestidos foi com o lindo vestido rosa que Marilyn usou durante a cena de Diamonds Are a Girl's Best Friends. Originalmente, de acordo com o livro de Andrew Hansford e Karen Homer, o traje seria outro: "o vestido teria um body cor de pele, com diamantes em volta de seu pescoço e seios. Quatro grandes sequências de pedras estavam entre o pescoço até os quadris, que depois tinham ainda mais joias. Atrás, o vestido arrastava com mais veludo cobertos em diamantes para representar uma cauda rebaixada. A tiara tinha mais diamantes e com uma imitação da ave do paraíso em cima. Para completar, luvas pretas."

O vestido, segundo a pesquisa Marilyn Monroe - The Blonde Bombshell de Michelle Krause, custou mais de quatro mil dólares, ou seja, 12 mil reais. Infelizmente, foi bem nessa época que foram descobertas as fotos nuas de Marilyn Monroe para os quais ela pousou para Tom Kelley em 1949, que depois foram publicadas na primeira edição da Playboy. Para conter o escândalo, o estúdio resolveu não abusar tanto com a roupa e William criou o vestido rosa, hoje em dia icônico, bem em cima da hora.

Sobre isso, o estilista confidenciou de acordo com o livro Dressing Marilyn: "Além das duas costuras laterais, o vestido estava dobrado numa forma similar à papelão. Qualquer outra garota pareceria estar usando papelão, mas na tela, eu juro que você acharia que Marilyn estava usando uma pálida e fina peça de seda. Seu corpo era tão fabuloso que funcionou perfeitamente."

Realmente, o "vestido" original era sensual até demais!                         Fotos publicitárias/Montagem
Apesar de alguns contratempos com os vestidos da Marilyn Monroe em Os Homens Preferem as Loiras (1953), o resto dos trajes da película aconteceram como planejados e mostraram a figura da atriz perfeitamente, já que Travilla era contra o costume de Monroe de usar roupas apertadas demais para si. Como um bom estilista ele sabia que caimento era tudo! 

Os figurinos de Marilyn são incríveis                                      Divulgação/Montagem
Sobre ela, Travilla confidenciou: "Ela era a pessoa mais complexa, incrível e magnífica. Ela foi o amor da minha vida, aquela garota."

E aparentemente esse amor pode não ter durado a vida toda na forma de um relacionamento mais íntimo, mas na forma de criações de peças icônicas para Marilyn, como o vestido branco de O Pecado Mora ao Lado (The Seven Year Itch, 1955) e a peça de maiô de Como Casar com um Milionário (How to Marry a Milionare, 1953), o amor de Travilla por Marilyn durou para sempre.

O figurinista Gile Steele para o filme Scaramouche (1952)

O caso de Gile 'McLaury' Steele é misterioso e esse adjetivo nem começar a cobrir tudo: o figurinista, especializado em desenhar trajes para homens em filmes, nasceu em Ohio, nos Estados Unidos, em 24 de setembro de 1908 e em 1929, ele já estava em Los Angeles, na Califórnia, trabalhando sua grande paixão de ser pintor e, posteriormente, tornando-se figurinista do estúdio MGM em filmes como Mademoiselle Frou Frou (1938) e Maria Antonieta (1938). 

Gile Steele ao lado de Edith Head                                      Rex Features/Reprodução
Mesmo com uma carreira estelar na moda, pouco se sabe sobre Gile Steele, além do fato de ser um figurinista ganhador de dois Oscars de Melhor Figurino pelos filmes Sansão e Dalila (Samson and Delilah, 1949) e Tarde Demais (The Heiress, 1950); de ser um dos melhores amigos da figurinista legendária Edith Head e por ter morrido precocemente com 43 anos de idade, em 16 de janeiro de 1952, quando se afogou ao ficar preso em seu carro durante uma terrível tempestade que aconteceu em Los Angeles e que deixou milhares de pessoas desabrigadas e feridas. 

Apesar de nunca ter ganhado um Oscar sozinho - ele compartilhou os prêmios com outros figurinistas, inclusive Edith Head, já que todos colaboraram juntos nas películas - ele criou trajes lindíssimos para obras clássicas como A Ponte de Waterloo (Waterloo Bridge, 1940), Idílio em Do-Re-Mi (For me And My Gal, 1942), nos quais ficou responsável pelos figurinos masculinos, e um dos clássicos cinematográficos, com trajes de tirar o fôlego, o belo Scaramouche (idem, 1952) baseado livremente no livro homônimo de Rafael Sabatini. Neste filme, Gile desenhou o esboço de todos os trajes, tanto dos homens quanto das mulheres e o resultado são roupas incrivelmente belas. 


Stewart Granger e Janet Leigh em cena do filme Scaramouche (1952)                         Divulgação/Gif
Apesar de Scaramouche (1952) ter sido, originalmente, desenvolvido para ser estrelado por Elizabeth Taylor, Ava Gardner e Errol Flyn, os três recusaram os papeis, que ficaram à encargo de Janet Leigh, Eleanor Parker e Stewart Granger. A película conta a história de Andre Louis Moreau, vivido por Stewart Granger, um jovem bon vivant que acaba se apaixonando por Aline, interpretada por Leigh, que ele mal sabe que já está prometida ao Marques de Mayne (Mel Ferrer). Enquanto isso, ele também tem um relacionamento quente com Leonore, interpretada por Eleanor Parker, com os dois ficando entre tapas e beijos, literalmente.  

Os rascunhos de Gile Steele para o filme, que se passa no século XVII, não são os mais precisos em termos de trajes: a maioria dos figurinos feitos por ele são muito curtos e cavados para serem uma representação real da época, isso sem falar das perucas que são brancas e 'certinhas' demais, parecendo mais cabelo branco real do que uma cabeleira artificial. Naquele século, a moda em voga eram decotes quadrados, rendas e mangas muito bem ajustadas. 



                       O esboço de Gile e a confecção sendo feita              Divulgação/MGM Greatest Backlot
Apesar dessas inconsistências, Gile fez um trabalho incrível ao desenhar os figurinos, mesmo que não tenha sido ele mesmo que tenha os costurados. O trabalho ficou para os funcionários do Departamento de Figurino do estúdio MGM, que trouxeram a visão de Gile Steele à vida.  

A personagem Leonore, interpretada por Eleanor Parker, tem os figurinos mais espalhafatosos de Scaramouche (1952). Por ser uma atriz e se apresentar constantemente no palco, Leonore tem uma personalidade expansiva e decidida, o que se transfere claramente para suas roupas. Cores fortes como o rosa, o verde e o preto estão sempre presentes em seu guarda-roupa, combinando com seu cabelo ruivo, que diferente do estilo da época, nunca está acompanhado de uma peruca e é usado de forma solta. Esse é mais um toque da personagem, que não se encaixa nas convenções de seu tempo. 



Eleanor Parker é a única atriz do elenco ainda viva, ela tem 95 anos de idade       Divulgação/ Montagem
Já Aline, personagem vivida por Janet Leigh é exatamente o oposto da fogosa ruiva. Aline é puro refinamento, com roupas delicadas e de tecidos mais claros, mantendo-se sempre como um membro da realeza. A inocência de Aline se contrasta muito bem com a impetuosidade de Elenore e os seus trajes revelam essas características. Janet Leigh teve, inclusive, que aprender a andar de lado no cavalo para honrar o papel de uma das personagens mais inspiradas de Rafael Sabatini, como conta a biografia Janet Leigh: A Biography de Michelangelo Capua. 


Janet Leigh era outra grande beldade do sucesso Scaramouche                Divulgação/Montagem
Mas é nas vestimentas para os atores do filme que Gile Steele realmente acerta! E também, não é para menos: o estilista era especializado nisso e havia ganhado dois Oscars por seu trabalho. O número de detalhes nas vestimentas masculinas provam sua habilidade e interesse pelo assunto. Enquanto as roupas de Andre são mais simples fora do palco e espalhafatosas nela, o Marquês é requinte puro, com brilhos, calças apertadas e perucas dignas de um nobre com muita classe. 


Mel e Stewart  encenam a mais longa luta de espadas da história do cinema:6 minutos                            Divulgação/Montagem 
Inúmeras peças do filme sobrevivem até hoje e foram recentemente leiloadas por diversos sites renomados nos Estados Unidos. Neles, incluem em sua maioria as roupas de palco da personagem Eleonore e alguns dos coletes usados por Andre, personagem de Stewart Granger. 


Fotos atuais dos trajes, incluindo o salto de Eleanor no filme                                   Divulgação
Gile Steele pode até não ser lembrado mais hoje, mas seus figurinos e as belezas de seus desenhos terão para sempre um lugar no mundo do cinema. Pois "ele nasceu com o dom da risada e o senso de que o mundo era louco." Louco pela moda. 


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