Rita Hayworth: A Afrodite de Hollywood

Treinada para ser dançarina desde pequena, Margarita Carmen Cansino, a primogênita de Eduardo Cansino - filho de um dos dançarinos mais famosos do meio artístico por popularizar o bolero nos Estados Unidos, e Volga Hayworth - também uma artista-  Margarita não tinha outra escolha a não ser uma estrela de cinema: ela foi moldada  pelo pai para brilhar nas telonas, já que ele não podia fazer o mesmo. 

Rita foi feita para as câmeras                                                                 Divulgação/Gif 
Nascida no Brooklyn, em Nova York, no dia 17 de outubro de 1918, Margarita começou a dançar desde que se entendia como gente, mas ela já admitiu, em inúmeras entrevistas, que não gostava de dançar quando criança e que apenas começou a tomar lições para se tornar cada vez melhor e fazer com que seu pai se sentisse orgulhoso. Na biografia If This Was Happiness de Barbara Leaming, (uma péssima biografia, por sinal, apesar de algumas entrevistas interessantes) uma antiga vizinha de Rita, chamada Loretta Parkin, afirma que se lembrava da estrela de cinema sempre como uma garota solitária e com um pai que não permitia que ela fosse apenas uma criança: "Ela era muito tímida. Eu senti pena dela porque durante toda a brincadeira ela apenas ficava sentada na varanda. Era tudo que ela fazia. " 

A vizinha ainda se lembra de quando Margarita e seu pai praticavam as danças, já que aos 12 anos de idade, ela fazia sua primeira aparição como a dupla Cansinos, em 1931, dessa vez substituindo sua tia, a dançarina Elisa: "Quando ela fazia um erro ele gritava com ela e eu nunca escutei Rita responder de volta, nunca. Ela simplesmente fazia o número de novo, até que ele estivesse satisfeito. Ela era sempre quieta, doce e obediente." 

Rita, aos 12 anos de idade, que para dançar seus pais mentiram sobre sua idade            Divulgação/Montagem
Talvez não existam três adjetivos melhores do que esses para definir Rita Hayworth, que antes de retomar a dupla Cansinos, já dançava sozinha desde os seis anos de idade, fazendo sua primeira aparição no cinema ao dançar no filme La Fiesta (1926), que tinha seu pai e sua tia, como uns dos dançarinos principais. Aliás, um exímio dançarino, Eduardo nunca fez mais sucesso do que deveria por conta de seu sotaque e péssimo inglês: coisa que não seguraria o estrelato de Rita, afinal, ela era americana, apesar de suas origens hispânicas.

Margarita foi descoberta, justamente, através de sua dança: menor de idade, ela tinha que passar pela fronteira dos Estados Unidos para o México e dançar em Tijuana, no México, em clubes chamados Foreign e Agua Caliente. Foi chamada aos quinze anos pelo Max Arno, da Warner Bros, para fazer um teste. Foi um desastre. Logo depois, em 1934, foi vista por Winfield Sheehan, da Fox, e por um milagre do destino, além de uma ajuda do câmera Rudolph Maté que apenas filmou seus melhores ângulos, Margarita conseguiu um contrato, por seis meses, na produtora.

Margarita Cansino em um de seus primeiros papeis no cinema:A Nave de Satã (1935)         Divulgação/Youtube 
Rita Cansino, como ela era conhecida na época, com seu mais novo nome artístico, era a protegida de Weinfield Sheehan e ele estava determinado a torná-la uma estrela, fazendo com que ela fosse escolhida como a protagonista do filme Ramona (1936). O único problema era que a produtora Fox estava em crise e se alinhou a Twentieth Century, formando a 20th Century Fox. Os novos donos da produtora, Jose Schenck e Darryl F. Zanuck, demitiram Weinfield, colocando Loretta Young como a estrela de Ramona e despedindo Rita Cansino depois de ela terminar com as obrigações de seu contrato. 

Antes de terminar seu contrato, no entanto, Rita fez o filme Perdida na Metrópole (1936) ao lado da atriz Jane Whiters, que amiga de longa data da estrela, revelou durante seu funeral: "Quando eu descobri o quão dolorosamente tímida ela era eu fiquei chocada." Ela segurou a mão de Rita e fez uma oração: "Deus, está é a Rita e ela está com medo....Por favor, fique com ela porque ela é especial.
" 



rita hayworth
Rita Hayworth em 1946                                                           Divulgação/Cinelândia

E especial ela era, mas à partir desse nervosismo e da necessidade de ser guiada, que o primeiro marido de Rita, o controlador Eddie Judson, entrou em cena. Um empresário relativamente bem-sucedido (ou pelo menos era isso que ele dizia), ele prometeu transformar Rita em uma grande estrela, se ela permitisse que ele fizesse as mudanças necessárias para que ela ficasse realmente linda. Assim, com a influência de Eddie, Rita conseguiu um emprego fixo na Columbia Pictures, em 1937.

Mas se no estúdio Fox queriam que Rita fosse um tipo mais nova de Dolores Del Rio, Harry Cohn, o chefe da Columbia, achava que o sobrenome de Rita era hispânico demais e sugeriu a troca. Foi assim que Margarita Cansino se transformou em Rita Hayworth.

A transformação ainda não havia acabado, no entanto: a cabeleireira do estúdio, Helen Hunt, depois de muita insistência de Eddie, que não queria ver sua esposa sem o estúdio, sugeriu que ela fizesse um penoso tratamento: uma depilação por eletrólise, que usava uma corrente elétrica para destruir as raízes do cabelo e se livrar do pico de viúva nos cabelos de Rita e expandir a linha de seu couro cabeludo, tornando-a mais americanizada. 

Rita passou por várias mudanças até ser considerada uma estrela                     Divulgação/Montagem

Esse processo acabou apagando muito da etnia de Rita Hayworth, mas para Hollywood não importava. Harry Cohn queria uma estrela para o seu estúdio e Eddie Judson fazia tudo ao seu alcance para que Rita se tornasse famosa. Apagar sua herança étnica não lhes preocupava nem um pouco. Aliás, antes de seu cabelo ser cortado para o filme A Dama de Shangai, a revista Life, na edição de novembro de 1947 afirmou que Cohn disse, sem sombras de dúvida que: "Todo mundo sabe que a coisa mais bonita de Rita é o seu cabelo." 

Apesar da transformação dolorosa de Rita, ela logo conseguiu papeis substanciosos em filmes depois da mudança como em O Paraíso Infernal (1939), seu primeiro papel importante. O diretor do filme Howard Hawks não estava nem um pouco impressionado com Rita e em uma cena ao lado de Cary Grant  na qual ela tinha que fingir estar bêbada, Hawks teve tão pouca paciência que pediu que Cary derrubasse um balde de água gelada na atriz, já que apenas queria sua reação na hora e não como profissional. 

Mas para o alívio de Rita, outros filmes seguiram como Uma Loira com Açúcar (1941), Protegida de Papai (1940), seu primeiro papel de cinco com Glenn Ford (seu melhor amigo da vida toda), Sangue e Areia (1941) e Ao Compasso do Amor (1941), com o maravilhoso dançarino Fred Astaire que já afirmou em sua biografia Steps in Time: An Autobiography que Rita foi sua parceira de dança favorita e que a dança era um dos talentos genuínos dela. 

Rita era uma das dançarinas mais disciplinadas do showbusiness                        Divulgação/Gif 

Foi mais ou menos nessa época, que Rita acabou se apaixonando por Orson Welles, depois de afirmar que se casaria com o ator Victor Mature, com quem ela atuou no filme Minha Namorada Favorita(1942). Mas Rita mudou de ideia quando ficou admirada que um homem tão inteligente quanto Orson pudesse amá-la. Já o diretor estava certo de que se casaria com Rita depois de ver a tão famosa foto, que ficava pendurada nas acomodações de vários soldados durante a Segunda Guerra Mundial, com ela vestida com uma camisola e com um sorriso insinuante, mas incerto. A foto foi tirada em 1941 e só ficou atrás da de Betty Grable, a pin up oficial das Forças Armadas .

Logo depois, o maior papel de Rita Hayworth chegou, um tempo depois de se casar com Orson e ter sua primeira filha, Rebecca Welles: foi o da personagem Gilda no filme noir Gilda (1946). De acordo com sua coestrela, Glenn Ford, em Glenn Ford: A Life, ele e Rita tiveram um caso durante as filmagens e o diretor do filme encorajava que essa química na vida real passasse pelas telas: "A instrução dele para nós era inacreditável. Eu nem posso repetir as coisas que ele dizia para nós antes de fazermos uma cena." O caso entre Ford e Hayworth era de idas e vindas, mas a amizade entre eles era tão forte que quando Rita morreu, Glenn ajudou a carregar seu caixão e os dois, por um tempo, moravam em casas anexas. 

Rita em um papel mais gélido, a direita em Dama de Shangai, não fez nenhum sucesso com os fãs   Divulgação/Montagem

Com uma cena extremamente sensual para a época: o tirar de luvas de Rita, ou melhor, de Gilda, em Put The Blame on Mame, a atriz ficou para sempre eternizada como um símbolo sexual, a eterna femme fatale.  Mas Rita, com razão, sempre considerou que tinha mais potencial do que isso e ao se separar de Orson acabou conseguindo um dos mais importantes papeis de sua carreira: no filme dele A Dama de Shangai (1947), que foi quando tingiu seus longos cabelos de loiro e os cortou acima do ombro. 

O filme foi um fracasso de bilheteria, mas os críticos amaram e até hoje me pergunto como Rita não ganhou uma indicação ao Oscar pela sua atuação. No futuro, no entanto, ela acabou sendo indicada ao Globo de Ouro pelo filme O Mundo do Circo (1964), em que atuou ao lado de John Wayne e Claudia Cardinale. 

Se Rita, no começo de sua carreira, era tímida demais, ela não perdeu tempo em aprender com os seus erros e se tornou pioneira em duas coisas em Hollywood: ao criar uma companhia de produção chamada The Beckworth Company (em homenagem à sua filha Rebecca) na qual ela tinha certo controle produtivo sobre seus filmes e ganhava uma porcentagem de 25% de seus lucros que entrou em vigor ao gravar o filme Os Amores de Carmen (1948) até 1954, quando vendeu a empresa para pagar dívidas. Rita também passou na frente de Grace Kelly e foi a primeira estrela de Hollywood a se casar com um membro da família real: o príncipe árabe Aly Aga Khan. Com ele, Rita teve sua segunda filha Yasmin Aga Khan. 

As duas filhas de Rita: Rebecca e Yasmin                                    Divulgação/Montagem

Apesar de afirmar que não se afastaria dos filmes enquanto estivesse casada com o príncipe, durante seu casamento com Aly, de 1949 a 1951 (com o divórcio finalizado em 1953), Rita não estrelou em nenhum filme, nem ao ser convidada para interpretar a personagem Karen Holmes em A Um Passo da Eternidade (1953) ao lado de seu grande amigo Glenn Ford. O papel, é claro, foi dado para Deborah Kerr e foi um grande sucesso. Assim, ela não ganhou muito lucro com a The Beckworth Company. 

Depois do fim do casamento, Rita voltou para Hollywood e estrelou em Um Caso em Trinidad (1952), ao lado de Ford, com grande sucesso, apesar de ela parecer receosa de fazer sequer mais um filme. Mesmo assim, ela estrelou em Salome (1953) e Saddie Thompson (1953), este último pelo qual recebeu muitos elogios da crítica. O único problema nessa época foi seu casamento com o trapaceiro Dick Haymes, que consumiu quase todas as finanças de Rita que foi, inclusive, denunciada por manter suas filhas em pobres condições, já que quase nunca estava com elas e sim com o marido controlador e viciado em jogo. O relacionamento acabou em 1955 e ela acabou se casando de novo, com o mais uma vez abusivo Jamie Hill, mas o relacionamento acabou depois de dois anos.

Rita Hayworth em 1976. Nessa época ela foi tirada à força de um avião ao ter um acesso de raiva     Divulgação/Youtube

O último papel de Rita na Columbia Pictures foi em Meus Dois Carinhos (1957), que Harry Cohn fez questão de firmar o lugar de Kim Novak como sua nova estrela, quase como se Rita fosse obrigada a lhe passar a tocha. Mas Hayworth não estava nada triste de deixar o estúdio, como ela mesma afirmou: "Ele achava que era o meu dono. (...) Às vezes eles me davam um filme ruim de propósito e me faziam tirar uma suspensão. E você quer saber o que eu acho dele? Eu acho que ele é um monstro."

Rita continuou a trabalhar em filmes até 1972 e o que muitos consideravam alcoolismo, já que ela estava cada vez mais irritadiça, nervosa e esquecendo suas falas, descobriu-se apenas mais tarde que ela sofria o mal de Alzheimer em 1980. Em uma entrevista de 1971 para o jornal The Victoria Advocate, Rita contou sobre seu problema de conseguir papeis: 
"Não tem muitos filmes para uma mulher da minha idade. Alguém sempre pega os papeis que eu quero." 
Mas não era só isso para Rita: em seu último filme A Divina Ira (1972), ao lado de seu grande amigo, Robert Mitchum que insistiu para a escalação da atriz, Rita não conseguia lembrar de suas falas e tinha que gravar cada uma de suas linhas de cada vez. Essa realidade deve ter sido horrível para a atriz, que era conhecida por sua vivacidade e rapidez de decorar tanto falas quanto passos de danças no seu auge como estrela.

Rita Hayworth estava mais frágil, mas sua reputação assegurou-lhe um caso com seu costar Frank Langella      Divulgação

Antes da descoberta do Alzheimer, até mesmo sua filha, Yasmin, achava que era demência causada por álcool. No fim de sua vida sofrida, na mão de homens controladores, rotinas ensaiadas e a busca pelo amor, Rita acabou dando uma nova luz e importância ao Alzheimer, ajudando nas pesquisas e arrecadações para estudo da doença, já que sua filha Yasmin criou a Associação de Alzheimer Rita Hayworth Gala em 1985, dois anos antes do falecimento de sua mãe, para reunir fundos para tentar descobrir a cura da doença. Nessa época, infelizmente, Rita não estava mais falando com sua filha mais velha, Rebecca. 

E depois de tantas tragédias de sua vida, Rita não deixou se convalescer pela doença, como mostra o documentário I Remember Better When I Paint (2009), na qual Yasmin narra que sua mãe produzia lindas obras de arte mesmo com a debilitante doença. 

Uma das frases mais famosas de Rita era a de que os homens dormiam com Gilda, mas acordavam com ela. E ao lado de amigos como Robert Mitchum, Jack Lemmon, Evelyn Keys e Ann Sheridan, Gilda não significava nada. Eles se importavam apenas com Rita, assim como ela deveria ter feito também.


A decepção do livro Scarlett, continuação de E o Vento Levou...

*Aviso: Spoilers sobre o livro

O final de E o Vento Levou... não poderia ser mais ambíguo. O romance entre a espirituosa Scarlett O' Hara e o nada cavalheiro Rhett Butler continua a fomentar o imaginário de gerações de leitores, que não se contentam com o final ambíguo do livro. Apesar da negativa de Rhett para Scarlett no final, com a frase: "Minha querida eu não dou a mínima", o livro acaba com a seguinte frase: "Penso nisso amanhã, em Tara. Vou aguentar então. Amanhã vou pensar em algum modo de tê-lo de volta. Afinal, amanhã é outro dia." Muitos leitores acreditam que Rhett e sua amada acabam juntos no final. Já outros acreditam que eles nunca dariam certo. E também existem uns poucos leitores que afirmam mudar de ideia do desfecho do casal a cada leitura. 

No entanto, Margaret Mitchell, a autora do livro, não tinha qualquer dúvida sobre o final de E o Vento Levou... e afirmou, com todas as palavras, na edição de 18 de outubro de 1945 da revista Yank: "Pelo que eu sei, Rhett pode ter achado alguém que é menos difícil. Por que, querida, pense nisso, dessa nova união hipotética poderia surgir um robusto jovem que cresceria para se tornar um charmoso segundo-tenente." E é aí que entra Alexandra Ripley, a escritora de Scarlett: A Continuação de E o Vento Levou. 

Ela foi escolhida pelos herdeiros de Mitchell para escrever a sequência    Osmund Geier/Creative Commons License
Tudo começou em 1975 quando o irmão de Margaret, Stephen Mitchell, temendo que os direitos autorais da autora não valeriam mais a partir de 2011 e que inúmeras sequências do clássico fossem feitas,decidiu autorizar uma continuação para que tivessem controle sobre o conteúdo e royalties. Foi assim que Alexandra, que já tinha uma vasta experiência ao escrever romances históricos como Charleston e New Orleans Legacy chamou a atenção dos agentes do patrimônio de Mitchell. 

Antes de Stephen Mitchell conseguir processar a MGM e ganhar controle de todos os direitos do livro, a produtora já tinha tentando tirar uma sequência do esboço com a autora Dianna Hammond, que daria o nome do roteiro/livro de Scarlett e Rhett, Anne Richards (autora da famosa biografia de Mitchell Road to Tara) que escreveu uma novela chamada Tara: A Continuação de E o Vento Levou.... com mais de 750 páginas, mas o produtor James Goldman acabou não gostando da densidade do livro e decidiu escrever seu próprio roteiro. Nenhum deles sequer saiu do papel. 

E foi assim que Alexandra tirou a sorte grande e acabou sendo escolhida para escrever a continuação. Uma grande dama sulista, ela nasceu em Charleston, a mesma cidade natal de Rhett Butler. Talvez seja por sua criação que a autora nunca tenha se identificado com Scarlett e já afirmou, para a revista People, que gostava muito mais da personagem Melanie: "Ela era tudo que eu tinha sido ensinada que gostaria de ser. Ela era uma dama e eu fui ensinada que se você não era uma dama, igual a Scarlett, eu não teria um final feliz." 

É claro que Ripley acabou dando o final feliz de Scarlett, que os fãs de E o Vento Levou tanto queriam, mas perdeu a essência da personagem no processo, exatamente por não entender Scarlett: ela até poderia não ser uma dama, mas nunca seria uma devassa. E a autora não soube dosar nada disso. Tanto que já afirmou que: "Eu não sei por que Scarlett tem um apelo tão grande. Quando eu comecei a escrever o livro, eu tive vários problemas porque a Scarlett não é o meu tipo de pessoa. Ela é praticamente iletrada, não tem gosto e nunca aprende de seus erros."  


O livro Scarlett começa no enterro de Melanie, quando a protagonista impede que Ashley salte em cima do caixão da amada. Repreendida mais uma vez por suas ações, Scarlett não parece se importar com mais nada a não ser ter Rhett de volta. Assim todo o amadurecimento da personagem no final de E o Vento Levou se perde. Ela não liga para suas obrigações, seus filhos e nem ao menos para Tara: ela larga tudo para viver na Irlanda e se tornar matriarca dos O'Hara. O único problema é que Scarlett não é nada sem sua terra e eu, como leitora, duvido muito que ela abriria mão de algo que é tão precioso para ela. 

Ao ler o livro de Mitchell, Ripley confessou em uma entrevista ao jornal The Baltimore Sun em 1991, que não conseguiria escrever tão bem quanto a autora e que leu o livro seis vezes antes de começar sua sequência. Infelizmente, a atenção de Ripley não serviu de nada porque ela, desde o começo, não conseguia entender Scarlett e esse foi seu grande erro. 

Isso ficou ainda mais claro quando Scarlett recebe a família bonachona da parte de seu pai, os O'Hara, com o coração aberto na Irlanda. Apesar do amadurecimento emocional, Scarlett ainda se preocupava com as aparências e fica difícil imaginá-la andando de pés descalços, grávida, pelas planícies da terra natal de seu pai. A parte mais complicada de se aturar, no entanto, é quando Scarlett e Rhett ficam finalmente juntos, nas últimas sete páginas da trama, e desistem de suas terras porque um é a casa do outro.  

O livro Scarlett deu origem a minissérie E o Vento Levou 2 de 1994                       Divulgação/Youtube
Em E o Vento Levou, Katie Scarlett O' Hara já contou várias vezes como a terra era importante para ela. Quando ela se casou com o Senhor Kennedy foi para salvar Tara, assim quando foi encontrar Rhett na prisão, para pedir um adiantamento para salvar sua plantação. Ela não apenas esqueceria Tara depois de tudo para deixar na mão do marido de Suellen, sua irmã mais nova. Tara é sua casa, sua estabilidade e Rhett é o seu amor. Um fato não anula o outro. 

Além do estilo literário bem diferente, embora Ripley tenha tentado ficar o mais próxima possível de Mitchell, a autora cria em seu livro um enredo mais mirabolante do que o outro, com até uma bruxa fazendo o parto de Scarlett na Irlanda. E foi aí que Alexandra perdeu seus leitores: ao tentar tornar a história mais interessante possível ela se esqueceu que às vezes o cotidiano e a dureza da vida, exatamente como ela é, já é mais do que suficiente para se escrever e ter um bom material. Ainda mais com personagens tão interessantes quanto Scarlett e Rhett. 

Para um fã aficionado por tudo relacionado ao E o Vento Levou... o livro deve ser lido, mas sem grandes expectativas. Se a história não fosse uma continuação de E o Vento Levou, com personagens com outros nomes, o livro até poderia ser considerado bem divertido. Mas como uma sequência de E o Vento Levou.., ele não funciona. Jamais. 

                           
Livro: Scarlett: A Continuação de E o Vento Levou...
Autora: Alexandra Ripley 

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A arte do filme A Ilha dos Mortos (1945)

Mitos são passados de geração para geração e nenhum deles era mais forte durante o século XVII na Grécia do que os vrykolakas. Eles são conhecidos no folclore Balkan como criaturas que absorviam a energia dos vivos, com características muito semelhante aos mortos-vivos, porque apesar de não sugarem o sangue de suas presas, eles consumiam a essência vital de suas vítimas durante à noite. Além disso, a palavra vrylokakas acabou significando também vampiro pela sua semelhança com o mito de Transilvânia. Aliás, muitos gregos acreditavam que um lobisomem virava um vampiro quando morria, por isso o cuidado contra os vrylokakas era redobrado.

Assim, julga-se o vrylokaka era um morto revivido, em busca de terminar seus assuntos pendentes. Talvez essa última definição seja a mais adequada quando se trata do filme A Ilha dos Mortos (1945), dirigido por Mark Robson. Nele, Boris Karloff (o eterno monstro de Frankenstein) interpreta um general durão, chamado Pherides, que ao visitar o túmulo de sua mulher, ao lado do jornalista Oliver Davis (Marc Cramer), o encontra violado. Buscando respostas, ele encontra um senhor que mora na ilha e que tem como governanta uma supersticiosa mulher grega. Mas não é só isso: lá ele também se depara com as visitas do morador, incluindo uma jovem encantadora que é suspeita de um crime terrível: sugar as energias de sua senhora. E a situação piora quando todos os convidados ficam confinados na ilha, com a suspeita da praga. 

O contraste do cenário e da fotografia conspiram para a conclusão da vrylokakas       Divulgação/RKO Pictures
De acordo com o livro Fearing The Dark: The Val Lewton Career de Edmund Bansak, Val Lewton, o produtor de A Ilha dos Mortos, baseou seu longa-metragem em duas obras de artes: a pintura chamada Isle of The Dead do pintor Arnold Böcklin e o conto de Edgar Allan Poe intitulado O Enterro Prematuro. Os horrores dos relatos de quem já tinha sido enterrado vivo combinados com a atmosfera maléfica da pintura de Böcklin que se inspirou no Cemitério Inglês, na Itália, onde sua filha Maria, uma entre 14 filhos do pintor, foi enterrada, para criar a atmosfera da cena foi muito bem aproveitada. Já para retratar uma ilha isolada, Böcklin se inspirou na ilha Pontikonisi, perto da cidade de Corfu, na Grécia. Elementos que, juntos, fazem um ótimo filme de horror quando junta-se um mito grego e uma mulher que morre de medo de ser enterrada ainda viva.  


O pintor Böcklin criou cinco versões diferentes da sua pintura e esta foi usada como base para o filme  Divulgação/Montagem
O problemas, no entanto, começaram assim que a produção de A Ilha dos Mortos se iniciou. Boris Karloff estava sofrendo com dores intensas nas costas e mesmo tentando continuar as gravações, ele acabou passando por uma cirurgia que o deixou no hospital por mais de um mês. A partir daí, Val já estava focado em seu outro filme, que apenas precisava passar pelos toques finais, o Túmulo Vazio (1945). Mas isso não significa que os diretores de arte da Ilha dos Mortos, Albert S. D'Agostino e Walter E. Keller não estavam totalmente focados em seu trabalho. 

Um diretor de arte é responsável por toda a concepção visual do filme, em seus mínimos detalhes e a dupla Albert e Keller foram, juntos, responsáveis pelos maiores sucessos da RKO filmes, principalmente no gênero de terror.  Assim, eles, ao lado dos decoradores do set, Albert Greenwood e Darrell Silvera, encarregados de tornar a visão dos diretores de arte em realidade, tinham um minucioso trabalho pela frente. 

D'Agostino, de acordo com a edição de 1971 da revista Cinefantastique, era conhecido pelo seu talento único de mesclar os personagens e os ambientes, como se fossem um só. Isso fica extremamente claro em A Ilha dos Mortos, quando nos últimos dez minutos do filme, temos uma brincadeira de luzes, como se todos os personagens apenas fizessem parte da casa, num expressionismo moderno. 

As frestas abertas contra a escuridão do quarto aumentavam o terror psicológico       Divulgação/RKO Pictures 
Já Keller, nunca alcançou a fama de Albert, que até foi diretor de arte de filmes para Alfred Hitchock. Mesmo assim, Walter E. Keller tinha uma grande participação nos filmes, fazendo a maior parte dos designs nos longas de Val Lewton, como conta o livro Art Directors in Cinema de Michael L. Stephens.  Albert geralmente era o primeiro a ser creditado porque era o supervisor da direção de arte, ou seja, estava um passo acima na hierarquia do set de filmagens. 

A parceria dos dois ao lado de Val Lewton, considerado um dos mestres do terror, começou em 1942 no filme Sangue de Pantera e terminou em 1946 com Asilo Sinistro. Mas em todos os longa-metragens, o tema de terror psicológico era utilizado em toda sua potência, apesar dos orçamentos baixos que dificultavam a criação de sets mais elaborados. Por isso, o uso da escuridão e da luz e de ambientes fechados, eram usados em abundância. 

O contraste entre a sombra dos personagens e a paisagem era uma das marcas do gênero      Divulgação/RKO Pictures
Outro mérito da produção foi a recriação, em detalhes, da pintura de Böcklin, fazendo a entrada da cripta e as escadas em espiral que foram usados em momentos de suspenses cruciais do filme. É apenas no fim, quando a luz do sol banha os personagens que sobreviveram, que a ilha, em um enquadramento panorâmico, não parece mais morta, quase como se estivéssemos vendo um outro filme, com uma final feliz, típicos de romance. 

Talvez seja por isso entre outros talentos, que Walter e Albert podem ser considerados uma das duplas de diretores de arte mais bem sucedidos do horror: eles sabiam combinar o realismo do roteiro com o expressionismo do terror como mais ninguém conseguiria.


Cinco filmes que mencionam o David Bowie e merecem atenção

Um dos músicos mais influentes do século XX, David Robert Jones, ou apenas David Bowie, conseguiu fazer a transição de cantor para a atuação em filmes independentes de um modo natural participando de respeitados longas como Fome de Viver (1983) e O Homem que Caiu na Terra (1976). Mesmo assim, um de seus papeis mais amados pelos fãs talvez sempre seja na fantasia Labirinto: A Magia do Tempo (1986), no qual ele interpreta o rei dos goblins Jareth. 
Ele ditava tendências dentro e fora das telonas                                        Divulgação/Gif 
Além de sua carreira bem sucedida no cinema, por si só, Bowie também influenciou clássicos do cinema como O Clube dos Cinco (1985) e Bastardos Inglórios (2009). Por isso, no que seria seu 70º aniversário, a Caixa de Sucessos lista sua influência em filmes ao redor do mundo, seja no Reino Unido, nos Estados Unidos e até mesmo na Bélgica.  

Considerado um dos grandes gênios da músico internacional, David Bowie não tinha medo de ousar e cada um desses longa-metragens ficaram conhecidos por sua originalidade e por mencionarem o falecido cantor. 

1. Um Crime Entre Amigas (Jawbreaker) -1999 

Um Crime Entre Amigas se tornou um clássico cult dos anos 90                             Divulgação/Gif
Um Crime Entre Amigas poderia ter sido para os anos 1990 o que Atração Fatal (Heathers) foi na década anterior para os adolescentes. Provocativo e repleto de frases de efeito, o filme não fez sucesso na sua estreia nos cinemas, mas foi aos poucos ganhando atenção e atingiu o status merecido de filme cult. 

Nele, conhecemos o grupo das populares composto por Courtney (Rose McGowan), a verdadeira estrela do filme,  Marcie (Julie Benz) e Julie (Rebecca Gayheart), que ao comemorarem o aniversário de sua quarta amiga, Liz (Charlotte Ayanna), fazem uma pegadinha que resulta em sua morte. A partir daí, as três fazem de tudo para encobrir sua culpa no caso, recrutando uma nova integrante para o grupo, a estranha Fern (Judy Greer), que passa por uma extensa transformação e deixa a popularidade consumi-la. 

O problema é que para uma comédia negra, o filme acaba sendo leve demais: as personagens são extremamente coloridas, seja no guarda-roupa ou nas reações e o longa foca mais nas risadas do que no drama. Mas o verdadeiro êxito de Um Crime Entre Amigas é ao fazer com que Courtney seja completamente dominante, tornando-na a vilã que amamos odiar. 

2. A Dama de Vermelho (The Woman in Red) - 1984

Um dos filmes mais subestimados de Gene Wilder                                     Divulgação/Gif 
Gene Wilder, um dos mestres da comédia e para muitos o único Willy Wonka que vale a pena mencionar, interpreta em A Dama de Vermelho, Teddy Pierce um executivo bem-sucedido, com uma esposa amável e adoráveis filhos. Tudo isso, no entanto, não o impede de admirar uma bela mulher de vestido vermelho, chamada Charlotte (Kelly LeBrock), a Mulher Nota Mil. A partir daí, Teddy entra em um dilema: trair ou não trair sua esposa? 

Apesar de um roteiro previsível, que não leva as cenas engraçadas ao extremo, o longa ganha pontos pela atuação certeira de Wilder e por uma trilha sonora feita por Stevie Wonder, na qual a canção I Just Called to Say I Love You, que está presente no filme ganhou o Oscar de Melhor Canção em 1985. 

A cena em particular na qual Bowie é mencionado é quando Teddy descobre que sua filha, Didi, vai deixar de sair com ele para assistir um concerto de David Bowie ao lado de seu novo namorado, o Shelley. O choque de gerações, com o pretendente da filha vestido caracteristicamente para a época, transforma a cena em um grande alívio cômico. 

3. Por Onde o Vento Sopra (Any Way The Wind Blows) - 2003 

Todos os personagens se juntam em uma grande festa                                    Corridor Productions/Gif
Dirigido pelo músico Tom Barman, da banda dEUS, o filme Por Onde o Vento Sopra pode ser considerado uma ode à música. Apesar de acompanharmos diversos personagens, que mal se conhecem, durante um dia caótico em suas vidas, é a música que é a verdadeira protagonista deste filme. 

Em uma cidade que nunca dorme e a música muito menos, acompanhamos Windman (Sam Louwyck) que aparece na festa de Natalie (Natali Broods), assim como o resto das personagens. Mal elas sabem que o irmão dela, Chouk (Matthias Schoenaerts) acabou roubando um vírus perigoso de um laboratório e acidentalmente liberou entre a população da pequena cidade de Antwerp, na Bélgica. 

Mesmo assim, o foco do filme não é o perigo eminente que os personagens podem sofrer e sim em suas vidas, até nos detalhes aparentemente mais tediosos. Mas, acredite, você não passará nem um momento de tédio com este filme e nem com sua trilha sonora perfeita. 

4. The Runaways - As Garotas do Rock - 2010 

A Dakota Fanning interpretando Cherrie Curie faz uma homenagem a David Bowie             Divulgação/Gif
O filme biográfico da primeira banda de rock composta apenas de mulheres, as The Runaways, só aconteceu em 2010, quase três décadas depois do primeiro sucesso da banda. Das cinco integrantes, no entanto, apenas Cherrie Curie e Joan Jett receberam o destaque merecido no longa, já que as duas eram conhecidas por terem um relacionamento conturbado e serem as estrelas do grupo. 

A cena na qual Cherrie Curie (Dakota Fanning) interpreta a canção Grinning Soul de David Bowie durante um teste para o show de talento de sua escola realmente aconteceu na vida real. Mas de acordo com a cantora em entrevista ao site Legendary Rock Interviews, ela tocou outra música durante o show e acabou ganhando o primeiro lugar, diferentemente do que o filme retratou. 

Mesmo com algumas divergências na história da banda, o filme ganha pontos por retratar um dos grupos femininos mais influentes do rock, mesmo que peque ao transformar o filme no show da Joan Jett e as outras Runaways. 

5. O Musical de Verão (Hunky Dory) - 2011 

Minnie Driver brilha no filme                                              Divulgação/Gif 
Se o título do filme já não entrega, que foi nomeado em homenagem ao álbum Hunky Dory do David Bowie de 1969, o roteiro é ainda mais claro: no longa conhecemos a professora de drama Vivienne Mae (Minnie Driver) que como exame final quer que seus alunos encenem a peça A Tempestade de William Shakeaspeare, mas com um toque mais moderno, afinal, é 1976. 

É a partir dessa mescla entre o antigo e o novo, que os alunos outrora apáticos dão tudo de si para interpretar a peça, que contém músicas de David Bowie, Lou Reed, The Beach Boys e The Turtles. O filme, aliás, tem uma linda cena em homenagem ao Bowie, quando eles interpretam sua canção, que erroneamente é atribuída inúmeras vezes ao Nirvana, The Man Who Sold The World. 

Apesar das críticas um tanto desfavoráveis, O Musical de Verão desperta interesse pela sua trilha sonora impecável e pela sua metalinguagem, já que é um filme musical sobre um musical. Quer coisa melhor que isso? 

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