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As trilhas sonoras opostas de Vidas sem Rumo (1983)


Susan Eloise Hinton tinha apenas 15 anos de idade quando começou a escrever seu livro Vidas Sem Rumo (The Outsiders), que contava a história de duas gangues rivais, focando no sensível Ponyboy Curtis, que sofre com a perda de seus pais e o envolvimento de seus irmãos mais velhos com os Greasers, a gangue mais pobre da cidade, que para piorar a situação vive em pé de guerra com os Socs, os mauricinhos da comunidade de Tulsa, Okhaloma. 

A escritora baseou-se na vida de seus amigos, que em sua maioria eram greasers. Lançou Vidas Sem Rumo quando tinha 17 anos de idade e foi aconselhada a usar suas iniciais, S.E Hinton para dar mais credibilidade ao seu livro, já que não se achava que uma mulher escrevendo um livro sobre gangues faria sucesso. O truque, que J.K Rowling também usou, funcionou! The Outsiders, ou melhor, Vidas Sem Rumo, vendeu mais de 13 milhões de cópias mundo todo e se tornou leitura obrigatória para os estudantes de colegial nos Estados Unidos. Uma história escrita por uma adolescente que, no final, acabou atingindo outros tantos como ela. 

 C. Thomas Howell interpreta Ponyboy, que tinha uma promissora carreira                         Divulgação/Gif
Assim, o renomado diretor Francis Ford Coppola, após um pedido de um grupo de alunos do colégio Lone Star, na Califórnia, decidiu dirigir uma versão cinematográfica do livro, com um elenco de peso: Patrick Swayze, Rob Lowe, Diane Lane, Matt Dillon, Ralph Macchio, Emilio Estevez, C. Thomas Howell - que perdeu uma grande carreira depois da controvérsia racista de Confusão à Flor da Pele (Soul Man), de 1986 - e um pré-fama Tom Cruise. O filme, que estreou nos cinemas no dia 25 de março de 1983, foi um sucesso de bilheteria e de crítica, mas não sem suas desavenças na pré-produção, principalmente se tratando da trilha sonora. O embate foi entre pai e filho. 

Carmine Coppola deu o início da era da família Coppola para o sucesso: nascido em 11 de junho de 1910 em Nova York, ele decidiu, logo cedo, que sua vocação era ser flautista. O talento era aparente, já que o músico entrou em Juilliard e, em seguida, trabalhou na Orquestra Sinfônica NBC, até decidir seguir seu sonho de compôr músicas. Seu sonho nunca foi o cinema e Carmine apenas se envolveu nos set de filmagens para compôr, conduzir e fazer o arranjo de trilhas sonoras para seu filho, Francis Ford Coppola. Graças à essa parceria, aliás, ele ganhou um Oscar de Melhor Trilha Sonora por O Poderoso Chefão II, dividindo a honra com Nino Rota, que foi autor de outras maravilhosas composições. 


Divulgação
Esse feito fez com que a família Coppola ganhasse um Oscar em todas suas gerações: Carmine por Poderoso Chefão II, seu filho Francis com cinco estatuetas em casa e seus netos Nicolas Cage e Sofia Coppola, respectivamente, como Melhor Ator por Despedida em Las Vegas (1995) e como Melhor Roteiro Original por Encontros e Desencontros (2004). Apenas a família Huston é rival desse recorde. 

Mas, se durante as gravações de Vidas sem Rumo o compasso harmônico da família não saiu de tom, no relançamento a partitura foi outra. Francis Coppola, em sua decisão como diretor, decidiu retirar grande parte das músicas compostas pelo seu pai, ao relançar o filme em setembro de 2005 intitulado-o de The Outsiders: The Complete Novel. A razão? Considerava as composições de seu pai "artificiais e extravagantes demais". Assim, como Vidas Sem Rumo se passava durante a década de 1950, o cineasta colocou, no lugar da pomposa composição de Carmine, vários rock n' rolls na trilha sonora, com três músicas de Elvis Presley, adicionando Gloria de Van Morrison e até Real Wild Child de Jerry Lee Lewis. Uma decisão que Francis decidiu ser a certa para o reedição de seu filme, que também ganhou 22 minutos de cenas extras que foram retiradas do corte final original de Vidas Sem Rumo. 

Suntuosidade, no entanto, é o adjetivo ideal para descrever a trilha sonora inicial de Vidas Sem Rumo. Carmine, com passagens em sinfônicas clássicas e também pela Broadway, que preza pela grandiosidade de suas composições teatrais, investiu na direção da música clássica dando ao filme de seu filho um ar de épico, com a composição, muitas vezes, engolindo suas personagens como na instrumental Dallas Death Scene e a Go To Rumble, quando os Socs e Greases finalmente se enfrentam. Curiosamente, esse efeito ajuda no panorama geral da película, na qual o espectador pode se focar, intensamente, nas expressões e movimentos das personagens. 


A trilha sonora completa de Vidas sem Rumo, a de 1983 e a de 2005                       Divulgação

Mas Carmine Coppola sabia, inclusive, ser mais suave instrumentalmente como a composição de Stay Gold, transformada em canção por Stevie Wonder revela durante o trecho mais conhecido de Vidas Sem Rumo. Nele, Ponyboy escondendo-se da polícia ao lado de seu amigo, Johnny (Ralph Macchio), começa a recitar o poema Nothing Gold Can Stay, traduzido como Nada Dourado Fica, de Robert Frost. As cores vibrantes do pôr do sol relembram a cena clássica de Scarlett O'Hara em sua Tara de E O Vento Levou..., livro que os dois amigos leem enquanto estão no exílio. O clássico é uma marca de Carmine que combinou muito bem com o assunto atemporal que é a rebeldia e o ato de se descobrir durante a adolescência. 

A trilha sonora da reedição do filme é clássica, puro rock n' roll dos anos 1950, e dá um tom mais nostálgico para o filme, já que suas personagens se espelhavam nos ídolos durões da época que incluíam Paul Newman, Elvis Presley e James Dean. Porém, muitas cenas dramáticas como o incêndio na Igreja e a da morte de uma das personagens importantes da narrativa imploram por uma abordagem atemporal que possa se sustentar por si mesma, sem serem ofuscadas por canções tão simbólicas. 

Vidas Sem Rumo permanece um clássico de Francis Ford Coppola, seja em sua trilha original ou nova. Uma coisa é certa: o trabalho de Carmine no filme merece, e deve, ser apreciado. 



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Sobre Gabriella Baliego
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