A estadia repleta de samba de Rita Hayworth no Brasil

Em 1962, a vida de Rita Hayworth sofreu mais uma mudança que tinha a ver com um homem: recém-separada de James Hill [um dos piores maridos da vida de Rita, à frente até de Dick Haymes], seu quinto marido, ela resolveu aceitar o convite do representante americano de cinema no Brasil, vulgo Harry Stone, e vir ao Brasil para aproveitar o carnaval carioca. 

Com 43 anos de idade, Rita já não tinha mais a beleza jovem que ficou eternizada no filme Gilda (idem, 1946) e mostrava um encanto mais maduro, calmo e por que não, um tanto mais realista, depois de tantas amarguras em sua vida. 

De acordo com a finada revista Cinelândia, em 1962, Rita afirmou: "A maior alegria que experimentei de meus casamentos foi o momento de assinar a petição do divórcio." E com dois maridos bêbados e abusivos e outros três com falhas que iam desde a traição ao gênio forte, Rita chegou ao Rio de Janeiro sem a intensidade de Gilda, mas com o bom-humor e a fascinação que apenas Rita Hayworth poderia ter. 


                                                                            Rita Hayworth com Guilherme Araújo, diretor de televisão em sua estadia no Brasil                       Cinelândia
Rita Hayworth chegou ao Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro, pelo aeroporto do Galeão em 25 de fevereiro de 1962, por um avião da Varig procedente dos Estados Unidos, às 20h22. Apesar de rumores de que a atriz já teria vindo ao Brasil uma outra vez,  em setembro de 1941 à pedido de seu então namorado - e futuro segundo marido - Orson Welles, isso não é verdade. Como sabe-se, o diretor veio ao Brasil para gravar um filme sobre a cultura brasileira chamado É Tudo Verdade e nessa época Rita estava ocupada gravando inúmeros filmes e ainda nem havia conhecido Orson. 

Outra oportunidade de Rita vir ao Brasil ocorreu em dezembro de 1952, quando segundo o jornal Correio Paulistano, ela havia sido convidada para a première de O Cangaceiro (idem, 1958) em 28 de dezembro de 1952, porém com o fim de seu casamento com Ali Khan, nunca foi comprovada sua chegada ao país. 

Mas voltando para a vinda definitiva de Rita: ela foi recebida no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro e o jornal Diário de Notícias, conta que: "logo que desceu do Galeão, quando foi feita esta foto, quis saber se a cidade já estava preparada para a folia e se os cariocas conservavam a mesma animação que a contagiou há alguns anos." A resposta da atriz pareceu ser positiva: Rita ficou quase um mês em terras brasileiras! 


Rita sendo recebida no aeroporto por fãs e jornalistas                                                                                                 A Manchete
Em breve entrevista com a imprensa em seu desembarque, Rita afirmou que estava animada para comemorar o Carnaval brasileiro: 
Tenho certeza que vou amar o Carnaval Carioca que eu conheço através do cinema. Não trouxe fantasia, mas pretendo comprar uma e me divertir bastante. 
Ainda no bate-papo, Rita falou sobre Aly Khan, seu falecido marido e deixou claro que ainda o amava:
Foi um ótimo esposo e um grande homem. Divorciávamos por questões que não valem repetir, principalmente agora que está morto. Eu ainda o amava. - Diário de Pernambuco
Alida Valli, famosa atriz italiana que também já trabalhou com Orson Welles, então ex-marido de Rita, curtiu o carnaval na mesma época de Hayworth e no mesmo dia de sua chegada, as duas curtiram um cocktail pré-carnavalesco em Joá, bairro do Rio de Janeiro. Ambas estavam no país para divulgarem o lançamento do filme O Sétimo Mandamento (Please Don't Tell, 1961) com o qual contracenaram com Rex Harrison. 

Alida também estava gravando, no Rio, o filme Hora da Sesta (1962), ao lado de Louis Jourdan e Alexandra Stewart, dirigido pelo argentino Leopoldo Nilsson. 


Rita Hayworth se divertindo no programa Ao Encontro da Música                                                                                                                                           
Rita, assim que chegou no Rio de Janeiro, falou pouco com a imprensa já que tinha que correr para fazer uma aparição no programa de televisão Ao Encontro da Música da TV Continental. O Jornal A Noite fez uma reportagem só sobre sua aparição, revelando a simpatia de Hayworth que ligou para o produtor do programa para saber que horas deveria chegar ao estúdio. A entrevista e o programa foram conduzidos pelo apresentador Haroldo Eiras e a atriz revelou estar muito animada para brincar durante o carnaval carioca.

Utilizando-se dos talentos de dança de Rita, a atriz se juntou à Elizote Cardoso, Jorge Veiga e Marlene e dançou samba em frente das câmeras. Essa foi a primeira vez  de todos os países que Rita visitou no qual ela concordou em ser entrevistada e aparecer em um programa de televisão. No ritmo do samba, a atriz mostrou toda sua graça e beleza e de quebra os brasileiros conseguiram um furo exclusivo! 

Além da TV Continental, outros canais como Canal 100 e TV Tupi também noticiaram a vinda de Rita ao Brasil, e existem até roteiros de televisão contando sobre sua vinda, porém infelizmente não temos os vídeos disponíveis.


Rita passeando pelo Rio de Janeiro - muito elegante                                                                                   O Jornal do Brasil
Hospedada no hotel Copacabana Palace, do qual o playboy Jorge Guinle era dono, a deusa do amor curtiu a noite carioca como nunca! De acordo com o jornal O Jornal, Rita tomou até alguns remédios para dormir em sua chegada no Rio e no dia seguinte, dia 27 de fevereiro, afirmou estar indisponível para a imprensa e que apenas sairia do hotel entre às 16h ou 17h. Á tarde, saiu com Jorge Guinle pela cidade para escolher sua fantasia e o Jornal do Brasil atesta que Rita não foi reconhecida pela maioria das vendedoras das lojas. 

Ainda no dia 27 de fevereiro de 1962, Rita partiu para a noitada carioca ao lado de Guinle no Iate Clube onde acontecia a festa Uma Noite no Havaí. Segundo O Jornal, Rita também estava acompanhada de Raul Miranda Santos, conhecido como o Raul Barulho. 

Em entrevista a revista Exame Vip em 1991, Jorginho Guinle afirma que seu romance com Rita começo ali:
Meu romance com Rita Hayworth foi num barco que estava a seco no Iate Clube, tudo muito bonito e romântico. Ela era muito sozinha. 

Rita se divertindo no Iate Club                                                                                                                O Jornal/Cruzeiro
Em 28 de fevereiro de 1962, Hayworth teve mais uma agenda bem agitada. A diretoria da Melo Tênis Clube ofereceu um coquetel para a estrela com início às 21h. Antes, no entanto, Rita compareceu no samba brasileiro ao lado da italiana Alida Valli, Alexandra Stewart, Paul Guera, Maurice Serfati e Violeta Antler. O grupo foi sambar com a Escola de Samba de Portela, detentora do chamado "tamborim de ouro".

Rita com a bandeira da escola de samba Portela                                                                Portela Blog
Em entrevista ao jornal Mundo Ilustrado na mesma noite, Rita revelou que entre todos seus maridos, apenas se casaria de novo com o príncipe Aly Khan, afirmando "quando morreu eu ainda o amava" e elogiou muito o samba, encerrando sua entrevista com a seguinte frase: 
Só quero agora saber de samba!
As crianças da escola a adoraram e Rita distribuiu beijos e autógrafos na mesma medida. 

Rita Hayworth em sua visita a Portela: muitos abraços e beijos e, claro, samba!                                                                          Mundo Ilustrado/Montagem
No dia 1 de março de 1962, Rita Hayworth partiu para Brasília, ao lado do representante de cinema americano no Brasil, Harry Stone e Jorginho, é claro, para participar do então primeiro "Baile da Cidade" no Teatro Nacional. Ao seu lado também Sette Câmara, o então prefeito de Brasília, que a convidou especialmente para a ocasião. 

Ela chegou a Brasília através do Aeroporto Internacional e foi recebida de braços abertos pela imprensa. Segundo o jornal Correio Braziliense, ela visitou toda a cidade, tirou fotos nos pontos turísticos e foi super simpática com a imprensa. 

Mais tarde, Sette Câmara a levou para um coquetel no Riacho Fundo, com todas as pessoas mais importantes da sociedade. À noite, a intérprete de Gilda verificou com seus próprios olhos que o Carnaval brasiliense também era de babar! 


Rita se divertindo durante o Baile                                                                                                                 A Manchete
Chique com um vestido bem colado (e com marquinhas de biquíni, sinal de que aproveitou bem a praia), Rita ficou ao lado do primeiro ministro Tancredo Neves e se divertiu muito no carnaval de Brasília. 

Manuel Mendes, repórter do Correio Brasiliense, estava presente na festa com Rita Hayworth e garantiu que ela se divertiu muito e até conversou com Joan Lowell, ex-atriz que fez de Goiás o seu lar: 
Por um momento, Joan Lowell, minha mulher, eu e outros convidados colocamos Gilda no centro. Alegre, tentava ela seguir o ritmo enquanto ria muito e batia palmas. Para mim, era a glória! - Manuel em seu livro O Cerrado de Casaca

Rita em sua chegada a Brasília e na festa com Tancredo Neves, Hermes Lima, Israel Pinheiro e Sette Câmara 
Logo no dia seguinte, Rita retornou para o Rio de Janeiro para curtir, de perto, o carnaval brasileiro. Ela continuou frequentando boates à noite, sempre ao lado de Jorginho Guinle e/ou de Harry Stone. Rita e Jorginho estavam tão próximos que os jornais até noticiaram um possível romance entre eles. O jornal Última Hora noticiava: "Rita Encantada com o Rio: Romance com Jorge Guinle?", afirmando que a atriz estava passando tempo demais com o playboy e que ele a levaria para conhecer sua família em Teresópolis. 

Segundo o Diário Carioca, o itinerário de Rita estava bem cheio: no dia 3 compareceu à uma festa no Copacabana Palace, no domingo assistiu os desfiles das escolas de samba. Dia 5 de março ela se esbaldou no Teatro Municipal, uma das festas mais faladas do momento  cujo o tema era "Carnaval em Veneza" e na terça-feira foi no Joquei Club.

Para a festa no Copacabana Palace, Rita tinha sua grande fantasia para carnaval pronta: o da baiana.  Idealizada pela estilista Mary Angélica, em tecido bangu, foi feita à pedido do colunista Ibrahim Sued. O traje de Rita, no entanto, era tão simples que nem parecia uma fantasia elaborada. Era feito para que ela se divertisse e o colar de contas completava seu look.


Rita abafando com seu look                                                                                                 O Cruzeiro

Rita estava tão animada de participar das festividades que até ficou como juíza no Desfile de Fantasias. A atriz, no entanto, foi bem criticada por sair do carnaval às 1h10 da manhã, com um jornal afirmando que ela "fingiu sambar na porta apenas para agradar ao público." Ninguém pode negar que Rita, no entanto, era um doce com seus fãs e ficou na porta do evento durante muito tempo apenas dando autógrafos! 

A ganhadora do desfile de fantasias foi Regina Glaura Lemos, fantasia de Cleópatra. A sortuda ainda tirou uma foto lado a lado de Rita que pareceu se divertir muito sendo juíza, dando para as câmeras as melhores caras e bocas para serem publicadas em um jornal! 

O júri foi composto por, além da Rita, por Partenette de La Vaille, Nelly Ribeiro, Lourdes Catão, Mary Angélica (que desenhou o vestido de Rita), Segadas Vianna, Nenm de Castro, Miss Ly e Nichole Mesquita. A fantasia de Regina, por acaso, foi unânime entre todos os nove jurados como a melhor do baile! 


Rita julgando cada uma das fantasias e ao lado da vencedora                             Divulgação/Montagem
No dia seguinte, 4 de março de 1962, durante os desfiles das escolas de samba,  Rita recebeu do Rei Momo, ou seja o rei do Carnaval, o diploma de "Cidadã Samba" e assinou centenas de autógrafos para fãs do lado de fora da folia. No "diploma", em tradução livre já que boa parte do documento está ilegível, lia-se: 
Pela alegria, animação e entusiasmo demonstrados durante os festejos de Carnaval Carioca de 1962, concede-se a Rita Hayworth o título de "foliona".  - replicado do jornal A Noite
Rita recebendo o título de "foliona"
Nessa data, Rita Hayworth chegou às 17h30 no palanque oficial, montado ao lado da Escola Nacional das Belas Artes, para apreciar os desfiles das escolas cariocas. Esperou duas horas e meia e viu a passagem da primeira escola, a Tupi de Brás de Pina. Depois, cansada e aborrecida com a espera, retirou-se discretamente, deixando de ver um dos "carnavais mais bonitos de Guanabara."; como noticia a revista O Cruzeiro. 


Como reitera o Jornal do Brasil, o desfile das escolas de samba atrasou e Rita, cansada, acabou nem indo para a festa da Quintandinha, que já estava programada em sua agenda. O baile do Municipal que ela viu do camarote presidencial lhe rendeu uma grande aventura na saída: envolvida pela multidão que amava a atriz, ela não conseguiu achar seu carro e andou até de radio patrulha para seu destino final. 


Rita ao lado de seu affair Guinle no carnaval do Copacabana Palace 
Cansada de toda a agitação, Rita partiu para Cabo Frio, no Rio de Janeiro, para descansar das tribulações do carnaval e ficou hospedada na casa do Príncipe João e Princesa Fátima de Orleans Bragança, que foram padrinhos em seu casamento com Ali Khan. Foi para lá no dia 7 de março e ficou dois dias, voltando ao Rio de Janeiro no dia 9 de março, para continuar com sua agenda de compromissos nas terras cariocas. 

Ao voltar, ela já fez presença no badalado desfile da grife Pipart, que fez um desfile exclusivo no Golden Room no Copacabana para mostrar suas mais novas criações intitulada "Côte D'Azur 62". Dizem que Rita amou o desfile, principalmente dos modelos esportivos. Isso mostra que apesar do glamour, Rita era mesmo uma mulher mais simples. 

Rita sempre ao lado de Jorginho Guinle - aqui no desfile da Pipart
Um dia depois, no sábado dia 11, Rita estava de volta ao Mello Tennis Clube, na Vila Leopoldina no Rio de Janeiro para receber seu título de sócia-honorária do clube. Um evento programado por Harry Stone,  teve presença de inúmeras personalidades, incluindo o diretor do clube, sr. Álvaro de Mello. Rita continuou em bons espíritos e continuou a dançar samba, como de praxe em sua viagem. 


Rita sendo muito bem recebida no Mello Tennis Clube                   Divulgação/Jornal dos Sports
Estava programada a viagem de volta de Rita Hayworth para Mar del Plata em Buenos Aires, no dia 13 de março, mas a atriz resolveu ficar ainda mais tempo no Brasil. Fez compras na já extinta Niná Boutiques, assim como sua amiga Alida Valli, comprando um biquíni rosa. Já Valli comprou um azul. 
Continuou a frequentar clubes ao lado de Harry Stone e de Jorginho Guinle, inclusive participando de uma festa em Joá, no RJ em 20 de março de 1962 feita por Eduardo Farah, em sua homenagem. 

Diziam que o motivo na demora de volta de Rita era seu romance com Jorginho que estava se tornando sério. Em entrevista ao livro Copacabana, cidade eterna: 100 anos de um mito de Wilson Coutinho, Jorge confirmou o envolvimento e o chamou de algo "muito bonito":
Eu namorei várias das atrizes que trouxe para cá.A Rita Hayworth, por exemplo, que passou um mês aqui. 
Rita acima no Golden Room e abaixo em recepção em Joá        Divulgação/Montagem
Foi no Carnaval, aliás, que Rita conheceu Lincoln Gordon, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, e fez amizade com a embaixatriz, que convidou Rita para participar de uma exposição de artistas brasileiro contemporâneos em sua residência oficial. 


Foi de óculos para ver todas as obras e até conversou com o pintor Antônio Bandeira, em francês, sobre sua arte, apreciando e muito o abstracionismo da obra. Ela foi escoltada por Lúcia Stone, esposa de Harry Stone. Isso no dia 17 de março de 1962. 

Rita observando as obras 
Rita continuou passeando pelo Rio de Janeiro ao lado de Jorginho Guinle, aproveitando boites como a Zum Zum, o Golden Room e outros lugares encantadores do nosso país.  Em sua partida no dia 23 de março de 1962, Rita estava escoltada por Guinle e para a imprensa afirmou que sentiria muita falta do país e que considerava o "Grande Otelo"maravilhoso, e que se ele tivesse a chance brilharia nos palcos da Broadway.


A deusa do amor, que ganhou seu próprio perfil aqui na Caixa de Sucessos, foi embora das terras brasileiras no dia 23 de março de 1962, exatamente um mês depois de sua chegada, para começar os ensaios de sua mais nova peça na Broadway, a Step on Crack, no qual interpretaria uma ex-atriz infeliz casada com um médico tradicional. Por "razões médicas", Rita nunca conseguiu interpretar o papel que seria sua estreia nos palcos. 



Com muito bom humor, estilo e é claro a doçura típica de Rita, que era sempre muito calorosa e doce com os fãs e amigos, sua estadia no Brasil foi sem a turbulência típica das outras estrelas que chegaram e não sem motivo: a atriz amava o samba e, em retorno, o Brasil ainda a ama. 


*Matéria atualizada no dia 29 de maio de 2020.



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A homenagem a antiga Hollywood de A Forma da Água (2017)

*spoilers de A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) 

O filme A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) não traz uma história inovadora: o  tema de romance entre um humano e uma criatura com poderes místicos já foi muito bem explorada em filmes como Ele e a Sereia (Mr. Peabody and The Mermaid, 1948), Splash: Uma Sereia em Minha Vida (Splash, 1984); neste no qual as similaridades são incríveis;  e Minha Noiva é Uma Extraterrestre (My Stepmother Is an Alien, 1988). No entanto, A Forma da Água tem seu diferencial: sua protagonista é muda e são os coadjuvantes, uma negra e um homossexual, que têm o maior número de falas e de ação na película. 

O mais novo filme do diretor Guillermo Del Toro conta a história de Eliza Esposito, interpretada com maestria por Sally Hawkins, uma faxineira muda que mora acima de um cinema, ao lado de seu melhor amigo, o pintor homossexual, Giles, vivido por Richard Jenkins. Um dia em seu trabalho, a vida de Eliza e de sua amiga negra Elza, vivida pela incrível Octavia Spencer, muda com a chegada de uma criatura encontrada na América do Sul, interpretad por Doug Jones, que pode dar uma vantagem aos americanos durante a Guerra Fria. Eliza e a criatura se apaixonam e precisam lutar contra as garras do governo e do cruel general Strickland, interpretado por Michael Shannon. 


Sally Hawkins e Doug Jones em cena de A Forma da Água (2017)                            Divulgação
Apesar das acusações de plágio; que envolvem a peça Let me Hear You Whisper (1969) e o curta The Space Between Us (2015);  A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) é o filme mais indicado ao Oscar 2018, com 13 indicações no total e ganhou 4 prêmios, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor. Para os telespectadores brasileiros que gostaram do filme, tem uma outra agradável surpresa. A criatura-peixe de A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) foi baseada na lenda do folclore brasileiro, o Cabloco D'Água, um monstro que vive nas águas do Rio São Francisco. O Cabloco, é claro, também foi o preceito para o filme O Monstro da Lagoa Negra (Creature From the Black Lagoon, 1954). 

Outro fato curioso em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) é como os roteiristas Guillermo Del Toro e Daniel Kraus homenagearam à antiga Hollywood. A começar pelo fato da protagonista viver de aluguel acima de um cinema, que está exibindo duas películas: A História de Rute (The Story of Ruth, 1960) e Mardi Gras (idem, 1958). A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) é tão visualmente belo quanto os filmes antigos que nos quais se baseia.

Por isso nós da Caixa de Sucessos mostramos os filmes da antiga Hollywood que são homenageados no filme de Guillermo del Toro, a seguir!

A MASCOTE DO REGIMENTO (THE LITTLE COLONEL, 1935)


Bill 'Bojangles' Robinson aperfeiçoou a chamada "dança da escada" no filme A Mascote do Regimento (The Little Colonel, 1935) estrelado pela atriz-mirim Shirley Temple. O dançarino atuou ao lado de Shirley em um total de quatro filmes, com a sequência acima sendo uma de suas mais famosas. 

É nela que seu personagem, Walker, ensina a pequena Lloyd (Shirley Temple) a dançar. Essa foi a primeira dança interracial em um filme nos Estados Unidos (apenas permitido porque Shirley era uma criança) e o começo de uma colaboração entre Bill e Shirley que duraria quatro filmes. 

Em A Mascote do Regimento (The Little Colonel, 1935), Walker e Lloyd representam uma dupla que no papel parecia que nunca funcionaria, (anda mais com o preconceito latente da época), mas que na vida real se mostrou muito eficaz e bonita. Assim como as amizades de Eliza em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017); com uma cena fofa de dança entre Eliza e Giles; e seu amor pela criatura-peixe. São elas combinações diferentes que provam fazer muito sucesso e trazem à tona o melhor de cada um dos personagens, assim como aconteceu nas telas e na vida real com Shirley e Bill. 

TURBILHÃO (CONEY ISLAND, 1943)


Betty Grable estava no auge de sua fama quando estrelou como Kate Farley no filme Turbilhão (Coney Island, 1943). Com apenas 27 anos de idade, Betty estava no pico de sua beleza, bem diferente de Giles do filme A Forma da Água (The Shape of Water, 2017). 

Em o Turbilhão (Coney Island, 1943), Kate faz muito sucesso na cidade, por sua personalidade vibrante, sua beleza e, é claro, sua voz de cantora. Ela experimenta algo que Giles nunca conseguiu viver: o sucesso pleno.

A parte do filme Turbilhão (Coney Island, 1943) que aparece em A Forma da Água (2017) é o número de dança da música Pretty Baby, que pode ser visto acima. Uma das músicas de maior sucesso de Grable, que durante a Segunda Guerra era a pin up mais requisitada dos oficiais, na frente apenas de Rita Hayworth. A beleza, portanto, que Giles, também, nunca experimentou até então.  

UMA NOITE NO RIO (THAT NIGHT IN RIO, 1941)


Carmen Miranda, nascida em Portugal e naturalizada brasileira, era o rosto da chamada 'boa-vizinhança', implementada pelo então presidente do Brasil, Getúlio Vargas nos anos 30/40. Com suas roupas espalhafatosas, a famosa 'salada de frutas' na cabeça como acessório e seu gingado, Carmen fez um sucesso estrondoso nos Estados Unidos e ajudou a difundir a imagem do brasileiro no exterior, seja no bem e no mal.  

Em a Forma da Água (The Shape of Water, 2017), Carmen faz sua aparição com a música Chica Chica Boom Chic, na cena em que Eliza tenta descobrir um jeito para conseguir libertar a criatura-peixe do laboratório. No filme Uma Noite em Rio (That Night in Rio, 1941), Carmen interpreta uma cantora, no qual seu namorado, vivido por Don Ameche, finge ser um barão em uma baile de máscara e tem que viver uma farsa para manter as aparências para Carmen e a esposa real do barão, Cecilia, vivida por Alice Faye. 

Don Ameche vive entre dois mundos, assim como Eliza em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017). 

A HISTÓRIA DE RUTE (THE STORY OF RUTH, 1960)


A História de Rute (The Story of Ruth, 1960) é um dos filmes em destaque no cinema no qual Eliza, personagem principal de A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) vive acima. Um filme biblíco, Elaine Eden interpreta Rute, uma jovem criada para se tornar sacerdotista de um templo pagão, mas que acaba conhecendo Deus e abdica dos sacrifícios para espalhar sua nova fé. 

Ruth escapa da fúria de seu povo com a ajuda de Noemi, uma senhora que lhe ensinou todos os testemunhos de Deus, ambas vão para Jerusalém. No meio do caminho, Rute conhece Boaz, vivido por Stuart Whitman, e os dois se apaixonam. Mas Rute já está prometida à outro homem, Mahlon, filho de Noemi. 

Apesar da licença poética, afinal na bíblia, Rute era casada com Mahlon e apenas ficou com Boaz depois da morte de seu marido, o filme mostra muito bem como Rute escolheu seu lar e as pessoas que amavam, assim como Eliza em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) também o faz. 

O amor entre Eliza e a criatura-peixe é descrita perfeitamente pelo livro de Ruth 1:16: 
Ruth diz: "Não me instes para que te abandone, e deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. 

AQUILO SIM ERA VIDA (HELLO, FRISCO, HELLO, 1943)


No filme Aquilo Sim Era Vida (Hello, Frisco, Hello, 1943) Alice Faye interpreta a canção You'll Never Know que aparece não uma, mas duas vezes em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017). 

Uma das divas de Giles, o amigo homossexual de Eliza, Alice Faye estava no auge de sua beleza e fama durante o filme e é descrita da seguinte maneira por Giles: "Alice Faye acabou de começar. Ela era muito famosa, até que um dia se cansou de tudo aquilo e chutou o balde." Uma opção que o personagem nunca teve em sua vida, afinal continuava a trabalhar em seus quadros mesmo aos 50 anos de idade, sem nenhuma outra perspectiva. 

Pela canção You'll Never Know, que acontece logo nos primeiros cinco minutos do filme Aquilo Sim Era Vida (1943), a película ganhou um Oscar de Melhor Canção Original em 1944, tornando-se a música oficial de Alice Faye. 

MARDI GRAS (1958)


Mardi Gras (idem, 1958) é um musical que em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) está passando no cinema, no qual Eliza e Giles vivem acima. Mardi Gras é um filme musical de romance, bem água com açúcar, no qual o ator Pat Boone interpreta um militar que ganha a chance de sair em um encontro com a estrela de cinema e rainha do carnaval, Christine Careré, vivida por Michelle Marton. 

Ambos se apaixonam no filme, sem saberem do passado um do outro, assim como Eliza e a criatura-peixe em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017). E assim como em Mardi Gras, a fantasia e a realidade se misturam em A Forma da Água, em uma realidade que se apaixonar por uma criatura se torna muito plausível. Em uma cena de intimidade entre eles que, na lógica, não seria possível na vida real. 

Mardi Gras é uma festa carnavalesca que acontece anualmente em Nova Orleans, nos Estados Unidos. As pessoas se fantasiam, usam máscaras e vivem em um outro mundo, assim como Eliza faz ao lado de sua criatura-peixe.  


O MONSTRO DA LAGOA NEGRA (CREATURE FROM THE BLACK LAGOON, 1954)



Uma das referências mais óbvias de A Forma da Água (The Shape Of Water, 2017) é o filme O Monstro da Lagoa Negra (1954) que conta a história de um criatura encontrada na América do Sul,  do qual o Dr. Reed, vivido por Antonio Moreno, descobre em sua estadia em Amazonas. O bicho, no entanto, desenvolve uma obsessão pela namorada do dr., a doce Kay, interpretada por Julie Adams. 

O Monstro da Lagoa Negra (1954) foi filmado graças à conversa entre o diretor mexicano Gabriel Figueroa e o produtor William Alland, no qual Gabriel contou a lenda brasileira do Cabloco d'Água. Essa foi a faísca para o thriller, O Monstro da Lagoa Negra (Creature from The Black Lagoon, 1954) que ganhou diversas continuações. 

A cena acima, aliás, no qual a criatura nada bem próximo de Kay se assemelha e muito as cenas entre Eliza e a criatura-peixe em A Forma da Água (2017), no qual ambos nadam e se abraçam na água, como se fossem um só. 

QUERO CASAR-ME CONTIGO (SUN VALLEY SERENADE, 1941) 


Embora o filme Quero Casar-me Contigo (Sun Valley Serenade, 1941) não seja mencionado em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) de forma direta, a canção I Know Why (and So Do You) interpretada pela atriz Lynn Barin é usada por Del Toro na película, especialmente na parte em que Eliza começa a dançar e se apaixonar pela criatura, quando ele ainda está preso no laboratório. 

A música retrata o começo da paixão entre duas pessoas, em que, no caso de A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) se trata do amor entre Eliza e a criatura. Ele é o único que a entende e não a trata diferente por ser muda. Já ela o protege e o ama por ser exatamente o que é. 

Existe, aliás, uma frase da canção I Know Why (and So Do You) mostra muito bem o momento de intimidade entre Eliza e a criatura, no qual os dois fazem amor, e as escamas da criatura começam a brilhar. A frase diz: 
"E por que eu vejo arco-íris quando você está nos meus braços? Você sabe e eu também." 
Isso também prova que, em seus filmes, Guillermo del Toro nunca dá ponto sem nó. Nem mesmo na trilha-sonora. 

NAS ÁGUAS DA ESQUADRIA (FOLLOW THE FLEET, 1936)



Uma das cenas de A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) que mais homenageam os filmes antigos de Hollywood é aquela na qual Eliza interpreta a canção You'll Never Know de Alice Faye em uma sequência-sonho, no qual ela dança com seu amor, a criatura-peixe. 

A sequência é baseada no filme Nas Águas das Esquadrias (Follow The Fleet, 1936), o quinto filme do casal Fred Astaire e Ginger Rogers nas telonas. No número Let's Face The Music and Dance, Fred canta melancolicamente para Ginger, alertando que o futuro pode trazer problemas, mas que o presente, com os dois juntos, deve ser aproveitado.

O cenário de Nas Águas da Esquadria (Follow The Fleet, 1936) e A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) são idênticos e não por coincidência. Roberto Campanella, o coreógrafo de A Forma da Água (2017) contou em entrevista ao Dance Magazine que
"Guillermo Del Toro queria manter aquela era Fred Astaire com aquela abordagem estilosa. Ele tinha referências visuais que ele me mostrava." 

Ginger Rogers e Fred Astaire eram mestres em contar uma história de amor através da dança, algo que Guillermo del Toro conseguiu também realizar em seu filme, com Eliza e a criatura-peixe. 


A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) reverencia os clássicos hollywoodianos e consegue colocar sua própria personalidade ao utilizá-los ao seu favor. Uma película visualmente bela e com referências maravilhosas, não é difícil entender seu grande número de indicações ao Oscar. Tem o estilo da antiga Hollywood, afinal. 

O tabu do filme O Preço de Um Prazer (Love With The Proper Stranger, 1963)

*spoilers sobre o filme O Preço de Um Prazer (1963) 

Em 1963, a carreira de Natalie Wood estava no topo: dois anos antes, havia recebido sua segunda indicação ao Oscar de Melhor Atriz pelo filme Clamor do Sexo (Splendor in The Grass, 1961) e participou de um dos maiores clássicos musicais de Hollywood: o Amor, Sublime Amor (West Side Story, 1961). Seu acompanhante no Oscar era ninguém menos do que Warren Beatty, com quem ela viveu um romance - depois de terminar com Robert Wagner! 

Já Steve McQueen ainda estava no começo de sua carreira cinematográfica, apesar de ter conseguido algum sucesso nas telinhas com a série Wanted: Dead or Alive (1958-61). O lançamento de um de seus mais conhecidos filmes, o Fugindo do Inferno (The Great Escape, 1963) foi no mesmo ano em que ele se juntou à Natalie Wood para protagonizar o filme O Preço de Um Prazer (Love With The Proper Stranger, 1963). Essa foi a ironia: ele se tornou um astro de ação enquanto gravava um drama. 

Natalie Wood e Steve McQueen em foto publicitária maravilhosa do filme                        Divulgação
Um drama que foi indicada para cinco Oscars, incluindo a terceira indicação de Melhor Atriz para Wood, embora Queen tenha saído de mãos vazias. O Preço de Um Prazer (Love With The Proper Stranger, 1963), começou a ser gravado em março de 1963, em Nova York. Nele, Natalie interpreta Angie Rossini, uma jovem vendedora italiana que descobre estar grávida após apenas um encontro com um total estranho. O estranho? Rocky Pasapano, interpretado por Steve McQueen, um músico com uma vida complicada que se choca com a revelação de Angie. E ainda mais ao saber que ela quer dinheiro para fazer um aborto!

O Preço de Um Prazer (Love With The Proper Stranger, 1963) foi dirigido por Robert Mulligan e produzido por Alan J Pakula, que se inspiraram no movimento francês chamado Nouvelle Vague, ou seja, o propósito era fazer um filme íntimo e com inúmeras indecisões pessoais de seus protagonistas. Filmado em preto e branco e focado muito mais nas ações dos personagens e seus intuitos do que nos figurinos, cenários (os mantendo o mais simples possível) - O Preço de Um Prazer (Love With The Proper Stranger, 1963) conseguiu realizar esse intuito em partes.

Porque, apesar de se manter um filme sério e com crises existenciais, num tom neutro e por que não dizer, "bem europeu", O Preço de Um Prazer (Love With The Proper Stranger, 1963) também tem um ar de comédia, que se torna mais evidente no meio para o final do filme. Agora você se pergunta: o que Steve McQueen, um astro de ação e de filmes sérios, estava fazendo em uma tragicomédia? Aproveitando a chance para se provar um ator mais sério e de prestígio ao trabalhar com Robert e Alan, que juntos produziram e dirigiram o sucesso de crítica e público O Sol é Para Todos. O filme ficaria muito bem em seu currículo, assim como no de Natalie!


Steve McQueen e Natalie tinham uma ótima química                 Divulgação/Foto Publicitária
Mas a primeira escolha do diretor para o papel não era Steve McQueen e sim seu rival, Paul Newman, que rejeitou o papel para estrelar no filme O Indomado (Hud, 1963). Robert Mulligan depois convidou Steve, quem ele havia conhecido ao dirigi-lo em The Defender, uma série para a televisão. Ironicamente, Paul Newman foi indicado ao Oscar de Melhor Ator pelo filme e sua co-protagonista Patricia Neal, que aparecia em talvez apenas 20 minutos do filme, ganhou o Oscar que muitos críticos acreditavam que deveria ser de Natalie Wood. Steve McQueen deve ter ficado possesso por Paul Newman ter conseguido uma indicação ao Oscar ao invés dele!

De acordo com o livro Natalie Wood: A Life de Gavin Lambert, Steve "leu o roteiro da noite para o dia" e se comprometeu rapidamente ao papel de Rocky, algo que Mulligan e Pakula afirmaram ser o que queriam desde o início, embora tivessem convidado Newman para o papel primeiro. Este foi o primeiro papel de protagonista romântico de McQueen e cimentou de vez Steve McQueen como um simbolo sexual.

Mas um filme, é claro, não é todo definido pelos seus atores e sim pelo seu roteiro. O tabu do filme O Preço de Um Prazer (Love With The Proper Stranger, 1963) é justamente sua história: o aborto ilegal que Angie quer realizar. Vale lembrar que se no Brasil a prática ainda é ilegal, apenas liberado em caso de estupro, se o feto for anencéfalo ou quando há risco à mãe. Já nos Estados Unidos, a prática teve sua lei contrária amenizada em 1973, dez anos após o filme de Natalie e Steve. O assunto em 1963, portanto, era arriscado e ao transformar em uma comédia romântica o final trágico ficou muito previsível, mas não menos chocante para as audiências da época.


Angie e Rocky na clínica de aborto no filme                                                 Divulgação
De acordo com alguns fãs da Steve McQueen em um fórum dedicado ao astro, o roteiro original do filme O Preço de Um Prazer (Love With The Proper Stranger, 1963), mostrava como a cena inicial o personagem de Rocky sendo espancando pelos irmãos mais velhos de Angie, Dominick e Julio, vividos respectivamente por Harvey Lembeck e Herschel Bernardi. No roteiro, também, Rocky teria como namorada uma garota de descendência chinesa, de quem ele larga para se casar com Angie. 

O fato de que no final do filme (aviso de spoiler máximo a seguir): Angie não consegue realizar o aborto, com Rocky a impedindo, nem é tão previsível, isso porque ela rejeita sua proposta de casamento e se muda de casa, alugando um pequeno apartamento, rejeitando também as propostas do certinho Anthony Columbo, interpretado por Tom Bosley em seu primeiro filme. Mas, como isso é Hollywood e com alguém como Steve McQueen no filme, os dois protagonistas tem que ficar juntos, o que apesar de transformar o filme em uma comédia romântica bem bonitinha, também a torna, no final, previsível, mudando completamente o tom da película de uma hora para outra, ela vai de séria à comédia em um giro de 180º. 

Mas o filme tem seus triunfos, como a interpretação impecável de Natalie Wood, atores coadjuvantes muito inspirados, e marca o começo da parceria de Natalie com a estilista Edith Head, com quem a atriz trabalhou em sete filmes, incluindo Os Prazeres de Penélope (Penelope, 1966).

Nem tudo em O Preço de Um Prazer (Love With The Proper Stranger, 1963), entretanto, foram flores! Pelo menos não para Neile Adams, esposa de Steve na época. Natalie estava namorando o galã Warren Beatty, mas o relacionamento estava bem abalado...tanto que ela não conseguiu resistir ao charme de Steve e começou a dar em cima dele, coisa que Neile não gostou nadinha! Em seu livro My Husband, My Friend, ela conta:


Steve ficava maravilhado com os métodos que Natalie aplicava em chamar sua atenção e ficava muito animado para ver seu próximo passo. Mas ele resistiu por dois motivos: ela tinha sido casada com um homem que ele admirava, o Robert Wagner, e ela estava vivendo com outro que Steve gostava muito: o Warren Beatty. 
Steve McQueen e sua esposa Neile Adams ao lado de Natalie em 1964 na estreia do filme na França      KEYSTONE
Obra do destino ou da ironia, mas Natalie e Warren terminaram um dia antes do encerramento das filmagens de O Preço de Um Prazer (Love With The Proper Stranger, 1963), encerrado em abril. Steve e Natalie namoraram nos anos 70, depois de McQueen ter se divorciado de Nellie e antes de se envolver com Ali McGraw, que teve tanto impacto no astro, que sua terceira e última esposa, Barbara Minty, parecia uma cópia mais nova e mais suave de Ali.

Sobre trabalhar com Steve McQueen, Natalie não poderia ter sido mais doce: "Eu acho que ele é um dos homens mais atraentes que eu já conheci." Natalie também trabalhou duro para implementar partes de sua personalidade na personagem, revelando: "Arnold Shulman, o roteirista do filme, me encontrava para beber três vezes por semana, para que ele conhecesse coisas sobre mim que ele pudesse implementar na personagem." 

Sobre sua performance no filme, o diretor Robert Mulligan é quem não poupou elogios: "Natalie era sempre muito aberta em explorar personagens em uma cena. Ela não tinha medo e tentava de tudo. Ela nunca disse que não conseguiria fazer algo."


Natalie Wood nos bastidores de O Preço de Um Prazer (Love With The Proper Stranger, 1963)             TCM
A atriz também se inspirou em seu relacionamento com Beatty para entender mais o drama de sua personagem, como conta o livro Steve McQueen: A Biography de Marc Eliot. Tom Bosley, que interpreta seu pretendente no filme, afirmou: "Ela foi capaz, obviamente, de usar o que estava acontecendo em algumas cenas com McQueen." 

A própria Natalie não negou que fosse verdade: "Fazer O Preço de Um Prazer (Love With The Proper Stranger, 1963)  foi uma das experiências mais recompensadoras de minha vida. Minha vida pessoa estava bem caótica naquele tempo e o filme me ajudou, nós éramos como uma família." 

O Preço de Um Prazer (Love With The Proper Stranger, 1963) foi um dos primeiros filmes hollywoodianos a mostrar o quão perigoso era fazer um aborto ilegal e como as condições eram primitivas e sem segurança e higiene. O filme choca, mas ao se focar mais no romance do que no dilema das personagens, perde um pouco de sua força como grande denúncia. O tabu de O Preço de Um Prazer (Love With The Proper Stranger, 1963) é denso, mas se perde no meio do caminho ao optar por um final bem seguro, que em retrospectiva, é bem a cara da Hollywood da época. 

Steve McQueen e Natalie Wood, no entanto, brilham em seus personagens, e nós fazem lamentar por não terem feitos outros filmes juntos. 


A verdadeira (?) história por trás do filme Eu, Tonya (2017)

* aviso: spoilers sobre o filme Eu, Tonya (I, Tonya, 2017)

Tonya Harding foi a primeira patinadora de gelo americana a fazer a manobra conhecida como axel triplo - que consiste em três giros no ar e pousar com um pé só - na competição U.S. Figure Skating Championships em 1991, quando tinha 20 anos de idade. 

Mas não é por esse grande feito que a competidora é lembrada, e sim por uma conspiração envolvendo seu então marido Jeff Gillooly e seu "guarda-costas" e amigo de Jeff, Shawn Eckhardt, na qual a queridinha da patinação Nancy Kerrigan sofreu um ataque no joelho logo antes das Olimpíadas de 1994. Tonya nega até hoje seu envolvimento no plano, mas perdeu suas credencias e nunca mais pode participar de competições de patinação do gelo, em qualquer capacidade. 

Tonya Harding então entrou na obscuridade, tentando ganhar dinheiro com inúmeros trabalhos, sendo até brevemente uma boxeadora. Sua história e a mudança da narrativa de bandida para, de certa maneira, vítima dos acontecimentos, aconteceu com o filme Eu, Tonya (I Tonya, 2017) que será lançado nos cinemas brasileiros em 15 de fevereiro de 2018. O filme, estrelado por Margot Robbie e Allison Janey está concorrendo a quatro Oscars, incluindo Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante. Mas será que Eu, Tonya está mostrando apenas uma verdade? 

Tonya Harding em 1986                                                          Divulgação/Gif
Em um estilo documentário, com inúmeros flashbacks que acompanham a vida de Tonya desde a infância até as Olimpíadas de 1994, o filme abre com a seguinte frase: "Baseado nas entrevistas sem ironias, incrivelmente contraditórias e totalmente verdadeiras com Tonya Harding e Jeff Gillooly." 

Tonya Maxene Harding nasceu em 12 de novembro de 1970 em Portland, Oregon, nos Estados Unidos. Filha de Lavona Golden, em seu quinto casamento, e Albert Harding, a família da futura patinadora era extremamente pobre, com sua mãe trabalhando como garçonete e seu pai em uma companhia de borracha, mudando-se de acordo com seu emprego, num total de oito vezes durante a infância de Tonya. A pequena descobriu seu amor por patinação do gelo aos três anos de idade, como ela conta em entrevista à revista Sports Illustrated em 1992:
Seus pais estavam no shopping, no Portland's Lloyd Center, no qual tinha um pequeno ringue de patinação do gelo e quando Tonya viu outras crianças patinando, ela queria se juntar à eles: 'Meu pai disse que tudo bem, mas minha mãe não. Então eu chorei e ela finalmente concordou. A primeira coisa que fiz foi fazer uma pilha de gelo e comer. Minha mãe disse que eu tinha que patinar que nem os outros ou ir embora. Então eu patinei.' 
Assim, com apenas três anos de idade Tonya começou a tomar lições de patinação de gelo em grupos e quando a professora disse à Lavona de que a pequena Tonya precisava de uma treinadora para desenvolver seus talentos, elas foram atrás de Diane Rawlinson, uma antiga patinadora de gelo que havia se tornado treinadora. Assim como no filme Eu, Tonya, a treinadora, primeiramente, se recusou a treinar Tonya por ela ser muito nova. Lavona então incentivou sua filha a patinar em volta de Diane até que ela aceitasse treinar Tonya. E funcionou assim que Diane viu o talento da garota! 


Tonya Harding em sua primeira vez no ringue              Divulgação
Diane foi uma parte muito importante da infância de Tonya, comprando patins novos para ela, dando lições para ela, muitas vezes sem receber por isso, apesar de Lavona usar todas as gorjetas que recebia para pagar pelas aulas de Tonya, que custavam uns U$25,00, ou seja, uns R$70,00 por lição. Seu pai ficava responsável pelas contas de casa, mas a vida não era nada fácil, como conta Albert Harding em 1976, quando Tonya tinha cinco anos: 
"Agora, a patinação dela está nos custando U$225,00 por mês e isso não inclui competição. Nós cobramos e pagamos como podemos. Mas à menos que consigamos ajuda, nós não podemos colocá-la em nenhum competição esse ano. Está ficando cada vez mais difícil pagar por aulas e isso tudo pode acabar se não conseguirmos ajuda. 
Isto, o filme Eu, Tonya retrata muito bem, a pobreza da família Harding. Mas não era só isso: Tonya e sua mãe coletavam garrafas e plásticos na rua e aceitavam doações de pessoas que acreditavam no talento de Harding para conseguirem pagar pelas aulas. As fotos do anuário escolar também eram usados como fotos de competição. Quando Harding ficou famosa o suficiente e ganhou seu próprio fã-clube, eles a ajudavam em suas despesas, já que Tonya nunca conseguiu cuidar de suas finanças. 

Tonya, aliás, sempre foi muito mais próxima de seu pai do que de sua mãe, como o filme Eu, Tonya retrata. Foi Albert quem a ensinou a atirar, a caçar, a arrumar um carro e até pescar. Os dois passavam muito tempo juntos e diferentemente do filme, Lavona e Albert se divorciaram apenas em 1987, quando Tonya já era adolescente e não uma criança, como é representado em Eu, Tonya. Aconteceu inclusive de Lavona abandonar Tonya quando ela se casou novamente. Sobre isso, ela revela: "Minha mãe não queria ter nada a ver comigo. Ela me disse que a única razão pela qual ela e meu pai ficaram juntos por tanto tempo foi por minha causa. Isso não fez com que eu me sentisse bem." 

Os abusos de Lavona contra Tonya, por exemplo, mostrados no filme desde a infância, infelizmente aconteceram. Várias pessoas, incluindo a própria Tonya Harding em entrevista para a Oprah em 2002, confirmaram o abuso: "Provavelmente começou quando eu tinha seis, sete anos. Ela era muito agressiva, bebendo o dia todo, me batendo com uma escova de cabelos, me batendo na frente dos outros até que a minha treinadora colocou um basta e a partir daí ela ficava no canto do ringue, sozinha." 


Margot Robbie no pôster do filme Eu, Tonya (I, Tonya, 2016)                                Divulgação
Uma de suas amigas patinadoras, Antje Spethmann, confirmou também o abuso de Harding pela mãe na matéria do New York Times de 1994, na qual ela viu Tonya ser antigida com uma escova de cabelos por Lavona. Esse acontecimento também foi verificado por outra amiga de Tonya, a cineasta Sandra Lucknow no documentário da ESPN, The Price of Gold. Antje se lembrou de ver Lavona empurrar a filha das escadas e ser impedida de ir ao banheiro, muitas vezes tendo que urinar no próprio ringue de patinação. Lavona, em inúmeras entrevistas, no entanto, continua afirmando que apenas bateu na filha uma única vez e que ocasionalmente lhe dava uns "tapinhas" para ensinar o certo do errado. 

Tonya era a mais nova de quatro filhos de Lavona, que incluía o creepy Chris (o estranho Chris), como a patinadora o chamava, que quando Tonya tinha quinze anos de idade, tentou abusá-la sexualmente, antes de seu primeiro encontro sozinha com Jeff Gillooly. Chris tinha 26 anos de idade. Mas os acontecimentos não terminaram tão simplesmente como no filme Eu, Tonya, no qual ela o espancou com uma chapinha. 

Na verdade, a patinadora de gelo teve que ameaçar Chris, seu meio-irmão, com uma chapinha para que ele não a beijasse. Ele se negou e então Tonya o queimou com o objeto e fugiu. Ele foi atrás dela, quebrou a porta de seu quarto e Tonya o bateu com um bastão de hoquéi e mesmo depois de Tonya ligar para a polícia, Chris continuou a persegui-la. Seu meio-irmão foi preso e morreu logo depois de sair da prisão. 

Sobre esse terrível acontecimento, Tonya revelou à revista Sports Illustrated em 1992 que seus pais não queriam acreditar nela: "Meu pai não queria acreditar e minha mãe me bateu e me mandou ficar no meu quarto. Até hoje ela não acredita em mim." Na mesma matéria, Lavona conta seu ponto de vista: "Ele tinha um problema com bebidas. Não seria impossível ele tentar beijá-la. Tonya tem uma imaginação muito vívida. Ela tem uma tendência de exagerar as verdades." 


Não foi exatamente assim que o ataque de Chris contra Tonya aconteceu                           Divulgação
E se Tonya recebia abuso de sua mãe, de seu pai - que fingia não ver o abuso que ela sofria de sua mãe e posteriormente de seus dois primeiros maridos- e de seus parentes, ela logo conheceria o homem que mancharia sua vida e carreira para sempre: Jeff Gillooly. Ela tinha quinze anos de idade, ele tinha dezessete, mas a atração foi mútua quando os dois se conheceram na pista de patinação do shopping. No livro The Tonya Tapes de Lynda Prouse, a patinadora conta que: "Jeff não parava de me encarar. Minha amiga patinava comigo e eu lembro que ele a chamou para perguntar o meu nome. E eu disse para ela dizer para ele. Bem coisa de uma garota de quinze anos de idade." 

Mas diferente do filme, no qual é a mãe de Tonya que os acompanha para o encontro, Tonya revelou no livro de Lynda Prouse que foi seu pai que foi com eles, ficando alguns assentos atrás quando os dois saíram pela primeira vez no cinema. Apenas depois de algumas semanas de namoro era que Tonya pode sair com Jeff sozinha, mas tinha que voltar para casa às 19h. Isso foi em 1986. 

Já no começo de 1987, seu pai e sua mãe se separaram e ela morou com seu pai por alguns meses. Depois, ela voltou a morar com sua mãe Lavona e seu novo padastro, James Golden até que ela tinha 18 anos de idade, quando ela se mudou para viver com Jeff. Até então, ela apenas via seu namorado algumas vezes por semana, por poucas horas, e contou que ele se tornou violento depois da convivência:
Ele ficava bravo e me batia, me empurrava ou me chutava. E eu ficava quieta porque eu achava que merecia por não ter limpado a casa bem o suficiente ou por não ter limpado a casa. 
O incidente com a arma de fogo, que aconteceu durante uma briga entre o casal que aparece no filme Eu, Tonya, quando Harding o persegue com uma arma logo de manhã parece mesmo ter acontecido, com este artigo do New York Times em 1993, afirmando que houve um disparo na casa de Harding e Tonya e a polícia foi chamada. Mas não dá para saber se aconteceu exatamente como o filme descreve. Os dois se casaram em 18 de março de 1990, apesar dos pais de Tonya serem contras à união, e se separam em 1993, apenas para reatarem posteriormente. 

Muitos abusos retratados do filme são relatados pela própria Tonya Harding, como a vez que sua mãe a machucou com uma faca, o fato de Jeff ter prendido sua mão na porta do carro durante uma briga e de ter atirado nela, permanecem sem testemunhas. E aqui vai a pergunta para todos que assistem a Eu, Tonya (I, Tonya, 2017): você, espectador, acredita na patinadora de gelo? 


Tonya e Jeff em novembro de 1991                                                         Reprodução
Tratando-se de sua patinação, Tonya Harding sempre foi conhecida por ser uma atleta, algo que na patinação do gelo não é uma vantagem. Isso porque as mulheres que fazem patinação do gelo devem ser femininas, magras e graciosas, sempre representando suas performances com graça e leveza. Tonya, por teimosa, ia contra essa imposição, rebelando-se e usando penteados com bastante frizz, roupas de apresentação espalhafatosas e escolhendo músicas que iam desde o rock até o tema do filme Jurassic Park para se apresentar em competições. 

Sobre isso, ela contou em uma entrevista com o LA Times em 1991:
Tinha pessoas que vinham até mim e minha mãe nos perguntando porque eu estava usando uma roupa de competição daquela. Nós dizíamos: 'Se tivéssemos dinheiro para fazer uma roupa que estivesse no mesmo nível das outras competidoras, nós faríamos.' Eu gostava dos meus vestidos, eu nunca me senti envergonhada, mas todos achavam que eu era uma relaxada. 
Tonya não queria participar do jogo da fama e da polidez, rebelando-se com qualquer tentativa de se parecer mais graciosa, como o documentário Sharp Edges, quando ela era adolescente, mostra. Doddy Teachman, sua treinadora de 1988 até 1992, também contou que Tonya não queria se encaixar: "A coisa da Tonya é que ela não queria jogar o jogo com o cabelo, as roupas e o visual. Eu nunca dizia para ela fazer nada, eu sugeria. Eu a dizia que era como um emprego e trate como um emprego." 

Nancy Kerrigan, por outro lado, vinha de uma família mais humilde, mas ela tinha a beleza e a graça que Harding tanto lutava para não deixá-la consumi-la. Para elas os patrocínios eram mais fáceis e os juízes gostavam mais dela, além de uma vida familiar bem menos conturbada. Apesar de sua mãe, Brenda, ter ficado cega de um olho ao contrair um vírus e assim não ver bem com nenhum dos dois olhos, Nancy tinha três irmãos mais velhos que sempre a acompanhavam em jogos e seu pai, que estava com ela, além de ser sempre taxada como a 'filha perfeita'. Sua mãe, Brenda, em entrevista, não poupou elogios, dizendo: 
Eu não quero dizer que ela é a filha perfeita, isso soa ridículo. Mas ela é uma pessoa tão carinhosa que ama sua família.
Bem diferente da vida de Tonya Harding, com uma mãe em seu quinto casamento, dois meio-irmãos e uma meia-irmã sem consideração por ela, um pai negligente e um marido abusivo certo? Por isso que antes das Olimpíadas de 1994, Nancy conseguia ganhar dinheiro com patrocínios, enquanto Tonya ganhou mais ofertas depois de seu axel triplo (passando por uma transformação de visual, inclusive), mas teve que recorrer a empregos alternativos, como dirigir monstertrucks e ser garçonete, como o filme Eu, Tonya mostra. Tonya tentou até se auto-treinar, por um tempo, depois de ser treinada pela pupila de Diane, Doddy Teachman, mas voltou para sua antiga treinadora, por ela a entender melhor. E não são muitas pessoas que podem afirmar isso. 

Tonya e Nancy Kerrigan                                                                   Divulgação
Mas se a sorte de Tonya começou a mudar com o axel triplo, seu casamento com Jeff se tornava cada vez mais instável e ela entrou com um pedido de divórcio, não uma, mais duas vezes! Em junho de 1991 ela entrou com um pedido de divórcio e com uma ordem de restrição que detalhava o abuso sofrido: "Ele machucou meu braço, puxou meu cabelo e me empurrou." Em outubro de 1991, no entanto, os dois voltaram e ficaram juntos até setembro de 1993, quando novamente ela entrou com um pedido de restrição e finalizou o divórcio.

Tonya até se envolveu com outro homem durante o ínterim da primeira separação, chamado Mike Pliska. Mas Tonya voltou para Jeff, que largou seu emprego e foi com ela em todas as suas competições dali em diante. Ele estava inclusive, presente quando Tonya foi ameaçada de morte antes de patinar no Campeonato Regional em Portland, Oregon, no dia 4 de novembro de 1993, no qual ela desistiu de competir, quando começou a andar com um "guarda-costas", chamado Shawn Eckhardt, amigo de Jeff. Foi aí, que ele teve a ideia para que o ataque de Nancy Kerrigan ocorresse. 




Depois da competição em 1991, as ofertas de patrocínio 'choveram' para Tonya, que conseguiu contratos publicitários com Texaco, U.S Postal Service e NutraSweet, que a pagavam uns R$7.000,00 por aparição em eventos. Seu antigo agente, Michael Rosenberg, que a largou assim que Tonya voltou com Jeff pela segunda vez, afirmou que Tonya foi perdendo patrocínio depois de se tornar controversa, ou seja, por situações que apareceram na mídia como bater em outro motorista durante uma briga de trânsito e por fumar, mesmo tendo asma. Tonya, fica óbvio, não sabia se comportar, mas por que nunca foi ensinada a ter bons modos. Com Nancy a história era diferente, ela tinha "classe." 

Nancy e Tonya nunca foram muito amigas, ou nem próximas disso. Apesar de se conhecerem e conversarem, nenhuma das duas tinha muito em comum. Elas eram rivais, dentro e fora das quadras. Para se ter uma ideia, em 1991, Tonya Harding ficou em 1º nas nacionais, enquanto Nancy ficou em 3º lugar. Nas Olimpíadas de 1992, Tonya terminou em 4º lugar enquanto Kerrigan ficou em 3º. 

Tonya afirma que apenas voltou com Jeff em 1993, porque juízes disseram que ela precisava parecer mais estável na competição e ter um marido era uma delas. Apesar de ela ter entrado com um pedido de restrição de ordem duas vezes, ao ter alguém ao seu lado, como Jeff, era sinal de que ela era confiável e estava deixando seu passado conturbado para trás. Então os dois voltaram e depois da ameaça de morte de Tonya, o ataque de Nancy estava sendo planejado.


Diane Rawlinson e Tonya, na vida real e no filme                            Divulgação/Montagem
Sobre o ataque de Nancy Kerrigan, no qual Tonya claramente se beneficiaria, porque Kerrigan estava um pouco à frente de Tonya e poderia pegar seu lugar nas Olimpíadas de 1994, Jeff Gillooly e Tonya não concordam em nada. Jeff diz que Tonya sabia do ataque contra Nancy, inclusive ajudando a planejá-lo. Tonya diz que nunca soube de nada, apenas antes das Olimpíadas, quando seu marido confessou e que somente não fez nada para entregá-lo as autoridades. Apenas disso era culpada. Mas será? 

Como o filme Eu, Tonya (I, Tonya, 2017) mostra, foi encontrado durante as investigações do ataque contra Nancy Kerrigan, um papel com a letra de Tonya com os locais de treinamento de Kerrigan. A letra era de Tonya, como a polícia atestou, mas ela mente no documentário The Price of Gold, dizendo que nunca foi comprovado ser sua letra. No papel, estava escrito o ringue de patinação na qual Kerrigan treinava, a Tony Kent Arena, além do endereço. Em matéria do New York Times, em 19 de janeiro de 1994, conta-se que foram descobertas quatro ligações da residência de Tonya e Jeff para a arena. 

A gerente da arena, que não quis se identificar, disse que receberam telefonemas de uma mulher perguntando sobre o treino de Kerrigan, coisa que Tonya afirma que foi feito como uma aposta com Jeff, como é mostrado no filme Eu, Tonya (I, Tonya, 2016), no qual ela ligou para sua amiga, Vera Marano, para desejar um feliz natal atrasado e disse que para conseguir acabar com uma aposta, ela precisava saber onde Nancy praticava. Tonya diz que não sabia que isso seria usado no ataque contra Nancy. 

Shawn Eckhardt, seu "guarda-costas" e amigo de Jeff, afirma que Tonya sabia de tudo,  dizendo que era uma "boa ideia", mas que não sabia se Shawn conseguiria fazer. Jeff ofereceu 10 mil dólares para Shawn e ele contratou Derrick Smith que se autodenominava: "um resolvedor de problema dos outros" e Shane Stant. Segundo o jornal Detroit Free Press em 1994, todos se reuniram na casa da mãe de Shawn em 28 dezembro de 1993 para amarrar os detalhes dos planos. Jeff diz que foi Harding que ligou para a arena, perguntando sobre os horários de Kerrigan, já Tonya afirma que Gillooly ligou e pediu que ela dissesse que foi ela.


Shaw à esquerda e Derrick e Shane à esquerda                                    Divulgação/Montagem
Shane Stant, no entanto, foi quem pegou o pé de cabra e apareceu no ringue de patinação de Nancy Kerrigan no dia 6 de janeiro de 1994 e a atacou. Derrick esperava no lado de fora, pronta para a fuga, mas não contava que Shane pirasse e que ao ver a porta trancada da arena, de bater contra o vidro para escapar. O mais ridículo do plano e é algo que o filme Eu, Tonya mostra é que todos os envolvidos no plano usaram seus próprios cartões para pagar por tudo, fazer as transferências bancárias e, pior ainda, usaram seus próprios nomes ao se hospedarem em hotéis. Nenhum deles tinha ideia alguma de como cometer um crime e isso ficou claro! 

Shawn e Jeff mantinham a história de que Tonya sabia de tudo, enquanto a patinadora do gelo negava e tentava manter seu lugar nas Olimpíadas de 1994. Apesar de ter atingindo Nancy, nem nisso Shane fez um trabalho certo: o golpe não feriu Nancy no osso e ela sofreu apenas um golpe artificial, conseguindo portanto, competir. As duas, inclusive, tiveram que praticar na mesma arena, mas com Tonya sofrendo ainda mais o escrutínio da mídia. No dia da competição, Tonya teve um problema com seus patins, tendo que trocar a lâmina no começo da apresentação. Apesar do choque, a patinadora terminou sua rotina e ficou em oitavo lugar. Nancy, no entanto, ficou em segundo lugar nas Olimpíadas, atrás da russa Oksana Baiul, que demonstrou uma técnica incrível. (Muitos afirmam que Nancy deveria ter ganhado o ouro, no entanto). 

Durante o julgamento pelo ataque de Nancy, Tonya continuou afirmando não saber de nada, mas se denominou culpada de saber sobre o ataque posteriormente e ter tentando acobertar pelo seu marido. Tonya sofreu a seguinte punição: pagar 160 mil dólares, três anos de liberdade condicional, 500 horas de serviço comunitário e ser banida de participar de qualquer competição de patinação do gelo por toda sua vida. Jeff foi sentenciado a pagar 100 mil dólares (que ele nunca pagou) e dois anos de prisão (saindo antes por bom comportamento), mas Shawn, Shane e Derrick passaram 18 meses na prisão. Jeff, aliás, foi preso, posteriormente, duas vezes por abuso doméstico e mudou seu nome para Jeff Stone. 

Tonya e Nancy até se encontraram na frente da televisão, em um programa chamado Breaking The Ice, no qual Harding pede desculpas para Nancy. O encontro não poderia ser mais embaraçoso. 

Depois de ser banida, Tonya passou por uma variedade de empregos como boxeadora - nessa época ela conheceu seu segundo marido Michael Smith, no qual também a batia, mas que ela logo se separou - como vendedora, como paisagista e até como locutora do programa de televisão The World's Dumbest. Atualmente, casada com Joseph Price e com um filho, Tonya viveu em um circo da mídia e diz apenas querer que a verdade de sua história seja dita. 


Tonya e Margot Robbie no lançamento de Eu, Tonya (2017)                     Divulgação/Instagram
Recentemente, ela confessou que ouviu Jeff e Shawn planejarem um ataque contra Nancy, mas que não levou à sério, frisando que nunca participou de plano algum. Eu, Tonya (I, Tonya, 2017) mostra as versões de todos envolvidos na história, puxando para uma tragicomédia que é real e absurda, assim como a maior parte da vida de Tonya Harding. 

Mas será que essa é a verdade do caso Tonya Harding? Ou cada um tem sua própria verdade? É assistir Eu, Tonya (2017) para tirar suas próprias conclusões.  





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